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Capítulo 1: “No tempo em que eu era gente”

1.4 Agrupar-se ou isolar-se?

A população de rua na cidade é bastante heterogênea, mas o grupo mais significativo é o de homens que vivem em pequenos agrupamentos. Também encontramos pessoas que vivem em duplas como casais e, ainda, aqueles que vivem completamente sozinhos. As mulheres foram encontradas, porém, em menor número. “As mulheres que vivem na rua comumente apresentam problemas mentais e/ou de alcoolismo. São muito disputadas pelos homens e, por isso, procuram ter um companheiro que as proteja do assédio dos demais”.202

Localizamos um único grupo misto, composto por homens e mulheres, e percebemos que seus integrantes compartilham o mesmo espaço durante o dia para socialização: a Praça dos Ferroviários, mas se separam durante a noite buscando locais diferentes para o pernoite. Alguns dormem num posto de gasolina desativado, enquanto outros utilizam a marquise de um prédio público localizado em frente à Praça, ambos situados nas imediações do Bairro Goiás.

Embora não tenhamos encontrado famílias vivendo nas ruas, estabelecemos contato com casais que experimentam a vida a dois no contexto urbano, em relações hetero ou homo afetivas. Aos olhos do senso comum pode parecer bastante estranho que a vida na rua possa ser vivida em todas as suas dimensões, inclusive a afetiva e sexual, mas essa é uma realidade que marca a vida de alguns daqueles que fazem das ruas sua moradia. Os casais se formam por uma diversidade de motivos: atração mútua, carência afetiva e sexual, ou necessidade de proteção.Maria Cristina e Wesley compartilham a experiência da situação de rua a dois, como casal. Eles relataram que se conheceram quando já estavam inseridos há algum tempo na rua, e que ambos, antes de passarem para a rua, haviam sido casados e que, portanto, romperam com os anteriores vínculos afetivos e familiares, deixando para trás pais, irmãos, filhos e companheiros. Sobre sua atual situação civil Maria Cristina disse que é casada com Wesley, embora não oficialmente. “Nóis é casado, nóis tá junto, vive junto já vai fazê sete ano”.203

Wesley que se refere à Maria Cristina como sua esposa ou sua mulher narrou como os dois se conheceram:

202 VIEIRA, Maria Antonieta da Costa; BEZERRA, Eneida Maria R. & ROSA, Cleisa Moreno Maffei. (Org.). População de rua: quem é, como vive, como é vista. 2ª ed. São Paulo: Hucitec, 1992. p. 90.

“A primeira vez que eu fiquei com ela foi numa casa desocupada, que nóis dormia. Ela andava com a mesma turma de rua que eu. Mas eu nem conversava com ela direito não. Nessa época, o cara que ela namorava foi preso. Ele também era de rua e andava junto com nóis. Aí, uma vez, de noite eu cheguei nessa casa, só tinha um colchão no chão. Eu não sabia de quem era o colchão, mas deitei. Eu pensei: a hora que o dono chegá eu saio. Aí ela chegô e pergunto o quê que eu tava fazeno no colchão dela. Eu respondi que tava deitado, mas que podia deixá que eu saía. Ela falô que não precisava saí não, era só ela deitá pra um lado e eu pra o outro. Eu perguntei se o namorado dela não ía achá ruim. Aí ela falô que não, que ele nem ia sabê, que ele tava preso. Aí nóis deitô. Aí nóis conversô. Nóis ficô conversano coisa e tal, aí eu conheci ela. Nessa noite nóis ficô junto, entendeu”? 204

Wesley, ao contar sobre o início do relacionamento com Cris, evidencia como geralmente são conflituosas as relações sociais entre os integrantes dos grupos mistos, em razão da presença feminina e da disputa entre os homens pelas mulheres do grupo. Não obstante, tanto os homens quanto as mulheres travam sérias lutas na disputa por parceiros.

No decorrer da narrativa, Wesley explicita a importância do companheirismo e parceria entre marido e mulher na luta pela sobrevivência diária no mundo da rua. Afinal, viver na rua como casal implica assumir determinadas funções. No caso dos homens, proteger e prover o sustento. No caso das mulheres, confortar, aquecer e alimentar. “Aí no outro dia, conversano, nóis ficô junto de novo. Nóis já começô a andá junto de um lado pro outro, arrumano as coisa. Eu pedino, ela cozinhano, mas se virano junto”.205

O fato da rotina dos casais se dar na rua não impede manifestações de afeto, carinho e zelo entre os companheiros, tais como: gestos, toques, olhares, proximidade de corpos, contatos sensuais, abraços, dormir juntinho, cuidados, etc. Entretanto, normalmente, “após o afastamento/rompimento com a família de origem, para o habitante das ruas é difícil estabelecer nova família com a mesma intensidade e permanência”,206 de maneira que, as

relações afetivas no âmbito da rua são caracterizadas pela instabilidade, inconstância e insegurança. A fragilidade dos relacionamentos é uma marca evidente entre os casais. Assim como os relacionamentos começam abruptamente, também podem terminar com muita rapidez, porque a condição de vulnerabilidade e a tensão cotidiana tornam as relações extremamente voláteis. Sobre a dinâmica das relações amorosas, falou Wesley:

“Depois de um mês que nóis tava junto, eu comecei a ficá preocupado, pensava: o cara (ex-namorado dela) vai saí da cadeia e como é que vai ser?

Vai falá que foi eu que fiquei de cima. Só que não foi. Aí quando passô quatro mês, ela falô assim: o negócio é o seguinte, eu não gosto mais dele

204 Depoimento do morador de rua Wesley. 17/02/2011. 205 Depoimento do morador de rua Wesley. 17/02/2011.

206 SCOREL, Sarah. Vidas ao léu: trajetórias de exclusão social. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1999. p. 150.

não, eu gosto é do cê agora. Aí eu peguei e falei pra ela, se ele saí e ocê falá que não qué ele mais, aí eu assumo, eu fico junto com ocê. Mas se ele saí e ocê pegá e ir pro lado dele, aí não tem como. Aí ele saiu, nóis tava sentado no banco ali da praça, ele chegô e foi abraçá ela, aí ela falô: não te quero mais não. Eu tô com ele aqui, eu não te quero mais não, e não adianta ocê brigá com ele e nem comigo. Aí eu falei: se ela não qué, ela tá falano da boca dela, se ela não te qué não adianta ocê brigá não. Ele falou: ah, cês tá junto, então quem não qué mais é eu. Aí nóis ficô junto porque ela não quis mais ele”.207

A quebra de relações, ainda que seja bastante comum, não minimiza as dores e sofrimentos. Na realidade, por menor que seja o tempo passado junto, na rua a relação ganha uma intensidade significativa. Wesley nos falou sobre os sentimentos em relação a sua companheira, deixando entrever a instabilidade dos relacionamentos:

“Ah, se nóis dois some um pouquinho um de perto do outro, já....vichi! Não dá conta não, o máximo que nóis fica longe um do outro é três dia, quatro dia. Às vez acontece da gente fica longe, porque discute, e tal. As vez a gente tá cheio de pinga na cabeça, aí eu já falo: não, então dá um tempo aí, se fô pra nóis ficá, nóis volta, se não for... Já aconteceu isso um punhado de vez, mais nóis sempre volta”. 208

Maria Cristina e Wesley, além de compartilharem o cotidiano de vida na rua, vivem uma história de amor como casal, experimentando tudo o que convencionalmente o relacionamento a dois requer e proporciona. Ela economizou nas palavras ao falar sobre como o casal vive seus momentos íntimos no espaço da rua, mas apontou, em primeiro lugar, que estar junto com alguém na rua pressupõe de imediato a necessidade de se demarcar um espaço, “um canto” separado para o casal dormir. Esta se torna praticamente uma condição para a intimidade, porque “o canto” é o único espaço para se estar junto e viver a sexualidade sem subverter o código social dominante na experiência contemporânea, para o qual o sexo está ligado aos hábitos privados da casa. Nessa lógica, “o canto” representa a possibilidade de intimidade e privacidade para a vida a dois nas vias públicas.

“De noite, nóis vai lá pra o posto, mas cada um tem seu lugar de dormi. Eu tenho a minha vidinha de casada, separado com ele, o outro casal tem a deles. Tem mais um casal na rua, que é o Alexandre mais a muié, eles fica no canto deles, um vai pro lado de lá e o outro vai pro lado de cá. Cada um tem seu lugar, seu canto porque se ficá muvuca não presta não”.209

No cotidiano das ruas, a violência é empregada pelos indivíduos como recurso mediador na resolução dos conflitos, o que implica que as relações afetivas e amorosas são marcadas contraditoriamente pelo carinho, mas também pela agressividade e por atos

207 Depoimento do morador de rua Wesley. 17/02/2011. 208 Depoimento do morador de rua Wesley. 17/02/2011. 209 Depoimento da moradora de rua Maria Cristina. 13/02/2011.

violentos. Nas explosões de tensão entre os cônjuges, assim como nas outras relações de “sociabilidade no universo da rua, qualquer pequeno motivo pode ser o propulsor de posturas desafiantes, falas raivosas, xingamentos. A instabilidade emocional produz alterações nos estados de ânimo sempre muito efêmeros”.210 Wesley me contou sobre uma briga que durante

o trabalho de campo, eu havia presenciado à distância, entre ele e sua esposa.

“Aquele machucado no olho da minha muié, foi o seguinte: nóis tava fazeno

comida aqui na praça, aí nóis brigô, sabe? Nóis discutiu, brigô, aí ela pegô e tacô o álcool em mim e pegô fogo. (Mostra uma cicatriz de queimado no braço.) Eu falei que ia descontá. Aí eu peguei e dei um murro na cara dela

pra descontá. Foi isso”.211

As brigas, na maioria das vezes são provocadas por ciúme exagerado em função da tensão sexual que envolve a escassez de mulheres. Ocorrem também em função do excesso de álcool, da desconfiança, das angústias pessoais. Qualquer que seja a razão, no auge dos conflitos, comumente as mulheres reclamam de que já foram maltratadas e de que são moralmente ofendidas, e os homens enfatizam que foram desrespeitados e diminuídos como maridos.

De acordo com Mattos, 212 destacamos que os relacionamentos podem se dissolver em função de inúmeros motivos, mas os conflitos se concentram em pontos como a traição do parceiro ou da parceira, a recusa em cumprir as divisões de funções estabelecidas, a violência em função do álcool ou mesmo a discordância dos pontos de vista, o que, em maus momentos do cotidiano, toma grandes proporções. Sobre os motivos da discussão que terminou em briga, falou Wesley: “Foi por causa dos outros cara que tava aqui bebendo. Os outro

conversô na cabeça dela e ela abraçô a ideia. Ela deu confiança. Eu tenho tanta raiva dela concordá com os outro e ficá me zoano, me humilhano. Aí nóis brigô. Eu descontei, ela veio e levô”.213Muitas vezes, adicionam-se a esses motivos as imagens estigmatizadas vinculadas às

mulheres que chegam às ruas sozinhas. Elas são vistas de forma ambígua, afinal, oferecem o afeto que os homens de rua procuram, mas estão deslocadas do seu lugar projetado pelo imaginário social, que é o da casa. Na hora do conflito, essas imagens são comumente evocadas e contribuem para a quebra da harmonia entre o casal. Os homens demonstram não

210 FRANGELLA, Simone Miziara. Corpos urbanos errantes: uma etnografia da corporalidade de moradores de rua em São Paulo. Tese de doutorado – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas, 2004. p. 213.

211 Depoimento do morador de rua Wesley. 17/02/2011. 212

MATTOS, Ricardo Mendes. Situação de rua e modernidade: a saída das ruas como processo de criação de novas formas de vida na atualidade. Dissertação de Mestrado. Área de concentração: Psicologia. Universidade de São Marcos. São Paulo, 2006.

confiar na fidelidade de suas companheiras em função de um imaginário de imoralidade e prostituição vinculado às mulheres de rua, ou melhor, que vivem nas ruas.

“Eu não gosto que ela fica dano papo, trela pra qualqué um. Eu fico cabreiro, né. Como é que eu vô confiá nela cem por cento? Antes de mora na rua e juntá comigo ela ficava na zona. Saía com caminhoneiro. Aí eu tirei ela dessa vida. Tem hora que eu penso: como é que eu posso deixá ela sozinha no meio dos outro homem aqui na praça, bebeno? Tem uns cara que a gente não pode confiá. Sem falá que ela é encrenqueira e arruma briga direto com os outro. Ela é muié, ela não guenta, aí eu tenho que protegê, cuidá dela. Não posso saí de perto e deixá ela aqui no meio de quase dez homem. Quando eu chegá eu nem sei o quê que tá aconteceno, uai. É isso”.214

O álcool é um grande gerador de conflitos. Não somente os homens apontam as bebidas alcoólicas como as causadoras de violência, mas também as mulheres, porque na rua, o casal bebe. “As mulheres de rua compartilham da mesma necessidade do álcool para participar dos mecanismos de sociabilidade, ou para aplacar o cotidiano insuportável. Assim, o álcool funciona como um catalisador das potenciais explosões afetivas de ambos”.215

Na rua, ainda que seja pouco assumida, a prática homossexual acontece significativamente. Tanto homens quanto mulheres cedem seus carinhos a outras pessoas do mesmo sexo. Nesse sentido, Neide, uma mulher de trinta e oito anos, que fora mãe solteira de sua primeira filha ainda na adolescência e teve seu segundo filho como fruto de uma união que durou seis anos, declarou viver atualmente uma relação homo afetiva com Glaucimeire, sua companheira de rua.

“Eu fui mãe solteira, fui até casada. Depois que eu passei a vivê na rua, eu mudei a cabeça, parece que o negócio foi mudano muito assim, na minha vida! Hoje eu fico com uma muié. A nossa relação é de amizade, amor, doença, eu não sei explicá. Eu gosto de homem. Eu já até morei uns tempo com o pai do meu filho. Mas aí na rua, sozinha, eu fui envolveno com ela. Eu passei a senti uma mudança em mim. Eu acho que foi por causa do vício. Ela já usava craque e quando eu conheci ela eu só bebia, mas aí eu passei a usá tamém”.216

A existência das marcas de violência entre casais não são exclusividade das relações dos abrigados, nem tão pouco dos casais heterossexuais que vivem nas ruas. Neide relatou que fora vítima em potencial da agressividade na relação homo afetiva com Glaucimeire, sua atual companheira.“Eu saí da brasa e caí no espeto. Eu afastei de uma pessoa que eu vivia, e essa outra pessoa foi pior ainda. Ela pôs fogo em mim, quase me matô. O meu corpo é tudo

214 Depoimento do morador de rua Wesley. 17/02/2011.

215 FRANGELLA, Simone Miziara. Corpos urbanos errantes: uma etnografia da corporalidade de moradores de rua em São Paulo. Tese de doutorado – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas, 2004. p. 214.

cheio de cicatriz, eu tô tudo marcada. Tem essa cicatriz na orelha, que foi briga, ela mordeu aqui rancô pedaço. Mas a pior foi essa aqui”.217 (levanta a blusa deixando à mostra uma

cicatriz de facada na barriga, do umbigo até a virilha e outra cicatriz de queimado em toda a região do abdomem e dos braços). E qual a relação entre vocês? “De amizade, amor, doença.

Eu não entendo pra quê isso. É ciúme demais”. 218