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1 CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

5.2 Agenciamentos de poder, agenciamentos de desejo

As sociedades e as formações sociais são teorizadas na medida em que podem oferecer quadros de inteligibilidade para determinados problemas no campo social. Para compreender como os agenciamentos de poder se confundem com o limite próprio de uma análise de conjuntura tradicional é necessário realizar uma retrospectiva conceitual através do marxismo, seguindo a visão de Althusser, passando por Foucault e chegando às concepções de Deleuze.

Segundo a perspectiva da análise de conjuntura tradicional, demonstrada ao longo dos ensaios, apresenta-se a concepção de sociedade a partir da orientação marxista. Segundo Althusser, Marx compreende que as formações sociais se constituem em uma “totalidade orgânica” composta por um nível econômico, um nível político e um nível ideológico ou das formas de consciência social (ALTHUSSER, 1967).

Os homens participam da produção econômica, cujos mecanismos e efeitos são determinados pela estrutura das relações de produção; os homens participam da atividade política, cujos mecanismos e efeitos são regulados pela estrutura das relações de classe (a luta de classes, o direito e o Estado). Os mesmos homens participam de outras atividades religiosa, moral, filosófica [...] estas últimas atividades constituem a atividade ideológica e são sustentadas por uma adesão voluntária ou involuntária, consciente ou inconsciente, a um conjunto de representações e crenças religiosas, morais, jurídicas, políticas, estéticas, filosóficas, etc. que formam o que se chama o nível da ideologia (ALTHUSSER, 1967, p. 34).

O nível ideológico se caracterizaria por apresentar uma realidade objetiva, “independente da subjetividade dos indivíduos que estão a ela submetidos, embora se refira a

estes indivíduos” (ALTHUSSER, 1967, p. 33), ou seja, a ideologia não é algo intrínseco aos indivíduos, mas algo imposto externamente por condições históricas e causais. O nível ideológico funcionaria como mecanismo organizador dos níveis econômico e político.

O problema decorrente dessas premissas é que a ideologia não traz consigo “conhecimentos verdadeiros” e, sim, apenas as representações oriundas de um sistema orientado e falseado. Por esta razão, em uma sociedade de classes, a ideologia serve não apenas para que os indivíduos compreendam suas próprias condições de existência, executando as tarefas que lhe são designadas, como também “para suportarem seu estado, seja a miséria da exploração de que são as vítimas, seja o prestígio exorbitante do poder e da riqueza de que são os beneficiários” (ALTHUSSER, 1967, p. 35).

Segundo Althusser, a solução, apresentada pelo marxismo para libertação dessa sujeição à ideologia da classe dominante, seria a extinção ulterior do Estado, realizada por meio de uma luta política, que para escapar das relações de mercado, conduziria ao comunismo (ALTHUSSER, 1978). Como o Estado é o objetivo último da luta de classes, na perspectiva marxista as coisas se passam como se a política fosse reduzida à “esfera” compreendida por esse objetivo.73

Segundo Foucault (2016), o conceito de poder tal como ele é comumente apresentado entre liberais e marxistas teria um ponto em comum que, sob diferentes ângulos, poderia ser reduzido a certo “economicismo” do poder. Para a concepção jurídico-liberal, o poder é considerado como “um direito” de que se seria possuidor, um quase-bem que poderia ser transferido, alienado, cedido, “o poder é o poder concreto que cada indivíduo detém e que cederia, total ou parcialmente, para constituir um poder político, uma soberania política’ (FOUCAULT, 2016, p. 273). Os liberais encaram o poder como algo cedível por contrato. a concepção marxista apresenta o poder em subordinação à sua funcionalidade econômica: “o poder teria essencialmente como papel manter relações de produção e reproduzir uma dominação de classe que o desenvolvimento e uma modalidade própria da apropriação das forças produtivas tornaram possível.” (FOUCAULT, 2016, p. 273). Os marxistas afirmariam uma sobredeterminação do econômico em relação ao poder. Isso significa que o poder seria um

73. Essa é inclusive uma das críticas que Althusser irá elaborar à teoria de Marx, afirmando que a política não é reduzida “às formas oficialmente consagradas como políticas pela ideologia burguesa: o Estado, a representação popular, os partidos políticos, a luta política pelo poder do Estado existente” (ALTHUSSER, 1978, p. 68). Neste ponto entende que “não existe uma ‘esfera do político’, portanto que, se a distinção entre sociedade política (Estado) e sociedade civil define bem a forma imposta pela ideologia e pela prática burguesa da polícia, o movimento operário deve acabar com essa ilusão e com esse ocultamento, e elaborar uma outra ideia da política e do Estado” (ALTHUSSER, 1978, p. 68).

efeito acessório às relações de produção, às relações econômicas, políticas, sociais etc., não dispondo de qualquer autonomia.

Segundo Foucault, a chave de interpretação marxista coloca o poder sempre em uma posição secundária em relação à economia, finalizado e funcionalizado por ela. Isto é, quando se afirma nos moldes marxistas que uma classe detém o poder, infere-se que ela detém, de alguma maneira, os modos de produção capitalista; no entanto, “o poder é mais complicado, muito mais denso e difuso que um conjunto de leis ou um aparelho do Estado” (FOUCAULT, 2016, p. 335).

O poder para Foucault não pode ser entendido como um “fenômeno de dominação maciço e homogêneo de um indivíduo sobre os outros, de um grupo sobre outros, de uma classe sobre as outras” (FOUCAULT, 2016, p. 284), pois o poder não é algo que se dá, se troca, se retoma, e deve ser entendido como algo que se exerce, que existe em ação.

O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede [...] Nas suas malhas, os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer esse poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles.” (FOUCAULT, 2016, p. 284).

A mudança na concepção do que se entende como poder a partir de Foucault consiste na compreensão de que o poder não serve principalmente à manutenção ou reprodução das relações econômicas; o poder é autônomo em relação à economia. Segundo Foucault, “O poder é o que reprime a natureza, os indivíduos, nos instintos, uma classe” (FOUCAULT, 2016, p. 274) e o “indivíduo não é o outro do poder: é um de seus primeiros efeitos” (FOUCAULT, 2016, p. 285), ou seja, o poder é constitutivo e adestra o indivíduo. O indivíduo é um efeito de uma sujeição mais complexa do que ele.

O objetivo central que move o Foucault que pesquisa a genealogia do poder é “mostrar como são as relações de sujeição efetivas que fabricam sujeitos” (FOUCAULT, 1999, p. 51), ou seja, em um primeiro momento demonstrar as relações de força pelas quais o poder se exerce em determinado contexto sobre os indivíduos, e, indagar-se, na sequência, “como” o sujeito poderia se desvincular dessa sujeição, ou revertê-la estrategicamente.

Segundo Foucault, a sujeição-subjetivação é o saldo de uma série de processos que se passam entre os aparelhos, as instituições e os próprios corpos, com sua materialidade e forças (FOUCAULT, 2014). O indivíduo é, então, “uma realidade fabricada” por tecnologias de poder,

disciplinas, no sentido de que o indivíduo é um reflexo das relações de poder que o constituem (FOUCAULT, 2014, p. 240-241).

Segundo Foucault, não seria possível neutralizar uma relação de poder por meio da resistência, porque a resistência não é exterior ao poder. A solução seria, então, alterar taticamente as relações de forças e os elementos morais e racionais que circunscrevem determinado contexto, pois o poder é como uma energia que, exercendo-se em rede, coloca em relação enunciados, discursos, saberes, corpos, dispositivos, etc., que naturalmente ou espontaneamente não se encontrariam em relação (FOUCAULT, 2008).

O acontecimento, para Foucault (2016), é entendido como a inversão de uma relação de forças que reintroduz o descontínuo. A contribuição do pós-estruturalismo se encontra em perceber que as relações de forças que compõem a realidade não obedecem necessariamente a uma destinação ou a uma mecânica, isto é, não giram necessariamente em torno da questão econômica ou do prisma da luta de classes: um acontecimento obedeceria ao acaso de cada luta (FOUCAULT, 2016).

Há toda uma tradição da história (teleológica ou racionalista) que tende a dissolver o acontecimento singular em uma continuidade ideal – movimento teleológico ou encadeamento natural. A história “efetiva” faz ressurgir o acontecimento no que ele poder ter de único e agudo. É preciso entender por acontecimento não uma decisão, um tratado, um reino, ou uma batalha, mas uma relação de forças que se inverte, um poder confiscado, um vocabulário retomado e voltado contra seus utilizadores, uma dominação que se enfraquece, se distende, se envenena e outra que faz sua entrada, mascarada. As forças que se encontram em jogo na história não obedecem nem a uma destinação, nem a uma mecânica, mas ao acaso da luta. Elas não se manifestam como formas sucessivas de uma intenção primordial; como também não têm o aspecto de um resultado” (FOUCAULT, 2016, p.73).

A noção de “acontecimento” como uma ‘relação que se inverte’ pressupõe a perspectiva do poder exercido em rede, sobre os indivíduos, de modo que seu problema é “se somos sujeitados pelo poder, como podemos resistir a ele?”. A solução apresentada por Foucault consiste em uma resistência ao poder por meio da política (DELEUZE, 2003).

A partir desses conceitos, é possível dizer que Foucault percebe o social e o político a partir de relações de força, relações de poder e contrapoder. Como o poder é uma prática social, se exerce em diferentes níveis e em pontos diferentes do social, pois a diferença entre os níveis é de natureza (DELEUZE, 1994). Foucault estabelece, teoricamente, dois níveis analíticos de sua aplicação: o da microfísica do poder, analisando o poder em suas formas locais, no controle sobre o corpo, envolvendo gestos, atitudes, discursos; e o nível da macropolítica, referente aos

poderes integrados ao Estado enquanto instrumento específico de “um sistema de poderes que não se encontra unicamente nele localizado, mas o ultrapassa e complementa” (FOUCAULT, 2016, p. 15).

A percepção do social de Deleuze é diversa, no sentido de que preceitua que o social só pode ser compreendido pelo desejo, isto é, considerando o nível transcendental que envolve as virtualidades, que constituem agenciamentos; bem como pela existência de linhas de fuga, pontas de desterritorialização que caracterizam sua noção de “acontecimento” e a natureza última do próprio social (CORREA, 2018).

Um agenciamento é como uma linha de força invisível mesclada com as outras linhas, que não cessa de produzir o real (plano de imanência) (DELEUZE, 1996). O agenciamento é o cofuncionamento, é a simbiose, é a “simpatia”, no sentido de que a “simpatia não é um sentimento vago de estima ou de participação espiritual, ao contrário, é o esforço ou a penetração dos corpos, ódio ou amor, pois também o ódio é uma mistura, ele é um corpo, ele só é bom quando se mistura com o que odeia.” (DELEUZE, 1998, p. 43).

Os agenciamentos de poder são os centros de poder que o ressoam para dispersões virtuais. Um agenciamento de poder possui potência para traduzir, sobrecodificar, reterritorializar e deter fluxos, formando um campo de possíveis (virtualidades) em segmentos molares (atuais), geralmente pela forma de binarismos ou contradições (DELEUZE, 1996a). Um agenciamento de poder visa a sobrecodificar, ordenar, organizar, segmentar, binarizar, os fluxos e segmentos que perpassam pelo indivíduo e pela sociedade.

Logo, quando se pensa a versão social a partir do viés do poder, como elemento determinante dos indivíduos e da sociedade, tenha ele ou não como objetivo central um determinado modo de produção, o maior impasse é de que essa análise não permite ver além desses agenciamentos de poder. Em outras palavras, por não se considerarem as condições transcendentais que envolvem os elementos atuais de determinado contexto, sua “natureza” é pressuposta e remetida à elementos estruturais. A maior limitação da análise de conjuntura tradicional é que ela não permite enxergar o que está codificado pelos os agenciamentos de poder, ou seja, quais são as virtualidades que influenciam no processo constitutivo de poder e de toda a formação social estruturada.

A análise de conjuntura pós-estrutural parte da noção foucaultiana de poder como estratégia de agenciamento (FOUCAULT, 1977), no sentido de que reconhece a existência de agenciamentos de poder exercidos em determinada realidade. Porém, não os toma como centros determinante da realidade social, sendo essa posição ocupada pelo desejo nos moldes deleuzianos, e, com isso, chegamos aos agenciamentos coletivos de desejo.

O desejo em Deleuze não é interpretado pela falta, mas por sua característica positiva, afirmativa, real e produtiva. O desejo produz agenciamentos na medida em que não se deseja algo ou alguém, e sim um conjunto; o desejo é um processo de síntese maquínica, absolutamente imanente, de elementos heterogêneos. Não mais um desejo voltado a um objeto determinado, que se baseia na ideia de falta, e sim um desejo enquanto processo que agencia e produz sínteses entre elementos singulares. Questiona-se qual é a natureza das relações entre determinados elementos que produz o desejo (DELEUZE In: Abecedário de Deleuze, 1988- 1989). Quando se trata de agenciamentos coletivos de desejo, busca-se identificar quais são os mecanismos maquínicos por trás do desejo, respondendo “qual é a natureza das relações entre elementos para que haja desejo, para que eles se tornem desejáveis? [...] Nunca desejo algo sozinho, desejo bem mais, também não desejo um conjunto, desejo em um conjunto.” (DELEUZE In: Abecedário de Deleuze, 1988-1989).

O desejo implica a constituição de um plano de imanência, composto por elementos virtuais e atuais, que é coletivo e político, porque nele se expressam os agenciamentos, as pontas de desterritorialização ou linhas de fuga (DELEUZE, 1994). Assim, o coletivo é a expressão social do plano de imanência (do real), podendo ser traduzido como a temporalidade em que as relações estruturais virtuais se atualizam (DELEUZE, 1996).

O plano de imanência, segundo Deleuze, seria como um “corpo sem órgãos” (DELEUZE, 1994, p. 07), na medida em que se opõe a todas as formas de organização, sejam elas de corpo, que se encontra “em relações de conexão, de disjunção e de conjunção com outros objetos parciais no seio da multiplicidade correspondente” (DELEUZE, 2010, p. 86); sejam elas do coletivo, enquanto um conjunto composto de singularidades agenciadas por virtualidades e atualizadas como expressão desses agenciamentos (DELEUZE, 1994).

A proposta de estudo sobre os agenciamentos coletivos de desejo consiste na análise dos agenciamentos que se expressam no coletivo, enquanto âmbito composto por máquinas desejantes, que constituem indivíduos enquanto conjunto de singularidades agenciadas e atualizadas. Investigando-se, com isso, quais são as causas transcendentais que estão expressas nos agenciamentos coletivos de desejo.