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1. AGROECOLOGIA: a construção de um saber
1.1. Agroecologia entre o tradicional e o moderno
A agroecologia, segundo Caporal (2009), consolida-se com enfoque científico na medida que se nutre em várias ciências, tais como a biologia, a agronomia, a sociologia, a economia bem como os saberes, o conhecimento e a experiência de agricultores tradicionais, possibilitando a construção de conceitos e métodos para orientar as novas formas de manejo da agricultura.
Essa ciência, ainda em construção, deve ser participativa, incluindo todos os atores (pesquisadores, agricultores, empresários, políticos), exigindo, portanto, que se faça uma análise detalhada das condições locais a fim de evitar que sua atuação seja reducionista e muito tecnicista. Conforme Primavesi (1997), a agricultura ecológica trabalha de forma holística e sistêmica o solo, as plantas, o clima, e por essa forma de trabalhar, maneja ciclos e equilíbrios. É com este conceito holístico que a agroecologia se nutre ao lidar com o todo, sem desconsiderar nenhuma das partes envolvidas, estabelecendo uma base de interação entre a floresta, modelo de sabedoria da natureza, e os sistemas produtivos sempre respeitando os ciclos naturais de produção.
Trabalhar os sistemas de forma sustentável, inserindo métodos naturais de controle de pragas e doenças, manejo de plantas invasoras e não a sua eliminação, permite que haja presença de inimigos naturais que estabeleçam o equilíbrio necessário para a produção; essas são algumas das formas que podem ser utilizadas para que o sistema tenha produtividade por um longo período.
A agroecologia é uma nova forma de se fazer agricultura, que vem sendo amplamente discutida nos meios acadêmicos e vem conquistando seu espaço na agricultura brasileira, por se fundamentar em um novo sistema de manejo, onde o desenvolvimento sustentável e a preservação ambiental fazem parte desse novo paradigma, que visa minimizar os impactos nos ecossistemas e elevar a qualidade de vida.
A repeito desse tema Ribeiro e Freitas (2012, p. 91) consideram que
A agroecologia, como o próprio nome sugere, consiste na aplicação de conceitos ecológicos à agricultura, de forma que esta seja equilibrada ambientalmente, correta socialmente e economicamente viável. É produzir alimentos sob um outro paradigma, holístico, com praticas agrícolas não agressivas à vida no seu conjunto, gerando alimentos saudáveis, livres de resíduos tóxicos e com qualidade ecológica.
Para Altieri (2001), a agroecologia propicia as bases científicas, mostra uma quantidade de preceitos e metodologias consideráveis para seu estudo e análise, desenho, condução e avaliação do agroecossistema, intuindo a permissão, a implantação e o progresso dos modos agrícolas com maiores níveis de sustentabilidade.
Quando se pensa em agroecologia, logo vem à mente uma agricultura sem uso de agroquímicos ou produtos geneticamente modificados, mas ela é maior, possui uma abordagem social, cultural, econômica e ecológica e, dessa maneira, estuda as interrelações existentes entre todos estes fatores. Ela é construída continuamente em conjunto com a sociedade agrícola, não se restringindo aos meios acadêmicos e não se impondo como uma verdade única e universal.
Conforme Norgaard e Sikor (2002), a agroecologia considera tanto os sistemas agroecológico como o social, nos quais trabalham os agricultores, dá pouca ênfase às pesquisas realizadas em centros experimentais e laboratórios, prioriza os experimentos nas propriedades, além de ser mais aberta à participação dos agricultores no processo de pesquisa; a troca de experiência entre os produtores faz-se continuamente, aquilo que deu certo para um vizinho pode ser o certo para outro.
Nesses modelos agrícolas de base agroecológica eram envolvidos outros recursos além da cultura comercial, ou seja, era um manejo que visava estabelecer uma harmonia entre os riscos ambientais e os econômicos, a fim de manter a base produtiva através dos tempos. Esse sistema de produção inclui infraestruturas como terraços, valas e equipamentos para irrigação, localmente desenvolvidos (ALTIERI, 2002).
Moreira e Carmo (2004) entendem que a agroecologia é ao mesmo tempo uma abordagem científica e popular, que repousa sobre um marco teórico e metodológico questionando
justamente a verdade científica universal. Pode-se afirmar, então, que a agroecologia deve ser construída em conjunto, e, para que isto se torne possível, faz-se necessário que todos os setores envolvidos tenham vontade política para colocar esta ciência em prática.
Sua definição também reúne uma combinação entre o ecológico e o social, da evolução da estrutura e do funcionamento dos agroecossistemas, estimulando os estudiosos a conhecer a ciência e a habilidade dos agricultores, com identificação do potencial e união da biodiversidade aos sistemas produtivos. Segundo Altieri (2002, p. 16),
[...] A agroecologia fornece as diretrizes para um manejo cuidadoso dos agroecossistemas, sem provocar danos irreparáveis. Simultaneamente ao esforço para combater as pragas, doenças ou deficiências do solo, o agroecólogo luta para devolver ao agroecossistema sua elasticidade e força. Se a causa das doenças, pragas, degradação do solo, etc., forem atribuídas a um desequilíbrio, então a meta do tratamento agroecológico será restaurar o equilíbrio. Na agroecologia, incremento e manutenção da biodiversidade é a técnica principal para restaurar a autorregulação e a sustentabilidade [...].
A autorregulação se restaura naturalmente, desde que, na medida do possível, preservem- se as características naturais do lugar, pois a existência de variedades biológicas vai proporcionar a coexistência das várias espécies de insetos, inclusive os predadores naturais, que serão atraídos ao local pelo aroma das várias plantas do lugar. Dessa forma, eliminam-se naturalmente os insetos nocivos ao agroecossistema.
A agroecologia é uma prática agrícola que tem como característica ser altamente inclusiva social e economicamente, por exigir baixo investimento inicial e usar mão de obra interna; e ao se diversificar a produção, sempre haverá vários produtos prontos para o consumo e disponíveis para atender o mercado local, gerando segurança alimentar, trabalho e renda dentro do núcleo familiar. Em razão dessas características, a agroecologia tem muita afinidade com os pequenos produtores de base familiar que promovem com o seu trabalho a inclusão e a reprodução social e econômica do núcleo familiar.
Os interesses dos pequenos produtores não estão adequadamente representados no processo político, sendo conduzidos às terras frágeis, limitando a produção, fazendo com que esses agricultores caiam num círculo vicioso e destrutivo do ambiente que os mantém, imitando as práticas dos médios e dos grandes agricultores (HECHT, 2002).
A produção agrícola moderna evoluiu muito, mas está subordinada às técnicas e às tecnologias que são prescritas, sem levar em consideração a verdadeira aptidão das diferentes pessoas e das regiões envolvidas com a produção. Alicerçadas e construídas a partir de modelos
importados, e com práticas inadequadas, tais políticas cooperam para o processo de degradações ambiental, cultural, econômico e social do campo brasileiro.
Assim, observa-se que o modelo de transferência de tecnologia provocou um agravamento das disparidades sociais, exacerbando as diferenças econômicas e sociais entre a agricultura familiar e o agronegócio, que sempre foi beneficiado pelas políticas de governo.
No entanto, a ciência agroecológica pode ser melhor descrita como uma abordagem que integra concepções e métodos de diversas outras áreas de conhecimento e não como uma disciplina específica.
Percebe-se na agroecologia uma maior atenção aos aspectos políticos, econômicos e culturais, quando comparados a outras vertentes da agricultura orgânica. Segundo Altieri (2012), a agroecologia é tanto uma ciência quanto um conjunto de práticas.
No campo da ciência, a agroecologia embasa-se na Ecologia para estudar, desenhar e manipular os agroecossistemas. Para Altieri (2012), a agroecologia considera necessária a incorporação do pensamento social, indo além dos aspectos técnicos. Para ele, esse modelo se contrapõe à agronomia convencional e adota como princípios a dialética na interrelação sociedade e natureza.
Machado (2009) considera, a aceitação dos ciclos da natureza, a não submissão aos elementos técnicos, bem como os aspectos econômicos, políticos e culturais, e, assim como Caporal (2009), acredita na agroecologia como destaque científico abrangente e heterogêneo.
O pensamento desses dois autores converge para uma unidade teórica, envolvendo campos econômicos onde os participantes devem privilegiar o comércio justo entre as partes, onde as leis devem ser obedecidas, principalmente as trabalhistas e as culturais, pois as tradições e culturas de cada localidade devem ser respeitadas e, se possível, incrementadas para a manutenção da cultura local e a renovação de seus membros ativos pela continuidade das tradições culturais.
A agroecologia que representa a base conceitual da agricultura orgânica hoje já faz parte da grade acadêmica de cursos de graduação, especialização e pós-graduação de diversas universidades, com importantes centros de pesquisa agrícola incorporando o desenvolvimento de sistemas orgânicos de produção em seu portfólio de projetos, tanto no exterior quanto no Brasil.
O termo já é muito utilizado e possui várias definições, como “agricultura sem agrotóxicos”, “agricultura orgânica”, “agricultura alternativa”, mas, de modo geral, simboliza um modo de estudo da agricultura que se reveste de cuidados especiais em relação ao ambiente
e aos problemas sociais, com perspectiva na produção e na sustentabilidade ecológica de produção (ALTIERI, 2002).
Assim sendo, os exemplos dessa produção agroecológica como a agricultura orgânica vêm ganhando legitimidade social e política no Brasil, passando a ser utilizada com mais frequência, em especial por segmentos sociais, mais preocupados com a segurança alimentar e com o meio ambiente (ALTIERI, 2000).
Essa preocupação dos agroecologistas está intimamente relacionada com as leis ambientais brasileira de preservação ambiental e com a produção de alimentos saudáveis, respeitando o direito do cidadão de ter acesso a alimentos de origem confiável, livre de elementos químicos, sintéticos e trangênicos.