2 AGLOMERAÇÕES PRODUTIVAS REGIONALIZADAS E MEIO DE PRODUÇÃO FLEXÍVEL
2.3 AGLOMERAÇÕES INDUSTRIAIS EM AMBIENTES PERIFÉRICOS
Tendo ciência de que o espaço territorial é objeto de relevante investigação econômica, o território fica entendido como o espaço econômico socialmente construído, dotado não apenas dos recursos naturais da geografia física, mas também da história construída pelos indivíduos naquela localidade, através de convenções e regras, de arranjos institucionais que lhes dão expressão e formas sociais de organização de produção.
Assim, o território é o locus de produção de bens e reprodução do capital. De modo que, as ações coletivas e de coordenação surgem em decorrência da própria natureza produtiva que, como afirma Storper (1995), é uma forma de ação coletiva fundada sobre o paradoxo das ações individuais que são interdependentes e, portanto, caracterizadas pela incerteza. Entretanto, compreender a força de aglomerações em regiões periféricos do capitalismo é
extremamente relevante, já que o paradigma de acumulação flexível atingiu diferentes fronteiras.
O termo periferia, apesar de descrever uma situação geral, tem um sentido estrito, devido ao desenvolvimento desigual da economia capitalista que vai conferir peculiaridades às formas de reprodução do capital. Elementos significativos na construção de uma forma de pensamento tratados em contribuições como em Oliveira (2003). Mas no que aborda a economia regional, não é novo as diferentes pesquisas que envolvem o interesse em desenvolver áreas periféricas, que surgiram desde a década de 1950.
Destacam-se aí três conceitos-chaves. O primeiro, o conceito de “pólo de crescimento” desenvolvido por Perroux (1970); o segundo, o conceito de “causação circular cumulativa” de Myrdal (1957); e, o terceiro, o conceito de “efeitos para trás e para frente” de Hirschman (1958 apud AMARAL, 2001)8. Esses três autores passaram a dar maior ênfase aos fatores
dinâmicos da aglomeração, na medida em que incorporaram como fator de localização a “complementaridade” entre firmas e setores, assim como a noção de economia de escala mínima da firma.
Nesse sentido, o argumento-chave dessas teorias (MYRDAL, 1957; HIRSCHMAN, 1958 apud Amaral, 2001) surge do fato de que as forças econômicas de atração e repulsão atuam no espaço, de forma desequilibrada, por meio de um processo circular cumulativo. Desde que as forças de atração favoreçam uma região em detrimento de outra, se estabelece um processo de concentração de fatores e de produção de bens e serviços no espaço – centro – no qual as relações de troca com a região desfavorecida – periferia – recriam a dinâmica centro-periferia.
O fator escala de produção aglomerada, no nível espacial, é o fator-chave dessa dinâmica, ao criar retornos crescentes localizados. O que permite estabelecer uma retroalimentação interna de oferta-demanda, via expansão de fatores, expansão da produção e da demanda intermediária e final de bens.
Mesmo que a teoria vislumbre eventual reversão desse movimento de polarização espacial - o qual favorece a atração de fatores e de produção de bens nas regiões periféricas - nada indica
8 Sem acesso a HIRSCHMAN, A. The strategy of economic development. New Haven: Yale University Press, 1958.
que venha ocorrer a convergência inter-regional absoluta do nível de desenvolvimento. Ao contrário, a dinâmica de reversão de polarização é, geograficamente, restrita a localidades próximas ao centro, caracterizando o que Richardson (1973) denominou de “dispersão concentrada”.
Para Kaldor (1994), o crescimento é devido a indústria de transformação ao longo do processo de industrialização de economias capitalistas nacionais. Segundo este argumento, os retornos crescentes de escala da produção industrial agregada vão alimentar o aumento da produtividade na forma do processo de crescimento circular cumulativo, que dinamiza pelo processo de aprendizagem e capacitação. Esta análise kaldoriana é factível quando observada economias capitalistas nacionais.
Já Jacobs (1960) vai incorporar apenas a camada territorial das vantagens de escala da produção aglomerada, ou seja, a abordagem do território urbano. Ao contrário de Kaldor (1994) centrado na indústria, o urbano assume lugar central na geração de externalidades aglomerativas dinâmicas. A escala de aglomeração industrial diferencia-se da urbana no sentido de que, na primeira, a geração de externalidades é a especialização produtiva de um segmento industrial utilizando a base tecnológica específica. Já a escala de aglomeração urbana vai abordar a diversificação produtiva, que não é a soma de especializações, mas um produto urbano gerado por inovações induzidas pelo próprio crescimento urbano.
O entendimento da dinâmica centro-periferia envolve as escalas urbano-industrial no espaço baseadas nas formações econômicas e formas específicas de reprodução do capital. No contexto do espaço macrorregional latino-americano, a dinâmica centro-periferia vai ser realizada pelo pensamento cepalino9.
A problemática da periferia, segundo a corrente cepalina, é a industrialização. Seja a ausência (Prebisch, 1998), seja por seus problemas estruturais (TAVARES, 1975). Os problemas de crescimento, seguindo uma orientação kaldoriana relacionados à restrição da escala da produção-demanda industrial agregada, manifestam-se de maneira aguda devido a presença de restrições externas de divisas em países periféricos.
9 A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) foi criada em 1948 pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas com o objetivo de incentivar a cooperação econômica entre os seus membros. Formada por um grupo seleto de economistas da escola estruturalistas do pensamento econômico, como Raúl Prebisch e Celso Furtado.
Logo, tais restrições de escala existentes e restrições externas de divisas passam a compor os limites do crescimento e da própria indústria nacional. A contradição recorrente entre progressão na substituição de importações de novos segmentos industriais e aumento da demanda de importações (bens de capital e de produtos intermediários) vai manifestar-se através de restrição de divisas cambiais, em razão da relativa rigidez da pauta de exportações, essencialmente primário-exportadora (BIELSCHOWSKY, 2000).
No caso de países de grande porte, como Brasil e México, a visão cepalina aponta que as restrições de escala interna são atenuadas, o que permitiu maior progresso da industrialização substitutiva. Porém, mantendo como crônico o problema cíclico de crise do balanço de pagamentos como fator de restrição ao crescimento do produto interno. E, pela ótica fiscal dessas dificuldades, é o déficit público, dado o elevado custo da industrialização. Principalmente, custoso devido ao elevado investimento em capital social básico, como infraestrutura física que não é empreendida pelo setor privado e possui um custo irrecuperável. É esse ambiente periférico de natureza estrutural no qual os sistemas produtivos dos países de industrialização retardatária, em particular os latino-americanos estão imersos em seu esforço de desenvolvimento (TAVARES, 1975).
Uma outra dimensão de análise a ser explorada se refere a incorporação insuficiente do progresso técnico pela periferia no processo de industrialização. Poucos são os países ou regiões que inovam no sentido de criação de novos produtos e processos capazes de mudar a fronteira do conhecimento. Fajnzylber (1992) e Lall (2003) apontam que muito dos investimentos realizados por esses países é voltado para aquisição, domínio e melhoria de tecnologias existentes. Mas o esforço empreendido pela periferia para a incorporação do progresso técnico é muito superior ao realizado pelos países com uma industrialização mais madura.
No âmbito produtivo, Fajnzylber (1983) salienta que essas deficiências de países periféricos de endogeneizar a produção de bens de capital – segmento responsável pela incorporação e difusão do progresso técnico – configura uma industrialização truncada. Pois, o comprometimento da construção das capacidades de absorção e de aprofundamento tecnológico, reforça a restrição externa, na medida em que as importações se tornam incompreensíveis estruturalmente, e que, por fim, afetam os efeitos de encadeamentos tecnológicos interindustriais.
Isso pode ser corroborado pelo fato que Storper (1990b) retoma ao abordar a industrialização em países periféricos – tratados pelo autor como “terceiro mundo”. No qual, as estratégias de industrialização de muitos países periféricos da década de 1950 até o final dos anos 1970 foram essencialmente voltadas para a transferência de um modelo tecnológico-institucional, de uma produção em massa fordista. Pois, as falhas de desenvolvimento desse período têm muito a ver com a forma como o paradigma de produção fordista foi inserido no contexto local pelos agentes locais.
Como as estruturas de competição global e trocas comerciais passaram por mudanças nos últimos 20 anos, novas formas tecnológicas e institucionais de produção surgiram. E que estão começando a definir, em um grau importante, o padrão competitivo que as indústrias que negociam nos mercados globais devem atender. (STORPER, 1990b, p.441).
Sob tal aspecto, o desenvolvimento de uma produção flexível pode trazer tanto uma oportunidade quanto um risco para o processo de industrialização de países periféricos. Storper (1990b) coloca que, por um lado, o processo de descentralizar a produção de países com industrialização madura para países de industrialização tardia não é constante. Logo, a reconcentração geográfica dos meios de produção e novos centros de desenvolvimento dentro da própria nação, é uma realidade factível para garantir o futuro de países de industrialização madura. Pois, os sistemas de produção flexíveis criam centros de crescimento altamente concentrados e os lugares se beneficiam enquanto outros são deixados para trás. Enfatizando a heterogeneidade estrutural.
Como relembra Schmitz (1989), países com industrialização tardia detém uma estrutura muito heterogênea. Composta por um número significativo de pequenas e médias empresas adotam este tipo de produção descentralizada, mas sem produção de inovações competitivas. Como modo de enfrentar a incerteza econômica generalizada e recursos nacionais escassos.
Por outro lado, a oportunidade existente da produção flexível reside na questão de ser verificado na possibilidade de romper com padrões da primazia metropolitana. Já que Storper (1990b) afirma que setores de produção flexível são relativamente independentes dos tipos específicos de economias de aglomeração disponíveis nos antigos centros de indústria fordista. Ou seja, em complexos de produção em massa e acesso às habilidades de mão de obra disponíveis. Se seguirem a mesma tendência de produção flexível em países de
industrialização madura, nos quais as aglomerações de produção flexível crescem em locais distantes das indústrias de produção fordista.
A exemplo disso, no Brasil, também ocorreram várias modificações nas suas maiores aglomerações econômicas. A cidade do Rio de Janeiro, antes capital política e econômica do país, perdeu posição relativa para a cidade de São Paulo durante o processo de substituição de importações. E agora, mais recentemente, a própria cidade de São Paulo tem perdido peso relativo com o surgimento de novos parques industriais no seu entorno próximo e em outras cidades mais distantes, tais como Campinas, Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre. Essas mudanças nas aglomerações econômicas brasileiras estão registradas em vários trabalhos, tais como em Lemos e outros (2003), Diniz e Crocco (1996), Diniz (1993; 2000), Pacheco (1998), Sabóia (2000; 2001) e Azzoni e Haddad (1999).
Ainda assim, nem nos países de industrialização tardia nem nos países de industrialização madura existe fórmula normativa padronizada ou modelo de intervenção estatal capaz de trazer em existência tais complexos de produção flexíveis. Há enorme literatura acadêmica políticas de “tecnópolos”, “regiões criativas”. Mas a ressalva em aplica-las é que não se pode pensá-las como fórmulas simplistas transmitidas de uma nação para outra.
De modo geral, uma vez que uma região é inserida na competição mundial, os custos de trabalho, preços de energia, juros, custos com fiscalização não diferencia a localidade de nenhuma outra de qualquer lugar do mundo e apenas essas variáveis não atraem investidores. Por que custos podem ocorrer em níveis menores em qualquer outra parte do globo (BENKO, 2001b).
O que vai tornar uma região mais atraente aos investidores, dado o contexto atual, são as especificidades regionais. Esse fator é o que Boisier (1994) e Benko (2001b) destacam que vai tornar uma região pouco intercambiável para determinar quais produtos serão produzidos nela. Já que vão estar intrínsecos no produto especificidades que tornam o bem único na comercialização mundial. Como, por exemplo, os vinhos franceses e californianos, a alta costura de Paris e Milão detém especificidades que trazem no produto local e são reconhecidos e valorizados em qualquer lugar do mundo. Os exemplos são múltiplos quando os fatores decisivos de localização estão fora do mercado (não são quantificáveis), e os elementos qualitativos de um lugar são os que determinam as escolhas das empresas.
O mundo globalizado é um mosaico composto de uma gama de regiões, de localidades, de países, que não são, necessariamente, equivalentes, com aponta Benko (2001b). Surgindo um novo conceito - “glocalização” - neologismo para designar a articulação expandida dos territórios locais em relação a economia mundial, enfatizando uma inscrição espacial dos fenômenos econômicos, sociais e culturais. Diferente dos mais pessimistas, os territórios – com suas especificidades – não foram apagados sob os fluxos econômicos da mundialização. Trazendo que no futuro é mais preferível uma região competitiva e organizada para lidar com o comércio internacional do que apenas integrado com uma nação soberana.