3.2 Análise SWOT de Cachoeira
3.2.2 Agentes de Fraqueza
Alguns apontamentos podem ser considerados como fraquezas no plano de desenvolvimento da cidade por via dos setores criativos. O fato do Brasil não ter tradição de analisar o simbólico é um deles. Tal postura tende a endossar a invisibilidade de algumas manifestações tradicionais e expressões culturais. Em um país de dimensões continentais e uma diversidade cultural ainda mais vasta que o próprio território, é necessário que se estipule parâmetros de análise específicos para os valores simbólicos.
Outro agravante é a falta de educação patrimonial nas escolas públicas municipais. Esta questão está prevista na lei municipal, mas na prática apenas um colégio a aplica. A educação patrimonial promove o reconhecimento da história e dos valores regionais. Esta consciência abarca aspectos transdisciplinares das culturas locais, e para além do conhecimento, também gera efeito no campo do simbólico, isto é, no que toca à auto- identificação dos habitantes com seus próprios valores culturais. A educação patrimonial é um meio pelo qual pode ser germinado o orgulho de pertencer a um determinado local ou cultura. Experiências como esta já são vistas em diversos lugares, como Fernando de Noronha e em cidades históricas de Minas Gerais. Se os habitantes cachoeiranos forem podados de seus próprios sentidos, a tendência é de que os valores e expressões culturais se esvaziem com o passar das gerações. A educação patrimonial pode ser útil na reversão deste processo que se evidencia.
A ausência de equipamentos para a fruição de serviços culturais, por sua vez, é outro ponto de fragilidade. A cidade possui apenas um cinema, cuja restauração foi recém- concluída. A Universidade Federal do Recôncavo (UFRB), como foi dito, dispõe de um
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auditório devidamente equipado, onde são realizados diversos tipos de eventos, mas ambos são insuficientes diante da demanda de artistas e públicos. Embora Cachoeira possua alguns espaços interessantes, como o Centro Cultural Hansen e o museu do IPHAN, não se observa exatamente o uso dinâmico destes. É preciso reavaliar a interação destes espaços junto à sociedade civil e, complementarmente, providenciar novas estruturas, como por exemplo, um teatro.
Recentemente, como foi referido, se aprovou em plenária, na IV Conferência Municipal de Cultura, um mapeamento das expressões culturais locais. O passo seguinte a este seria criar uma rede virtual, por onde se possibilite conhecer e dinamizar estas manifestações. Entretanto, a questão estrutural não é restrita a dinamização de bens e serviços culturais. Conexões hard e soft precisam ser estabelecidas, de modo geral. O próprio acesso à cidade e a logística de transporte que liga os três distritos que compõem o município exigem melhorias.
Este município possui inúmeras vantagens naturais e histórico-culturais propícias para a atividade turística, porém sua rede de hospedagem é pequena. Segundo levantamento realizado especialmente para a pesquisa, há quatro pousadas de pequeno porte, um hotel fazenda e um hotel de médio porte. Os equipamentos e serviços complementares à atividade turística também apresentam porte modesto, uma vez que o município apresenta sérios problemas de infraestrutura.78
Ainda no eixo das fraquezas deve se considerar que não apenas o sistema de transporte entre os distritos que compõem o município configuram uma fraqueza, mas a falta de integração geral entre estes territórios é um aspecto deficitário.
Por fim, o último ponto de fraqueza está no descrédito da sociedade civil com relação às políticas públicas de modo geral. Tal fato não é exclusivo de Cachoeira, e tampouco do setor cultural ou criativo. A desconfiança e desesperança com a máquina pública é uma tendência nacional, que depõe contra qualquer avanço ou tentativa de melhoria. Nota-se que este fenômeno é simultaneamente uma fraqueza e uma ameaça. No caso particular das políticas culturais em Cachoeira, somam-se alguns aspectos históricos à configuração desta desconfiança: durante muitos anos os cidadãos cachoeiranos
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compreendiam “políticas culturais” como um sinônimo de preocupação com o patrimônio material. Não obstante, as propostas estabelecidas para este setor eram essencialmente verticais, ou seja, as ações eram outorgadas sem que se estabelecesse exatamente um diálogo com a população.
Em verdade, a relação do patrimônio e do tombamento no Brasil foi se reconfigurando com o passar do tempo. A rigor, não se pretende mais a “mumificação” dos espaços como nas primeiras décadas de preocupação com a salvaguarda patrimonial. A pesquisadora Monica Starling aponta quatro modelos de lidar com o patrimônio, extraídos da história do Brasil:79
a) Modelo tradicional ou de preservação: Se restringe à cultura erudita e tem caráter imobilista em nome da minimização de danos. O instrumento desta linha é o tombamento. (Década de 1930)
b) Conservação integrada: A cultura “popular” é agregada à noção de patrimônio. Este modelo visa reabilitar sítios e integrá-los com a sociedade. (Década de 1960)
c) Reabilitação urbana: Revitalização de áreas por meio de parcerias público- privadas, que normalmente apontam para o consumo turístico ou cultural dos espaços. - Tal prática pode resultar na segregação e gentrificação das áreas tratadas. (Década de 1980)
d) Governança participativa e deliberativa: Parcerias público-privadas interagem com outros atores da sociedade, como fóruns participativos e deliberativos, que ampliam a arena de discussão, posto que incluem a participação dos cidadãos locais. Neste modelo, também são integrados profissionais de diversas áreas, por exemplo, antropologia, ciências sociais, arquitetura, e planejamento urbano. Neste modelo, o que se pretende é um “projeto político democrático”. Um dos instrumentos deste sistema são as Conferências Municipais de Cultura. (Modelo desenvolvido a partir da gestão de Gilberto Gil no MinC)
79 Starling, Mônica. Entre a lógica de Mercado e a cidadania: os modelos de gestão do patrimônio
cultural. In: Políticas Culturais em Revista. Consultado em junho de 2013. Disponível em:
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Considerada esta trajetória, iniciada na década de 1930, e levando em conta o panorama histórico exposto na primeira parte deste trabalho, conclui-se que durante décadas, as políticas culturais condicionaram e limitaram os cidadãos de Cachoeira, inclusive e, sobretudo, com relação às suas próprias casas. Ainda que a cidade já se encontre no estágio de governança participativa e deliberativa (vide as Comissões Setoriais, o Conselho de Cultura, e as conferências realizadas), a redução da autonomia das pessoas com relação as suas propriedades particulares culmina em um ambiente de autoritarismo. Por mais que esteja sendo construído um sistema de cultura sólido, o campo de forças tencionado para discutir os caminhos das políticas municipais continua marcado por uma espécie de autoritarismo. Esta característica adquire novas formas que não remetem ao formato visto nos períodos ditatoriais, mas ainda assim, a reação popular, segundo artistas locais, continua sendo de desconfiança e descrédito.