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1.2. Características do Concílio

1.2.1. Aggiornamento

Não é possível falar da natureza reformista do Concílio, quer seja na linha da descontinuidade ou ruptura ou da hermenêutica da reforma ou continuidade na novidade, sem entender, ainda que em linhas gerias, o sentido do termo aggiornamento. Conforme Almeida,

Aggiornamento significa, em italiano, atualização. Tem três sentidos básicos: pôr em dia ou manter em dia; modernização, adequação a exigências ou critérios novos; adiamento. Usado por João XXIII para indicar o escopo do Vaticano II, o termo passou a ser usado, em âmbito eclesial, sem tradução. Não aparece como tal nos textos do Vaticano II, senão sob expressões latinas equivalentes como “accommodatio”,

“renvatio”, “adaptativo”, “instauratio” e análogas41.

Particularmente, João XXIII falou do termo Aggiornamento em novembro de 1958, quando, retornando do Castel Gandolfo para Roma, com seu secretário particular, apontou a necessidade da Igreja se mostrar ao mundo, jovem e dinâmica e de transmitir o evangelho de

38 Libanio, nesse sentido, afirma: “Há duas leituras possíveis de um fato novo. Considerá-lo na linha da

continuidade com os dados anteriores ou atender ao aspecto novo de ruptura. Assumiremos neste estudo essa segunda leitura do Concílio Vaticano, e não o consideraremos na linha de Trento e Vaticano I”. (LIBANIO, João Batista. Concílio Vaticano II. Em busca de uma primeira compreensão. Op. cit., p. 13).

39 Bento XVI no seu discurso de Natal à Cúria Romana, falando das interpretações do Concílio, destacou duas

hermenêuticas que chamou de: hermenêutica da ruptura e da reforma da renovação na continuidade do sujeito histórico. No início do segundo capítulo serão aprofundados elementos do discurso do Papa. (Cf. BENTO XVI.

Discurso aos cardeais, arcebispos e prelados da Cúria Romana na apresentação dos votos de natal: 22/12/2005.

Vaticano: 2005. Disponível em: https://w2.vatican.va/content/benedict-

xvi/pt/speeches/2005/december.index.html. Acesso em 20 de agosto de 2018).

40 É sabido que o Concílio foi muito abrangente e vários termos poderiam ser lembrados para qualificá-lo: por

exemplo: comunhão, diálogo, colegialidade, povo de Deus, ecumenismo, mundo, missão, liberdade.

maneira nova. Publicamente, o termo foi mencionado por ele no primeiro anúncio do Concílio feito aos Cardeais em janeiro de 1959, como sinônimo de atualização, naquele momento em referência ao Código de Direito Canônico42. O termo aggiornamento é o mais apropriado por João XXIII para traduzir o projeto do Concílio a serviço da reforma na Igreja, compreendida em dois sentidos: primeiro, como retorno às fontes e segundo, como a capacidade de apresentar de maneira nova a doutrina do evangelho, em atenção a uma leitura autêntica aos “sinais dos tempos” e ao processo de renovação vivido pela humanidade.

Assim como os objetivos, amadurecidos aos poucos no pensamento do Papa, foram sendo por ele manifestos, o mesmo se deu com o termo aggiornamento. Ele foi evoluindo progressivamente e, aos poucos, adquirindo significado para João XXIII e sinonimamente, notoriedade nos seus escritos e alocuções, associado primeiramente à forma pastoral a ser acolhida pelo Concílio, lembrado e revistado após cada etapa conciliar.

O projeto de aggiornamento traçado por João XXIII foi acolhido por Paulo VI. Falando aos participantes na XIII Semana de Atualização Pastoral, em 6 de setembro de 1963, Paulo VI explicou o significado do termo aggiornamento43.

Mais tarde, na Carta Encíclica Ecclesiam Suam, publicada em 6 de agosto de 1964, portanto, durante o Concílio, Paulo VI retomou o termo, definindo-o como critério de direcionamento do Vaticano II em vista da reforma da Igreja44. Deste modo ao acolher o termo

42 Cf. KLOPPENBUG, Boaventura. Concílio Vaticano II: v. I. Op. cit., 38.

43 “Procurando ler em vossas almas, parece-nos descobrir que esperais nossa aprovação, nossa confirmação,

daquilo que, qual oferta rica de sentido, a vossa visita vem apresentar diante de nós. Antes de tudo, vindes levantando uma palavra introdutória como estandarte que define o método de vosso trabalho: “aggiornamento”, palavra esta que teve a honra de ser aceita por nosso venerado e sofrido predecessor João XXIII, de feliz memória, e que foi gravada por ele no programa do Concílio Ecumênico.

Aplicada ao campo eclesiástico, é uma palavra que indica a relação entre os valores eternos da verdade cristã e sua inserção na realidade dinâmica e extraordinariamente mutável da vida humana, que na história atual, inquieta, turbulenta e fecunda, é contínua e diversa. É a palavra indicadora do aspecto relativo e experimental do mistério da salvação, o qual nada diga além do que é ser eficaz, e percebe quão condicionada é sua eficácia para o estado cultural, moral e social das almas às quais ele se dirige, e quão oportuno para a boa cultura, e especialmente para o desenvolvimento prático do apostolado, conhecer as experiências distantes e fazer suas as boas: “Provai tudo e ficai com o bom” (1Ts 5,21). É a palavra que teme aos hábitos superados, aos cansaços que retardam, às formas incompreensíveis, às distâncias neutralizantes, à ignorância presunçosa e inconsciente sobre os novos fenômenos humanos, como também a minguada confiança na perene atualidade do Evangelho. É a palavra que pode parecer servil à moda caprichosa e passageira, ao existencialismo que não acredita nos valores objetivos transcendentes e somente aspira uma plenitude subjetiva e momentânea, mas que dá a devida importância à sucessão rápida e inexorável dos fenômenos, nos quais se desenvolvem nossa vida, e procura seguir o conselho do Apóstolo: “Aproveitai o tempo, pois os dias são maus” (Ef 5, 16).

É, por tanto, a palavra que aceitamos com gosto, como manifestação da caridade desejosa de testemunhar sobre a perene e a moderna vitalidade do ministério eclesiástico”.

(PAULO VI. Discurso aos participantes na XIII Semana de Atualização Pastoral: 06/09/1963. Castel Gandolfo: 1963. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/paul-vi/es/speeches/1963/documents/hf_p- vi_spe_19630906_ministri-dio.html. Acesso em 20 de agosto de 2018). Tradução nossa.

44 Na versão portuguesa da Encíclica Ecclesiam Suam, o termo aggiornamento aparece traduzido por

aggiornamento de seu antecessor, Paulo VI manifestava o desejo de continuar o Concílio na

esteira da reforma, mas com coordenadas bem delimitadas e metas bem definidas com objetivo de produzir uma profunda atualização da Igreja, em vista da compreensão da mesma de si e da missão de manifestar Cristo ao homem atual. Ou ainda conforme Libanio: “Em resumo,

aggiornamento não traduziu uma simples modernização externa das instituições eclesiásticas,

mas uma profunda reformulação da compreensão da Igreja a partir do embate com o mundo moderno”45.

Vale ressaltar que a recepção do termo não se deu de maneira tranquila por dois motivos: coexistência de duas lógicas essencialmente diferentes do rumo que o Concílio deveria tomar, especialmente na dimensão da doutrina. As dificuldades, como serão apontadas adiante, se tornaram visíveis e acirradas logo no primeiro período do Concílio no debate do primeiro esquema sobre a revelação. A Comissão teológica, incumbida de preparar um esquema a ser discutido em aula conciliar, demonstrava outro enfoque teológico diferente do apontado por João XXIII. Este esperava uma atualização do discurso doutrinário. A linguagem do texto apresentado pela Comissão não trazia nenhuma novidade referente ao sinalizado por João XXIII. Vê-se nisso uma oposição ao aggiornamento da doutrina, conforme desejado pelo Papa; o outro motivo é sobre interpretações unilaterais ou reducionistas do termo. Para alguns, tratou- se de uma descontinuidade da Igreja enquanto sujeito histórico46, de uma ruptura radical do Concílio com outros, preferencialmente Trento e Vaticano I ou de uma reforma no sentido moderno da coisa, isto é, mudanças de práticas externas, consideradas antiquadas, por outras práticas. De acordo com Libanio:

A modernização contemplou um aspecto externo que chamou muita atenção, mas não tocou o coração da novidade do Concílio. Ela afetou a linguagem, a vestuário, muitos ritos, o modo de viver do clero e dos religiosos. Passou como um tufão por várias casas de formação religiosa, quebrando costumes ancestrais e introduzindo nelas hábitos e formas de viver modernizados47.

Nenhuma das interpretações chega ao âmago da questão posta por João XXIII e aprofundada por Paulo VI sobre a autêntica renovação promovida pelo Concílio em favor da Igreja, chamada a se compreender a partir da escuta de Jesus Cristo, Palavra do Pai e da escuta, tornar-se mediadora e anunciadora da Palavra no mundo e na vida do ser humano na atualidade.

45 LIBANIO, João Batista. Concílio Vaticano II. Em busca de uma primeira compreensão. Op. cit., p. 73. 46 É sobretudo Bento XVI que aprofunda este aspecto ao revisitar pelo menos duas leituras vigentes sobre o

Concílio, tratadas por ele no discurso dirigido aos membros da Cúria Romana por ocasião das festividades natalinas em 2005. Teremos a oportunidade de aprofundar aspectos de seu discurso na passagem deste para o segundo capítulo deste trabalho.

Nesse sentido esta é a verdadeira compreensão da renovação da Igreja a ser assumida pelo Concílio e, sob esse mesmo princípio, considera-se se o enfoque pastoral.