2 A COMUNICAÇÃO PÚBLICA EM ÓRGÃOS PÚBLICOS:
2.1 COMUNICAÇÃO PÚBLICA: CONCEITO EM DISCUSSÃO
2.1.3 Agendando a cidadania
A Teoria do Agendamento sustenta que as pessoas agendam seus assuntos e conversas em função do que é veiculado pela mídia. Basta observar os assuntos que pautam o cotidiano das pessoas em casa, na roda de amigos ou no ambiente de trabalho. A população comenta e discute de uma forma ou de outra, os temas do noticiário no dia posterior. Essa atitude demonstra a capacidade da imprensa em potencializar a divulgação de determinados fatos, que repercutem no dia a dia das pessoas.
Assim, quando uma informação de um acontecimento importante de interesse público não é veiculada na mídia é como se o acontecimento não existisse,
pelo menos para a maioria das pessoas, que não tem ligação com o fato ocorrido.
Portanto, confirma-se a importância da mídia como mediadora de informações de interesse para a sociedade: é o poder de agendamento dos temas relevantes usado para a democratização de informações de interesse da sociedade.
Segundo McCombs (2009), os públicos se apropriam dos assuntos salientados pela mídia para organizar as agendas individuais e decidir quais são os mais importantes. Com o passar do tempo, os tópicos em destaque tornam-se os mais relevantes na visão do público — “(...) é o estágio inicial da formação da opinião pública” (MCCOMBS, 2009, p.18). Em um estágio posterior, essa saliência, após algumas semanas, é absorvida pelo público. O autor chama esse processo de aprendizagem casual dos media:
(...) elas (as pessoas) aprendem um montão de fatos, muitos dos quais incorporam em suas imagens e atitudes sobre uma variedade de objetos.
Elas também aprendem sobre os mais importantes temas do momento, incorporando a agenda dos mass mídia em suas próprias agendas dos tópicos centrais do que a sociedade enfrenta. As circunstâncias desta aprendizagem casual diferem da aprendizagem que comumente ocorre na escola, mas os resultados podem ser tão influentes como poderosos. (...) Os mass mídia são professores cuja principal estratégia é a redundância.
Uma e outra vez, nossos professores do mass mídia repetem tópicos, às vezes com grande ênfase, noutras épocas só de passagem. Em primeiro lugar é a acumulação dessas lições num período de uma a oito semanas que é refletida nas respostas dos estudantes cidadãos quando nós perguntamos sobre os mais importantes temas que a nação enfrenta.
(MCCOMBS, 2009, p. 80).
Essa aprendizagem via imprensa é um dos caminhos para o exercício da cidadania. Portanto, uma das possibilidades das instituições públicas cumprir satisfatoriamente sua missão de socializar seus serviços e suas informações de interesse coletivo, é também buscar pautar a agenda dos meios de comunicação. A mídia apresenta-se, dessa forma, como um dos instrumentos de difusão de ideias e de cidadania. Por conseguinte, é capaz de colaborar na formação de uma sociedade com capacidade e oportunidade de deliberar sobre as questões sociais que a cercam. De qualquer modo, essa mídia precisa se propor a comunicar o que é de interesse público,
(...) espera-se que a comunicação de massa contemporânea alargue a esfera pública, intensifique a visibilidade ao mesmo tempo em que preserve níveis pregnantes de debate público, proporcione informação política qualificada para a comunicação pública, colabore na mobilização ou na
formação de questões sociais relevantes no e para o debate público, possibilite que tais questões sejam processadas, mediante argumentos apropriados, na forma de discussões sob o olhar público, contribua para gerar posições e opiniões políticas públicas racionalmente motivadas.
(GOMES, 2008, p. 18).
Assim, quando a mídia amplia e visibiliza informações relevantes, ela colabora com o fortalecimento da cidadania. Mesmo considerando que uma parte da população não tem acesso às informações repassadas pelos veículos de comunicação de massa, por não saber ler ou interpretar as mensagens divulgadas, faz-se necessária a busca da universalização de informações de interesse público.
Nesse viés, a imprensa é, sem dúvida, um dos principais canais para que as instituições cumpram com essa importante missão na sociedade.
O agendamento de informações de interesse público pela mídia não é a única, mas se trata de umas das formas para garantir que questões relevantes façam parte das discussões da população e, num estágio posterior, sejam absorvidas. A internet também é uma opção. Com a instantaneidade proveniente das modernas tecnologias, os fatos são assuntos nas rodas de conversa tão logo aconteçam.
No artigo “Creating a new news: Opportunies on the internet for broader and deeper journalism”, publicado no periódico Brazilian Journalism Research (BJR)10, McCombs (2008) volta sua atenção à internet que, para o pesquisador, “armou o palco para uma abordagem expandida da notícia, uma versão muito mais ampla e profunda do que a que tradicionalmente tem sido oferecida nos jornais e transmissões televisivas diários” (McCOMBS, 2008, tradução nossa). Enquanto a imprensa tem limitação de tempo e espaço para agendar temas, a internet disponibiliza vários conteúdos a diversos públicos.
O autor afirma que um “pacote de notícias” baseado no modelo da cauda
10 Brazilian Journalism Research (BJR) é um periódico científico semestral publicado pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). Creating a new news: Opportunies on the internet for broader and deeper journalism, de Maxwell McCombs, volume 4, nº 1 (2008). Disponível em: http://bjr.sbpjor.org.br/index.php/bjr/issue/view/9. Acesso em: 05 de janeiro de 2012.
longa11 se aprimora e expande pela aplicação da teoria da agenda setting à prática do jornalismo. A internet permite um alongamento da cauda, ou seja, uma maior diversidade de conteúdos e também de fontes na elaboração das notícias para vários nichos de público. A partir da perspectiva da teoria da agenda setting, os temas publicizados pela mídia e que pautam o cotidiano dos cidadãos, segundo McCombs (2008), seriam abordados com novos atributos. Nessa perspectiva, ele afiança que, no caso do fenômeno da “cauda longa”, a internet possibilita estender o alcance desse noticiário, com a inclusão de um conjunto de histórias, listagens e informação e, ainda, incorporando o conceito da agenda setting, o noticiário online também aumentaria a profundidade de sua cobertura ao oferecer uma gama maior de perspectivas (atributos) sobre os principais eventos e assuntos do dia.
A discussão de McCombs, no entanto, é muito mais ampla do que aumentar o “pacote de notícias” e suas abordagens para alcançar uma grande audiência. A preocupação do pesquisador (MCCOMBS, 2008, p. 8, tradução nossa) é que “um pacote de notícias amplo e profundo baseado nos conceitos da cauda longa e de uma agenda de atributos dessas notícias pode incluir mais itens relevantes aos membros de um público”. Para ele, em termos ideais, a internet oferece a oportunidade dessa agenda expandida de notícias ser de utilidade cívica ampla e contribuir para a cidadania.
Esse potencial de expansão das informações de interesse público na internet provavelmente contribui com a comunicação pública. Com a disponibilidade de um número considerável de notícias de relevância social, também se ampliam e facilitam as oportunidades para o exercício dos direitos e deveres dos cidadãos.
Outros canais que permitem a interação face a face, o debate, o compartilhamento de argumentos podem ser autenticamente mais democráticos, mas a mídia massiva e as possibilidades trazidas pela internet não podem ser desconsideradas.
11 A teoria da cauda longa foi criada pelo jornalista Chris Anderson em 2004 e se resume nos
seguintes termos: "(...) nossa cultura e nossa economia estão cada vez mais se afastando do foco em alguns hits relativamente pouco numerosos (produtos e mercados de tendência dominante), no topo da curva da demanda, e avançando em direção a uma grande quantidade de nichos na parte inferior ou na cauda da curva de demanda. Numa era sem as limitações do espaço físico nas prateleiras e outros pontos de estrangulamento da distribuição, bens e serviços com alvos estreitos podem ser tão atraentes em termos econômicos quanto os destinados ao grande público." (ANDERSON, 2006, p.
50). A expressão vem da Estatística e deve-se a um gráfico matemático que lembra uma grande cauda. No livro, Chris Anderson aplica essa ideia a uma grande variedade de cenários comerciais da internet.