• Nenhum resultado encontrado

II. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.3 Modos de Vida e Agricultura familiar

2.3.3 Agricultura e a edificação das relações sociais

O camponês amazônico produz seus meios de subsistência da relação que ele possui com a natureza, de onde retira os elementos naturais que serão transformados em produtos para a continuação da sua existência, sejam os elementos vindos da água, da terra e da floresta. A população do campo não faz suas atividades isoladamente, conta com o apoio da sua própria família e das pessoas que moram perto da sua casa, dos parentes e até mesmo das pessoas de outros lugares.

Para Adams (2006), nas comunidades existem famílias que desenvolvem várias atividades econômicas, cada atividade realizada pelos camponeses tem uma finalidade, seja

para consumo ou venda no mercado, e tem um motivo, devido o número de pessoas no núcleo familiar ou com relação ao acesso aos recursos da natureza.

MacIver e Page (1973) colocam que os homens podem chegar aos seus objetivos por meio da companhia de outros homens, baseando-se na cooperação, em que cada um contribui de algum modo para as intenções dos seus companheiros. A cooperação pode ser espontânea ou casual; a cooperação espontânea é vista como uma ajuda a uma pessoa estranha, e a casual quando é determinada pelos costumes de uma comunidade, como no caso da colheita.

A família é o núcleo central da produção das atividades e é dessa relação de pertencimento a um mesmo grupo que acontecem as práticas de ajuda mútua entre os vizinhos das comunidades rurais. Na concepção de Fraxe (2000), os trabalhos que necessitam de ajuda de outras pessoas envolvem não apenas os membros da família há a colaboração de amigos, vizinhos, compadres, fazendo parte do cotidiano dos ribeirinhos.

Noda et al (1997) preconizam que nas comunidades rurais o trabalho pode ser caracterizado como tradicional e não tradicional. Os trabalhos tradicionais compreendem as atividades de ajuda mútua: mutirão, parceria, troca de dia, atividades que são baseados nos conhecimento sobre as atividades produtivas desenvolvidas pelos homens do campo e das relações sociais construídas entre os seus vizinhos, compadres, comadres e outras pessoas. Os trabalhos não tradicionais compreendem aqueles camponeses que buscam um assalariamento temporário ou permanente para a acumulação de renda, a busca pelas especializações.

O mutirão, mais conhecido na região amazônica como ajuri e/ou puxirum, é realizado a partir das necessidades econômicas dos produtores agrícolas. Ele tem como característica o conhecimento sobre as práticas da agricultura e extrativismo (vegetal ou animal), na ajuda da produção da farinhada, na manutenção da comunidade, conservação das atividades culturais, festas religiosas e/ou de esportes. Essa ajuda pode ser utilizada na preparação de novos terrenos para o plantio, colheita, construção de Centro Comunitário, Igreja, casa de farinha, casa, e muito mais atividades que um determinado grupo familiar necessite.

Para Witkoski (2007), o mutirão é a reunião de um grupo de pessoas que receberam o convite do proprietário do mutirão, aquela pessoa que está necessitando da ajuda. Nesta prática de ajuda é fornecida a alimentação aos participantes, ou até mesmo essas pessoas que estão ajudando levam sua própria refeição.

Fraxe (2000) expõe que o mutirão ou ajuri (como é conhecido pelos ribeirinhos) é a contribuição da força de trabalho realizada pelos vizinhos, compadres durante um período de tempo. A ocasião utilizada pelos camponeses para dizer aos outros comunitários que estão precisando de ajuda é depois do culto. A prática do mutirão acontece em várias atividades,

“na agricultura; na pesca; na limpeza da comunidade; na fabricação da farinha; na limpeza do roçado; no plantio de mandioca; em caso de doenças ou em situações sinistro-temporal, repique (cheia repentina do rio)” (p. 90), quando uma determinada família está passando por momentos de dificuldades, se um membro não pode ajudar nas tarefas, se houve danos causados pela força da natureza.

As pessoas responsáveis pelo mutirão serão as que servirão as refeições aos participantes, sendo que a quantidade de refeição servida deve ser de acordo com as horas de trabalho, onde “a retribuição à ajuda é uma obrigação coletiva” (FRAXE, 2000, p. 91). A família ajudada deverá ajudar aquele núcleo familiar que contribuiu com o trabalho. A refeição fornecida é um ato de troca que sela alianças e também desenvolve uma relação equivalente entre as famílias e os vizinhos.

Noda et al (1997) postulam que a troca de dia, também conhecida como “dar dia de serviço”, é uma ajuda mútua baseada em um contrato social, das relações familiares e compadrio. Nela não há o pagamento em dinheiro pelos serviços prestados aos participantes, visto que a troca de dia está relacionada à supressão das necessidades de dinheiro dos núcleos familiares agrícolas e que não possuem meios de contratar um trabalho assalariado temporariamente.

De acordo com Witkoski (2007), a troca de dia é realizada quando há alguém na família que está doente e não pode contribuir com a sua força de trabalho nas atividades do seu núcleo familiar, logo essa família pede um auxilio para o vizinho ou compadre nos serviços de preparação do terreno para o plantio, colheita, farinhada, roça, construções de casas, galinheiro, chiqueiro, canoas e varias outras tarefas.

Para Fraxe (2000), a troca de dia de serviço, que ocorre quando alguma família está passando por momentos críticos no trabalho de agricultura, para desenvolver tarefas que devem ser realizadas rapidamente, como preparação para o plantio, colheita, etc. Os trabalhos são retribuídos à pessoa que ajudou nas atividades na forma de serviços, ou seja, não há pagamento em dinheiro, mas sim, com dia de serviço.

A parceria, segundo Noda et al (1997) e Fraxe (2000), conhecida também como “meia”, acontece assim como a troca de dia, quando a força de trabalho das famílias não é suficiente e não tem recursos financeiros para o assalariamento temporário. Essa ajuda mútua ocorre com mais freqüência no período de subida das águas dos rios, especialmente na colheita. O contrato social firmado tem por base a divisão igual dos produtos gerados a partir dessa relação de ajuda, seja da colheita da mandioca, frutas, preparação da roça.

Witkoski (2007) alude que nessa prática de ajuda mútua com relação à produção da mandioca, a divisão meio a meio está atrelada à farinha. A relação de parceria acontece também na pesca e na caça, para o consumo são divididos em partes iguais os produtos, na destinação dos produtos à comercialização, os lucros obtidos também devem ser repartidos igualmente entre os participantes.

Noda et al (1997) dizem que a prática de ajuda mútua da parceria serve também para “promover a comunicação entre os membros de famílias distintas, quando se narram fatos do cotidiano, experiências na agricultura e na pesca, se planejam atividades sociais e atividades comerciais, entre outros temas” (p. 274).

Fraxe (2000), em sua pesquisa nas microrregiões do Amazonas, identificou que o Baixo Solimões, o Médio Solimões e o Médio Amazonas são as três microrregiões em que há maior presença do trabalho mútuo. No Alto Amazonas os trabalhos são mais individualizados, influenciados pelo modo capitalista, existe a ajuda mútua só que em menor escala. A ajuda mútua acontece principalmente nas famílias produtoras.

Tonnies (1973) expõe que o contrato como um ato social é a troca realizada entre duas partes diferentes, sendo esta troca podendo ser feita com um objeto ou com uma atividade. Quando a troca acontece com uma atividade, ela é dada e aceita como um serviço; várias pessoas podem se ligar a um serviço igual, em que cada pessoa desfruta do serviço prestado pelo outro como uma ajuda.

As relações não tradicionais, comentadas por Noda (1997), compreendem os trabalhos de arrendamento, assalariamento com locomoção para outro lugar e o assalariamento temporário, dentro de uma comunidade, realizando trabalhos rurais. Para Witkoski (2007), apesar das famílias camponesas, principalmente as famílias extensas, serem auto-suficientes, em algumas situações (como a cheia inesperada do rio) elas recorrem à compra da força de trabalho.

O arrendamento está baseado em um contrato firmado entre o proprietário da terra/posseiro e o produtor familiar. A produção desse tipo de relação pode resultar tanto em valores de uso, quanto em produtos/mercadorias de onde se extrairá o excedente do trabalho da família. O proprietário que cedeu uma parte desse terreno para outra família recebe o pagamento, pelo uso da terra, na forma de trabalho ou em produtos. A família arrendada, muitas vezes, não permanece na terra por mais de dois cultivos, quando ocorre a saída da família da propriedade do posseiro; esse núcleo familiar tem como obrigação realizar a limpeza da área utilizada.

O assalariamento, segundo Noda et al (1997), ocorre quando um ou mais membros familiares são mobilizados a se deslocarem de um lugar para outro e se inserirem no mercado de trabalho em diversas atividades, em espaços e tempos sociais diferentes, seja no trabalho rural ou urbano para a complementação da renda ou de conhecimento/estudos. O assalariamento nos espaços rurais acontece nas atividades de pesça comercial, extrativismo vegetal, preparação das áreas para plantio, capinas, colheitas dos produtos agrícolas e em serviços comunitários na escola ou posto de saúde. No espaço urbano, estão as construções civis, serviços gerais nas indústrias, empregados domésticos, vendedores ambulantes, etc.; estas atividades nos espaços urbanos, normalmente, não necessitam de mão de obra muito qualificada, o salário recebido dos vários serviços realizados nas cidades é uma forma de manutenção do resto da família que continua no interior.

O assalariamento de um membro do núcleo familiar, que se deslocou no mundo rural e foi para o mundo urbano, pode ter como finalidade o custeio da sua manutenção no local para a complementação dos estudos. Nesse caso, a família que continua no interior fica responsável por enviar parte dos produtos de subsistência para a manutenção do membro que está no espaço urbano.

O assalariamento temporário, segundo Noda et al (1997), acontece na execução de atividades do processo produtivo, mais comum, na etapa da colheita. É uma relação que pode acontecer durante quase todo o ano, devido à necessidade da reposição do desgaste do produtor agrícola familiar. Para as pessoas que se assalariam temporariamente, o dinheiro recebido pelo trabalho desenvolvido pode servir para a sua manutenção independente.

Para Fraxe (2000), essa relação de trabalho é conhecida como trabalho acessório. Caracteriza-se como outro tipo de ajuda, podendo ser considerada como ajuda mútua, já que auxilia tanto as famílias que precisam de mão-de-obra como também contribui na complementação da renda familiar daquele que oferece sua força de trabalho. No trabalho acessório o camponês recebe um pagamento em dinheiro pelo trabalho realizado para outras pessoas. Os exemplos mais comuns são trabalhos como jardineiros, jornaleiros e empregadas domésticas (filhas mulheres que vão para a cidade trabalhar nas casas de famílias). O trabalho assalariado permanente acontece com maior frequência nas regiões pertos das cidades desenvolvidas. Witkoski (2007) expõe que o trabalho acessório é uma forma de transformar o camponês em um trabalhador assalariado, em que ele recebe pelo período de trabalho desenvolvido.

Fraxe (2000) complementa expondo que aquelas famílias que possuem gente suficiente, ou além do necessário para ajudar na unidade de produção, às vezes deixam que

aqueles membros extras realizem trabalho fora da comunidade em que moram, em outras famílias ou na cidade, para contribuir com a renda familiar. Fraxe (2000) diz que o trabalho acessório camponês, nas famílias com bastante membros e que tem certa facilidade de liberar os membros extras, significa uma combinação técnica e econômica que aproveita da melhor forma a força de trabalho.

As relações de ajuda mútua acontecem por meio de mecanismos derivados de sentimentos profundos, de pertencimento ao grupo. Para Noda et al (1997), as relações de ajuda mútua “são manifestações de resistência ao constante processo de apropriação dos excedentes pelos agentes de comercialização e processos de contra mobilidade do trabalho” (p. 280). As relações de arrendamento e assalariamento facilitam o “processo de socialização da produção de mão de obra” (p. 280) para o mercado de trabalho do sistema capitalista.

Marques (2004) diz que quando o sistema de produção da população do campo fica frágil devido às mudanças nas características da comunidade, as formas de sobrevivências (variedade de trabalhos) ficam cada vez mais difíceis de serem executadas, e com isso o camponês busca uma maior diversificação de suas atividades e encontra nos trabalhos acessórios uma opção de conseguir sua renda complementar.

Stanek (1998) postula que algumas famílias, que vivem em comunidade, possuem como característica do modo de vida a presença de estratégias, e uma dessas está relacionada ao encaminhamento dos filhos para a cidade. A estratégia de encaminhar um filho para a cidade ocorre devido ao tamanho da família e à capacidade financeira em dar possibilidade de promoção social e profissional aos filhos, a partir do futuro incerto no campo.

De acordo com o autor, os pais aspiram que os filhos permaneçam ou não no campo. Existem algumas categorias que podem classificar as idealizações dos pais para o futuro dos filhos, que são: ruralista, patrimonial, promoção social, tradicionalista, patrilocalidade, exolocalidade e exolocalidade longínquas. A idealização ruralista é a fixação do filho no campo, independentemente da profissão que queiram seguir; a patrimonial deseja manter um ou outro filho do sexo masculino no estabelecimento dos pais. A promoção social está vinculada ao desejo de conseguir um status social elevado através do ensino superior; a tradicionalista compreende que as filhas são destinadas ao casamento, podendo continuar na casa dos pais ou possuir seu próprio estabelecimento. A patrilocalidade é quando os filhos devem permanecer no campo só que em um estabelecimento diferente dos pais; a exolocalidade é a ideologia de manter curta distância da casa paterna; e a exolocalidade longínquas tem a idéia de que a moradia dos filhos deve estar localizada em outros municípios ou regiões distantes da casa dos pais. Tais categorias podem ser combinadas de

várias formas, como a estratégia ruralista, patrimonial, exolocal e tradicional, ou a estratégia ruralista patrimonial, patrilocal e tradicional e assim por diante, estratégias que visam o futuro do filho.

Contudo, para Stanek (1998), nem sempre o desejo paterno se torna realidade, o que normalmente acontece depende do número de membros que cada estabelecimento familiar possui, destinando os filhos mais velhos para realizar seus estudos fora, conseguir trabalho assalariado como operário ou até mesmo tornando-se profissionais em outras áreas (professores, médicos, comerciantes). Quando acontece do filho mais velho sair de casa para conquistar as coisas fora, o filho caçula passa a tomar conta do estabelecimento e o filho que saiu começa a contribuir financeiramente com a família que permaneceu no campo.

A ida dos jovens para as cidades – na busca de melhor escolaridade, trabalho assalariado e outras coisas – está ligada também ao fracasso das outras estratégias adotadas pela família, que com a modernização do meio rural acabam sendo desclassificadas como unidades de produção. Ao mesmo tempo em que o êxodo para as cidades pode acontecer em decorrência da necessidade da cidade por mão-de-obra; ela pode ocorrer como uma busca de liberdade em outros espaços. Algumas pessoas colocam essa estratégia como fuga pelas incertezas que o mundo rural enfrenta com a modernidade, mas tais estratégias independentes da conotação que possuam estão relacionadas à garantia da segurança dos filhos pelos pais.

Nas unidades de produção familiar, as pressões que o meio coloca para elas são as mais variadas possíveis. Cada estabelecimento familiar conseguirá adaptar-se ou não como forma social de produção. A escolha do caminho que será percorrido para obter a superação dos obstáculos pode contar com a ajuda das pessoas próximas, como parentes, vizinhos e amigos, ou pode resultar na locomoção para outros espaços em busca de novas situações.