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3 AGRONEGÓCIO E TRABALHO ESCRAVO: QUANTO VALE A VIDA?

No documento FERNANDA GOMES DA SILVA (páginas 38-70)

CASOS REGISTRADOS NA LISTA SUJA POR REGIÃO

3 AGRONEGÓCIO E TRABALHO ESCRAVO: QUANTO VALE A VIDA?

O agronegócio se tornou uma grande potência econômica mundial, todavia, o custo tem sido muito alto e a conta tem caído sobre a classe trabalhadora rural. A seguir falaremos um pouco sobre como o agronegócio tem atuado na permanência do trabalho escravo na atualidade e a atuação dos movimentos sociais no combate a essa prática desumana e na luta pela garantia de uma reforma agrária popular.

3.1 A Questão Agrária na Atualidade: agronegócio em debate.

O mundo vivencia a partir de 1970 um período de intensa crise, onde o capital começa a buscar novas formas de acumulação e produção. Segundo Alves (2012), a crise estrutural inaugurou uma nova temporalidade histórica do desenvolvimento civilizatório, caracterizada por um conjunto de fenômenos sociais qualitativamente novos que compõem a fenomenologia do capitalismo global.

A crise proporcionou inúmeras mudanças nos setores financeiros, a agricultura não passou despercebida. Foi nesse período de crise e de reinvenção do Capital que os investimentos começaram a se voltar para o campo. O primeiro movimento foi incrementar a indústria com o setor agrícola, ou seja, a tecnologia que antes só existia no setor industrial começa a ser inserida no campo.

A organização das empresas rurais, assim como suas ligações com o setor industrial, comercial, bancário e de serviços em geral, ampliou em muito o grau de inserção do agrário, permitindo antever, já no ano de 1980, um grau de concentração da produção tal que: obtêm-se um indicador expressivo de 18,72% do valor total da produção agropecuária e florestal nacional concentrado em pouco mais de cinquenta unidades centralizadoras do capital no campo. (DELGADO, 2012)

Nesse momento de crise, a chamada “Revolução Verde” surge como uma proposta de aumentar a produtividade do setor agrícola, através de modificação em sementes, fertilização do solo, utilização de agrotóxicos e mecanização no campo. Todo esse processo visava uma produção elevada de alimentos para combater a fome.

Desse modo a revolução verde foi a solução apropriada para expansão capitalista nos países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, com vastas áreas inexploradas e produtores descapitalizados. Em síntese, a revolução verde consistiu na pesquisa e desenvolvimento de sistemas de produção

agrícola para a incorporação de pacotes tecnológicos de suposta aplicação universal que visavam o incremento da produtividade em distintas situações ecológicas. (QUIDÁ; FILHO, 2018, p.124)

No Brasil a implementação das novas tecnologias rurais foi marcada pela ideologia da modernização conservadora, ou seja, os avanços tecnológicos estavam acontecendo em diversos países. No entanto, foi necessário convencer os produtores rurais dos benefícios da adoção dos novos implementos na produção agrícola.

Inaugurou-se então um novo modelo de extensão rural voltado à difusão tecnológica, financiadas pelo crédito rural orientado, cujos principais beneficiários foram médios e grandes produtores rurais. De cunho tecnicista, as estratégias de desenvolvimento e intervenção negligenciaram questões culturais, sociais ou ambientais, direcionado prioritariamente suas ações aos aspectos técnicos da produção, em prejuízo das práticas de bem-estar social. (QUIDÁ; FILHO, 2018, pag.124)

Os benefícios da implementação de novas técnicas no campo, favoreceu em especial os grandes e médios latifundiários, que tinham aliança com grandes corporações do mercado financeiro. Esse movimento ficou conhecido como modernização conservadora, afinal, houve uma mudança na forma de produção, no entanto, permaneceu o alto índice de concentração de terras nas mãos de latifundiários/empresas transnacionais e a crescente desvalorização dos pequenos agricultores.

Barros (2014) afirma que,

Desde a ditadura militar, os governos brasileiros vêm investindo na agricultura, através da expansão de complexos agroindustriais, articulado com o capital financeiro internacional. Já nesse período, ocorre um processo de articulação entre o capital agroindustrial, o sistema de crédito a agricultura e a agroindústria e a propriedade fundiária no sentido de estruturar e sustentar a modernização conservadora da agricultura.

(BARROS, 2014, p.132)

O capital financeiro encontrou na agricultura uma forma de expandir a sua lucratividade. O governo liberou os mercados nacionais e colocou em prática as políticas de ajuste fiscal do neoliberalismo, favorecendo as grandes empresas transnacionais, por meio de isenções fiscais nas importações e exportações e taxas de juros privilegiando o modelo de agricultura capitalista. Nessa lógica globalizada, os governos locais diminuíram ou praticamente abandonaram as políticas públicas de comércio local e para agricultura camponesa. (BARROS, 2014)

Desse modo, com a diminuição dos investimentos para a agricultura camponesa, o agronegócio brasileiro começa a ganhar cada vez mais força, se tornando um dos grandes recordistas em produção e exportação de produtos agrícolas. Segundo Barros

(2014), “quando o capital se apropria da terra, este o faz num processo de concentração da riqueza que tem na propriedade privada da terra um caráter rentista, próprio do desenvolvimento capitalista brasileiro”.

No mercado mundial do agronegócio, o Brasil precisa exportar e importar, mesmo que tenha condições favoráveis para produzir aquilo que importa. Os capitalistas internacionais se beneficiam e aumentam seus lucros com as exportações. O Brasil tem um lugar privilegiado no mundo capitalizado, sendo um dos principais fornecedores e exportadores de alimentos, minério de ferro, aviões, produtos florestais (celulose, papel, madeira e seus derivados). (BARROS, 2014, p.134) A concentração de terras no Brasil é dominada pelo agronegócio que possui grande parte das terras destinadas ao cultivo de monoculturas e à pecuária. Os dados obtidos no censo agropecuário de 2017, realizado pelo IBGE, deixa evidente o quanto o processo de acumulação territorial não deixa de existir no Brasil. Segundo as análises realizadas os estabelecimentos de 100 a menos de 1000 hectares tiveram uma redução de 3.569 unidades em comparação ao censo de 2006. Já as propriedades com 1000 hectares a mais tiveram um aumento 3.625 unidades e um acréscimo de cerca de 17,08 milhões de hectares em relação ao censo agropecuário de 2006. (IBGE, 2017)

Apesar do agronegócio possuir a maior parte das terras produtivas do país, existe ainda uma insaciável sede de expansão, portanto, é necessário que haja uma quantidade de terras disponíveis. Para isso, o agronegócio invade reservas ambientais, matas nativas e territórios indígenas e quilombolas, gerando assim, uma série de disputas territoriais.

[...] A lógica da expansão do agronegócio no Brasil está intimamente ligada à disponibilidade de terras. Assim, para os empresários do setor, além das terras em produção, é necessário ter um estoque disponível para a expansão. Isso tem provocado um constante aumento dos preços das terras, tanto em áreas onde o agronegócio já se implantou quanto nas áreas que podem possibilitar o crescimento da produção. (LEITE;

MEDEIROS, 2012, p. 85)

O crescimento do agronegócio, apesar de ter sido um escape para a recuperação dos lucros do capital financeiro, trouxe consigo inúmeros problemas de natureza ambiental, econômica e social. Os problemas causados pelo agronegócio são os frutos da busca excessiva pelo lucro a qualquer custo, os mais prejudicados são a classe trabalhadora e os pequenos agricultores rurais.

O agronegócio está representado no latifúndio e na monocultura, sustentados pelas empresas multinacionais que controlam a terra, os recursos naturais, as sementes e a força de trabalho. Nessa lógica de produção, há um uso intensivo de mecanização, que expulsa força de

trabalho para aumentar a produtividade do trabalho agrícola, cujo sentido é de uma agricultura sem trabalhadores rurais. (BARROS, 2014, p.135) A apropriação das terras permite a elite agrária apoderar-se e explorar os recursos fundiários e ambientais, por isso, o agronegócio é uma das causas de diversos problemas ambientais. Segundo os dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE - o desmatamento da Amazônia atingiu a marca de 13.235 quilômetros quadrados entre 1 de agosto de 2020 a 31 julho de 2021, alta de 21,97% na comparação com o ano passado. O avanço do agronegócio, não acontece apenas na floresta Amazônica, mas a degradação também tem atingido outros biomas, como é caso do cerrado e do pantanal.

Como afirma Vezzali (2006)

Entre os biomas mais ameaçados do mundo, já é conhecida a degradação causada no Cerrado pela pecuária e lavouras mecanizadas de soja e algodão. Dos mais de 2 milhões de quilômetros quadrados originais de vegetação nativa, restam apenas 20%. Pouco se diz, porém, que a destruição do Cerrado também atinge o Pantanal – declarado patrimônio nacional pela Constituição brasileira. (VEZZALI, 2006)

O desmatamento da Amazônia e de outras áreas de proteção ambiental retrata o expansionismo do agronegócio, que precisa de novas terras, seja para produzir pastos ou para o plantio de monoculturas. Desse modo, “trabalhadores e natureza são igualmente explorados''. (RIGOTTO, et al. 2013, p.145)

Essas atividades produtivas, ao serem instaladas, ocupam um espaço e alteram o ecossistema, afetando as comunidades de vida (humana, fauna e flora), sendo muitas vezes objeto de disputas acirradas no território, além de transformar o modo de vida e trabalho das populações. O processo de trabalho realizado pelos trabalhadores e trabalhadoras no interior dessas atividades produtivas pode ser fonte de renda, oportunidade de socialização e realização, de aquisição de conhecimento e bem-estar, mas também pode ser fonte de exploração, sofrimento, adoecimento, mutilação e morte, a depender das relações e condições dos ambientes de trabalho, bem como da organização dos processos de trabalho. (RIGOTTO, et al. 2013, p.148)

Além do desmatamento, a contaminação da água por agrotóxicos vem crescendo assustadoramente nos últimos anos. De acordo com os dados fornecidos pela REPÓRTER BRASIL (2019) em 2014, 75% dos testes detectaram agrotóxicos. Esse número subiu para 84% em 2015 e foi para 88% em 2016, chegando a 92% em 2017. Se permanecermos nesse ritmo, em alguns anos não vamos encontrar água sem agrotóxicos nas torneiras do país. (ARANHA; ROCHA, 2019)

Entre os agrotóxicos encontrados em mais de 80% dos testes, há cinco classificados como “prováveis cancerígenos” pela Agência de Proteção

Ambiental dos Estados Unidos e seis apontados pela União Europeia como causadores de disfunções endócrinas, o que gera diversos problemas à saúde, como a puberdade precoce. Do total de 27 pesticidas na água dos brasileiros, 21 estão proibidos na União Europeia devido aos riscos que oferecem à saúde e ao meio ambiente. (ARANHA; ROCHA, 2019)

Esse modelo de agricultura capitalista age como um parasita no meio ambiente, suga tudo aquilo que lhe favorece, deixando apenas as marcas da sua atuação, não existe uma preocupação com os recursos naturais e muito menos com as consequências da sua exploração desmedida. Algumas empresas agrícolas criam campanhas publicitárias em defesa do meio ambiente, com o objetivo de ocultar a degradação dos recursos naturais sob a perspectiva do crescimento econômico, no entanto, tudo não passa de estratégias midiáticas para tirar o foco de um dos principais causadores de problemas ambientais, o próprio agronegócio.

Os transtornos ambientais são apenas a ponta do iceberg. O agronegócio suscita outros problemas ambientais e sociais, que se camuflam diante da sua grandiosidade divulgada pela mídia. Os índices de desemprego no campo, por exemplo, estão relacionados intimamente com o agronegócio e não são divulgados pela mídia, afinal o agronegócio substituiu o trabalhador pela máquina, com o processo de mecanização e industrialização do campo, não deixando espaço para o trabalhador rural, que acaba sendo obrigado a ir em busca de oportunidades nos centros urbanos.

A diminuição na geração de empregos no campo é resultado das mudanças que ocorreram no mundo do trabalho e que tem refletido na zona rural que vivencia um processo de expansão e desenvolvimento na produção e substituição do homem pela máquina. Antunes (2010) afirma que “as máquinas inteligentes não podem substituir os trabalhadores”, ou seja, sem a capacidade intelectual dos homens, não seria possível o desenvolvimento do trabalho no campo.

Devido a geração insignificante de empregos diretos, grande parte dos empregos é informais e precarizados, não promovem distribuição de renda e muito menos contribuem para a redução das desigualdades sociais vivenciadas no campo. Como consequência, surgem os inúmeros problemas sociais enfrentados pela classe trabalhadora rural, além do crescimento de empregos informais, exploração do trabalho, violação de direitos e até mesmo trabalho em condições análogas à de escravidão, chegando ao ápice do desrespeito com a dignidade humana.

Obviamente, que a expansão do agronegócio brasileiro não seria possível se ele não tivesse o apoio do Estado. É por meio da chamada “bancada ruralista”, formada por

parlamentares que apoiam e defendem os interesses do setor que muitas leis são criadas, aprovadas e sancionadas. O Estado sempre investiu na economia agrícola, não buscando trazer benefícios ao país e muito menos à sociedade, mas sim, proporcionando um favorecimento ao grande capital que tem o domínio do agronegócio.

Tanto na década de 1990, como na atual, e desde sempre, o Estado sempre interviu de forma vigorosa na economia agrícola. Não necessariamente para regular em defesa da sociedade ou enquadrar a atividade nos trilhos de um projeto verdadeiramente estratégico para o país [...]. Mas a forte regulação desde o neoliberalismo tem sido de natureza negativa, ou seja, uma regulação da própria sociedade, para favorecer o grande capital que controla o agronegócio. No Brasil, particularmente no caso da economia do agronegócio, o ‘espírito animal’ foi estatizado. Quem ousa pelo capital é o Estado! Os capitalistas e os grandes proprietários tradicionais são avessos a riscos. (TEIXEIRA, 2013, p.18)

A bancada ruralista é fundamental para o agronegócio, pois atua de maneira a garantir os interesses dos grandes latifundiários, por isso, existe um enorme investimento em inserir parlamentares associados a essa bancada, somente nas últimas eleições foram eleitos 257 candidatos ligados a agropecuária, sendo 225 deputados, que representa 44%

do total de votos, e das 81 cadeiras do Senado 32 foram ocupadas por filiados ao agronegócio.

Em 2020 o governo insere inúmeras medidas provisórias para “socorrer o agronegócio” durante o período da pandemia do CORONAVÍRUS, fortalecendo ainda mais o setor agropecuário e mostrando o total desprezo que o governo tem com a agricultura familiar. A Lei nº 13.986/2020, conhecida como Lei do Agro, “criou facilidades para o acesso a crédito e financiamento de dívidas de grandes produtores rurais, desonerou o segmento nas contribuições relativas à Seguridade Social e em taxas de cartório, entre outros aspectos. ” (SAMPAIO, 2020)

Além da grilagem de terras, a bancada ruralista contribui para a liberação de agrotóxicos no Brasil. Em 2021 foi publicado o Decreto Presidencial 10.833/2021, que flexibiliza o uso de agrotóxicos altamente prejudiciais à saúde e ao ambiente, inclusive alguns que são proibidos em outros países. Essa abertura para o uso de novos agrotóxicos é preocupante, pois são substâncias altamente cancerígenas e que podem gerar inúmeros problemas de saúde. Rigotto e Rosa (2012) destacam que os biocidas produzem cerca 3 a 4 milhões de intoxicações por ano e que entre 1989 e 2004 foram notificados no Brasil 1.055.897 casos de intoxicação humana por agrotóxico e 6.632 óbitos pelo mesmo motivo.

Os trabalhadores examinados queixam-se de problemas de saúde (46,6%) e o relacionam ao uso de agrotóxicos. Na avaliação clínica do estado atual de saúde, 30,7% apresentam quadro de provável intoxicação aguda por agrotóxico na região, de acordo com critério de diagnóstico estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Entretanto, [...] eles sequer procuram assistência, devido às dificuldades de acesso e de resolutividade do SUS, evidenciando o desamparo em que se encontram e ajudando a magnitude da subnotificação destes agravos. (RIGOTTO, PONTES, TEIXEIRA, FERREIRA, PESSOA, ROSA, 2013, p.153) Devido à necessidade de produção em massa e combate às pragas que se proliferam nas plantações, o agronegócio brasileiro, utiliza inúmeros agrotóxicos, colocando o país como um dos recordistas na sua utilização.

Segundo as análises de RIGOTTO; ROSA (2012):

Desde 2008, o Brasil tornou-se o maior consumidor mundial de agrotóxicos, movimentando 6,62 bilhões de dólares em 2008 para um consumo de 725,6 mil toneladas de agrotóxicos – o que representa 3,7 quilos de agrotóxicos por habitante. Em 2009, as vendas atingiram 789.974 toneladas. (RIGOTTO; ROSA, 2012)

A utilização de agrotóxicos acontece em grande escala, principalmente, nos setores agropecuários. As plantações de monoculturas que mais utilizam agrotóxicos são a soja, sendo responsável pela utilização de cerca da metade dos agrotóxicos do país em 2008, seguida das lavouras de milho e cana-de-açúcar. (RIGOTTO; ROSA, 2012) Evidentemente que os problemas relacionados ao agronegócio ficam camuflados, e o que prevalece é a perspectiva de desenvolvimento social e tecnológico, mas esse desenvolvimento tem um alto preço, que é pago pela classe trabalhadora, que tem expropriado de si não apenas sua força de trabalho, mas sobretudo, o direito ao acesso a terra, a saúde de qualidade e a dignidade humana.

Sem o apoio do Estado, o agronegócio não conseguiria se manter no país, pois existiriam regras e leis que proibiriam, por exemplo, o uso de alguns agrotóxicos, além de exigir os incentivos fiscais, onde muitos são isentos devido acordos com o Estado. A riqueza produzida pelo agronegócio não é apropriada pelo povo brasileiro, afinal, a maior parte da produção é destinada à exportação. O setor agropecuário não consegue sobreviver com as próprias pernas, necessita de leis que favoreçam a sua expansão, por isso, a necessidade de parlamentares que apoiem a causa.

O setor agropecuário do Brasil, é um dos responsáveis pela desigualdade no campo, não existe espaço para os pequenos agricultores e a agricultura familiar que aos poucos vem sendo engolida pelo seu crescimento assustador. No Brasil, os movimentos

sociais lutam incessantemente pelo acesso à terra e pela igualdade no campo, afinal, o acesso à terra é um direito constitucional e tem sido violado.

O estado se ausenta das questões relacionadas ao trabalhador rural, por isso, os movimentos sociais são importantes para organizar a classe trabalhadora na luta por seus direitos.

3.2 A luta dos movimentos sociais do campo por terra e trabalho digno.

As lutas camponesas são históricas na realidade brasileira, desde o processo de Colonização, a exemplo das lutas do povo negro e indígena, além dos movimentos messiânicos que vivenciaram uma experiência de comunidade com acesso a terra. Na década de 1950, camponeses/as entram na cena política do país, reivindicando reforma agrária, a partir do Movimento Ligas Camponesas1. Com o início da modernização agrícola no campo, a exploração e marginalização dos trabalhadores/as rurais passa a ficar cada vez mais evidente, criando um clima de revolta entre os camponeses que vão perdendo seu espaço no campo. O desenvolvimento deste novo modelo de agricultura foi extremamente excludente, pois retirou grande parte dos trabalhadores/as rurais das suas pequenas propriedades.

A exclusão dos/as trabalhadores/as rurais do acesso à terra e o surgimento de diversos problemas sociais no campo, produziu um sentimento de resistência a essa

“modernização excludente”. Trabalhadores/as de diversos territórios e culturas agrícolas começam a se organizar, buscando muito mais do que um pedaço de terra, mas a possibilidade de desenvolvimento de uma agricultura coletiva.

Fica impossível falar sobre Movimentos Sociais sem antes compreender a Questão Social. Podemos caracterizar a Questão Social como uma contradição existente entre Capital e Trabalho, onde a riqueza produzida pela classe trabalhadora é apropriada pela burguesia, através da exploração da força de trabalho e extração da mais valia. Sousa (2019) evidencia que o antagonismo das classes sociais é o elemento fundamental da luta de classes.

1 As Ligas Camponesas foram associações formadas por trabalhadores/as rurais que exerceram intensas lutas no período de 1955 até 1964, um dos principais fomentadores foi o deputado do Partido Socialista Brasileiro Francisco Julião. Sua atuação aconteceu principalmente no Nordeste do Brasil e tinha como lema

“Reforma Agrária na lei ou na marra”. O Processo de industrialização e mecanização da agricultura favoreceu o descontentamento dos trabalhadores rurais que se uniram contra a estrutura latifundiária vigente no país. AZEVEDO (1982, p.56) afirma que as Ligas seriam por excelência, os instrumentos de organização e mobilização das massas rurais.

A questão social é resultante do desenvolvimento do capitalismo na sociedade burguesa, expresso através das desigualdades sociais, pauperismo, fome, entre outros;

especialmente na relação entre capital e trabalho. Destaca-se que é na apropriação privada do fruto do trabalho que se encontra a raiz da questão social, propiciando um conjunto de movimentos de resistências que aguçam a luta de classes e impulsionam a conquista de direitos.

A questão social não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre proletariado e a burguesia, a qual passa a exigir outros tipos de intervenção, mais além de caridade e repressão.

(IAMAMOTO, 2011, p. 84)

A partir do momento em que a classe trabalhadora começa a entender sua

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No documento FERNANDA GOMES DA SILVA (páginas 38-70)

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