3 CAPÍTULO III – DESAFIOS DA PREVIDÊNCIA SOCIAL NO
3.1 Agenda social do Mercosul
Ao tratarmos dos desafios da proteção previdenciária no Mercosul, há que se abordar a institucionalização e avanço da agenda social desse bloco. Nesse trabalho, a agenda social pode ser entendida como um conjunto de orientações ou pauta aos
Estados membros a fim de que se promova o desenvolvimento social nos países do Mercosul através do acesso a direitos. Trata-se, assim como as normas de direitos humanos, de um construído histórico, que ganha força a partir dos avanços sociais obtidos no final da década de 1990 e, cuja maior atenção dos Estados se dá após a virada do século.
A agenda social no Mercosul é um desdobramento da agenda política já existente na região, a partir do Acordo Multilateral de Seguridade Social (1997) e da Declaração Sóciolaboral (1998), e pode ser verificada com a ampliação dos debates para se articular políticas sociais no bloco.
O primeiro ato foi a criação da Reunião de Ministros e Autoridades do Desenvolvimento Social (RMADS), em 2000, cuja finalidade é o planejamento e submissão de propostas de ações conjuntas voltadas ao desenvolvimento social dos Estados partes (MERCOSUL, 2000). A promoção de desenvolvimento social em um grupo de países tão assimétricos vem na esteira da redução da desigualdade social na região, ato necessário para aprofundar a integração regional.
A ascensão de governos progressistas63 ao poder dos países do Mercosul64 (SARAIVA; BRICEÑO RUIZ, 2009, p. 159), desencadeou, a partir de 2002, maior atenção à integração social do bloco, de modo que se fez constar a questão social no Programa de Trabalho do Mercosul (PTM) 2004-2006. Buscou-se, entre os anos de 2004 e 2006, promover maior diálogo entre as pesquisas sociais dos países, visando aprofundar as reflexões sobre a temática social e calcar a base ao estabelecimento de metas às políticas comuns dos países do Mercosul. (MERCOSUL, 2003)
A esfera social, no PTM 2004-2006, limitou-se a três metas: a ampliação da participação da Sociedade Civil no FCES, advinda do Grupo Mercado Comum; a implementação do projeto de cooperação com a União Europeia para avançar na construção da dimensão sociolaboral do Mercosul, proposta pelo SGT-10, Comissão Sociolaboral e Comitê de Cooperação Técnica e; desenhar e desenvolver estrutura de articulação entre os investigadores sociais e instituições do Mercosul para troca de experiências e estudos exitosos sobre programas e projetos sociais, objetivando
63 Ou, como definem os autores: “governos de esquerda”. (SARAIVA; BRICEÑO RUIZ, 2009, p. 159). 64 A Argentina passa a ser presidida, em 2003, por Nestor Krichner. O Brasil, no mesmo ano, por Luis Inácio Lula da Silva. O Uruguai, a partir de 2005, pelo médico Tabaré Vázquez. O Paraguai, a partir de 2008, por Fernando Lugo. Outros países de grande importância no contexto sul-americano também se alinharam na mesma conjuntura, tal como a Venezuela, com a posse de Hugo Chavez antes de todos os demais, em 1999, e Equador, com a posse de Rafael Correa, em 2007.
consolidar a base para a construção de políticas sociais comuns, oriunda da RMADS. (MERCOSUL, 2003)
Ocorre, entretanto, que nem todos os países do bloco dispunham de condições orçamentárias e estruturais para financiar ações que aparelhassem o Estado de forma adequada ao atendimento das políticas sociais (assimetrias)65, sobretudo por força da crise econômica e social enfrentada na década anterior. Ademais, também não havia mecanismo de monitoramento dessas ações, dos indicadores sociais e que, através dos resultados, pudesse partilhar da troca de experiências exitosas no âmbito social. Em busca de atender a essas demandas institucionais, o Mercosul inaugura, em 2004, o Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM) (MERCOSUL, 2004b) e, em 2007, o Instituto Social do Mercosul (ISM), objetivando avançar no processo de convergência das políticas sociais através de um projeto integrador, sinalizando, como bem é frisado nas razões de criação do ISM, o desenvolvimento humano integral (MERCOSUL, 2007).
Apesar da conjuntura política que contribuiu para os avanços na proteção social da região, inclusive corroborou para a entrada em vigor do Acordo Multilateral de Seguridade Social, em 2005, conforme já trazido, o Mercosul carece de concretas ações que institucionalize os objetivos traçados pelos órgãos do bloco, abandonando a prática das “declarações de intenções” sobre a necessidade de políticas sociais integradas sem a efetiva implementação, diferentemente do que ocorre com a União Europeia, por exemplo. (COSTA, 2013, p. 89; DRAIBE; RIESCO, 2009, p. 93)
Observa-se a carência de institucionalidade das ações sociais do bloco; arrisca-se afirmar que a carência é de efetividade. Tanto é fato que a Cúpula Social ocorrida na cidade de Córdoba, em 2006, produziu um comunicado assinado pelos presidentes dos Estados membros, onde os mesmos reconhecem a importância e necessidade de se estabelecer Plano Estratégico de Ação Social para a região (BRASIL, 2010, p. 31), o que até 2010 mostrou-se sem efetivo resultado, isto é, sem a concreta transformação da realidade social dos cidadãos de forma integrada; o que se tem visto são ações de cada Estado, de forma individualizada, aos seus cidadãos.66
65 É constatada a assimetria entre os países considerando o Produto Interno Bruto (PIB) e capacidade de produção.
66 Destaca-se que após 2010, embora tenha havido o que possamos identificar como desaceleração das articulações na seara social, dois importantes acontecimentos não podem ser ignorados: o primeiro é a Decisão do CMC (MERCOSUL, 2012b), que estabelece que as Cúpulas Sociais devem ocorrer semestralmente, cabendo a organização à Presidência Pro Tempore do bloco, com vistas a aprofundar a dimensão social do bloco. Outra, é a Resolução do GMC que regulamenta a Dec. 65/2010 do CMC,
Em 2010, através da Decisão nº 67/2010 (MERCOSUL, 2010), o Conselho Mercado Comum estabeleceu os eixos, diretrizes e objetivos prioritários do Plano Estratégico de Ação Social do Mercosul, que fixou os eixos de ação prioritários do bloco a fim de se atender aos segmentos mais pobres e que demandam atenção à inserção no mercado de trabalho. A proteção previdenciária consta no Eixo VII do documento, intitulado “Assegurar o acesso ao Trabalho decente e aos Direitos Previdenciários”, cujas diretrizes são as seguintes:
[...]
Diretriz 18: Incorporar a perspectiva de gênero na elaboração de políticas públicas laborais.
[...]
Diretriz 19: Promover a geração de emprego produtivo e trabalho decente na formulação de programas de integração produtiva no Mercosul.
[...]
Diretriz 20: Fortalecer o Diálogo Social e a Negociação Coletiva. [...]
Diretriz 21: Consolidar o sistema multilateral de previdência social. [...]
Diretriz 22: Consolidar a temática ambiental como eixo transversal das políticas públicas.
[...]
Diretriz 23: Promover mudanças em direção a padrões mais sustentáveis de produção e consumo.
[...] (MERCOSUL, 2010, p. 07-09) [grifo nosso]
Também em 2010, foi deliberado o estabelecimento progressivo de um Estatuto da Cidadania do Mercosul, devendo ser concluído até o 30º aniversário da assinatura do Tratado de Assunção (1991), isto é, em 2021. A expectativa é de se garantir aos nacionais dos Estados-partes os mesmos direitos e liberdades em todo o território do bloco, através da implementação de política de livre circulação de pessoas, igualdade de direitos e liberdades civis, sociais, econômicas e culturais aos nacionais dos Estados membro do Mercosul e, ainda, a promoção da igualdade de condições para acesso ao trabalho, saúde e educação. Na esfera previdenciária trabalha-se com a integração dos cadastros previdenciários (VIEIRA MARTINS, 2014, p. 109-110), medida que amplia o acesso e atendimento ao trabalhador.
Como pode ser observado, preocupação dos Estados parte também se dá com a questão previdenciária e as ações pelo trabalho decente, longe de serem consolidados no bloco. Conferir proteção social aos trabalhadores do Mercosul
com vistas a ampliar a participação da sociedade civil organizada e facilitar o conhecimento de direitos advindos da integração, através criação de Registro de Organizações e Movimentos Sociais do Mercosul (MERCOSUL, 2013b).
favorece a mobilidade de pessoas, aproximando a livre circulação no bloco (PEREIRA; RODRIGUES, 2014; COSTA, 2013, p. 87)
Estabelecer, nesse sentido, proteção previdenciária num bloco com as peculiaridades como as do Mercosul constitui significativo desafio aos seus membros, sobretudo no que concerne ao acesso e a universalização a essa proteção. A partir dos avanços obtidos, resta verificar como a agenda social do Mercosul atua nos dias atuais no acesso e universalização da proteção previdenciária aos trabalhadores do bloco. Para tanto, importa resgatar e trazer à discussão os conceitos relacionados nos capítulos precedentes.