GT 1 POLÍTICAS E PROGRAMAS PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA POLÍTICAS PÚBLICAS PARA EDUCAÇÃO DO CAMPO: LIMITES E
3. Análise de conceitos-chave do material didático do Projovem Saberes da Terra
3.1. Agricultura familiar/Campesinato/Pluralidade
A abordagem da agricultura familiar nos cadernos pedagógicos reconhece como uma das formas de modo de produção mais encontrada no Campo. A centralidade do seu modo de produção está no trabalho familiar que organiza e distribui as tarefas produtivas com todos os seus membros levando em consideração as potencialidades de cada um. Segundo o autor A família tende a organizar e distribuir as tarefas produtivas,
de maneira a melhor aproveitar as potencialidades de todos os seus membros e a minimizar seus esforços (BRASIL, 2010c, 47).
Para a agricultura familiar, a terra é um importante meio de produção, pois o produtor trabalha para si mesmo e coloca como central a produção para o próprio consumo, o que o diferencia da empresa capitalista no campo que visa o lucro. Em outras palavras:
A conquista da terra e do território permite a família e/ou à comunidade de trabalhar para si própria, sem precisar vender sua força de trabalho. Ao poder trabalhar para si própria, essa família/ comunidade pode colocar no centro de suas preocupações a sua própria reprodução, diferenciando-se da empresa capitalista, que coloca no centro de suas preocupações a busca do máximo lucro possível (BRASIL, 2010c, 46).
Ao mesmo tempo, o caderno apresenta a compreensão de que por mais que a produção familiar seja diferenciada das empresas capitalista, aquela ainda se reproduz na realidade da sociedade capitalista. Além disto, alerta para o risco de perder a
autonomia no modo de produção familiar. De acordo com Costa (2005) apud BRASIL, (2010c, p. 48)
(...) chama a atenção de que, embora essa racionalidade interna do estabelecimento familiar seja diferenciada, este se reproduz na realidade social do capitalismo. Enfim, na relação com a sociedade mais geral, o estabelecimento familiar pode encontrar situações mais ou menos favoráveis que tensionam sua capacidade de reproduzir. Esse tensionamento significa que sempre há um risco da agricultura familiar perder sua capacidade de produzir de maneira relativamente autônoma.
No desenvolvimento deste tema, a partir da leitura dos cadernos, identificamos que a concepção de agricultura familiar trabalhada, apesar de ser uma relação não capitalista de produção que também é defendida por autores como Martins (1981) e Oliveira (1990), não explicita a subordinação do seu modo de produção ao capital, também defendida pelos autores citados. Se for interessante para sua monopolização territorial, o capital inclusive, incentivará o desenvolvimento agricultura familiar no campo, como mostra Oliveira:
[...] quando o capital monopoliza o território, ele cria, recria, redefine relações de produção camponesa, familiar, portanto, ele abre espaço para que a produção camponesa se desenvolva e com ela o campesinato como classe social. O campo continua povoado, e a população rural pode até se expandir. Neste caso, o desenvolvimento do campo camponês pode possibilitar, simultaneamente, a distribuição de riqueza na área rural e nas cidades, que nem sempre são grandes. [...] o próprio capital cria as condições para que os camponeses produzam matérias-primas para as indústrias capitalistas, ou mesmo viabilizem o consumo dos produtos industriais no campo (ração na avicultura ou para suinocultura). Este processo revela que o capital sujeitou a renda da terra produzida pelo camponeses à sua lógica, ou seja, se está diante da metamorfose da renda da terra em capital. O que este processo revela, portanto, é que se está diante do processo de produção do capital, que nunca é produzido por relações especificamente capitalistas de produção. É por isto que o desenvolvimento do capitalismo no campo abre espaço simultaneamente para a expansão do trabalho familiar camponês, nas suas múltiplas formas, como camponês proprietário, parceiro, rendeiro ou posseiro. É assim que os próprios capitalistas no campo utilizam- se, deste processo para produzir o seu capital (OLIVEIRA, 2003, p. 15).
Portanto, a concepção trabalhada nos cadernos pedagógicos apesar de apresentarem uma leitura crítica, não coloca o campo como um território de contradições e conflitos, mas como um território que apresentam possibilidades para o camponês, agora agricultor familiar de subsistir. Com isso, ideologicamente é trabalhado a concepção de um campo ao agricultor familiar consegue produzir para sua subsistência.
Com o avanço do capitalismo no campo, os camponeses com suas formas de organizarem a sua produção, não foram extintas, mas sofreu transformações para se adaptar às novas questões do espaço agrário. Alguns autores vão defender uma postura
teórica em que o campesinato deve ser entendido como uma categoria independente economicamente e autônoma dos grandes grupos agroindustriais e mercado
(FERNANDES; OLIVEIRA; PAULINO, apud ALVES, 2008, 13-14).
Porém, de acordo com a leitura dos cadernos, o termo campesinato é compreendido diferente do termo da agricultura familiar, a principal diferença não está na relação no modo de produção familiar e sim, nas relações com o mercado, pois a agricultura familiar busca uma autonomia relativa que proporcione uma menor subordinação ao mercado. Segundo o texto:
Para muitos autores, a principal diferença entre Agricultura familiar e o campesinato está, não em suas relações internas(família – produção – trabalho), mas sim nas relações externas que esse tipo de unidade de produção estabelece com a sociedade em geral. Um aspecto chave desse debate, com especial ênfase nas relações com o mercado, é a busca por uma “autonomia relativa” dos sujeitos do campo. Essa “autonomia relativa” não pode ser confundida com um isolamento ou mera produção de subsistência, mas com a busca de uma relação com o mercado e com a sociedade que, embora sempre contraditória, minimize sua subordinação (BRASIL, 2010b, 139).
Com isso, identificamos que na abordagem sobre a agricultura familiar, o Programa deixa claro sua defesa a este conceito, em detrimento do conceito de campesinato. Segundo Fernandes a tese da agricultura familiar “Compreende a
diferenciação e as desigualdades, mas – evidente – não discute a perspectiva de luta contra o capital, entendendo o desenvolvimento do agricultor familiar na lógica do capital (FERNANDES apud MACHADO; CASALINHO, 2010, 10).
Podemos constatar que a agricultura familiar e o campesinato possuem diferentes análises sobre o modelo de desenvolvimento na agricultura, assim a posicionamento a qualquer um dos conceitos, implica um posicionamento político sobre a Questão Agrária no Brasil e sobre um projeto de sociedade. Para Fernandes o debate entre dois conceitos remete a uma discussão de paradigmas e completa: “diferentemente
do paradigma da Questão Agrária em que o camponês é um sujeito subalterno que resiste ao capital, no paradigma do Capitalismo Agrário, o camponês é um objeto em sua plenitude, a ponto de sofrer uma metamorfose para se adequar à nova realidade em formação”(FERNANDES apud MACHADO; CASALINHO, 2010, 9 -10).
Além disso, outra diferença entre a agricultura familiar e o campesinato constatada através da leitura dos cadernos e do projeto político, é que a agricultura familiar deve ser incentivada pelas políticas públicas, pois, além de ser relativamente autônoma quando comparada ao campesinato, a agricultura familiar estabelece também múltiplas atividades não agrícolas gerando renda extra a família. Esta idéia foi percebida no Projeto Político Pedagógico do Programa ao fazer referência à importância de ser construída junto às políticas afirmativas, como mostra o trecho “Um processo de
construção de políticas afirmativas de gênero, etnia e geração ao reconhecer a diversidade do trabalho e demonstrar as múltiplas capacidades individuais e coletivas”
(BRASIL, 2010e, 44).
Além disso, foi encontrado também em um outro trecho do caderno “as
políticas de apoio à Agricultura familiar devem inclusive, contemplar aquelas atividades não agrícolas como, por exemplo, a industrialização, a produção artesanal e o turismo rural, atividades com grande potencial de geração de renda e ocupação.”
(BRASIL, 2010b, 72).
Quanto a ideia de multifuncionalidade e pluriatividade no campo trabalhada no Programa, a discussão não é recente. No fim da década de 1990, houve um debate profundo, proporcionando reflexões sobre o rumo das unidades familiares no espaço rural (ALVES, 2008, 16). Teve como principal difusor o autor Graziano da Silva et al (GRAZIANO apud ALVES, 2008, 16) que em seu estudo sobre o Novo Rural Brasileiro sintetizando a diversidade de atividades no meio rural para além das atividades agropecuárias.
A agricultura familiar encarada como multiplural, mulfuncional e pluriativa traz a concepção que o agricultor no campo pode possuir atividades além daquela que
está relacionada a sua produção agrícola, inclusive trabalhando para o agronegócio em suas próprias terras. O discurso predominante nas políticas públicas, é que, com essas atividades a mais, o produtor garante mais uma renda e se torna mais autônomo, além disso o viver no campo se passa a ser mais plural e assegurando um melhor nível de vida ao agricultor. Essa lógica subordina o agricultor aos interesses de um novo modo de organização do trabalho capitalista.
Dessa forma, a concepção de agricultura familiar, atrelada a um caráter plural, continuam dentro do contexto do campo que venha a atender às novas exigências de desenvolvimento e, continuam subordinadas aos interesses do capital. Por isso, Alentejano afirma que:
[...] o desenvolvimento da pluriatividade significa uma forma de acentuação da exploração capitalista, na medida em que faz parte do conjunto de transformações em curso no mundo de hoje que apontam para a flexibilização e precarização das relações de trabalho e para a reestruturação produtiva, que têm como efeito básico o aumento da exploração do trabalho e a ampliação da margem de lucro dos capitalistas (ALENTEJANO apud MACHADO; CASALINO, 2010, p. 5).