4.2 Definição de habilidades de pensamento crítico no processo diagnóstico em
4.2.3 Raciocínio lógico
4.2.3.2 Agrupamento e relação de informações
Além da percepção imediata de uma situação, os participantes acreditam que o raciocínio lógico, no processo diagnóstico em enfermagem, auxilia na compreensão do agrupamento de dados relacionados entre si. Do ponto de vista matemático, os participantes entenderam a lógica como a junção de dados para obter-se um resultado. Aplicando-se esse entendimento na prática clínica de enfermagem, foram discutidos alguns exemplos em que se faz necessário juntar informações do paciente com o conhecimento técnico-científico armazenado para chegar-se a um diagnóstico de enfermagem. Esse entendimento pode ser visto nas falas a seguir:
É como dois mais dois igual a quatro. Um dois pode ser dados objetivos e subjetivos do paciente; o outro dois seria o que eu tenho de bagagem de conhecimento técnico-científico, e o quatro seria o diagnóstico de enfermagem; P7
Depois do pensamento imediato é que você vai pensar na história clínica e na história de vida daquele paciente e avaliar os sintomas que ele está apresentando com base no conhecimento prévio que a gente tem. P2
(Fonte: Grupo Focal II, 27/09/10, manhã)
Observa-se que a percepção imediata de uma situação é continuada por uma avaliação analítica da situação, ou seja, a coleta e interpretação dos dados continuam para identificarem--se sinais e sintomas apresentados por um paciente, para estabelecer a relação entre os dados identificados e para buscar explicações no entendimento de manifestações clínicas.
No contexto do processo diagnóstico, afirma-se que o diagnóstico depende da transformação de dados sobre o paciente em hipóteses acerca dos problemas de saúde que é sempre incerto e sujeito a erros. As inferências não são elaboradas por meio de dados isolados; o diagnóstico é elaborado com base em dados sobre um paciente que precisam ser 115
interpretados, combinados e integrados com um corpo de conhecimentos específicos. Assim, o raciocínio lógico assume vital importância quando se associam dados importantes a informações teóricas concernentes para identificar-se um diagnóstico que seja a base para o planejamento de uma assistência à saúde(6).
O raciocínio diagnóstico é qualificado de lógico quando se reconhece a existência de harmonia, congruência, nexo entre dados sobre um paciente e a conclusão diagnóstica. Esse tipo de ligação depende da integridade intelectual do profissional, da sua experiência clínica e do seu conhecimento teórico pertinente ao problema de saúde do paciente em avaliação. Ao obterem-se e processarem-se dados como idade, sexo, raça, hábitos de vida, dimensões dos sintomas e integrá-los aos seus conhecimentos, o diagnosticador está levantando inferências e, portanto, empregando a lógica no processo diagnóstico(6).
O conhecimento técnico-científico, segundo os participantes, é um dos elementos associados ao raciocínio lógico no processo diagnóstico em enfermagem. O conhecimento teórico e o adquirido em experiências anteriores auxiliam na relação e no agrupamento de dados que serão as evidências para justificar a identificação de um diagnóstico em enfermagem. Observa-se esse ponto de vista nas falas dos participantes:
(...) o nosso raciocínio lógico vai depender do conhecimento técnico- -científico; P6
É assim: eu pegaria informações da história do paciente e ligaria com o conhecimento técnico-científico. Com um conhecimento prévio da literatura, de vivências, você tem como relacionar dados com a realidade do paciente. P7
(Fonte: Grupo Focal II, 27/09/10, manhã)
Alguns exemplos da prática clínica são discutidos para ilustrar a influência do conhecimento técnico-científico no agrupamento e na relação de informações para se identificar problemas de saúde que requerem cuidados:
Se um paciente está com edema nos membros inferiores, e esse edema está sendo causado por uma retenção de líquidos (...), eu sei que se ele elevar os membros inferiores vai melhorar o retorno sanguíneo, e que esse retorno vai fazer com que esse edema diminua (...); aí isso é o conhecimento técnico- científico; P6
E para continuar essa questão que P6 trouxe para ver que, dependendo da situação, elevar os membros inferiores é contraindicado porque se o paciente tiver hipertensão? (...) quando analiso a história daquele paciente e vejo que ele não pode elevar os membros inferiores, eu posso pensar em outras intervenções para tentar melhorar aquele problema; aí eu estou usando conhecimento técnico- científico; P1
(...) se eu tenho o conhecimento técnico-científico, eu vou ter uma ideia de quais sinais e sintomas o paciente pode apresentar (...) isso varia de pessoa para pessoa, mas eu vou ter uma ideia, uma noção de que dados observar. P7
(Fonte: Grupo Focal II, 27/09/10, manhã)
Acredita-se que o conhecimento técnico-científico auxilia no direcionamento da sequência do raciocínio lógico. Considerado um elemento cognitivo do pensamento crítico, o raciocínio lógico se caracteriza pela indução, dedução e inferência(1,6,9,43).
A indução, de acordo com o dicionário de língua portuguesa, significa um raciocínio cujas premissas têm caráter menos geral que a conclusão. As premissas são fatos que servem de base à conclusão de um raciocínio. Induzir significa tirar conclusões com base em premissas. Assim, o raciocínio indutivo envolve o entendimento de dados específicos para um julgamento generalizado(78). Por exemplo, na prática clínica de enfermagem, o raciocínio indutivo permite levantar premissas como região avermelhada com presença de exsudato inflamatório e elevação da temperatura corporal que podem orientar o enfermeiro a inferir que existe um processo infeccioso. Acredita-se que o raciocínio indutivo é utilizado no processo diagnóstico em enfermagem quando se avaliam e interpretam informações, consideradas premissas, para levantar inferências, consideradas conclusões iniciais para identificar-se um diagnóstico de enfermagem.
Neste contexto, afirma-se que o raciocínio clínico, no processo diagnóstico, envolve o método de inferência indutiva, ou seja, ao empregar a indução, o profissional inicia sua investigação desprovido de ideias pré-concebidas e realiza observações para obtenção de dados. A partir do conjunto de dados adquiridos, tenta-se inferir as causas e explicações para os fatos observados(6).
Outra possibilidade na sequência do raciocínio lógico é o método de inferência por dedução. Dedução significa um raciocínio que parte de uma ou mais premissas gerais e chega a uma ou mais conclusões particulares. Deduzir é o ato de tirar conclusões a partir de fatos mais gerais(78). Entende-se que o raciocínio dedutivo está presente numa dada situação quando, por exemplo, um enfermeiro infere que uma infecção está presente numa ferida cirúrgica a partir do conhecimento da falta de uso de antibióticos, da observação de exsudato inflamatório e de elevação na temperatura corporal. Deduz-se a existência de uma infecção e justifica-se sua presença pelos fatos e sinais observados.
O raciocínio lógico é uma habilidade cognitiva de pensamento crítico na Enfermagem e entendido como intervir ou tirar conclusões apoiadas em ou justificadas por evidências(9). Assim, com base nessa definição, acredita-se que, no contexto do processo diagnóstico em enfermagem, o raciocínio indutivo ou dedutivo podem ser utilizados como duas possibilidades de entenderem-se as premissas em busca do levantamento de inferências.
Neste contexto, entende-se que o agrupamento e a relação de informações é uma etapa do raciocínio lógico no processo diagnóstico em enfermagem subsequente à percepção intuitiva do enfermeiro. Na compreensão dos participantes deste estudo, há uma prevalência do raciocínio indutivo quando se faz necessário reconhecer a existência de evidências para levantarem-se inferências. Para realizar-se um agrupamento de dados, o conhecimento técnico-científico auxilia no entendimento da existência de relação entre os dados identificados. O próximo passo no uso do raciocínio lógico, no processo diagnóstico em 118