Os Mbyá-guarani mantêm o que estudos etnoecológicos classificaram como um manejo agroflorestal típico de povos amazônicos. São aliadas técnicas agrícolas ao manejo da sucessão ecológica das matas, em complexos sistemas de domesticação da paisagem, que tendem a promover a biodiversidade30. São considerados horticultores de florestas31, sendo que um hábito inerente à cultura mbyá é transportar e intercambiar sementes de espécies agrícolas e florestais. Muitos autores, inclusive, sugerem que este fator humano provavelmente é responsável por alterações da vegetação e das espécies nas florestas subtropicais32. Este incremento de biodiversidade na composição das matas, que acompanha os deslocamentos guarani, pode ser observado ainda hoje, de forma mais localizada, nas aldeias espalhadas sobre o vasto território. Os Mbyá-guarani desenvolveram, como coletivo envolvido há milhares de anos com as formações florestais americanas, um conhecimento especializado e uma relação profunda com a grande diversidade de ambientes ocupados. Existem elementos de relevância simbólica, material e alimentar, nos diferentes ecossistemas que compõem a Mata Atlântica da costa atlântica, por exemplo, e um fluxo de espécies e material genético é promovido pelos Mbyá.
A agricultura para os Mbyá cumpre uma função que está além do papel de subsistência da aldeia. A atividade agrícola implica em um sistema amplo na organização interna do tekoá, desde o intercâmbio de sementes, rituais às trocas de 30 OLIVEIRA, D. Nhanderukueri Ka’aguy Rupa – As florestas que pertencem aos deuses:
Etno-botânica e Territorialidade Guarani na Terra Indígena M’biguaçu/SC. Monografia de
Bacha-relado em Ciências Biológicas. Florianópolis: UFSC, 2009.
POSEY, D.A. “Indigenous Menagement of Tropical Forest Ecosystems: The case of Kay-apo Indians of the Brazilian Amazon”. Agroforestry Systems, 3:139-158, 1985. 31 IKUTA, A.R.Y & BARROS, I.B.I. de. “Se acabar o mato como o Guarani vai fazer?” In:
Albu-querque, U.P. de & Almeida, C. de F.C.B.R. de (orgs.). Tópicos em Conservação e
Etno-botânica de Plantas Alimentícias. NUPEEA, Recife, 2006.
32 NOELLI, Francisco S. Sem Tekohá não há Tekó (Em busca de um modelo
Etnoar-queológico da Aldeia e da Subsistência Guarani e sua Aplicação a uma área de Domínio no Delta do Rio Jacuí-RS). Dissertação de Mestrado. Instituto de Filosofia e
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experiências. A produção agrícola é voltada somente para o consumo interno da aldeia, não sendo comercializada, especialmente os cultivos tradicionais. Trata-se de uma atividade integradora do tekoá, no que tange a sociabilidade entre os Guarani e os elementos da natureza do lugar. Nesse sentido, a agricultura Mbyá “condiciona e está condicionada a existência do tekoá”.33
Para os Guarani as fases lunares organizam as atividades relacionadas ao manejo da agricultura. No RS, o início das atividades agrícolas se dá por volta de agosto e setembro, para os Guarani Ara Yma (final de outono/ inverno), sendo realizadas durante a lua minguante. Também nesta fase lunar se dão as atividades de coleta, podendo ser realizadas tanto no Ara Yma quanto no Ara Pyau (período de primavera/verão)34.
Em relação a espécies agrícolas, o povo Mbyá-Guarani resguarda, ainda hoje, grande diversidade de cultivares tradicionais. Por exemplo, Felipim35, percorrendo algumas aldeias localizadas na região Sudeste (SP e RJ) identificou: nove variedades de milho, sete variedades de batata-doce, três variedades de amendoim, duas variedades de feijão “de corda” e duas variedades de aipim, além de porongo, sorgo sacarino, fumo, melancia, entre outras. A estas plantas e roças estão associados profundos conhecimentos que extrapolam técnicas agrícolas. Da mesma forma, existem diversas formas de uso para as plantas cultivadas, não restritas a alimentação. As plantas cultivadas – bem como muitas plantas nativas das florestas – são sagradas para os Mbyá, imprescindíveis para a realização de rituais, como o Nheemongarai, ou batismo do milho, que revela os nomes das crianças36.
O conhecimento e as práticas relacionados à agricultura tradicional e ao ambiente são transmitidos oralmente pelos mais velhos, lideranças espirituais. No entanto, esta transmissão depende de uma série de fatores, intimamente associados à garantia de acesso a áreas apropriadas para implantação das roças e à existência de remanescentes florestais conservados.
É comum entre os Mbyá transferir sementes ou mudas de árvores, arbustos e ervas entre fragmentos florestais, dispersá-las nos arredores do tekoá, e mesmo nas proximidades das casas. Acontece também de mudas 33 Idem nota 22, p. 177.
34 FELIPIM, Adriana Perez. “Práticas agrícolas e manejo do ambiente entre os Guarani Mbyá”. In: Ricardo, Fany. (Org.). Terras indígenas e unidades de conservação da natureza: o
desafio das sobreposições. São Paulo: ISA, 2004.
35 FELIPIM, Adriana Perez. O sistema agrícola Guarani Mbyá e seus cultivares de
milho: um estudo de caso na Aldeia Guarani da Ilha do Cardoso, município de Cananéia, SP. Universidade de São Paulo, Escola Superior de Agricultura Luiz de
Quei-roz, Piracicaba. Dissertação (mestrado), 2001.
36 LADEIRA, Maria Inês. O Caminhar sob a Luz. Dissertação de Mestrado. São Paulo: PUC, 1992.
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cultivadas no interior da aldeia serem transportadas para as matas.37
Em todas as esferas da vida cotidiana Mbyá-guarani os recursos naturais de origem vegetal são empregados. Destes recursos depende a manutenção e reprodução de seus costumes tradicionais relacionados à cura, alimentação, cultura material, habitação, etc. A coleta, o cultivo ou a troca são as formas através das quais estes recursos são mantidos/adquiridos.
Os Mbyá-Guarani, na sua trajetória, traçaram um amplo território não contíguo, criando suas aldeias e estabelecendo amplas e complexas relações de parentesco e reciprocidade. Formaram uma rede de relações alimentada pelas constantes visitas, encontros, cerimônias que envolvem trocas materiais (objetos, sementes), repasse de informações e trocas matrimoniais38.
A mobilidade através desta extensa rede familiar garante a coesão do grupo e a reprodução do patrimônio cultural aos mais jovens. Trata-se de uma forma instigante de ocupação do território frente à expansão da sociedade não indígena e à degradação ambiental. O conjunto de aldeias garante minimamente as condições ambientais para a manutenção de práticas que resguardam traços fundamentais da cultura, que já não são possíveis de se realizar em uma aldeia isoladamente.
37 FREITAS, Ana Elisa de Castro. Relatório Ambiental Circunstanciado. Grupo
de Trabalho para Identificação e Delimitação Terra Indígena Guarani Mato Preto, Rio Grande do Sul. Portaria Presidencial Nº 984, de julho de 2004. ISSN
1676-2347. Porto Alegre, 2004. Idem nota 37. 38 Idem nota 37.
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