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CONTEXTO DA CONFEDERAÇÃO DO EQUADOR

3.1. Agentes históricos e juntas governativas em Pernambuco

Os anos anteriores à Confederação do Equador, uma onda de movimentos de cunho liberal tomou Portugal. Em 1820 eclodiu na cidade do Porto uma revolução, influenciada pelas movimentações liberais na Espanha, que pregava o retorno imediato de D. João VI a Portugal e a formação de uma assembleia constituinte. O seu

principal objetivo era alcançar a “regeneração portuguesa”341. No ano seguinte, foram iniciados os trabalhos, em Lisboa, das Cortes Constitucionais da Nação Portuguesa, contando com a presença de deputados brasileiros.342 As mudanças encabeçadas pelas Cortes de Lisboa obrigaram o rei D. João VI a reconhecer a legitimidade das ações da assembleia e a jurar o texto de uma constituição. Nesse contexto, foram substituídos os governadores capitães-generais da administração das províncias do Reino do Brasil por Juntas de Governo escolhidas através de eleições.343 Foram, assim, estabelecidos novos parâmetros para a vida política do Reino Unido, moldando um processo de ruptura com o Antigo Regime.

As mudanças que nos interessam nesse contexto são as relativas ao governo das províncias do Brasil e às suas consequências na política de Pernambuco, onde rivalidades partidárias que deram corpo à Insurreição de 1817 floresceram novamente em 1821. As tensões se intensificaram devido à maior autonomia administrativa concedida às províncias através da eleição de Juntas e à anistia oferecida aos rebeldes de 1817, que voltaram a alguns cargos de poder em Pernambuco.

A escolha dos membros das Juntas de Governo era feita através de aclamações militares e populares, diferentemente do que ocorria com os governadores capitães- generais que eram escolhidos pela corte e, recorrentemente, enviados de Portugal. Segundo Denis Bernardes, a necessidade de uma aclamação dupla fazia com que as Juntas tivessem pouca estabilidade, o que justificava a queda e posse sequenciados de algumas delas.344

A primeira Junta estabelecida em Pernambuco foi a de Goiana instalada em 29 de agosto de 1821, no contexto das transformações propostas pelas Cortes de Portugal.345 Alguns meses antes, aqueles que haviam sido presos em 1817 e enviados para Bahia voltaram para Pernambuco porque haviam sido absolvidos pelo decreto de anistia das Cortes de Lisboa. Reuniões começaram a ser feitas para instaurar uma Junta Constitucional, assim como fora feito na Bahia, e expulsar o governador Luiz do Rego Barreto, que fora indicado por D. Pedro I.346

341 SLEMIAN, Andrea. Op. Cit., pp. 99-100.

342 Idem. Sobre a atuação dos deputados brasileiros na constituinte portuguesa de 1821 consultar BERBEL, Márcia Regina. A nação como artefato: deputados do Brasil nas cortes portuguesas (1821- 1822). São Paulo: Hucitec, 2010.

343 BERNARDES, Denis. Op. Cit. 2006, pp. 18; 270. 344 Idem, p. 318.

345 Idem, p. 330.

A Junta de Goiana recebeu apoio de proprietários e ajuda de algumas Câmaras do interior, angariando, assim, recursos materiais e força para organização de um exército. Após forte pressão militar, foi feito um acordo no qual ficou acertado que Luiz do Rego Barreto administraria Olinda e Recife, e a Junta de Goiana ficaria responsável pelo interior da província. Assim governariam até que o Rei e as Cortes autorizassem a eleição de um governo para toda a província, o que ocorreu quando as Cortes ordenaram a eleição de uma Junta Provisória e o retorno de Luiz do Rego Barreto para Portugal. Tanto a eleição quando a volta do antigo governador de Pernambuco ocorreram em 26 de outubro de 1821. 347

A Junta eleita para governar Pernambuco era constituída de vários políticos envolvidos com a Insurreição de 1817, inclusive o presidente deste novo governo, Gervásio Pires Ferreira. Os conflitos continuaram entre os órgãos do governo administrados por portugueses e a Junta eleita em Pernambuco, fazendo com que, pouco a pouco, outras autoridades portuguesas fossem deixando a província.348 Uma definição de Denis Bernardes sobre o modo de funcionamento da Junta ajuda a perceber o tom de seus ideais e do governo ao se intitular “democrática e independente”:

a Junta sinalizava para as Cortes e para o rei que mantinha suas ligações com o Reino de Portugal, mas sem submissão e sem abrir mão do exame – quando necessário, público – dos atos e assuntos, que diziam respeito aos interesses da província, capazes de afetar a sua jurisdição349

A Junta presidida por Gervásio Pires propôs uma nova maneira de governar ao levar ao público os debates sobre questões que, anteriormente, eram discutidas em segredo; e ao fazer a população se envolver nas discussões e resoluções. Buscava-se a legitimidade das decisões através da transparência das ações da Junta, sendo esta uma experiência que marcou a população de Pernambuco que se engajou na Confederação.350 Essa postura da Junta levou a sérios desentendimentos com a Corte, que desejava ter mais poder de influência em Pernambuco. A Junta, por sua vez, rebatia as imposições feitas pelo governo central. Embora houvesse essa tensão, os membros da Junta embasavam suas ações na legitimidade conferida ao seu governo pelas Cortes de Lisboa e na manutenção do Reino Unido de Portugal, Brasil e

347 LEITE, Glacyra Lazzari. Op. Cit. 1989, pp. 80-82. 348 Idem, pp.84-87.

349 BERNARDES, Denis. Op. Cit. 2006, p.421. 350 Idem.

Algarve. Portanto, não visavam, naquele momento, à independência ou mesmo à separação de Pernambuco do Reino português.351

Agitações ocorridas em Recife e as diferenças entre a Junta e a Corte contribuíram para a perda de força política da Junta e para o seu alinhamento ao Rio de Janeiro. Parte das agitações foi promovida por Pedro da Silva Pedroso, liderando “grupos de sediciosos” compostos por negros e pardos, sendo, provavelmente, influenciado por enviados do governo fluminense. Gervásio Pires lhe havia acenado com a função de comando numa companhia do regimento de artilharia, ao que Pedroso negou por achar um cargo menor. Voltou-se contra os constitucionalistas e passou a apoiar os grupos defensores do governo centralizado no Rio de Janeiro.352

Os atritos com a Corte se avolumavam, principalmente em relação às ações da Junta que visavam maior autonomia para a província. Em face da instabilidade política do momento, a Junta se viu obrigada a reconhecer oficialmente a regência de D. Pedro I como o centro legítimo do poder executivo no reino do Brasil em junho de 1822.353 Diante desse quadro, toda a Junta governativa pediu demissão.

A experiência vivenciada com a Junta presidida por Gervásio Pires, entre 28 de outubro de 1821 e 16 de setembro de 1822, segundo Denis Bernardes, foi uma expressão do movimento vintista em Portugal, caracterizada como constitucionalista e inserida no contexto de desmonte do Antigo Regime. No entanto, o que ele considerou “a mais avançada experiência” do vintismo, ou do constitucionalismo português, teve fim com a Independência e outros acontecimentos políticos.354

Após a queda da Junta presidida por Gervásio Pires, outra foi indicada para governar Pernambuco até o Colégio Eleitoral se reunir para decidir a composição do novo governo. O Governo Provisório, que atuou durante alguns dias de setembro, foi presidido por Francisco de Paula Gomes dos Santos. No dia 23 daquele mês, o Colégio Eleitoral se reuniu em Olinda e elegeu a nova Junta Governativa, que passou a ser conhecida como o “Governo dos Matutos”, já que muitos de seus membros eram proprietários do interior da província. Foram seus membros o capitão-mor e morgado do Cabo Francisco Paes Barreto, Francisco de Paula Gomes dos Santos e o capitão Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque. Após a renúncia de alguns de seus

351 BERNARDES, Denis. Op. Cit. 2003, p. 240.

352 SILVA, Luiz Geraldo. “Negros patriotas. Raça e identidade social na formação do Estado nação. (Pernambuco, 1770-1830). In: JANCSÓ, Istvan (org.). Op. Cit. 2003, p. 155.

353 Idem, p. 242.

membros, o morgado do Cabo assumiu o cargo de presidente. Essa junta foi marcada por convulsões políticas, principalmente pelos conflitos com portugueses residentes na província, e divergências entre seus membros, uns apoiando o governo do Rio (Francisco Paes Barreto) e outros apoiando uma maior autonomia provincial (Francisco de Paula Gomes dos Santos).355

Outro problema enfrentado pelo Governo dos Matutos estava representado na figura de Pedro da Silva Pedroso, que era caracterizado como “mestiço valente”, o mesmo que contribuíra para a queda da Junta gervasista.356 Quando houve a eleição da Junta presidida pelo morgado do Cabo, Pedroso permanecia como governador das Armas da província, pois havia sido indicado para esse cargo pelo Governo Provisório que sucedeu Gervásio Pires. Diante do novo governo civil não se submeteu e encabeçou um golpe em fevereiro de 1823. A intenção era apoiar outra Junta que não permitisse a sua substituição no Comando das Armas.357

A Junta mandou prender Pedroso, que fugiu, convertendo-se, assim, numa ameaça às lideranças por conseguir arregimentar grande número de pobres e marginalizados. Pedroso tornava-se popular entre a “gente de cor”.358 Ganhava, assim, as disputas políticas no Recife e em Olinda conotações raciais e originava o medo de haitianização. Pedroso voltou para Recife apoiado por seus seguidores e tentou estabelecer um novo governo em concordância com a Câmara de Recife, mas não obteve sucesso. Em determinado momento, ele perdeu o domínio sobre os seus seguidores, que já haviam tomado o Arsenal de Guerra. A Câmara do Recife o convenceu a renunciar e os “pedrosistas” apenas desistiram de sua resistência após a notícia de prisão do seu chefe. Logo em seguida, a Junta ordenou o envio de Pedroso ao Rio de Janeiro.359

As disputas e perturbações políticas durante o “Governo dos Matutos” persistiram, resultando na tentativa de um golpe encabeçado por Cipriano Barata e Manuel de Carvalho Paes de Andrade para tirar Francisco Paes Barreto do poder. Tanto Barata quanto Paes de Andrade haviam participado de 1817, defendiam, portanto, uma maior autonomia para a província, ao contrário de Paes Barreto que era partidário do governo centralizado no Rio de Janeiro. Cerca de dois meses depois

355 LEITE, Glacyra Lazzari. Op. Cit. 1989, p. 90. 356 SILVA, Luiz Geraldo. Op. Cit., p. 155.

357 MELLO, Evaldo Cabral de. Op. Cit. 2004, p. 124. 358 SILVA, Luiz Geraldo. Op. Cit. p. 517-518. 359 MELLO, Evaldo Cabral de. Op. Cit. 2004, p. 125.

dessa tentativa de golpe, a Assembleia Constituinte convocada por D. Pedro I fora dissolvida. A situação política na Corte aumentava a pressão sobre Paes Barreto em Pernambuco, fazendo com que este pedisse a demissão do cargo de presidente da Junta. Foi proposto um Governo Precário até ser resolvido o problema da substituição do presidente, sendo eleito para o cargo Manuel de Carvalho Paes de Andrade à revelia das determinações da Corte no Rio, representando-lhe uma afronta.

Manuel de Carvalho Paes de Andrade foi eleito em janeiro de 1824 pelos deputados que tinham ido à corte participar da Assembleia e retornaram a Pernambuco após a dissolução daquela. Nessa época já fora expedida ordem para que Francisco Paes Barreto voltasse a governar a província, e este organizava suas forças para resistir ao governo provincial em Barra Grande, Alagoas.360

Navios capitaneados por John Taylor chegaram a Recife com ordem de reempossar Paes Barreto, ao que a Câmara de Recife respondeu que só o faria depois de ter resposta do Imperador sobre a representação enviada para a Corte, na qual se justificava os procedimentos adotados pelo governo instaurado na província. Paes de Andrade foi mantido na presidência e foram enviados três membros da Câmara para relatar a D. Pedro I os acontecimentos desde dezembro de 1823. Nos documentos enviados, os membros da Câmara rogavam a confirmação de Paes de Andrade no cargo, demonstrando o interesse daquele governo em conseguir a aprovação imperial. Mas, ao contrário, as ordens do Imperador foram de bloquear o porto do Recife. Ao mesmo tempo, o governo instalado em Recife decidiu atacar a província de Alagoas, onde estavam estacionadas as tropas consideradas desertoras e favoráveis a Francisco Paes Barreto, o morgado do Cabo.361

Em maio de 1824, D. Pedro I substituiu Paes Barreto do governo da província por José Carlos Mayrink da Silva Ferrão, o que foi encarado como um ato de despotismo. O governo provincial não aceitou a nomeação de Mayrink da Silva Ferrão, nem jurou o projeto de constituição apresentado pelo Imperador, chegando a uma situação política insustentável e à proclamação da Confederação do Equador em 2 de julho de 1824.362

Logo em seguida foram baixados decretos visando à repressão da Confederação. Foi composta uma comissão militar presidida pelo Brigadeiro

360 LEITE, Glacyra Lazzari. Op. Cit. 1989, pp. 95-97. 361 Idem, pp. 96-97.

Francisco de Lima e Silva para processar os líderes e novamente foi estabelecido o bloqueio dos portos de Pernambuco. Nesse período, a comarca do São Francisco foi desmembrada da província, sendo transferida para Minas Gerais, como represália ao governo rebelde e também como medida preventiva para que os ideais liberais não se propagassem pela Bahia.363

Entre julho e agosto de 1824, as forças confederadas estabelecidas no sul sofreram ataques e derrotas na luta contra as tropas de Barra Grande, em Alagoas. Nessa região as tropas de Lima e Silva se uniram às de Paes Barreto, nas quais se incluíam portugueses refugiados, contingentes alagoanos e índios de Jacuípe e de Barreiros.364 Os conflitos armados continuaram na fronteira entre Pernambuco e Alagoas até a derrota militar dos rebeldes.

A retomada sumária dos principais acontecimentos e das correntes políticas envolvidas na eclosão da Confederação do Equador ajudam a compreender o posicionamento dos indígenas de Cimbres, Jacuípe e Barreiros, não sendo a intenção adentrar nos pormenores, mesmo porque vários estudos já foram realizados.365 Vale lembrar nesse momento que uma das áreas onde ocorreram os conflitos mais intensos durante 1824 foi a zona da mata sul, na qual estavam localizadas duas aldeias cujos índios participaram dos embates, os de Jacuípe e Barreiros, a favor das tropas imperiais. Já os de Cimbres, cuja aldeia estava situada longe da área dos conflitos, se posicionaram em defesa do rei D. João VI em 1824, colocando-se contra o governo confederado. Isso indica que as disputas e divisões políticas se estendiam às diferentes regiões da província, não se reduzindo apenas ao trecho entre a vila de Goiana e a zona da mata sul.

As alianças articuladas pelos indígenas com políticos e proprietários locais dependiam das condições locais nas quais estavam inseridos e atuavam. Tais relações podiam, inclusive, ser reelaboradas e transformadas em rivalidades. Assim, construíam estratégias no intuito de defender seus interesses, posicionando-se nos conflitos. A formação de algumas alianças, a transformação destas em inimizades e as expectativas dos índios em realizá-las são os temas abordados a seguir.

363 MELLO, Evaldo Cabral de. Op. Cit. 2004, p. 221. 364 Idem, p. 233.

365 BERNARDES, Denis. Op. Cit. 2006. LEITE, Glacyra Lazzari. Op. Cit. 1989. MELLO, Evaldo Cabral de. Op. Cit. 2004. SILVA, Luiz Geraldo. Op. Cit.