Augusto estava diretamente envolvido com os equestres, inclusive de maneira íntima, como pode ser demonstrado pelo seu relacionamento de longa data com Marcos Vipsânio Agripa, seu fiel parceiro nos empreendimentos bélicos e políticos, proveniente desta ordem. De acordo com Nicolau de Damasco (7), os laços entre Agripa e Augusto haviam sido estabelecidos desde cedo, pois eles haviam sido educados juntos88. Agripa não era somente um equestre, mas um novus homus equestre, cuja trajetória resumia toda a reconfiguração social do final do século I AEC, representando ele mesmo uma nova forma de atuar publicamente em Roma. Não se tem certeza sobre o seu pai e nem se tem informação concreta do seu local de nascimento, havendo uma grande possibilidade de que a sua família tenha recebido a cidadania romana no contexto das Guerras Sociais. Obviamente que essa origem desconhecida revela a sua falta de nobilitas, e não a sua pobreza, já que seria inverossímil que o sobrinho de Júlio César tivesse estudado e desenvolvido um relacionamento íntimo com alguém desfavorecido (CAIRNS, 1995, p. 212).
Veleio Patérculo (2.96.1) precisa o seguinte sobre o status do general: “Mors deinde Agrippae, qui novitatem suam multis rebus nobilitaverat atque in hoc perduxerat”, “Então, a morte de Agripa, que enobreceu o seu nome modesto pelas suas muitas obras e trouxe grandeza a ele”. Agripa, portanto, conseguiu glória entre os romanos, e a obscuridade de sua família não lhe foi um entrave porque ele conseguiu ascender socialmente por causa de seu empenho, de seus atos e pelo relacionamento com Otávio/Augusto, representando aqueles romanos que sobrepujaram a velha forma de alcançar os altos patamares da política baseada no privilégio da ancestralidade89.
88 Nessa mesma passagem Nicolau relata que Otávio conseguiu convencer César a não matar o irmão de
Agripa, que havia lutado contra o dictator, ao lado de Catão, e sido feito prisioneiro de guerra.
89 Tito Pompônio Ático, imortalizado por suas cartas com Cícero bem como pela Vita Attici, escrita por
Os primeiros registros de sua atuação pública foram com os passos que se seguiram à vingança da morte de Júlio César. Agripa recebeu a incumbência de liderar o processo de acusação contra Cássio, o qual foi condenado in absentia (Vell. Pat. 2.69.5). Nesse mesmo ano é possível que ele tenha ocupado o posto de tribuno da plebe, tal como Otávio ocupara no ano anterior (POWELL, 2015, p. 30). Na sequência, lutou ao lado e pelo seu amigo em várias batalhas, incluindo a Batalha de Filipos (42 AEC) e no cerco de Perúsia (40 AEC). Otávio, na sequência, resolveu tomar como um de seus focos a supressão de Sexto Pompeu, que lhe causava problemas na costa da Itália, e para tal empreendimento solicitou que Agripa, que nessa época era pretor de Roma, protegesse a Vrbs, iniciando os preparativos para combater o filho de Pompeu Magno (Dio 48.20, 28; Vell. Pat. 2.79). Entre 39 e 38 AEC Agripa foi apontado por Otávio para atuar como governador da Gália Transalpina, onde estava ocorrendo uma rebelião dos aquitanos, a qual foi devidamente suprimida pelo general (Dio 49.2-3). Vitorioso, ele poderia ter celebrado um triunfo em 37 AEC por esse sucesso, mas se recusou a tal celebração, porque na mesma época Otávio havia acabado de sofrer uma vasta derrota contra as tropas de Sexto Pompeu. Desse modo, Agripa abriu mão de obter uma das mais prestigiosas homenagens que um cidadão romano poderia alcançar para não causar nenhum tipo de conflito com Otávio (Dio 48.49.4). Era um momento alto de sua carreira, já que nesse mesmo ano ele foi empossado com o consulado, embora contasse com apenas vinte e seis anos (a idade habitual para chegar a tal posto era de quarenta e três) e estava casado com Cecília Ática, herdeira de uma enorme fortuna. Ao abrir mão do triunfo, porém, ele sinalizava sua enorme fides com
um eques que não quis se elevar à categoria senatorial. A primeira esposa de Agripa, Cecília Ática, era filha deste homem. Ático havia optado por uma vida afastada das coisas públicas, conforme Nepos (Att. 6.1), porque dessa maneira ele poderia ter controle sobre sua própria vida – ele, inclusive, recusou o posto de pretor, que lhe fora oferecido. Assim: “Honores non petiit, cum ei paterent propter vel gratiam vel dignitatem, quod neque peti more maiorum neque capi possent conservatis legibus in tam effusi ambitus largitionibus neque geri e re publica sine periculo corruptis civitatis moribus”, “Ele não desejou nenhum dos ofícios públicos – uma vez que a ele, por causa de sua influência e sua dignidade, estes lhe eram acessíveis – pois eles não poderiam ser obtidos de acordo com os antigos costumes, nem serem mantidos no cumprimento das leis em meio a tanta efusão de subornos, nem serem geridos para a república, sem perigos de corrupção dos costumes da comunidade”. A sua forma de atuar publicamente ocorreu de modo muito mais próximo à de Mecenas, por exemplo, pois ambos abdicaram do cursus honorum mas atuavam como conselheiros e suporte para homens poderosos da política.
Otávio, que seria recompensada mais tarde de modo tão grandioso quanto foi esse seu ato90.
Em 36 AEC, Otávio e Agripa derrotaram finalmente Sexto Pompeu, em Nauloco. De fato, o grande responsável pela vitória teria sido Agripa91, que por esta vitória foi presenteado com um estandarte azul, bem como com uma coroa rostral. A corona rostrata, também conhecida como corona navalis, era uma homenagem excepcional em Roma, concedida aos indivíduos que obtiveram vitórias definitivas em batalhas navais. Era tão rara que há uma disputa a respeito de Agripa ter sido o primeiro romano a receber tal gratificação (Suet. Aug. 25; Vell. Pat. 2.81.3)92. Já Otávio recebeu por essa vitória uma ovação, uma celebração inferior ao triunfo (Suet. Aug. 21)93.
Em 33 AEC, Agripa foi eleito edil94, embora este fosse um posto que normalmente os romanos ocupavam no início do cursus honorum, e não após já ter sido cônsul. Sob este cargo ele empreendeu uma série de transformações na Vrbs, iniciando o projeto de reestruturação que Augusto orgulhosamente lista nas Res Gestae (19-20)95. Agripa não
90 Esse foi um ato repetido outras vezes por Agripa, que também recusou os triunfos pelas vitórias na
Cantábria (19 AEC) e na Panônia (13 AEC) (Dio 54.11.6; 24.7).
91 Veleio Patérculo (2.79.4) e Suetônio (Aug. 16) narram a dificuldade de Otávio nessa guerra, relatando
que ele quase foi morto pela frota de Pompeu. Suetônio (Aug. 16.2), inclusive, traz o vitupério de Antônio à atuação de Otávio nessa batalha, o qual “ne rectis quidem oculis eum aspicere potuisse instructam aciem, verum supinum, caelum intuentem, stupidum cubuisse, nec prius surrexisse ac militibus in conspectum venisse quam a M. Agrippa fugatae sint hostium naves.”,“nem sequer fora capaz de examinar com olhos abertos a frente de batalha organizada, mas que se tinha deitado de costas contemplando o céu, apalermado, não se levantara nem viera em presença dos soldados antes que os navios inimigos tivessem sido afugentados por M. Agripa”. Tradução de Trevizam, Vasconcellos e Rezende (2007).
92 Isso é afirmado por Veleio Patérculo (2.81.3), Tito Lívio (Per.. 129), Sêneca (De Ben. 3.32) e Dio Cássio
(49.13.3); já Plínio (HN 16.3.7), atesta que Marcos Varrão, por sua atuação contra os piratas, teria sido o primeiro romano a receber a coroa naval, ofertada por Pompeu.
93 O fato de Otávio ter recebido uma ovação e não um triunfo não seria uma forma de diminuir o seu papel.
Como Ramsay (1875, p. 1165) descreve, para que fosse possível celebrar um triunfo após uma vitória era necessário que ela tivesse sido sob inimigos estrangeiros, e a vitória não poderia ser devido à recuperação de terras que anteriormente já tivessem pertencido à Roma.
94 Os edis eram responsáveis por conservar as estradas e pavimentações urbanas e os prédios públicos,
distribuir grãos, fiscalizar o comércio e as terras públicas e preservar a ordem. Eram divididos entre edis curuis e edis plebeus. Eles também possuíam funções religiosas, possuindo a prerrogativa de organizar alguns festivais e jogos, o que lhes conferiam bastante prestígio (LONG, 1875, p. 19).
95 Como Suetônio (Aug. 29.4-5) ressalta, foi prática de Augusto conclamar a todos os amigos para que
atuassem no embelezamento de Roma, mas que, dentre eles, as obras mais numerosas e importantes foram empreendidas por Agripa. De fato, até hoje podemos ver em Roma alguma de suas obras. Dentre elas, mais bem conservado é o Panteão, mas próximo dele existem vestígios da Basílica de Netuno e das termas, todos eles construídos junto a uma diversidade de outros edifícios nos anos que sucederam a Batalha de Ácio, muito possivelmente como forma de comemorar tal vitória (Dio 53.27).
teria utilizado nenhuma verba do erário público neste ofício, dado que sinaliza para o tamanho de sua riqueza. Seu trabalho consistiu em limpar os esgotos de Roma, restaurar os edifícios e ruas, distribuir óleo e sal para todo o populus e conceder banho público de graça para todos. Além disso, promoveu diversos festivais e expulsou astrólogos e pessoas consideradas charlatões da cidade (Dio 49.43.1-5).
Quando Otávio declarou guerra contra Cleópatra e Marco Antônio, o papel de Agripa foi mais uma vez imprescindível. Agripa obteve o comando máximo na batalha de Ácio (Vell. Pat. 2.85.2) e, vitorioso96, foi enviado para a Itália para que contivesse os ânimos de soldados que haviam lutado nessa batalha e, tendo sido dispensados sem ganharem nada em troca, começaram a se rebelar (Dio 51.3).
No decorrer do Principado, Agripa foi alcançando uma posição cada vez mais privilegiada, primeiro com a obtenção, em 27 e 26 AEC, do consulado, ao lado de Augusto. A ligação entre eles foi ainda mais estreitada com o casamento de Agripa com Júlia, filha de Augusto, em 21 AEC – era o terceiro divórcio de Agripa, que havia deixado Cecília Ática para se casar com Cláudia Marcela, sobrinha de Augusto, com teve uma filha (Suet. Aug. 63).
O vínculo entre Augusto e Agripa vai se estreitando de todas as formas possíveis. Em 23 AEC, Augusto dispensa o consulado (ele havia sido cônsul nove vezes seguidas) do próximo ano, o que, em teoria, o faria voltar a ser um simples privatus. Indiscutível que isso nunca ocorreu, já que também nesse ano o princeps recebera o imperium maius, que
96 Virgílio (Aen. 8.678-84), narrando a Batalha de Ácio como um adorno do centro do escudo de Enéias,
não só apresenta Augusto, mas também menciona Agripa: “hinc Augustus agens Italos in proelia Caesar/ cum patribus populoque, penatibus et magnis dis,/ stans celsa in puppi, geminas cui tempora flammas/ laeta vomunt patriumque aperitur vertice sidus./ parte alia ventis et dis Agrippa secundis/ arduus agmen agens, cui, belli insigne superbum,/ tempora navali fulgent rostrata corona”, “César Augusto se via na popa, de pé, comandando/ ítalos, gente do povo, o senado, os Penates e os deuses./ Flâmulas duas, a par, lhe nasciam na fronte altanada;/ por sobre a bela cabeça brilhava-lhe a estrela paterna./ Na banda oposta destacava-se Agripa, que os deuses e os ventos/ favoreceram; dirige seus homens, a fronte cingida/ pela coroa rostrada, marcial distintivo dos fortes”. Tradução de Nunes (2014). Nota-se a importância que Virgílio confere a Agripa, que na enunciação do poeta é inserido triplamente em lugares eminentes: no centro da batalha, ao lado do imperador e no centro do escudo do herói e antepassado de Augusto e, por associação, no centro da política romana. Augusto é representado portando duas flâmulas na cabeça, e em cima dela ele é iluminado pelo Sidus Iulium, a estrela de Júlio César, que teria brilhado no momento em que foram celebrados os jogos em homenagem a ele, mostrando a importância dessa identificação com o pai adotivo para a imagem do princeps. Já Agripa recebe como adorno a corona rostrata, dada a importância de tal elemento simbólico, seu prêmio recebido em 36 AEC e possivelmente também após a batalha representada por esse trecho.
lhe concedia amplos direitos sobre as províncias, e a tribunicia potestas do Senado. O poder de Augusto agora era exorbitante, pois ele poderia atuar como um tribuno, mesmo sem estar exercendo tal ofício97, e ainda controlar todas as questões referentes ao governo e exércitos de toda a extensão do Império Romano. Em 19 AEC, de modo a mostrar certa moderação de seu status98, o poder tribunício foi também expandido a Agripa (GRUEN,
2007, p. 36-41)99. Os dois, que já haviam aparecido juntos nos anversos de algumas peças monetárias desde 38 AEC100, passaram a ser figurados então portando esse título, como os exemplares RIC I 397 e 400 ilustram101, de modo a comemorar essa distinção
compartilhada. Como Freudenburg (2014, p. 105-6) afirma, essa moeda e essa divisão da tribunicia potestas parecem representar a escolha de Agripa como sucessor de Augusto.
Não há, porém, como conceber de fato quais eram os planos sucessórios de Augusto, já que a sua posição em Roma se tratava de algo sem precedentes. Ao nomearmos o período de 27 AEC em diante como Principado, um regime no qual Augusto, à frente da res publica, comandava uma forma de governo com acepções monárquicas, estamos exercendo o nosso privilégio de posteridade102, por observarmos esse período com tanto
97 Com esse poderio, ele podia introduzir novas leis, vetar decisões do Senado e demais magistraturas,
convocar assembleias (GRUEN, 2007, p. 37).
98 Conforme Dio Cássio (54.12.3-4), a concessão do poder tribunício a Agripa teria sido uma manobra de
Augusto, para evitar algum tipo de complô devido à posição que ele ostentava.
99 Esse poder, como Augusto (RG 10) registra, foi concedido de forma vitalícia, o que lhe assegurou uma
posição permanente frente à res publica, algo sem precedentes. Este era um poder que não só investia Augusto da sacrosanctitas tradicional dos tribunos, como também o legitimava a partir de então, como ele mesmo frisa: “[...] nullum magistratum contra morem maiorum delatum recepi. Quae tum per me geri senatus voluit, per tribuniciam potestatem perfeci”, “[...] nenhum cargo concedido contrariamente ao costume dos antepassados eu aceite. Os que, então, o senado quis que fossem desempenhados por mim, desempenhei-os inteiramente pela autoridade tribunícia” (Aug. RG 6).
100 Em 38 AEC foi cunhado um áureo (RRC 533/3a), a moeda de maior valor, em que Otávio aparece no
anverso, portando todos os seus títulos de então (IMP·DIVI·IVLI·F·TER·III·VIR·R·P·C, Imperador, filho do divino Júlio, pela terceira vez triúnviro pela constituição da res publica); no reverso há somente uma inscrição, que diz M·AGRIPPA·COS / DESIG, Marco Agripa, cônsul designado, comemorando o consulado que ele assumiria no ano seguinte. Como forma de comemorar a vitória de ambos em Ácio, foi cunhada uma série de moedas (RIC I 154-61), entre 27 e 10 AEC, na quais sempre, no anverso, aparecem retratados Augusto e Agripa, sendo que só este último está laureado com uma combinação de coroa de louros e coroa rostrata. O reverso dessa moeda apresenta um crocodilo acorrentado, representando a vitória de ambos sobre o Egito, que na Antiguidade era simbolizado por este animal.
101 Nessas duas moedas o anverso é ocupado por Augusto, na primeira contendo somente o título
AVGVSTVS, e na segunda a inscrição DIVI.F.AVGVSTVS., Augusto, filho do divino (César). No reverso de ambas duas figuras togadas representam Augusto e Agripa, portando cada um uolumen nas mãos, e uma capsa, uma espécie de bolsa utilizada para guardar os uolumina, próximo aos pés. Agripa está representado com uma coroa rostral e com uma coroa de louros.
102 Como Bourdieu (2009, p. 80) argumenta, temos a ilusão teleológica devido à forma retrospectiva
afastamento no tempo, conhecendo o desfecho e a sucessão dos eventos103. Não há como negar, evidentemente, que o processo de concentração de poderes sob a pessoa de Augusto levou a uma monarquia, bastando perceber todo o desenvolvimento de um culto à figura do princeps, sua concentração de poderes e da formação de uma corte imperial. O triunfo, por exemplo, honra que caberia aos generais que vencessem batalhas, sancionada pelo Senado assim que eles fossem aclamados imperatores por suas tropas, não é, após 19 AEC, mais algo a ser disputado por qualquer um, ficando restrito ao princeps e seus familiares (BEARD, 2007, p. 196). A questão é que essa monarquia, acreditamos, além de não ter sido necessariamente organizada sob esse molde desde o princípio, também não era sedimentada na hereditariedade comum a esse tipo de governo, pois Augusto não era um rex. Como Bourdieu (2009, p. 81), consideramos que:
A razão e a razão de ser de uma instituição (ou de uma medida administrativa) e dos seus efeitos sociais, não está na “vontade” de um indivíduo ou grupo mas sim no campo de forças antagonistas ou complementares no qual [...] se geram as “vontades” e no qual se define e se redefine continuamente, na luta – e através da luta – a realidade das instituições e dos seus efeitos sociais, previstos e imprevistos.
Dessa forma, ao observarmos o nascimento do que chamamos de Principado, pensamos que este não foi fruto de um plano premeditado, mas resultado de constantes confrontos e negociações com as elites e o povo romano, bem como de um profuso esforço simbólico, retórico, político e militar por parte do princeps e de seus pares. Por isso, quando Augusto, em 23 AEC, caiu muito doente e pensou que morreria, de acordo com Dio (53.30.1), não apontou nenhum sucessor (e como o poderia se ele não era formalmente um rei e nem detinha a posse da res publica?), tendo apenas providenciado uma lista com os exércitos
da história em fim da acção histórica, a intenção objetiva só revelada no seu termo, após a batalha, em intenção subjectiva dos agentes, em estratégia consciente e calculada, deliberadamente orientada pela procura daquilo que acabará por daí advir, constituindo assim o juízo da história, quer dizer, do historiador, em juízo final”. Grifos do autor.
103
Para uma discussão sobre a passagem da República para o Principado, cf. Faversani (2013). Concordamos com esse autor no sentido de que a fronteira entre esses dois períodos foi traçada por nós, posteridade, para melhor concebermos e didatizarmos o pensamento sobre esse período histórico. Na época, nenhum romano classificou como Principado o governo de Augusto, por exemplo; Tácito, no final do século I EC, é o primeiro autor a classificar os governos que lhe precederam de Principado, usando esse termo para denominar o governo de Tibério (Ann. 1.1: “Tiberii principatum”, “Principado de Tibério”). Esse processo histórico foi, porém, muito mais fluido, cheio de novidades e resgates; quando pensamos nas várias camadas da existência social existente, a reificação da periodização se perde.
e as contas públicas ao seu colega-cônsul daquele ano, Calpúrnio Pisão, e deixado a Agripa o anel que continha o seu selo.
De todo modo, Agripa era, sem dúvidas, após tantos anos, recompensado com a fides do princeps, se fixado como o braço direito de Augusto. Em 17 AEC, como Augusto (RG 22) registra, Agripa foi seu companheiro frente aos quindecênviros na celebração dos Ludi Saeculare, celebração esta que marcava o começo de uma nova era, proporcionando um grande valor simbólico e propagandístico para o princeps104. Não sabemos se ele seria elencado como sucessor e herdeiro das posses de Augusto, já que morreu em 12 AEC. O outro grande apoiador e amigo íntimo de Augusto era Mecenas, que lhe acompanhou durante toda a trajetória política, proveniente de uma família abastada e renomada, mas que, conforme anunciam Horácio (“Care Maecenas eques”, “querido cavaleiro Mecenas”, Carm. 1.20, v. 5) e Propércio (“Maecenas eques Etrusco de sanguine regum”, “Mecenas cavaleiro etrusco de sangue régio”), permaneceu na ordem equestre. Ele, assim como Agripa, também representou um novo paradigma de atuação pública: embora amplamente rico105, não ascendeu à ordem senatorial e nem concorreu para os cargos públicos oficiais, atuando de forma enviesada na vida pública. Nem por isso Mecenas foi menos importante para o complexo processo que levou ao estabelecimento do Principado. Ele atuou como diplomata de Otávio, sendo essencial em negociações (cf. Hor. Sat. 1.5 e Plut. Ant. 35)106. Na época da Batalha de Ácio, por exemplo, conforme relata Veleio (2.88), enquanto o futuro princeps encontrava-se ocupado, junto a Agripa, em eliminar
104 Para maiores detalhes sobre essa importante celebração, para a qual Horácio foi convidado a compor
um poema (Carmen Saeculare), no qual louvores a Augusto e sua família aparecem explicitamente, cf. Davis (2001).
105 Mecenas era famoso por sua riqueza, a qual era possivelmente herança de família. São famosos, por
exemplo, os Jardins de Mecenas, que ficavam no monte Esquilino e são mencionados por Horácio (Sat.