A conceituação de condutas-em-interação como movimentos de identidades, em referência a condutas como tomadas de posição, segue Karin Aronsson em sua argumentação de que o
46 No original: “[...] Social spaces are far too stratified. […] They do not leave room for maneuver”.
47 Christina Bratt Paulston, Scott F. Kiesling e Elizabeth S. Rangel (2012) apresentam uma discussão ampla sobre os temas da interculturalidade e discursividade, da qual Canagarajah participa (Cf. Canagarajah, 2012).
48 No original: “[...] The possibility that language norms may be renegotiated or that spaces can be reconstructed by people in communicative situations needs more appreciation”.
49 No original: “There is much in the moment-to-moment evolving of social action that defies a prioris about identity, community and action itself [...]. [W]hatever we consider to be identity in interaction cannot be formulated in terms of stuff that is already there – resources, social categories, opportunities and constraints on action – but needs to be seen as concrete, actual social effects of such situated interactions”.
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“alinhamento seja visto como um tipo específico de tomada de posição”50 (ARONSSON, 1998, p. 79). Essa mesma fundamentação acerca da tomada de posição como movimentos de identidades leva ao entendimento sobre agentividades como decisões performáticas ao se observarem efeitos de tomadas de posição ligados à natureza estratégica das condutas. Essa natureza estratégica se verifica, por exemplo, em relação ao valor orientacional de vigilância atribuído a potenciais observadores copresentes mediados pela presença dos artefatos. A discussão sobre agentividades e identidades como decisões performáticas tem como base os conceitos de performatividade e performance. A abordagem de escalas-em-interação traz a ideia da configuração das condutas como resultante da interseção de interpretações de potenciais performatividades realizadas em performances (decisões performáticas). Tomo de Bauman e Briggs (1990) o entendimento da performatividade como o sentido abstrato da realização de ações (action-making reasoning) e o da performance como o sentido realizado (reasoning deployment). Para o sentido abstrato da realização de ações na conformação da noção de performatividade, Bauman e Briggs (1990, p. 65) se referem à performatividade como “a interação de padrões formais complexos e heterogêneos na construção social de realidade[s]”51. Essa interação se relaciona aos processos (dialéticos nos termos de BAUMAN e BRIGGS) de julgamentos de potenciais performatividades na configuração das decisões performáticas (performances realizadas). Vê-se a ratificação desse entendimento no chamado desses autores para a consideração que “dê maior atenção à dialética entre performance[s] e seus contexto[s] sociocultura[is] e político-econômico[s] mais amplo[s]”, como forma de “explorar a relação [de discursos performáticos] com uma diversidade de contextos sociais”52 (BAUMAN; BRIGGS, 1990, p. 61).
Sobre o aspecto dialógico (com sentido relacional) na noção de performance com um valor de indiciação de discursos performáticos, Bauman e Briggs (1990, p. 60) afirmam:
[...] uma dada performance está ligada a um número de eventos de fala que o precedem e o sucedem [...]. Uma análise adequada de uma simples performance, então, requer trabalho etnográfico sensível de como suas forma e significado indiciam uma ampla gama de tipos de discurso, alguns dos quais não enquadrados como performance53.
A argumentação de Bauman (2000, p. 4) sobre a performance, compreendida como “um modo eficaz de prática linguística, um potente meio de criar, negociar e demonstrar significado e valor social em realizações comunicativas na vida social”54 reforça o entendimento sobre
50 No original: “Alignment can be seen as a specific type of positioning”.
51 No original: “[...] as the interaction of complex and heterogeneous formal patterns in the social construction of reality”.
52 No original: “[...] greater attention to the dialectic between performance and its wider sociocultural and political-economic context, we stress the way poetic patterning extracts discourse from particular speech events and explores its relationship to a diversity of social settings”.
53 No original: “A given performance is tied to a number of speech events that precede and succeed it [...]. An adequate analysis of a single performance thus requires sensitive ethnographic study of how its form and meaning index a broad range of discourse types, some of which are not framed as performance”.
54 No original: “[…] a consequential, efficacious mode of linguistic practice, a potent means of creating, negotiating, and displaying social meaning and value in the communicative accomplishment of social life”.
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a conformação da performance como o sentido realizado. A ideia da decisão performática, relacionada a agentividades e identidades em escalas locais na interação comunicativa em diálogo com escalas translocais, equivale ao conceito de “realizações comunicativas” (como performances) de Bauman (2000). A mesma equivalência se dá em relação ao conceito de “performances” em Alastair Pennycook (2007, p. 69, ao referenciar BUTLER, 1990): “uma maneira de realizarmos atos de identidade como uma série de performances sociais e culturais em processo ao invés da expressão de uma identidade prévia”55. Vejo tal equivalência ao entender que esses conceitos – decisões performáticas, realizações comunicativas e atos de identidade – dizem respeito a sentidos realizados como performances, a partir do conceito de performatividades como o sentido abstrato da realização de ações; performatividades sendo relacionadas a potenciais contextos de interpretação julgados para a construção dos sentidos realizados nas decisões performáticas.
Nessa mesma direção de equivalências teóricas (e metodológicas), observo uma convergência na conceituação de performatividade em Joana Pinto (2007), em sua perspectiva de radicalidade no trabalho com performatividades, segundo a visão performativa da linguagem, que “deve integrar a complexidade das condições do sujeito que fala e levar às últimas conseqüências a identidade entre dizer e fazer, insistindo na presença do ato na linguagem; ato que transforma – opera” (PINTO, 2007, p. 7). A autora, ao referenciar Judith Butler (1997) sobre condições do ato de fala na perspectiva de enunciados performativos, reforça o entendimento da performatividade conformada por condições de realização para além da noção de “contexto simples”, com limites de tempo e espaço “facilmente definidos” (Cf. PINTO, 2007, p. 9).
A partir do entendimento da noção estendida – integrativa de complexidade de condições (para dizer e para fazer) na configuração de atos de identidade – na compreensão das performatividades, conformada por condições de realização para além da noção de contexto simples com limites de tempo e espaço facilmente definidos, atribui-se um valor convergente à noção de contextos como condições de interpretação na construção de sentidos, seguindo o conceito de contextualização em Blommaert (2018a) e Blommaert et al. (2018). Outra equivalência entre os conceitos decisões performáticas, realizações comunicativas e atos de identidade é observada com relação ao componente ideológico nas construções das agentividades como
“práticas comunicativas”. Parafraseando Blommaert (2018a), práticas desse tipo conformam sempre e invariavelmente “ato[s] de [realização de] identidades”56. A referência à negociação de significado e valor social em realizações comunicativas na vida social, por Bauman (2000), referida acima, reforça o componente ideológico como componente intrínseco das agentividades como práticas comunicativas.
55 No original: “[...] a way [of] perform[ing] acts of identity as an ongoing series of social and cultural performances rather than as the expression of a prior identity”.
56 No original: “Communicative practice is always and invariably an act of identity”.
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A ideia da inter-relação entre agentividades e identidades se explica ao compreendê-las construídas em diálogos que estabelecemos conosco e com os outros e, ao mesmo tempo, definindo representações e realizações de sentidos (interpelações), sobre nós e sobre os outros, com base em contextos nos quais interagimos. Essa compreensão sobre a construção dialógica de representações e interpelações corrobora a noção de extensão integrativa de complexidade de condições (para dizer e para fazer) na configuração de atos de identidade (PINTO, 2007).
Para a noção de identidades e agentividades (no plural), tomo o conceito de pluralização de identidades em Stuart Hall (2006 [1992], p. 12), o qual caracteriza o sujeito pós-moderno (nos termos do próprio Hall): “[...] como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente.
A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam”.
Com base nessa afirmação, as noções de representação e interpelação ligadas ao conceito de identidades, e aqui, também, ao de agentividades, como atos de tomada de posição de agentes-em-interação, se referem a adjetivações que predicam coisas e pessoas e resultam em uma imagem concreta – real ou virtual –, observando-se o caráter situado das representações e interpelações.
Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau (2004, p. 433, referenciados em MARIN, 1993) afirmam que “representações configuram-se em discursos sociais que testemunham, alguns, o saber de conhecimento sobre o mundo, outros, sobre um saber de crenças que encerram sistemas de valores dos quais os indivíduos se dotam para julgar essa realidade”. A apreensão de valores é vista como a representação e a atribuição de valores como a interpelação e ambas se dão a partir das vivências nos diversos contextos de experiências (eventos) dos agentes-em-interação. O aspecto situado dessas apreensão e interpelação é reforçado ao serem tomadas como imbricadas uma na outra na perspectiva dialógica e intersubjetiva da construção dos sentidos na ação social.