CAPÍTULO 2. ORGANIZAÇÃO ESPACIAL DA PRODUÇÃO AGROINDUSTRIAL
2.1 Agronegócio, complexo e cadeia agroindustrial
O agronegócio é visto como um sistema que envolve, desde a fabricação de insumos, a produção no campo e sua transformação até o consumidor. Incorpora-se nesse sistema os serviços de apoio à agropecuária como a pesquisa e assistência técnica, processamento, transporte, comercialização, crédito, exportação, serviços portuários, bolsas de valores e industrialização.
Davis e Goldberg (1957), economistas americanos, desenvolveram esse conceito analítico cunhando o termo “agribusiness” e definindo-o como sendo a soma total das operações de produção e distribuição de suprimentos agrícolas, das operações de produção nas unidades agropecuárias, do armazenamento, processamento e distribuição de produtos agrícolas e itens produzidos a partir deles.
Entretanto, o termo “agronegócio” tem sido utilizado por autores e agentes produtivos de maneira inadequada e pejorativa. Como sinônimo de produções agropecuárias desenvolvidas em larga escala econômica, geralmente commodities, que agridem o meio ambiente e geram desigualdades sociais no campo, criando uma dicotomia em relação à
“agricultura familiar”7
como se fossem modelos conflitantes e não coexistentes (SILVA; BREITENBACH, 2013). Segundo os autores, essa dicotomia reflete a confusão teórica ou a ideologização dos conceitos ao se afirmar, por exemplo, que a agricultura familiar é desvinculada ou não se insere no mercado de produtos agropecuários comumente considerados no agronegócio, seja pelo fornecimento de insumos e equipamentos à produção ou na aquisição de mercadorias geradas na propriedade rural.
O que deveria ser discutido mais profundamente são os modelos e tipos de sistemas de produção agrícola, que variam em relação à intensidade de uso do solo, renda por unidade de área e características do produto agrícola. Os aspectos que estes sistemas possuem em comum, podem subsidiar ações ou políticas de apoio ao seu desenvolvimento. Para exemplificar este ponto de vista, Gonçalves (2002) faz uma analogia com a agricultura americana classificando-a em dois modelos claramente distintos: os modelos “texano” e “californiano”.
O modelo “texano” associa lavouras mecanizadas com uso intensivo de insumos, produzindo uma determinada commoditty que possui elevado padrão de uniformidade, no qual o incremento constante de produtividade potencialmente reduz os custos de produção.
Nesses casos, a renda líquida cresce a partir de incrementos de quantidades produzidas (escala de produção) acarretando em redução de custos de produção por unidade. Ou seja, tratam-se de modelos produtivos cujos ganhos em escala determinam as rentabilidades dos empreendimentos.
Segundo Gonçalves (2002), em economias de países continentais esse modelo de produção é fundamental para o desenvolvimento, “não apenas para sustentar enquanto bens intermediários outras cadeias de produção, como o complexo carnes, em especial, suínos e aves, como também para fornecer esses bens no mercado internacional”.
No modelo “californiano”, há diferenciação dos produtos agrícolas a partir de critérios qualitativos, que se configuram como elementos inerentes e determinante do processo de produção.
Assim, algumas características intrínsecas do produto acompanham toda a cadeia de produção, no qual a escolha do material genético define tanto características intrínsecas
7 Para os efeitos da Lei Federal nº 11.326/2006, considera-se agricultor familiar e empreendedor familiar rural
aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos: I - não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais; II - utilize predominantemente mão-de- obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento; III - tenha renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento; IV - dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família. Também são considerados agricultores familiares os silvicultores, aquicultores, extrativistas e pescadores artesanais que atendam aos requisitos expostos, além de outros específicos e detalhados na legislação.
(sabor, coloração e composição) como extrínsecos (época de colheita que determina a sazonalidade) e formato ou coloração do produto agrícola. A manifestação plena das características de diferenciação desses produtos, além de decorrentes de condições edafoclimáticos, está associada às atividades técnicas do processo de produção.
Segundo Gonçalves (2002), outra característica desse modelo de produção agrícola baseado em produtos diferenciados na origem reside na intensificação do uso do solo. Na maioria dos casos são lavouras perenes, como as frutas e o café, ou há necessidade de infraestrutura física perene compostas de estufas, irrigação por gotejamento, canteiros, canais de drenagem. Isto tendo em vista a intensificação de plantios com sucessivas safras tal qual ocorre com as olerícolas e as flores.
Desta maneira, a principal distinção nos dois modelos de produção advém dos produtos gerados, pois:
Para a produção de commodities, a exigência de uniformidade da matéria prima é condição determinante do rendimento agroindustrial, sendo os custos, por unidade, definidos pela produtividade por unidade de área. Na produção de produtos diferenciados na origem, desde logo rompe-se com a uniformidade como fator limitante, uma vez que definido o padrão um elemento fundamental é exatamente ampliar a singularidade não apenas com maior porcentagem de produtos de padrões superiores (e não médios), pois há diferenciação de preços derivados dos graus de excelência dos produtos (GONÇALVES, 2003).
Em suma, o agronegócio brasileiro apresenta enorme heterogeneidade de subsistemas socioeconômicos com dinâmicas particulares de funcionamento e relacionamento. O aprofundamento no conhecimento dessas particularidades tem a capacidade de subsidiar a definição de ações que culminem no aumento da competitividade das organizações, influenciando o próprio agronegócio nacional (CAMPEÃO, 2004).
Para Mori et al. (2009), as principais abordagens analíticas empregadas nos estudos que procuram aprofundar análises no agronegócio estão centradas no conceito de Cadeias de Produção. Segundo Batalha e Silva (2007), o conceito de cadeia de produção passou a ser amplamente utilizado no Brasil a partir do final dos anos oitenta em trabalhos sobre o funcionamento do agronegócio.
Destaca-se nesse contexto, segundo Batalha (1995), o ponto de partida para análise de cadeias produtivas. Parte-se de uma matéria prima agrícola para explorar toda a diversidade de produtos que tal pode originar (complexo agroindustrial), ou ao contrário, o ponto de análise se inicia em determinado produto final comercializado ao consumidor, explorando os caminhos pelos quais percorreu desde a lavoura (cadeia agroindustrial).
De maneira geral, ambas abordagens analíticas focalizam o fluxo dos processos, estruturas e relações de produção e distribuição de um determinado produto ou matéria-prima, levando em consideração, desde a extração ou produção agrícola até pós-venda e disposição final (MORI et al., 2009).
As noções de complexo e cadeia agroindustrial apresentam a mesma visão sistêmica e mesoanalítica no qual, a análise, “deve necessariamente passar pelo estudo da forma de encadeamento e articulação que gere as diversas atividades econômicas e tecnológicas envolvidas na produção de determinado produto agroindustrial”, sendo que a noção de cadeia de produção deve ser entendida “pelo encadeamento das operações em sua estrutura de jusante a montante e suas inter-relações com o ambiente” (ARO, 2011).
Assim, uma cadeia produtiva é formada pelos segmentos de fornecedores de insumos e serviços; produção agrícola; industriais de processamento e transformação; agentes de distribuição e comercialização; além de consumidores finais (CASTRO, 1998).
Uma Cadeia de Produção Agroindustrial pode ser definida:
Como um conjunto de subsistemas de produção no qual os fenômenos, acontecimentos e fatos derivados das operações de um subsistema relacionam-se com fenômenos, acontecimentos e fatos relativos aos subsistemas a ele adjacentes; e ser entendida como o conjunto multicamada de redes de produção com fluxos multidirecionais de materiais e informação, em que a manutenção de sua estrutura está pautada nas relações entre os agentes de um segmento e deste com outros segmentos ou camadas, podendo ser influenciada pelos ambientes socioeconômico, político, ambiental e tecnológico nos quais a cadeia está inserida... (TOLEDO; BORRAS, 2006).
Segundo ARO (2011), nesta visão de cadeia de produção, cada segmento é composto por um conjunto de “agentes” que se inter-relacionam por meio de “elos”. Entende- se por “agente”, toda empresa ou instituição, pública ou privada, que estiver envolvida em alguma transação dentro da cadeia agroindustrial, incluindo o consumidor final.
Já o conceito de “elo” deve ser interpretado como o “ambiente de realização de transações geradas pela troca contínua de bens, serviços (fluxos de comunicação) e de informação entre diferentes agentes e segmentos”.
Ocorre que no agronegócio, as dinâmicas técnicas e organizacionais são diretamente influenciadas pelo território, devido: a dependência das agroindústrias nas condições edafoclimáticas para obterem matérias-primas e implicações da localização geográfica nos custos logísticos (MORI; BATALHA; ALVES FILHO, 2009).
Assim, o território tem influência expressiva na competitividade dos, complexos e cadeias agroindustriais. Batalha e Silva (2007) aprofundaram análise sobre essas questões e apontaram que a dinâmica industrial do agronegócio é condicionada por elementos
biológicos, de solo e clima, tais como a sazonalidade da produção agropecuária; variações de qualidade do produto agropecuário; perecibilidade da matéria-prima; aspectos socioculturais dos alimentos; além de outros. Ou seja, por elementos característicos do meio onde a atividade está inserida.
A influência do território e suas singularidades no segmento de produção agrícola das cadeias agroindustriais motivou a realização de diversos estudos utilizando novas abordagens teóricas e analíticas preocupadas com a organização espacial da produção. Presentes em estudos sobre economia industrial, a integração dessas abordagens e conceitos serão explorados na próxima seção.
2.2 Abordagens territoriais utilizadas nas análises de cadeias agroindustriais