Em relação a Afonso Pedro e sua coluna
Cousas da Cidade
, a neta de Canuto Maria Aparecida, chegou a informar, não com muita convicção, pois conviveu com seu avô somente até seus nove anos de idade, que poderia essa pessoa não ter existido e ter sido um pseudônimo criado por ele.184O sr. Américo Michelini assinalou não recordar-se de Afonso Pedro. Conheceu Canuto, quando este ainda era um homem de meia idade, detinha grande atividade política, amigos e muitos adversários.185
Se Afonso Pedro foi um pseudônimo criado para esconder alguém, é natural que poucos conhecessem sobre a identidade dessa figura. Posteriormente Bocorny veio publicar que Afonso Pedro era pseudônimo sim, de um médico da época o Dr. Alfredo D´Amore.186
Na crônica de 24 de novembro de 1938, podemos conferir a proximidade existente entre Canuto e Alfredo, quando o primeiro indicou o segundo para a diretoria do hospital.
“Iniciada a construção do hospital, urge que sua diretoria desenvolva uma rigorosa campanha para aquisição de numerário, a fim de fazer frente às despesas da mesma. E tal só poderá acontecer se a sua frente tiver um homem da estatura moral e intelectual, do prestígio social e do desprendimento do Dr. Alfredo D`Amore, cujo dinamismo e capacidade de trabalho, aliados a sua larga visão de médico, saberão vencer todas as dificuldades. Apresentado sua candidatura à presidência do Hospital de Caridade, o que fazemos sem o consultar, mas convictos de que sr. não recusará esse inestimável serviço à população de Carazinho, que o admira e estima, concintamos todos os bons brasileiros a ampará-la, porque ela é digna de nosso voto.”187
Por sua dedicação às classes menos favorecidas, foi cognominado “Pai dos Pobres”, fundando em Carazinho a primeira casa de saúde.188 Outra vez se têm Canuto argumentando sobre D’amore em 17 de março de 1944, onde exaltou o espírito de benevolência desse médico.
184PAIVA, Maria Aparecida Souza de. Id.ibid. 185MICHELINI, Américo. Id.ibid.
186BOCORNY, Op. Cit. p.164
187Jornal da Serra, Carazinho, ano VIII, 24 Nov., 1938. p.1 188BOCORNY, Op. Cit., p.164
“Praticando a medicina, não como forma para alferir os meios indispensáveis para prover sua subsistência e acumular recurso, mas antes como a arte de fazer o Bem, como a ciência que ensina a minorar o sofrimento de seus semelhantes, a combater as dores alheias, Alfredo D’Amore com o seu indefectível sorriso bonacheirão, atende a todos indistintamente, ricos e pobres, pequenos e grandes, brancos e pretos, sem indagar de seus recursos, sem preocupação de lucros, vendo tão somente em seus clientes entes que sofrem, que tem uma dor a ser aliviada, um mal a combater, um quisto a extirpar. Contando com uma das maiores e mais concorridas clínicas da cidade.”189
O reconhecimento dessa figura por parte do jornal também fazia parte de toda a trama de poder. Quer dizer, se Hillebrand tinha a seu lado o padre que com certeza gozava de muito prestígio perante seus fiéis. Canuto tinha então, D´Amore médico renomado e benevolente, o “Pai dos Pobres”.
Nessa mesma crônica de 17 de março de 1944, é possível perceber que Canuto queria contagiar à todos com sentimentos de apreço em relação a D’ Amore, pois a lógica essencial era, maior credibilidade pública, maior força, conseqüentemente, maior poder.
“...apesar desses dez longos anos de serviço a toda uma coletividade, Alfredo D`Amore permanece pobre, pois fez da medicina um sacerdócio e não um meio de ganhar a vida. Impressionado com essa despreocupação pelos bens materiais, seus amigos e admiradores cogitam organizar diversas comissões, para angariar recursos monetários com os quais será adquirida uma casa a ser oferecida ao ilustre bem feitor dos que sofrem, resgatando-se, dessa maneira uma dívida de gratidão que a população de Carazinho contraiu para com o incansável profissional da medicina. Ao que estamos informados, essa feliz e oportuna iniciativa dos dedicados amigos do Dr. Alfredo D’ Amore vem sendo acolhida em todas as camadas sociais com a mais viva simpatia. Escusado será dizer que o Jornal da Serra aplaudindo calorosamente a iniciativa, põe desde já suas colunas a disposição da comissão organizadora, para cooperar nessa cruzada de gratidão.”190
189Jornal da Serra, Carazinho, ano XIV, n. 1234, 17 de mar.,1944. p. 1 190Jornal da Serra, Carazinho, ano XIV, n. 1234, 17 de mar.,1944. p. 1
D`Amore nasceu em 20 de setembro de 1901 em São Paulo, formou-se em medicina na cidade de Porto Alegre, e exerceu essa nobre profissão na cidade de Carazinho por quase 20 anos.191
Paralelamente às suas atividades como médico, foi um político atuante às fileiras do antigo Partido Libertador, e escreveu por muitos anos no
Jornal da Serra
, sob o pseudônimo de Afonso Pedro. Faleceu em Carazinho, num acidente automobilístico, em 16 de junho de 1951, enlutando toda a população e em sua memória, além do Grupo Escolar da Vila Floresta criado em 26 de outubro de 1962, que em 23 de junho de 1964 pelo decreto nº 16.664 passou a denominar-se Grupo Escolar Dr. Alfredo D´Amore, foi erguida uma herma na Praça que leva o seu nome e está localizada em frente ao Hospital de Caridade de Carazinho, onde tanto atuou e tantas vidas salvou.192Na Loja Maçônica Honra e Trabalho de Carazinho, consultando os cadernos de Atas de 28 de dezembro de 1932 à 07 de junho de 1934, 11 de junho de 1934 à 30 de junho de 1939 e 19 de julho de 1939 à 12 de novembro de 1946 observamos pelas assinaturas constadas, que Alfredo D’ Amore não pertenceu a maçonaria.
Também é patrono de um Centro de Tradições, o CTG Alfredo D`Amore, fundado em maio de 1979. Então, Alfredo D`Amore é triplamente homenageado no município, é nome de praça, escola e CTG. Ele também foi médico do Veterano Futebol Clube de Carazinho. Quando faleceu, vitimado por acidente de trânsito, a cidade parou e o comércio fechou as portas em sinal de luto.193
Depois de se termos uma maior compreensão dos sujeitos Canuto e Afonso Pedro, figuras políticas que norteiam o campo central deste estudo, e considerando que esses cronistas tinham como objetivo desqualificar Hillebrand e seu grupo católico, continuaremos a explorar a argüição de seus discursos, agora montando um paralelo, tentando identificar e detectar nestes; Que argumentos usaram para criticar o segmento antagônico? Que espécie de elogios construíram? Que visão de futuro previam para o local de seus impressos?
191BOCORNY, Op. Cit., p.164 192BOCORNY, Op. Cit., p.164 193BOCORNY, Op.Cit., p.291