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Agentes políticos

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4 CONTEXTO HISTÓRICO E SOCIAL

4.3 Agentes políticos

Nesta terceira parte do capítulo, são destacadas algumas personalidades que aparecem com mais destaque nas temáticas abordadas neste trabalho. Algumas

58 Ver nota de rodapé no 57, p. 109

59 Plinio Corrêa de Oliveira obteve 24.714 votos, 93% do total. A soma dos votos era suficiente para

eleger dois deputados e representava o dobro dos obtidos pelo jurista Alcântara Machado, seu antigo professor, segundo colocado. OLIVIERA, P.C. Uma vitória mariana. Biografia de Plínio Correia de Oliveira. Disponível em: <http://www.pliniocorreadeoliveira.info/biografia.asp>. Acesso em: 13 abr. 2018.

considerações biográficas são levantadas, assim como ponderações sobre o discurso defendido são tecidas60.

4.3.1 Xavier de Oliveira

Antônio Xavier de Oliveira nasceu em Juazeiro do Norte (CE), no dia 9 de outubro de 1892. Mudou-se para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, onde se diplomou pela Faculdade de Medicina, especializando-se em psiquiatria. Dedicou-se paralelamente ao estudo dos problemas brasileiros, em particular do Nordeste.

Em maio de 1933, elegeu-se deputado pelo Ceará à Assembleia Nacional Constituinte na legenda da Liga Eleitoral Católica. Seu papel nesta pesquisa é fundamental, pois nesse constituinte tem-se a convergência do pensamento eugênico, higiênico e religioso. Também é possível apontar algumas afinidades com ideais integralistas. Sobre a questão eugênica e imigratória, defendeu vigorosamente, ao lado de Miguel Couto, a proibição da entrada de imigrantes japoneses e de todos os grupos de cor, especialmente negros, no Brasil. Para ele, o amarelo é inassimilável e de religião mística, enquanto no negro fica patente a “inferioridade dos elementos de formação étnica da nossa antiga Colônia” (ANNAES, p. 547, v. IV). Sobre a temática eugênica, ainda afirma que: “Chega ao ponto que Vogt, por exemplo, o grande neuropsiquiatra da Noruega, diz ser um crime a aproximação de um branco louro de olhos azues do norte com uma negra africana” (ANNAES, p. 460, v. VI).

Em seu discurso sobre a questão religiosa, defende os conceitos de Brasil católico, nação católica, direitos da maioria e se apresenta como grande opositor de Guaraci Silveira no debate sobre o divórcio. Defende também a missão civilizatória da Igreja por meio da educação. Para ele, a inserção da Igreja católica nos rincões do país é um importante elemento para a unidade da Nação. Sua motivação expressa é contribuir com patriotismo na obra de construção da Pátria. A citação a seguir resume bem sua atuação como constituinte:

Senhores, sou brasileiro, autêntico, nacionalista e integral nativista convicto. Amo, acima de tudo, a minha Pátria. E se não tenho, repito, preconceitos de raça, tenho, entretanto, o preconceito da minha nacionalidade! Quero, assim, vêr a nação brasileira, eugenicamente,

60 AS informações biográficas foram obtidas dos verbetes do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro.

sadia, educada e feliz, vivendo em paz e em harmonia com todos os países do globo! Quero vêr o meu país unido, grande e forte na América, para o mundo, para a Humanidade, para Deus! (ANNAES, p. 482, v. VI).

4.3.2 Guaraci Silveira

Guaraci Silveira nasceu em Franca (SP), no dia 27 de setembro de 1893, filho do capitão Zeferino Carlos da Silveira e de Ana de Sousa Silveira. Seu pai foi vereador em São Simão (SP), em 1889, tendo sido perseguido durante o Império por defender o ideário republicano. Em 1916, ingressou no Instituto Granbery, da Igreja Metodista de Juiz de Fora (MG), e, posteriormente, na Faculdade de Teologia, tornando-se ministro metodista, em 1915. Liderou o movimento emancipador da Igreja Metodista no Brasil em relação à Igreja Metodista Episcopal do Sul, dos Estados Unidos, defendendo a necessidade de autonomia da Igreja nacional, que seria conseguida em 1930. Foi o primeiro pastor brasileiro a servir como capitão- capelão de tropas regulares, tendo atuado no 8º Batalhão de Caçadores de São Paulo e no Batalhão 14 de Julho, durante a Revolução Constitucionalista de 1932.

Em maio de 1933, elegeu-se deputado à Assembleia Nacional Constituinte por São Paulo, na legenda do Partido Socialista de São Paulo. Foi uma das principais vozes na defesa do Estado laico, para se assegurar a liberdade religiosa. Quanto ao ensino religioso, entende ser uma imposição de consciência alheia. Contra o argumento de maioria católica, defende que os direitos dos homens devem ser respeitados, logo não precisam constar na constituição:

O SR. GUARACI SILVEIRA Se alguma coisa podessemos querer seria que o direito da minoria, que somos nós, figurasse na Constituição; o direito da maioria não precisa ser consignado, porque, como disse o Sr. Deputado pelo Estado do Rio, Dr. Fernando Magalhães, a maioria é católica. Nós, porém, que somos a minoria, repito, preferimos confiar no respeito ao direito dos homens por parte de nossos adversários. (Palmas nas galerias.)

Por que deixar na Constituição um texto que, amanhã póde ser desvirtuado para oprimir a conciência dos crentes?

O SR. OLIVEIRA CASTRO – Esse texto é precisamente para assegurar o direito de todos.

O SR. GUARACI SILVEIRA – Sei o que são os direitos alheios quando estão nas mãos da maioria... (ANNAES, p. 280, v. II).

Em diversas ocasiões, ocupou a tribuna para defender o divórcio. “Si não existe no Brasil o divórcio, poderemos afirmar que não existe de direito, mas existe

de fato”. Guaraci Silveira vai defender o direito ao divórcio, partindo do argumento que de fato ele existe e, por se tratar de uma questão puramente religiosa, deveria ser liberado. Inclusive por uma questão de defesa à vida, tendo em vista o “divórcio a bala”, uma anacronia da legislação com origem no império que condena à morte a mulher adúltera, conforme trecho a seguir: “Em nossos dias, embóra isso não seja taxativo nas leis, o homem que mata sua mulher por adultério póde contar, antecipadamente, com a absolvição no júri” (ANNAES, p. 380, v. IX). E ainda sobre o assunto diz:

Para cada divórcio há, no mínimo, um caso de mancebia, no Brasil, quando não são dois casos, além da enorme quantidade de filhos ilegítimos ou adulterinos que arrastarão o estigma que lhes vem da infelicidade dos pais e maldade das leis (ANNAES, p. 379, v. IX).

É um discurso no qual as vozes religiosas se manifestam exasperadamente, assim como em todos os discursos de Guaraci Silveira, principalmente Xavier de Oliveira, Fernando Magalhães61 e Annes Dias62.

4.3.3 Gwyer de Azevedo

Asdrúbal Gwyer de Azevedo nasceu em Santa Maria Madalena (RJ), no dia 22 de dezembro de 1899. Estudou até 1917 em regime de internato, no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e se alistou em março do ano seguinte, ingressando na Escola Militar do Realengo, também no Rio de Janeiro. Como militar, participou em São Paulo da revolta de 5 de julho de 1924 e do movimento dirigido pela Aliança Liberal em 3 de outubro de 1930, sempre junto às forças revolucionárias. Com a deposição de Washington Luís no dia 24 de outubro de 1930, foi anistiado e promovido a primeiro-tenente, no mês seguinte.

Gwyer de Azevedo integrou o Club 3 de Outubro e os efetivos legalistas que combateram a revolução constitucionalista deflagrada em São Paulo, em julho de 1932. Foi um dos organizadores, juntamente com Cristóvão Barcelos, do Partido

61 Fernando Augusto Ribeiro Magalhães nasceu no Rio de Janeiro no dia 18 de fevereiro de 1878 e

formou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1899. Foi presidente da Associação Brasileira de Educação para os biênios 1926-1927 e 1930-1931. Foi eleito deputado pelo estado do Rio de Janeiro à Assembleia Nacional Constituinte na legenda do Partido Popular Radical (PPR).

62 Heitor Annes Dias nasceu em Cruz Alta (RS) no dia 19 de julho de 1884. Bacharelou-se pela

Faculdade de Medicina de Porto Alegre em 1905. Em maio de 1933, elegeu-se deputado pelo Rio Grande do Sul à Assembleia Nacional Constituinte, na legenda do Partido Republicano Liberal (PRL). Como deputado constituinte, apresentou proposições contra o divórcio e sobre endemias rurais.

Socialista Fluminense (PSF), mas desligou-se dessa agremiação e organizou a União Progressista Fluminense (UPF), legenda pela qual se elegeu deputado à Assembleia Nacional Constituinte.

Nos debates, assumiu ferrenha posição contrária às reivindicações católicas. Em uma nota de um jornal católico contrário à posição de Gwyer de Azevedo, afirma que esse seria mentoriado pelo pastor presbiteriano, Rev. Benjamin César, da Igreja Presbiteriana de Campos. Entretanto, nesta pesquisa não foi possível associar o constituinte a essa denominação protestante. De qualquer forma, Gwyer de Azevedo faz duras críticas às intenções da Igreja católica de reimplantar a religião oficial (ANNAES, p. 492, v. II). Juntamente com Guaraci Silveira, denuncia o que seriam as reais intenções da Igreja. Nesse sentido, também critica as ações da LEC, que, em sua opinião, atuava como “partido político que se esconde”63 (ANNAES, p. 238, v. V).

4.3.4 Costa Fernandes

Francisco da Costa Fernandes nasceu em Brejo (MA), no dia 17 de março de 1879, filho de Raimundo da Costa Fernandes e de Amália Fernandes Bacelar, de tradicionais famílias maranhenses. Ingressou na Faculdade de Medicina de Salvador, pela qual se formou em 1903. Aperfeiçoou-se em urologia e em obstetrícia na Faculdade de Medicina de Paris. Em maio de 1933, elegeu-se deputado pelo Maranhão à Assembleia Nacional Constituinte na legenda da União Republicana Maranhense, com o apoio da LEC.

A atuação de Costa Fernandes foi marcada pela defesa na Assembleia Constituinte dos interesses da Igreja representados na questão religiosa. Defende a separação entre Igreja e Estado, sem prejuízo, no entanto, para a colaboração mútua. O ensino religioso é defendido como de grande importância para a Nação, no que diz respeito à sua regeneração moral, já que “sem religião, não há moral” (ANNAES, p. 274, v. II). O perigo vermelho é outra ênfase importante, contra o qual o ensino religioso é um fator importante. A referência ao ditador italiano Mussolini como grande líder internacional revela o tom do discurso de Costa Fernandes.

63 Dado o caráter internacional da Igreja católica, ela não poderia constituir um partido político, se

fosse respeitada a mesma lógica de quando se negou autorização ao partido comunista para se organizar legalmente como partido político, sob o pretexto de se tratar de uma organização internacional. A acusação pode ser verificada em: ANNAES, p. 238, v. V.

Defende a indissociabilidade entre educação e religião, uma vez que, para ele, “a religião é que dá sentido á vida, pois a ciência disso é incapaz. É necessário o conhecimento dos destinos do homem, porque, sem êsse idéal, não é possível comparar os valores morais” (ANNAES, p. 108, v. V).

4.3.5 Teotônio Monteiro de Barros Filho

Teotônio Monteiro de Barros Filho nasceu em Ribeirão Preto (SP), em 31 de agosto de 1901. Como aluno de direito da Faculdade de Direito de São Paulo, militou ativamente na política acadêmica. Formado, exerceu a advocacia na região de Araraquara (SP). Em 1932, participou da Revolução Constitucionalista. Por ser reservista, foi incorporado às forças revolucionárias no posto de sargento, sendo promovido durante a campanha ao posto de tenente e, posteriormente, ao de capitão. Foi um dos fundadores da Federação dos Voluntários de São Paulo, organização criada para congregar os voluntários que haviam participado do movimento rebelde. Essa agremiação participou da formação da Chapa Única Unida por São Paulo, legenda pela qual foi eleito deputado à Assembleia Constituinte, em 1933.

Barros Filho foi encarregado de estudar o capítulo do anteprojeto da Constituição referente ao Poder Executivo, apresentando uma série de emendas relativas e esse ponto. Nesta tese, ganham destaque seus discursos sobre a questão imigratória, nos quais defende uma política restritiva, com base em princípios eugênicos, de modo que indo-europeus, principalmente mediterrâneos (leia-se italianos e espanhóis católicos) fossem favorecidos (ANNAES, p. 236, v. VI). No pensamento de Teotonio Monteiro de Barros, a educação rural é inserida no objetivo de se formar no imigrante uma mentalidade nacional. Para ele, assim como a educação, a Igreja também desempenha um importante papel nacionalizante (ANNAES, p. 242-243, v. VI). Nesse sentido, também se destaca como um defensor importante da pauta religiosa.

4.3.6 Pacheco e Silva

Antônio Carlos Pacheco e Silva nasceu na cidade de São Paulo, no dia 29 de maio de 1898. Em 1915, ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

Especializou-se em neurologia e psiquiatria na Faculdade de Medicina de Paris e, de volta ao Brasil, passou a trabalhar no Hospital de Juquiri, em São Paulo, do qual se tornou diretor em 1923. Em 1928, foi um dos fundadores da Liga Paulista de Higiene Mental, da qual foi primeiro presidente. Foi eleito, em 1933, enquanto Diretor do Sanatório Pinel, por unanimidade de votos dos sindicatos paulistas, deputado à Assembleia Nacional Constituinte, como representante dos empregadores.

Na Constituinte, defende um discurso higienista com forte viés eugênico. Defende a escolarização, no sentido de que a educação teria o importante papel de propagar os novos conhecimentos na área de higiene pública. Nessa esteira, defende ainda a educação eugênica e sexual.

4.3.7 Miguel Couto

Miguel de Oliveira Couto nasceu no Rio de Janeiro, então capital do Império, em 1º de maio de 1864. Fez os estudos secundários no Colégio Pedro II e ingressou na Faculdade de Medicina em 1880, formando-se em 1885. Ingressou como membro titular na Academia Nacional de Medicina em 1896, tendo sido eleito seu presidente em julho de 1914 e sucessivamente reeleito até sua morte em 1934. Ocupou ainda a cadeira número 40 da Academia Brasileira de Letras. Em 1924, preocupado com os problemas educacionais brasileiros, pronunciou uma série de conferências que contribuíram para o aprofundamento do estudo da matéria no país. Em agosto de 1932, durante a Revolução Constitucionalista, desempenhou o papel de mediador entre o governo federal e os revoltosos de São Paulo. Em maio de 1933, elegeu-se deputado à Assembleia Nacional Constituinte na legenda do Partido Economista, tanto pelo Distrito Federal quanto pelo estado do Rio de Janeiro. O regimento da Assembleia, contudo, obrigava-o a optar por um dos mandatos, e Miguel Couto escolheu a cadeira do Distrito Federal, deixando a do estado do Rio para Laurindo Augusto Lengruber Filho.

Membro da Comissão de Saúde da Assembleia, interessou-se ainda por duas questões: a educação e a imigração. Na defesa da primeira, afirmava que o único problema nacional era a educação do povo, assertiva utilizada por outros deputados sempre em referência à credibilidade de Miguel Couto. Foi autor da emenda vitoriosa que obrigava o emprego de 10% da renda federal na instrução pública.

Quanto à imigração, liderou a corrente que se opunha à imigração não europeia, desenvolvendo intensa campanha contra a entrada de japoneses no Brasil.

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