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Em seu livro de memórias, uma das descrições que utiliza com maior frequência para caracterizar Lages é “o agreste de Santa Catarina”:

Temos, pois, com nossa garimpagem por épocas tão remotas, base para um esboço ainda que resumido do perfil dos lageanos que, há mais de dois séculos, povoam a antiga Região Serrana de Santa Catarina e que, com alguma propriedade, bem poderia ter sido chamada de “o agreste” catarinense. Agreste, com melhores razões que a área pernambucana assim denominada devido à caatinga, agressiva, árida, com suas minúsculas árvores contorcidas, espinheiros, cardos e gravatás, porque aqui no Sul a Mata Atlântica que cobria a totalidade da chamada Região Serrana, com seus pinheirais centenários, considerados “praga” até por volta de 1920, e a bugrada traiçoeira, perigosa, era muito mais fechada que a vegetação quase rasteira do nordeste. Agreste também pelo temperamento de seus povoadores e sem o atenuante da parte doce dos canaviais nordestinos (COSTA, 2002, p. 27).

Ao observar a forma como Licurgo Costa apresenta o seu local de nascimento, “o agreste”, é impossível não sentir o impacto da expressão “bugrada traiçoeira, perigosa”. Essa abordagem sobre a população indígena que compõe a história da Região Serrana de Santa Catarina é um indicativo de como Licurgo elabora as representações em sua escrita da História.

49 Licurgo nasceu em Lages, região serrana de Santa Catarina, em outubro de 1904, ou conforme ele enuncia, no “agreste”. Sua estreia na vida aconteceu em uma família de notáveis lageanos, nomes relevantes no cenário político catarinense, os quais ambientavam os primeiros anos republicanos do século XX. As próprias considerações de Licurgo sobre seu nascimento denotam tal condição familiar:

A bem dizer, quando nasci, na remota primavera de 1904, houve um certo rebuliço na antiga “Villa de Nossa Senhora dos Prazeres da Fronteira do Certam das Lagens”, que então já havia encurtado o seu longo e gracioso nome para Lages, simplesmente. Explica-se a agitação: afinal eu era, pelo lado materno o primeiro neto do coronel Belizário Ramos superintendente municipal – como se chamavam os prefeitos da época – e, o que não deixava de ser relevante, fazendeiro dos mais abastados da região serrana. E mais, era o primeiro sobrinho-neto do governador Vidal Ramos, que enfrentou seis dias de viagem, do Desterro a Lages para me conhecer e se congratular com o irmão pelo acontecimento. Naquele tempo estas deferências na família tinham grande significação. Mas também pelo lado paterno a situação não era menos brilhante, visto que era filho primogênito do secretário-geral da superintendência e respeitável jornalista, assim como neto do coronel João Costa, deputado estadual em várias legislaturas e então presidente da Câmara Municipal (COSTA, 2002, p. 33).

Os laços familiares do varão Licurgo Costa são referenciados como uma das mais sólidas oligarquias de Santa Catarina. Belizário Ramos, avô materno, foi superintendente municipal por mais de vinte anos. Tanto Belizário Ramos quanto seu irmão, Vidal Ramos, foram protagonistas do cenário político estadual durante a Primeira República, filhos de Vidal Ramos Sênior, um dos nomes fortes da política imperial da região, vinculado ao partido conservador. A família Ramos constituiu-se em uma das presenças políticas mais notáveis em Santa Catarina no século XX. Proprietária de grandes extensões de terra no planalto catarinense, constituiu, ao lado da família Konder Bornhausen – também de Santa Catarina –, uma das poucas oligarquias que

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acompanharam todos os movimentos políticos mais importantes do século XX, sem ceder à primazia da política estadual.

Figura 1: Belizário Ramos

Fonte: Arquivo do Museu Manoel Thiago de Castro

Figura 2: Adélia Ramos, mãe de Licurgo Costa

Fonte: Acervo pessoal de Licurgo Costa

A ascensão43 dos Ramos na política estadual ocorreu em 1902, quando Lauro Müller foi eleito governador, mas não cumpriu o

43 Vale registrar que ainda durante o período imperial, em 1883, a família

Ramos decidiu lançar dois de seus filhos na política. Primeiro, Belizário, que foi candidato a deputado provincial, mas fez apenas dois votos entre os 245 eleitores votantes. Nas eleições de 1885 para a Assembleia Provincial de Santa Catarina, foi lançada a candidatura de Vidal Ramos Júnior, eleito

51 mandato, em decorrência de ter sido convidado pela administração do Presidente da República, Rodrigues Alves, para ser ministro de viação e obras públicas. Em consequência, quem assumiu o cargo de governador entre 1902 até 1906, foi o lageano Vidal Ramos, que também o exerceu entre 1910 até 1914. Nesse período, dedicou grande parte de seu governo à reforma do ensino primário estadual. Do clã Vidal Ramos, tio-avô de Licurgo, outros nomes terão projeção política nacional, como o filho de Vidal Ramos, Nereu Ramos44, entre outros.

Os impactos da Proclamação da República45 em Santa Catarina, particularmente em Lages, uniram tanto os oriundos do extinto partido

irregularmente, pois ele tinha 19 anos, sendo que a idade mínima exigida era de 21 anos. Chegou a ser o 2º secretário da Casa em 1887. Após a derrota nas eleições de 1883, Belizário Ramos foi nomeado Delegado de Polícia de Lages e em 1886 concorreu à Câmara Municipal de Lages, ganhando para o quadriênio 1887-1890. Já nas eleições para a Assembleia Provincial de Santa Catarina em 1888, os dois irmãos concorreram por Lages. Com 115 votos, Vidal Ramos foi o mais votado, enquanto Belizário teve apenas um voto. Nas eleições para a Assembleia Legislativa Provincial, desde 1881 venciam os conservadores. No pleito para o biênio 1888-1889, venceram os liberais, e por causa disso, houve retaliações que atingiram os dois filhos do Velho Vidal Ramos. O deputado Vidal Ramos foi afastado da Assembleia, enquanto que o Delegado Belizário foi exonerado da Polícia de Lages. Em 1890, para tentar conciliar a situação entre os liberais e os conservadores, Lauro Müller nomeou para a delegacia de Lages e a intendência dois republicanos do Partido Federalista. Nas eleições de 1892, Belizário foi eleito vereador de Lages, assumindo a presidência da Câmara e a administração municipal. Vidal Ramos Júnior foi eleito deputado constituinte no Estado em 1894 e representante de Lages no Congresso Estadual para as legislaturas 1894-1895 e 1896-1897. Cf. VANALI, Ana Christina. Apontamentos iniciais para estudos genealógicos das famílias históricas e políticas da Região do Contestado (1880-1970). Revista Nep (Núcleo de

Estudos Paranaenses), Curitiba, v. 2, n. 2, p. 170-203, maio de 2016.

44 Formou-se em direito pela tradicional faculdade de São Paulo em 1909. Em

Santa Catarina, foi deputado estadual, governador nos anos 1930 e interventor no Estado Novo. Foi Presidente da República entre o final de 1955 e o começo de 1956, momento em que a UDN, derrotada nas eleições de 1955, não aceitava a vitória de Juscelino Kubitschek. Para evitar um golpe, a Assembleia Constituinte e mais alguns militares designaram o presidente do Senado, Nereu Ramos, para assumir o posto de Presidente e assim garantir a posse de Juscelino.

45 Para analisar como se deu a Proclamação da República em terras catarinenses,

são pertinentes as contribuições do estudo realizado pelo historiador Felipe Carlos Oliveira em sua Dissertação de Mestrado intitulada Aclamação da

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conservador, quanto os do extinto partido liberal. Ex-liberais e ex- conservadores agregaram-se ao Partido Republicano Catarinense - PRC. Nesse cenário, os irmãos Vidal e Belizário Ramos tornaram-se representantes de facções distintas, embora pertencentes ao mesmo partido e clã regional. Os ex-liberais serão mais próximos de Vidal, enquanto os ex-conservadores, de Belizário. Vidal Ramos foi superintendente municipal entre 1895 e 1902, além de deputado estadual até 1898. Em 1902, Vidal, a partir de articulações do PRC, segue em projeção estadual ao assumir o governo do Estado de Santa Catarina, conforme já mencionado. Já o irmão Belizário permaneceu em Lages e assumiu a superintendência do município entre 1902 e 1922, intercalando com o genro Otacílio Costa (1911-1914) e o filho Aristiliano Ramos (1919 até 1922). Ocorreram desavenças políticas entre os irmãos em 1920, quando Vidal Ramos, vice-presidente do partido, tentou promover a candidatura do filho, Nereu Ramos, à Câmara Federal, ação não bem sucedida na ocasião. Belizário Ramos, o filho Aristiliano e o genro, Otacílio, apoiaram Adolpho Konder, representante da elite do vale do Itajaí, apoiados por Hercílio Luz, ao passo que o clã do Vidal Ramos foi apoiado por Lauro Müller (VANALI, 2016, p. 180).

Ao lançar vistas para o papel ocupado pelos Ramos na política estadual, no decorrer das primeiras décadas republicanas, é oportuno salientar que, analisar os vínculos familiares e as posições político- partidárias, auxilia na compreensão do peso político das forças sociais e da ação desses agentes tanto no âmbito político quanto cultural. De tal modo que é possível mapear o quadro político catarinense, pontuando, em especial, a trajetória de duas oligarquias que se alternaram no poder, principalmente até a década de 1930. De um lado, Lauro Müller (com o apoio da família Ramos, especialmente Vidal), e de outro, Hercílio Luz (apoiado por algumas forças políticas do litoral e do vale do Itajaí, os Konder, como também, em muitas ocasiões, por Belizário Ramos). Vale destacar as redes de parentesco, oriundas de casamentos que representavam união de forças e articulações políticas. Filipe Schmidt, nome proeminente na política estadual, nasceu em Lages em 1859, porém, mudou-se cedo para o litoral. Por conta de sua origem, mantinha relações com as oligarquias lageanas e era primo-irmão de Lauro Müller, a figura de maior destaque do Partido Republicano Catarinense, República: imagens do ideário político catarinense, defendida no Programa de

53 em oposição à outra figura do mesmo partido, Hercílio Luz. Além disso, Belizário era casado com a irmã de Filipe Schmidt.

Os conchavos e conflitos seguiram até 1920, quando as discórdias acerca de decisões dentro do PRC acirraram as dificuldades de articulação entre Lauro Müller e Hercílio Luz (CORRÊA, 1996, p. 48). Ao final de 1920, o PRC começou as articulações para escolher os candidatos a deputado federal, e entre os nomes sugeridos pelo partido estava o de Nereu Ramos. Entretanto, depois de realizada a convenção partidária presidida por Hercílio Luz, o candidato escolhido foi um hercilista. As sugestões de candidaturas próximas a Lauro Müller não tiveram o esperado respaldo. Nereu Ramos saiu candidato, mas não pela chapa oficial, porém, pelo mesmo partido, mas de forma independente. Nessa situação, seu pai, Vidal Ramos, rompeu definitivamente com o partido e com Hercílio Luz, recolhendo-se em Lages para fazer a campanha do filho. Nereu não foi eleito. Tais episódios repercutem nas escolhas de Licurgo como um intérprete da história de Lages, de forma que é notável o destaque que o autor confere às ações políticas e culturais de Vidal Ramos e seu filho, Nereu Ramos.

Esses acontecimentos no cenário político repercutiram imediatamente no campo cultural, estendendo, para o interior das associações de eruditos, o faccionismo próprio do desempenho dos atores na vida partidária. Sociedades savantes, como a Sociedade Catarinense de Letras, eram o espaço de onde os agentes políticos retiravam seus trunfos de notabilidade, sendo que a consequência mais imediata desse entrecruzamento entre o desempenho político e a atividade intelectual era o espelhamento das dissensões nas arenas adjacentes às dos partidos e da administração pública. No caso da “Sociedade Catharinense de Letras, dirigida por hercilistas, estes impediram o ingresso de Lauro Müller, e prejudicaram a freqüência às sessões de Nereu Ramos” (CORRÊA, 1996, p. 50). Lauro Müller era membro da Academia Brasileira de Letras desde 1917 e patrono da cadeira número 26 da ACL. Nereu Ramos era membro da Academia Catarinense de Letras. No contexto que se apresenta, é oportuno apontar as forças no cenário cultural catarinense durante a Primeira República. Em espaços culturais, como o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina - IHGSC, fundado em 1896 por José Boiteux, era público o apoio do então governador, Hercílio Luz, no momento de sua fundação. Da mesma forma, ele foi um incentivador da criação da Sociedade Catarinense de Letras, inspirada na Academia Brasileira de Letras, que passou a se chamar, em 1924, a Academia Catarinense de Letras. O

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historiador Felipe Matos, em sua tese de doutorado46, elaborou uma investigação sobre o campo cultural em Florianópolis durante a Primeira República, evidenciando o quanto esse campo cultural estava subordinado ao Partido Republicano Catarinense:

Uma das características da chamada “Geração da Academia” apontadas pelos críticos literários foi o atrelamento de suas atividades ao poder político constituído, com práticas culturais desenvolvidas em torno da liderança efetiva do governador Hercílio Luz dentro do Partido Republicano Catarinense, desde a sua ascensão ao poder como primeiro governador republicano eleito depois da Revolução Federalista, até seu falecimento em 1925. O hercilismo concentrou em torno de si os principais nomes da elite cultural da Primeira República, embora talvez fosse apropriado afirmar que tais nomes se tornaram os principais da intelectualidade catarinense justamente pelo apoio hercilista que os legitimou (MATOS, 2014, p. 64).

Eram predominantes na composição da ACL, representantes do litoral, em grande maioria apoiadores de Hercílio Luz. A realidade cultural de outras regiões, como Lages, por exemplo, município da região serrana de Santa Catarina, não tinha quase nenhuma expressão representativa em instituições culturais como a ACL e o IHGSC, considerando que muitos intelectuais da época eram sócios de ambas. Em uma carta de Gama d’Eça, membro da ACL, enviada a José Boiteux, quando residira em Lages para ocupar o cargo de promotor provisionado, datada de 17 de maio de 1923, o então advogado relatou, entre outros assuntos, como andava a literatura no município serrano: “Aqui a literatura ainda está trepada em árvore, atravessando o seu longo período de antropóide e a ensaiar as peripécias das manifestações de linguagem” (CORRÊA, 1996, p. 53)47. E conforme o comentário do próprio Carlos Humberto Corrêa sobre tão desmerecida qualificação:

46 MATOS, Felipe. Armazém da Província: Vida literária e Sociabilidades

Intelectuais em Florianópolis na Primeira República. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina, 2014.

47 O historiador Carlos Humberto Corrêa cita essa carta em seu livro: Lições de Política e Cultura: a Academia Catarinense de Letras, sua criação e relações

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Era a posição do intelectual ilhéu da época, isolado do resto do mundo pois sequer existia ainda a ponte Hercílio Luz, que achava que seu canto de terra sobre o Atlântico era o centro do universo civilizado (CORRÊA, 1996, p. 53).

Não se tratava apenas da “posição do intelectual ilhéu isolado do resto do mundo”, mas também das disputas políticas travadas dentro do campo cultural. A escrita de Licurgo se contrapõe a esse desmerecimento das práticas literárias serranas, ao apresentar o que o autor intitula como “um centro cultural isolado no agreste”:

Não se julgue que o lageano fosse atrasado, tosco, indelicado. Em absoluto, ele era sim, um introvertido, austero, cerimonioso. E tinha boa cultura, estava mais ou menos em dia com a literatura brasileira. Os clubes dançantes que congregavam a sociedade local tinham denominações que denotavam uma preocupação desaparecida há várias décadas, eram clubes literários e recreativos. E sempre dotados de boas bibliotecas onde os sócios retiravam livros para ler em casa. E quando não a freqüentavam recebiam um bilhete do presidente, com um pito não muito delicado sobre seu desinteresse pela cultura.

Outro pormenor curioso estará no fato de que muitos lageanos assinavam grandes jornais e revistas da Europa. Em minha casa recebíamos La

Illustracion, de Paris, O Século, então maior

jornal de Lisboa, O Paiz e a revista O Molho, do Rio de Janeiro, e de Florianópolis, se não me engano, A República (COSTA, 2002, p. 35-36).

No Continente das Lagens, observam-se considerações sobre a ilustração dos jovens lageanos. Licurgo, inclusive, refere-se a Lages como a capital cultural de Santa Catarina à época:

com o poder. Edição da Academia Catarinense de Letras, 1996. A referida carta encontra-se localizada na coleção José Boiteux, no arquivo do Instituto o Histórico e Geográfico de Santa Catarina.

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Dos antigos alunos do colégio da conceição, os que não perderam o gosto pelas letras e juntamente com elas exerceram suas atividades na política, administração, profissões liberais, no comércio e na indústria, todos triunfaram, todos deixaram com maior ou menor brilho os seus nomes na história da inteligência e da cultura lageana, naquele trintênio. Foi então que Lages mereceu o título da capital cultural de Santa Catarina (COSTA, 1982, p. 20).

Esse título “Capital Cultural de Santa Catarina”, na Primeira República, é uma atribuição que Licurgo credita ao seu grupo social de origem, e o faz ao realizar seu empreendimento escrito no retorno à terra natal, já nas últimas décadas do século XX. E apesar de ser uma afirmação que requer uma maior contextualização, pontua-se que, ao lançar vistas para o lugar e recorte temporal em pauta, é possível observar que nesse cenário48 formaram-se latifúndios onde impérios familiares povoaram e teceram suas relações de forças. No alvorecer da República, a posse da terra não era mais o único sinônimo de poder, já que certa instrução intelectual tornou-se necessária. Os filhos dos fazendeiros foram estudar em colégios como o Nossa Senhora da Conceição, em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, instituição administrada por padres jesuítas, caracterizada à época por uma sólida formação49. Os jovens que deixaram o “ninho”50 (AVÉ-LALLEMANT,

48 Lages foi fundada em meados do século XVIII pelo bandeirante paulista

Antônio Correia Pinto de Macedo. O motivo da fundação esteve profundamente relacionado com a necessidade de proteger as terras da colônia portuguesa, especialmente as do Sul, constantemente ameaçadas pelos domínios espanhóis. A configuração da região possibilitou o desenvolvimento de atividades econômicas voltadas à criação de gado e muares. A maior parte dos primeiros moradores desenvolveu seu trabalho nesse setor econômico (BOGACIOVAS, 1989).

49 O historiador Élio Serpa, ao analisar a reformulação das condutas e das

práticas sociais em Lages durante a Primeira República, aponta que a elite local adotou práticas em sintonia com os desejos de uma educação que proporcionasse códigos de civilidade apropriados também às condutas do espaço público e político. “De forma que os filhos e filhas das elites lageanas ligadas à pecuária, ao comércio e até de profissionais liberais investiram na formação educacional destes e, então escolhiam o colégio Nossa Senhora da Conceição para os rapazes e o colégio São José para as meninas (SERPA, 1996, p. 18-19).

57 1980, p.158), retornaram sintonizados com saberes que circulavam nos grandes centros culturais. As posturas e as estratégias adotadas por esses varões ilustrados entraram em cena, transformando os espaços urbanos e sociais durante os primeiros anos republicanos. É nesse ambiente caracterizado por mudanças, e principalmente pelas contradições entre um universo rural e os desejos de modernidade, que sonhos de progresso teceram as páginas dos jornais, aqueceram discussões partidárias e alimentaram projetos políticos.

Licurgo nasceu nessa Lages com ares de modernidade51, pois, como ele mesmo menciona em algumas passagens de suas memórias, em sua casa liam-se jornais franceses e literatura portuguesa, como Eça de Queiroz. Em grande medida, observa-se um contraste entre essa Lages “bucólica” do começo do século XX e o ethos cosmopolita da cultura ilustrada da época. Se não fossem alguns desejos pulsantes, e a civilidade penetrando nas ruas da cidade, a Lages do começo do século XX poderia ser descrita como um lugar de tranquilidade incólume:

50 O viajante alemão Robert Ave-Lallemant passou por Lages em meados do

século XIX e denominou a cidade como um “ninho”.

51 “Podemos observar em Lages, desde o início do século XX, a presença do

discurso da modernidade e da mudança. Reformas e novas normas irão imprimir-lhe novo delineamento. A partir daí, esses espaços são não apenas delimitados, mas também configurados e delineados conforme a existência dos diversos grupos, mormente criando espaços privilegiados para a elite. Vive-se, pois, com o advento da República, o período de redefinição do papel da cidade e

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