2 A POLÍTICA AGRÍCOLA BRASILEIRA E O PROGRAMA NACIONAL DE
2.1 Política agrícola e agricultura familiar brasileira
2.1.2 Controvérsias conceituais: campesinato e agricultura familiar
2.1.2.1 Agricultura familiar relacionada ao campesinato
O primeiro grupo de autoras e autores desenvolve uma corrente teórica que reconhece um vínculo, inclusive histórico, entre a categoria agricultura familiar e a categoria
campesinato. Para entender essa corrente, é importante considerar a retrospectiva teórica
realizada por Maria de Nazareth Wanderley (2011, p. 78-86), que aponta três focos do debate sobre campesinato no Brasil.
O primeiro deles é a teoria da decomposição, que foi utilizada para interpretar a situação da agricultura que passou por mudanças, tais como a mecanização e uso de insumos industriais, em razão da imposição dos contratos de integração com empresas agroindustriais,
particularmente na região Sul. A decomposição se apresenta ora por um processo de capitalização (o agricultor de origem camponesa se transforma em um pequeno empresário capitalista ou pequena burguesia), ora por um particular processo de proletarização (em que se nega a capacidade de decisão do agricultor ou agricultora integrada sobre seu processo de trabalho).
A segunda interpretação é baseada na teoria da diferenciação social, pela qual ocorre a constituição de um ator social particular envolvido em uma situação de subordinação e, simultaneamente, autonomia. No caso de produtores e produtoras integradas, distinguem-se de proletários porque permanecem com a capacidade de organizar e dirigir seu processo produtivo; por outro lado, as imposições das indústrias descaracterizam a formação generalizada de uma burguesia, mesmo que pequena. No caso de não integradas, a mesma questão é colocada, pois são submetidas a um processo de tecnificação que acarreta maior subordinação ao sistema.
Já a terceira abordagem exposta pela autora está voltada à relação entre trabalho familiar e trabalho assalariado nas unidades de produção camponesas, no duplo sentido de: a) contratação pelos camponeses de trabalhadores não familiares e; b) trabalho realizado por membros da família a terceiros. Nessa relação, é mantida a condição de camponês, mesmo diante das estratégias de garantir uma margem maior dos frutos do trabalho ou de tentar assegurar as condições mínimas de sua permanência no campo.
Os três focos expostos pela autora são importantes para entender que mesmo a corrente que debate a existência de campesinato no Brasil não está tratando de uma categoria homogênea, restrita ao campesinato original sem vínculos com o mercado, e sim uma categoria que contém uma grande diversidade de situações e modos particulares de funcionamento.
Esse pressuposto é importante para compreender a relação identificada por Maria de Nazareth Wanderley entre campesinato e agricultura familiar: esta última não é uma categoria social recente, mas os significados e abrangência recentes é que são renovados. De acordo com a autora, a agricultura familiar é um conceito genérico e o campesinato é uma de suas formas e tem características particulares relacionadas à história social do país e ao patrimônio sociocultural15. A agricultura familiar é aquela em que a família, ao mesmo tempo em que é
15 No Brasil, as formas camponesas surgiram no período de plantations açucareiras, como coadjuvantes ou
correspondentes aos fluxos e refluxos da repressão da força de trabalho, a qual atuava ora na contraposição aos meios de instalação da pequena produção independente; ora no estímulo à formação de reserva de mão de obra disponível para momentos de maior demanda desse fator. Assim, se deu a constituição de um campesinato
proprietária dos meios de produção, assume o trabalho no estabelecimento produtivo, e é dito que se trata de categoria genérica porque a combinação entre propriedade e trabalho é diversa no tempo e no espaço, reproduzindo, consequentemente, diversas formas sociais.
Uma dessas formas seria o campesinato, o qual apresenta particularidades quanto aos objetivos da atividade econômica, experiências de sociabilidade e forma de inserção na sociedade global. Porém, a agricultura familiar nas sociedades modernas não é uma simples reprodução do campesinato original, ela sofreu adaptação na forma de produção e em sua vida tradicionais e, portanto, eles guardam pontos de ruptura e também elementos de continuidade (WANDERLEY, 2003, p. 47; WANDERLEY, 2001, p. 22-24).
O campesinato é caracterizado pela subsistência em dois níveis: o primeiro é o atendimento às necessidades do grupo doméstico; e o segundo é de reprodução da família pelas gerações subsequentes e, desse modo, a formação de patrimônio é um elemento estruturador, pois ele é destinado a garantir a sobrevivência familiar no presente e no futuro. Entretanto, subsistência não significa que o autoconsumo e a venda para o mercado sejam excludentes, pois podem ocorrer simultaneamente. Ainda, a característica de subsistência não pode ser confundida com agricultura de subsistência, que a autora classifica como outra forma de agricultura familiar, diferente do campesinato, na qual, por razões históricas e sociais, a produção é organizada voltada à sobrevivência imediata, sem projeto de futuro da família e constituição de patrimônio (WANDERLEY, 2001, p. 23-30; WANDERLEY, 2011, p. 78).
Há também, no campesinato, a característica de pluriatividade e trabalho externo de membros da família, que não representam necessariamente desagregação da agricultura camponesa, pois são elementos que podem ser utilizados para viabilizar as estratégias de reprodução presentes e futuras. E, por fim, embora a agricultura camponesa seja geralmente pequena, isto é, com poucos recursos e presença de restrições para potencializar suas forças produtivas, ela não é camponesa por ser pequena, porque não é sua dimensão o determinante e sim suas relações internas e externas (WANDERLEY, 2001, p. 30-31).
Outro importante estudo sobre a agricultura familiar e sua relação com o campesinato tutelado no interior das fazendas, sob a forma colonato ou morada, para corresponder às necessidades de imobilização da força de trabalho.
Outras formas camponesas surgiram seguindo o “rastro” dos investimentos econômicos para consolidação da produção mercantil, com a constituição de cinturões de produção hortigranjeira no entorno das cidades para realizar o abastecimento alimentar necessário. Além disso, houve estímulos estatais para imigração para áreas de tensões e conflitos de demanda por terras (em razão de elevado desemprego), por meio de incentivos ao deslocamento de europeus e japoneses para constituírem colônias, sobretudo no sul do país. E, posteriormente, a criação de colônias agrícolas no cerne da Marcha para Oeste durante o Estado Novo (1937-1945) e o programa de colonização dirigida do governo militar (1964-1985), com a transferência de muitas famílias para as regiões Norte e Centro-Oeste. (NEVES, 2009, p. 309-313).
foi a análise comparativa internacional organizada por Hugues Lamarche (1993; 1998), que buscou verificar a capacidade de adaptação dos agricultores a distintos contextos nacionais e locais16. Os resultados dos estudos guardam grande similaridade com a teoria de Maria de Nazareth Wanderley: Hugues Lamarche (1993, p. 16-21; 1998, p. 311-312) afirma que a exploração camponesa é familiar, porém nem todas as explorações familiares são camponesas, pois a agricultura familiar é uma formação social heterogênea, e não um modelo único. Existe a característica comum de associação entre família e produção, mas com diversas formas de se apropriar dos meios de produção e desenvolvê-los, sendo uma delas o campesinato17.
Construiu-se uma tipologia para identificar formas de organização das unidades de produção, usando como principal critério o grau de relação com o mercado, e foram definidos dois extremos: o campesinato no modelo original e uma situação de total integração ao mercado. Esses estudos apontaram que a integração ao mercado faz parte de modos específicos de funcionamento que não descaracterizam a agricultura familiar, mas, quanto mais próximo aos extremos (campesinato original ou integração total), mais difícil se torna a reprodução da agricultura familiar (LAMARCHE, 1993, p. 21-22; 1998, p. 304-306).
Para além desse debate teórico, que reconhece que existe um vínculo entre agricultura familiar e campesinato, Maria de Nazareth Wanderley aponta que a implementação do Pronaf com a consolidação da categoria agricultura familiar diluiu o forte conteúdo histórico- político que a palavra campesinato inspirava, relacionado à disputa política e ideológica com a grande monocultura e modernização da agricultura (WANDERLEY, 2011, p. 94-96). Michell Tolentino (2013, p. 27-29) analisa esse contexto como uma tentativa de minar o conceito de camponês, colocando-o como sinônimo de atraso, ao ser substituído pelo termo agricultura familiar, o qual oculta a conflitualidade dos processos que ocorrem no campo brasileiro em relação à questão agrária de luta por terra.
Por outro lado, a criação do Pronaf foi a primeira vez em que se afirmou o reconhecimento da condição de produtor agrícola para esse grupo específico e uma valoração positiva de suas particularidades. A definição oficial representou um marco significativo de reconhecimento político desse ator social rural e abriu novas perspectivas para o seu
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Para isso, a metodologia foi aplicada em sociedades capitalistas avançadas (Canadá e França), sociedade capitalista dependente (Brasil), sociedade coletivizada (Polônia) e sociedade em via de desenvolvimento (Tunísia).
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O campesinato busca equilibrar a relação entre produção e consumo, porém sem se confundir com agricultura de subsistência, pois existe a vontade de conservação e construção de patrimônio familiar (LAMARCHE, 1993, p. 16-17).
conhecimento empírico (WANDERLEY, 2011 p. 92; 96).