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6 A AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA E SEUS IMPACTOS NO ACRE: PREÇO DO ÁLCOOL, CULTURAS ALIMENTARES E O MERCADO DE TERRAS

6.3 Agroindústria canavieira no Estado do Acre

Baseada numa política energética (Programa Nacional do Álcool, Pró- álcool) adotada pelo governo federal desde meados da década de 1970 com o objetivo de reduzir à dependência e a vulnerabilidade do país as variações de preços e crises da indústria petrolífera mundial, o governo brasileiro financiou através do Banco do Brasil a construção de uma usina para a produção do álcool e açúcar (denominada Alcobrás) nos finais da década de 1980 no Estado do Acre. Porém, a agroindústria não chegou a funcionar e os equipamentos e todas as infraestruturas criadas ficaram abandonadas no município de Capixaba (FARIAS, 2010).

No início dos anos 2000, a pressão feita pelos organismos ambientais fez com que fortalecesse mais a necessidade de encontrar uma fonte alternativa ao petróleo que possa contribuir para a redução de emissão de gases de efeito estufa. Nesta perspectiva, foram lançados no Brasil os caros flex em 2003, essa nova viatura que pode ser movida a diesel ou a álcool teve grandes impactos sobre a agroindústria sucroalcooleira nacional. A partir deste momento ocorreu um considerável aumento de expansão das áreas para a produção de cana- de-açúcar.

Nesta ótica, o governo do Acre aproveitando das políticas públicas de incentivo a produção do etanol por parte do governo federal, tomou a iniciativa de reativar o antigo projeto falido – Alcobrás, assim, adquiriu junto ao Banco do Brasil as terras e os demais ativos (maquinários) que restou da antiga agroindústria (PEREIRA, 2010). De acordo com o autor, em 2007, o Banco do Brasil, que era detentor da usina, repassou para o Estado do Acre os bens remanescentes da agroindústria. E o governo por seu lado arrendou o patrimônio a um grupo privado (Grupo Farias) do setor de açúcar e álcool, com sede em Pernambuco, mas que tem investimentos e experiências no sector e opera em diversos Estados importantes do país, entre eles o São Paulo.

Para viabilizar o funcionamento da usina, o governo do Estado estabeleceu uma espécie de Parceria Público Privada, onde participa como parte dos acionistas da empresa, assim, o capital acionário da usina passou a ser composta com 60% das ações pertencentes ao Grupo Farias (que é sócio majoritário), 10% adquiridos pelo empresário Maurílio Biaggi, 25% das ações pertence aos empresários acreanos e 5% fica sob controle do Estado do Acre (PEREIRA, 2010).

A participação do governo do Estado nas ações da usina é tida como estratégica feita no sentido de colaborar e participar diretamente nas tomadas de decisões sobre modo de produção agrícola a ser adoptado pela usina, com o objetivo de minimizar os potenciais

impactos sociais e ambientais que agroindústria possa causar durante o processo de produção e fabrico de álcool e/ou açúcar. Nesta perspectiva, um conjunto de normas foi elaborado para orientar o funcionamento das atividades da agroindústria. A usina teve de assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), em 2009.

Conforme o TAC:

A Álcool Verde deverá cumprir, entre outras, as seguintes obrigações: não utilizará de fogo em qualquer etapa da produção de cana‐de‐açúcar, nem adquirirá essa matéria‐prima de produtores que empregarem o uso do fogo; realizará plantações de cana em áreas preferencialmente utilizadas por pastos, não suprimirá mata nativa para o cultivo desta lavoura, bem como não adquirirá matéria‐prima de produtores que tenham suprimido vegetação nativa para seu cultivo; só poderá arrendar terras em áreas devidamente licenciadas pelos órgãos competentes; fará acompanhamento, enquanto vigorar a outorga, de uso da água recebida, da dinâmica dos igarapés e rios utilizados como fontes hídricas do empreendimento, identificando os impactos negativos gerados, tanto no que tange à vazão e ao volume de água, quanto no que diz respeito à contaminação por produtos utilizados na produção e processamento da cana‐de‐açúcar e do álcool; comprometer‐se‐á a realizar estudo sobre os lençóis freáticos existentes na área de o entorno da usina e priorizará a adução hídrica de poços, a fim de diminuir sua demanda por água proveniente de rios e igarapés; comprometerá, devido ao aprimoramento industrial, a reduzir em 10% nos próximos 10 anos o uso de água no processo produtivo; comprometerá a cessar imediatamente a adução de água de rios e igarapés para o empreendimento se ocorrer redução de volume desses recursos que comprometa o consumo doméstico da população local; deverá acompanhar a preservação e manutenção de áreas de preservação permanente em terras arrendadas, bem como monitorar os impactos causados no solo devido a uso de vinhaça; deverá realizar a plantação de cana‐de‐açúcar em rotação com outros gêneros alimentícios, evitando o regime de monocultura, privilegiando a parceria com pequenos produtores locais (ALVES JUNIOR, 2012, p. 157).

Essas medidas constituíram uma inovação no sistema de produção do álcool e açúcar no país, são importantes para conservação do meio ambiente no Acre, prevenindo futuros danos do bioma local, e constitui um modelo para a região Amazônica como um todo que possui extensas áreas de pastagens degradadas que podiam ser utilizadas de forma sustentável para agricultura. O primeiro ponto que merece realce é a utilização racional de fertilizantes químicos de forma a reduzir o impacto negativo sobre o meio ambiente e principalmente sobre os recursos hídricos, e utilização correta de vinhaça, subproduto da indústria canavieira.

A vinhaça é um volumoso resíduo gerado no processo de obtenção do álcool, esse subproduto é bastante utilizado como adubo, através da fertirrigação. Ela apresenta alta concentração de potássio, por isso, se não for utilizada de forma adequada pode contaminar o solo, as águas subterrâneas e mananciais. Além de potássio, a vinhaça é rica em saís sólidos, a

sua acidez é de 4 a 4,5, possui um poder de poluição maior do que esgoto doméstico (GONÇALVES, 2008; GOMES, 2010). Segundo os autores, durante o processo da industrialização da cana-de-açúcar é gerada 13 litros de vinhaça para cada litro de etanol produzido, se tomar em conta que a produção do álcool da usina Álcool Verde em 2013 foi de 7.500.000 de litros, isto significa que foram gerados 97.500.000 de litros de vinhaça, o que gera grande preocupação ambiental.

No entanto a vinhaça pode ser utilizada como importante adubo orgânico. Segundo um estudo realizado pela COOPERSUCAR e citado por (GOMES, 2010), para cada 1 ha pode ser aplicado 150 mil litros de vinhaça o que seria equivalente a aplicação de 690 quilos de cloreto de potássio, e tem implicação direta no aumento da fertilidade do solo elevando a produtividade agrícola em até 8%.

A perspectiva da usina é de dobrar a produção do álcool até 2015, chegando a 15 milhões de litros de etanol produzido, o que implicaria na geração de 195 milhões de litros de vinhaça. Adotando-se uma aplicação média de 150 mil litros de vinhaça por hectare por ano, seria necessária uma área de 1.300 hectares para absorver todo este volume de vinhaça por meio da fertirrigação.

Como a usina atualmente opera numa área equivalente a 2400 ha a capacidade para absorver a vinhaça gerada durante a produção do etanol é total. No entanto, é importante enaltecer que a sua aplicação por meio da fertirrigação pode ser inviabilizada do ponto de vista econômica em função da distância e de custo de transporte. Segundo Gomes (2010), a aplicação da vinhaça na fertirrigação só pode ocorrer num raio de 15 a 30 km (área de influência direta) da agroindústria (Mapa 4), além desta distância, a sua utilização começa a ser inviável do ponto de vista econômico devido ao alto custo de transporte. Por isso é importante a sua fiscalização para que a sua descarga não venha ser feita de forma aleatória, correndo risco em contaminação dos mananciais e lençóis freáticos.