2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. O ACONTECIMENTO E SEU PODER HERMENÊUTICO
2.1.1. Afinal, o que está acontecendo?
Vimos anteriormente que, afetados pelo acontecimento, os sujeitos partem em busca da redução das descontinuidades instauradas pelo fenômeno. É preciso apreender o sentido daquilo que está ocorrendo; é necessário estruturar e organizar o elemento novo dentro de
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Disponível em <www2.planalto.gov.br/acompanhe-o-planalto/discursos/discursos-da-presidenta/pronunc iamento-da-presidenta-da-republica-dilma-rousseff-em-cadeia-nacional-de-radio-e-tv>. Acesso em 1º dez. de 2014.
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nossas práticas sociais. E isso se dá por meio de um processo denominado individuação do acontecimento (QUÉRÉ, 1995).
Individuar um fenômeno é encontrar aquilo que o difere dos demais: sua identidade, sua unidade, sua coerência. Individuar é tematizar, inscrever em um registro particular. É retirar de um conjunto e fornecer uma singularidade que destacará um determinado evento. É responder à pergunta: afinal, o que é isso que está ocorrendo?
Mas essa distinção, esse reconhecimento não é feito de forma automática. Exige um encadeamento de ações, que pode ser mais ou menos demorado, com etapas que vão resultar na ipseidade do fenômeno.
Quéré enumera alguns aspectos essenciais do trabalho de individuação de um acontecimento – chamado por ele de percurso interpretativo (1995, p. 100). Para o autor, tais operações ocorrem articuladas umas com as outras. O sociólogo também cita três elementos ordenadores de tal processo – a matriz de individuação (QUÉRÉ, 1995, p. 101). Aqui, será bastante útil a leitura que França (2013) realiza desse texto, ao sistematizar aspectos tanto do percurso interpretativo quanto da matriz de individuação nas seguintes etapas do processo de individuação: descrição; mise en intrigue (construção de uma narrativa); articulação com um pano de fundo pragmático; caracterização como um problema público; normalização. Falaremos um pouco sobre cada uma delas abaixo.
O processo de individuação começa no domínio da experiência dos sujeitos. É na dimensão mais empírica e sensível que começamos a categorizar o que ocorre à nossa volta. Tocados pelo acontecimento, o primeiro passo dos indivíduos é iniciar a tarefa de descrição, ou seja, de nomeação e categorização do novo fato. É apreender o ocorrido dentro de uma descrição simbólica.
Além de descrever, os sujeitos inserem o acontecimento em uma narrativa (mise en intrigue), em um encadeamento de fatos. É uma costura dos vários momentos do evento, a configuração de seu fio temporal. ―Na maioria das vezes, baseia-se no acontecimento finalpara ordenara históriade modo que o encadeamento de eventosapresentados conduza, de maneira provável, ao resultado final‖ (QUÉRÉ, 1995, p. 100, tradução nossa10). A narrativa é geralmente dada
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―Le plus souvent, elle s'appuie sur la connaissance de l‘issue finale de l'evenement pour ordonner le récit de telle sorte que l'enchainement des faits qui y est presenté conduise de façon vraisemblable à cette issue finale‖.
ao fim do evento, mas também pode ocorrer durante seu desenrolar, quando esquemas narrativos pré-definidos são acionados (FRANÇA, 2013).
O acontecimento também adquire uma identidade ao se articular a um pano de fundo pragmático. O fenômeno suscita ações e reações junto aos sujeitos. ―A construção simbólica de um acontecimento [...] convoca maneiras habituais de se comportar. E este pano de fundo pragmático é alimentado por um conhecimento advindo do senso comum, das estruturas normativas de uma cultura‖ (idem, p. 67). Portanto, o pano de fundo pragmático apresenta-se articulado a práticas instituídas.
Essa individuação do acontecimento também ocorre à medida que o evento configura um problema público. Alçado à cena pública, o evento revela uma situação problemática, convoca o interesse de uma coletividade e suscita uma ação pública, ou seja, o movimento de diferentes atores na busca por uma solução. Especificamente estes dois últimos passos do processo de individuação podem ser ilustrados pelos exemplos já citados acima. A revisão de estratégias da polícia militar, a corrente com sugestões para identificação dos ―vândalos‖ que circulou pelas mídias digitais e a declaração do ex-atleta Ronaldo mostram como de fato um problema público foi instaurado pelo surgimento da tática black bloc e como o acontecimento se ligou a um pano de fundo pragmático, suscitando ações que pudessem sanar a surpresa e o incômodo por ele trazidos.
Já a última fase da individuação, a normalização do acontecimento, refere-se ao momento em que sua indeterminação é reduzida, em que o evento se torna mais explicável. Passa de imprevisível para provável. Não menos arrebatador, mas fortemente possível. Quéré resume bem como as etapas anteriores tornam possível a chegada ao nível da normalização:
Ela [a normalização] é guiada e conformada pela descrição sob a qual o acontecimento foi identificado, quer dizer, essencialmente pelo conteúdo semântico dos termos utilizados na categorização dos acontecimentos (seja na frase que formula o acontecimento em algumas palavras, seja na nomeação promovida por esta frase). A ideia importante deste ponto de vista é que a descrição sob a qual o acontecimento foi identificado organiza a maneira como ele será analisado: ela circunscreve o domínio no qual se pode manifestar sua tipicidade, encontrar acontecimentos comparáveis, identificar as causas e efeitos, construir um passado e um futuro, definir a situação e,
last but not least, estruturar o campo prático associado ao acontecimento.
(QUÉRÉ, 1995, p. 104, tradução de Vera França)
É preciso ressaltar que a normalização não significa a pacificação do acontecimento, mas sim a chegada a um ponto tal de sua compreensão que permite aos sujeitos afetados lidarem com o
evento, apropriá-lo à experiência de suas vidas. A fase da normalização mostra para onde o fenômeno vai apontar, conforma a união de forças em busca da solução do problema público posto. E é justamente a partir da instauração do campo problemático que o acontecimento consegue abrir a interpretação para novas leituras.
Nesse ponto, fica mais claro entender porque Louis Quéré fala de uma dupla vida do acontecimento. O autor cunha essa expressão para explicar que os acontecimentos são encontrados em diferentes regimes da nossa experiência: o imediato e o investigativo.
O primeiro regime da nossa experiência é confrontado pelo que Quéré denomina acontecimentos existenciais, aqueles com os quais nos deparamos, somos afetados, e enfrentamos na dimensão sensível da nossa vida. Os acontecimentos são existenciais porque se chocam com nossa experiência direta, trazem suas qualidades imediatas e sua força brutal. Podemos pensar naquele momento da nossa vivência em que somos surpreendidos pelo acontecimento, apanhados por ele, sentimos sua contingência nos afetar e o vemos desestabilizar nossa vida.
Existem mudanças e emergências que enfrentamos em suas qualidades imediatas e sua força brutal – elas são abordadas pela experiência direta. Estamos submetidos às suas condicionantes, à sua insistência e resistência; vamos ‗avaliá-las‘ positiva ou negativamente. E vamos adaptar-nos a elas. Trata-se então de reações espontâneas, baseadas nos hábitos, na percepção direta e na emoção. Em regime de experiência imediata, elas não estão isoladas do entorno, nem observadas por si mesmas, ou seja, são constituídas como objetos a conhecer. (QUÉRÉ, 2012, p.24)
Essa é, portanto, a primeira vida do acontecimento – aquela referente ao seu impacto e às nossas reações mais imediatas. Em razão de seu impacto, passamos a realizar conexões e relações entre os acontecimentos a fim de fornecer uma resposta plausível a ele. Nesse momento, iniciamos a sua simbolização, enfrentando o acontecimento existencial, a fim de individuá-lo e de conhecer sua significação, transformando-o em acontecimento-objeto – objeto do nosso conhecimento. É nessa ―segunda vida‖ que é atribuída uma temporalidade própria ao acontecimento: o passado e o futuro advêm do nosso ato de pensar sobre ele, bem como o começo, o meio e o fim do fenômeno de caráter acontecimental.
Podemos, no entanto, desenvolver o componente de simbolização e transformá-las [as mudanças] em objetos de pensamento e julgamento. [...] Os acontecimentos deixam de ser, assim, simples mudanças existenciais. [...] Ele se torna não só um objeto e uma fonte de inferências e de raciocínios, mas também um meio de ação controlada. Com efeito, servimo-nos desse tipo de objeto cognitivo-discursivo para intervir no curso dos
acontecimentos, a fim de canalizá-los ou atenuar sua brutalidade. Os acontecimentos tornam-se, assim, agentes da história que faz. (QUÉRÉ, 2012, p. 30-31)
E é justamente nessa segunda vida que o jornalismo assume um papel importante, pois é por meio dele que o acontecimento se torna apreensível na maioria das vezes. O relato da imprensa nos ajuda a minimizar os impactos dos acontecimentos, nos ajuda a entender o que fazer e para onde ele nos levará – especialmente aqueles eventos que não presenciamos na dimensão mais imediata dos nossos sentidos.
Apesar dessa diferenciação, Quéré explica que as duas vidas não estão separadas – e é justamente nesse ponto que ele se afasta de uma abordagem construtivista. De acordo com a perspectiva construtivista, os acontecimentos midiatizados seriam resultado do processo regulado de encenação, de formatação da informação. Em outras palavras, o acontecimento não existiria em si, mas seria produto final de uma construção midiática. Neste sentido, considera-se a existência do acontecimento somente dentro do campo dos media, resumindo seu todo ao seu relato – o que para Quéré não é suficiente para compreender a complexidade do que se passou, pois este processo esvaziaria a totalidade do fenômeno.
Entretanto, esta ideia de uma construção ou de uma modelagem mediática dos acontecimentos é [...] uma ideia falsamente simples e muito pouco conceitualizada. Ela está sempre tentando, por um lado, tirar parte da polissemia dos termos ‗construção‘ e ‗acontecimento‘, ou de entender metaforicamente sua significação; por outro, reduzir os processos de construção simbólica dos acontecimentos aos seus dispositivos e práticas mediáticas que, claramente, construiriam ou produziriam ‗news‘. (QUÉRÉ, 1997, p.416, tradução nossa11)
Seguindo essa premissa, o autor argumenta que a primeira vida do acontecimento ainda pode ser detectada na segunda, alimentando a narrativa sobre ele. É na segunda vida que o eco da primeira vida do acontecimento continua a atuar fortemente.
Como podemos perceber, Louis Quéré insiste em tratar o acontecimento inscrito na experiência dos sujeitos. Para além da construção discursiva, o autor explica que os eventos se desdobram por meio da apropriação dos indivíduos. A perspectiva do sociólogo trata os fenômenos de natureza acontecimental pela via pragmatista. Isso significa dizer que, além da
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―Cependant cette idée d‘une construction ou d‘um façonnement médiatique des événements est […] une idée faussement simple et trop peu conceptualisée. Il est toujours tentant, d‘une part, de tirer parti de la polysémie des termes ‗construction‘ et ‗événement‘, ou d‘étendre métaphoriquement leur signification, d‘autre part, de réduire le processus de constitution symbolique des événements aux seuls dispositifs et pratiques métiatiques, qui, à l‘évidence, construisent ou produisent les ‗news‘‖.
inscrição na experiência, o acontecimento abre perspectivas de ação e ganha significado a partir das consequências que pode ter para os diversos sujeitos por ele afetados.
É notável como o acontecimento ―surgimento da tática black bloc na cena pública brasileira‖ abriu novas perspectivas. A partir da chegada dos mascarados às ruas, opiniões foram divididas e uma disputa de sentido foi instaurada. Novas possibilidades de discussão foram abertas – especificamente sobre o que podemos considerar como violência, quais tipos de violência podem ser justificados e ainda se é possível legitimá-los.