4.3 Polarizabilidades dos Oligoacenos
4.3.1 Afinidade Eletrˆonica e Potencial de Ioniza¸c˜ao
Na se¸c˜ao anterior, justificamos que o m´etodo de H¨uckel estendido reproduz correta-mente a redistribui¸c˜ao de carga das mol´eculas de oligoacenos no sentido que reproduz a polarizabilidade obtida via DF T (as cargas mesmo n˜ao foram comparadas). Para que possamos aplic´a-lo no c´alculo da energia de polariza¸c˜ao conforme discutido no cap´ıtulo 1, devemos ajustar o m´etodo de H¨uckel estendido de forma que ele reproduza de maneira cor-reta n˜ao s´o a redistribui¸c˜ao de carga, mas tamb´em a afinidade eletrˆonica,A=E(0)−E(−), e o potencial de ioniza¸c˜ao,I =E(+)−E(0), das mol´eculas de oligoacenos. N´os calcula-remos as afinidades e os potenciais de ioniza¸c˜aoadiab´aticos. Na figura (4.3) temos uma representa¸c˜ao da superf´ıcie de energia potencialE em fun¸c˜ao da conforma¸c˜aoq(geometria molecular) de uma mol´ecula referente a dois estados: N eN+ 1 el´etrons. A afinidade ele-trˆonica vertical ´e definida como sendo a diferen¸ca de energia devido a transi¸c˜ao eleele-trˆonica entre os pontos 1 e 2, note que ambos os estados de N e N + 1 el´etrons correspondem a uma mesma conforma¸c˜ao q1 (geometria da mol´ecula neutra). Quando o sistema que encontra-se no ponto 2, com uma conforma¸c˜ao q1 no estado de N + 1 el´etrons relaxa, ele atinge o ponto de m´ınimo de energia em 3 com uma conforma¸c˜aoq2, a diferen¸ca de energia entre os pontos 1′ e 3 ´e definida como afinidade eletrˆonica adiab´atica. Logo,Avert > Aadia. Com argumentos semelhantes ´e poss´ıvel fazer uma analogia para o potencial de ioniza¸c˜ao adiab´atico e vertical.
Para calcular essas quantidades usando o m´etodo de H¨uckel estendido, n´os ajustamos o valor da constante K que melhor reproduziu os valores calculados via ab initio , ver tabela-4.5.
Notamos da tabela 4.5 que o m´etodo de H¨uckel estendido produz valores pr´oximos dos obtidos com o c´alculo DFT na maioria dos casos, dessa forma, podemos afirmar que o m´etodo de H¨uckel estendido pode ser utilizado para calcular as energias moleculares de forma precisa.
Nesse cap´ıtulo, vimos at´e agora que o m´etodo de H¨uckel estendido pode ser empregado para descrever corretamente os detalhes moleculares de sistemas consistindo de mol´eculas
4.3. Polarizabilidades dos Oligoacenos 51
Figura 4.3: Representa¸c˜ao da superf´ıcie de energia potencial em fun¸c˜ao da conforma¸c˜ao molecular referente aos estados de N e N + 1 el´etrons. A afinidade eletrˆonica vertical ´e definida pela diferen¸ca de energias entre os pontos 1 e 2, a afinidade eletrˆonica adiab´atica
´e definida como sendo a diferen¸ca de energia entre os pontos 1′ e 3.
Mol´ecula AE/IP Kn Kion H¨uckel DFT Benzeno AE 1,90 1,83 −1,60 −1,59
Tabela 4.5: Compara¸c˜ao das afinidades eletrˆonicasAE e potenciais de ioniza¸c˜ao IP dos oligoacenos calculados usando os m´etodos de H¨uckel estendido e DFT. As constantesKn
(neutra), Ka (ˆanion) e Kc (c´ation) representadas por Kion, correspondem as constantes de Wolfsberg-Helmholtz modificada que melhores ajustaram os resultados obtidos via DFT. Os resultados experimentais para a afinididade eletrˆonica do benzeno neutro foram extra´ıdos das referˆencias [57, 58].
de oligoacenos. Podemos ent˜ao, aplicar o m´etodo de H¨uckel estendido para calcular a energia de polariza¸c˜ao de qualquer um dos cinco tipos de oligoacenos apresentados nesse
4.3. Polarizabilidades dos Oligoacenos 52 cap´ıtulo. No entanto, o objetivo central dessa tese consiste em empregar o m´etodo de H¨uckel estendido para descrever o efeito de polariza¸c˜ao. Uma vez que o m´etodo seja estabelecido, poderemos futuramente investigar o efeito da polariza¸c˜ao para qualquer uma das cinco mol´eculas de oligoacenos.
Geralmente, quando se est´a interessado em investigar um sistema molecular π (con-siderando a intera¸c˜ao entre el´etrons π e σ), assim como os oligoacenos discutidos nesse cap´ıtulo, usa-se a mol´ecula de benzeno como um prot´otipo [61]. Baseado nisso, investiga-remos o efeito de polariza¸c˜ao de sistemas formados por mol´eculas de benzeno. Considera-remos o caso do d´ımero de benzeno, pois o objetivo dessa tese consiste em estabelecer um m´etodo de c´alculo para a energia molecular considerando a carga confinada na mol´ecula, deixamos a investiga¸c˜ao das outras mol´eculas de oligoacenos como trabalhos futuros.
Uma motiva¸c˜ao de estudar a mol´ecula de benzeno em especial, consiste no fato de que ela (assim como a mol´ecula de naftaleno) apresenta um valor negativo para a afinidade eletrˆonica4. Em outras palavras, o ˆanion de benzeno ´e inst´avel. Alguns trabalhos inves-tigaram o ˆanion de benzeno e constataram que o el´etron adicional n˜ao se difunde pela mol´ecula sendo ejetado num tempo de aproximadamente 1 ps [62]. Dentre os oligoacenos, podemos analisar a estabilidade das mol´eculas neutras analisando o potencial molecular eletrost´atico gerado por elas.
Tanto na mol´ecula de benzeno como na mol´ecula de naftaleno, ambas neutras, os el´etrons se distribuem pela mol´ecula de forma a ocuparem praticamente toda a extens˜ao molecular dispon´ıvel, ou seja, a extens˜ao da nuvem eletrˆonica ´e da ordem da extens˜ao molecular. Sendo assim, a mol´ecula n˜ao comporta a nuvem eletrˆonica referente a um el´etron adicional. Por esse motivo as mol´eculas de benzeno e naftaleno s˜ao inst´aveis. Por outro lado, `a medida que a mol´ecula torna-se maior (antraceno ao pentaceno), surgem regi˜oes cada vez maiores que permitem com que o el´etron se difunda pela mol´ecula. Na figura (4.4), mostramos o potencial eletrost´atico gerado pelas cargas l´ıquidas das mol´eculas de antraceno, tetraceno e pentaceno, a regi˜ao vermelha indica um potencial mais negativo e a regi˜ao azul um potencial mais positivo. `A esquerda temos a mol´ecula neutra e a direita o ˆanion. Note que, `a medida que a extens˜ao molecular da mol´ecula neutra aumenta, surgem regi˜oes mais positivas favorecendo a difus˜ao de um el´etron adicional, isso ´e verificado nas figuras da direita, onde vemos que o potencial torna-se mais negativo devido a difus˜ao do el´etron que tende a se localizar nas extremidades das mol´eculas. Isso explica o porquˆe das afinidades eletrˆonicas da tabela-4.5 se tornarem cada vez maiores em fun¸c˜ao do aumento da extens˜ao molecular.
4Em teoria de espalhamento a afinidade eletrˆonica negativa corresponde a uma ressonˆancia de forma.
4.3. Polarizabilidades dos Oligoacenos 53
Figura 4.4: Potencial molecular eletrost´atico gerado pelas cargas l´ıquidas de cada uma das mol´eculas de oligoacenos neutras (esquerda) e ˆanion (direita). A regi˜ao Vermelha representa o potencial mais negativo, enquanto a regi˜ao azul representa o potencial mais positivo. Quando adiciona-se um el´etron `a mol´ecula neutra (esquerda), o el´etron se difundi pela mol´ecula, sendo que o ˆanion torna-se est´avel. Para gerar distribui¸c˜ao de carga l´ıquida ilustrando o potencial molecular eletrost´atico, n´os usamos o m´etodo DFT(B3LYP) para as mesmas bases com que as mol´eculas foram otimizadas usando o programa GAMESS.
Para gerar a figura a partir do arquivo de sa´ıda do GAMESS, utilizamos o software de Qu´ımica Quˆantica JMOL.
Para tratar o problema da energia de polariza¸c˜ao para a mol´ecula de benzeno, de-vemos ajustar as constantes de Wolfsberg-Helmholtz modificada para que produzam si-multaneamente os valores mais precisos para as polarizabilidades m´edias (neutra, ˆanion e c´ation), afinidade eletrˆonica e potencial de ioniza¸c˜ao para a mol´ecula de benzeno. Usamos como valores alvos as medidas experimentais para representar a polarizabilidade m´edia da mol´ecula neutra [59], a afinidade eletrˆonica [18] e o potencial de ioniza¸c˜ao [63]. Em contrapartida, para as polarizabilidades m´edias do ˆanion e do c´ation, usamos os resul-tados obtidos via DFT(B3LYP)/TZV. Para realizar o ajuste simultˆaneo, escolhemos um intervalo para as constantes de Wolfsberg-Helmholtz modificada que representam as mo-l´eculas: neutra, ˆanion e c´ation como sendo respectivamente Kn = [1,5], Ka = [1,5] e Kc = [1,5] considerando um passo de 0,01. Para cada valor fixo das constantes, usa-se o valor da constanteKnpara se obter a energiaE(0) e a polarizabilidade da mol´ecula neutra α0, o valor de Ka para encontrar a energia E(−) e a polarizabilidade do ˆanion αa e Kc
para se obterE(+) e a polarizabilidade do c´ation αc. Na tabela 4.6, mostramos o ajuste que realizamos para determinar as constantes que melhor produziram simultaneamente