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2. CENÁRIOS DA AIDS

2.6 Aids e sofrimento psíquico

Neste trabalho, o sofrimento psíquico é abordado a partir da perspectiva da Psicopatologia Fundamental. Esta, segundo Ceccarelli (2005), tem como preocupação contribuir para a redefinição do campo do psicopatológico. E propõe uma reflexão crítica dos modelos existentes e uma discussão dos paradigmas que afetam nossos objetos de pesquisa, nossas teorias e nossas práticas. A Psicopatologia Fundamental reconhece e dialoga com outras leituras presentes na pólis psicopatológica. Trata-se de um projeto de natureza intercientífica e transdiscisplinar, em que a comparação epistemológica dos modelos teórico-clínicos e de seus funcionamentos proporciona a ampliação do limite e da operacionalidade de cada um destes modelos e, conseqüentemente, uma transformação destes últimos.

A Psicopatologia Fundamental tem como campo conceitual a Psicanálise, organiza- se em torno daquilo que o sofrimento ensina. Trata-se de resgatar o páthos, como paixão, e escutar o sujeito que traz uma voz única a respeito de seu páthos, transformando aquilo que causa sofrimento em experiência, em ensinamento interno. Cria-se um discurso sobre as paixões, sobre a passividade, sobre o sofrimento, enfim, sobre o sujeito trágico. Encontramos aqui a essência de Psicopatologia: o conhecimento da paixão, do sofrimento psíquico. O páthos, em si, nada ensina conduzindo senão à morte, quando a experiência é, ao mesmo tempo, terapêutica e metapsicológica, estamos no âmbito da Psicopatologia Fundamental (CECCARELLI, 2005).

Segundo Ceccarelli (2005), a Psicopatologia Fundamental, no esteio das posições freudianas, concebe o psiquismo como uma organização que se desenvolveu para proteger o ser humano contra os ataques, internos e externos, que punham sua vida em perigo. O psiquismo é parte integrante do sistema imunológico: da mesma forma que um sujeito pode ser mais suscetível em contrair doenças por possuir um sistema de defesa debilitado, ele pode também estar menos equipado para responder aos ataques, internos (pulsionais, passionais) e externos (mudanças ambientais, perdas diversas), que encontra ao longo da vida e, por conseguinte, “adoecer” psiquicamente.

Considerando então o psiquismo como parte integrante do sistema imunológico, destacamos o que afirma Moreira (2002): um fato clínico dos mais graves entre os observados é que, após a comunicação ao paciente de um diagnóstico de Aids, a evolução a óbito se dá em curto espaço de tempo e, em alguns desses casos, encontra-se sintomatologia melancólica evidente.

Moreira (2002) afirma que o diagnóstico de depressão na presença da Imunodeficiência Adquirida é problemático, no sentido de que os sintomas somáticos comumente utilizados para fazer esse diagnóstico também podem ser conseqüentes ao processo patológico primário subjacente. Astenia, emagrecimento, insônia e anorexia constituem sintomas comuns utilizados para a diferenciação da depressão profunda de formas menos graves, mas também são queixas comuns nos pacientes de Aids. Essa autora nos chama atenção para a importância de fazer um diagnóstico diferencial entre Aids e depressão.

Montagneir (1995), pesquisador francês que identificou o vírus HIV- trabalhando a partir de dados experimentais, laboratoriais e clínicos, assegura que entre as incógnitas que persistem na história dessa doença, pode-se perguntar: por que doentes dotados de condições imunitárias comparáveis evoluem de maneira distinta e depois respondem também de maneira diferente ao tratamento? Por que se encontram poucos vírus em certos doentes, mesmo já com Aids. Para esse autor, todas estas interrogações sugerem que talvez diferentes co-fatores intervenham no curso do desenvolvimento da doença.

Segundo Montaigner (1995), apesar de não ser fácil especificar os vínculos que unem o stress e a inquietação ao sistema imunitário, são numerosos os casos em que o anúncio de uma infecção, da morte de uma pessoa próxima ou, ainda, de um episódio depressivo, provocaram uma queda da taxa de linfócitos t4, o que significa, em outros termos, diminuição da imunocompetência do sistema imunológico. Ressalta que é preciso prevenir a instauração de um círculo vicioso: anorexia, estado depressivo, déficit imunitário, atrofia das vilosidades intestinais. O emagrecimento não tem conseqüências apenas físicas; tem também um impacto psicológico sobre o paciente, que se sente tão mais doente quanto mais emagrece, e sobre seu círculo de relações, que já não o vê senão como doente.

De acordo com Moreira (2002), isso parece suficiente para atestar parte das dificuldades de diagnóstico diferencial entre os estados depressivos e Aids. E pode permitir destacar o valor do método psicanalítico no atendimento desses pacientes; mais do que nunca, a relevância da concepção freudiana de melancolia pode ser observada, uma vez que, precisamente, a redução da auto-estima mostra-se útil como critério para o diagnóstico diferencial de sintomatologia melancólica na presença da patologia orgânica.

Moreira (2002), investigando a relação entre Aids e melancolia e estados depressivos, revela, a partir da escuta realizada com pacientes vivendo com Aids, não ser a depressão, mas a melancolia, a afecção psíquica responsável por um aumento da insuficiência imunológica. Neste sentido, pacientes deprimidos não melancólicos não apresentam variação notável na suficiência imunológica. Entretanto em pacientes reconhecidamente melancólicos, é nítida a vulnerabilidade à ação do vírus. Esta constatação clínica possui importante conseqüência metapsicológica: a distinção entre depressão e melancolia, solicitando a formulação de dois campos semânticos precisos. Enquanto a primeira é um estado que afeta todas as estruturas psicopatológicas, a segunda é uma neurose narcísica autodestrutiva. Apesar de a melancolia apresentar depressão, não pode nem deve ser confundida com este estado, pois isso pode provocar graves conseqüências clínicas.

De acordo Birman (1994), no imaginário contemporâneo, a Aids já se colocou sob o signo do funesto: a equação Aids = morte. Esta equação, para Moreira (2002), está demasiadamente instalada para suscitar temores, mas possui o guia de realidade necessário para que não possa ser evitada.

Birman (1994), no que diz respeito às diferenças entre as representações das clássicas doenças venéreas e a Aids, destaca que em ambas se teceram as relações invisíveis entre as figuras da sexualidade e morte. Porém enquanto na primeira a morte é considerada como uma conseqüência mediata e tardia da volúpia sexual; na segunda, a morte é a conseqüência imediata do desejo sexual, sendo, pois, a possibilidade intrínseca e fatal de uma determinada escolha sexual. A relação entre as figuras da sexualidade e da morte perde sua dimensão relativa como nas doenças venéreas clássicas e atinge o nível do absoluto na situação da Aids.

Para Moreira (2002), vale pensar sobre o fato de que, sendo o ego corporal na sugestiva formulação freudiana, é preciso uma escuta atenta para as representações possíveis do conflito entre os desejos de viver e morrer, as fantasias de estar sendo atacado de dentro pelas pulsões que compelem todo o ser humano a permanecer vivo e a retornar ao estado inorgânico.

Segundo Berlinck (2000), o corpo humano, incluindo obviamente o aparelho psíquico – já que este não se distingue daquele – pode ser visto como um território a ser protegido de invasores virulentos indesejáveis. Combatê-los requer recursos psíquicos que podem aparentemente coincidir com o individualismo, mas que não são necessariamente individualistas. Dentre estes recursos, está a fantasia que cada sujeito

tem a respeito de seu corpo; estes recursos são úteis para aumentar ou diminuir a insuficiência imunológica e proteger ou não o corpo contra ataques virulentos externos.

Dentre esses recursos gostaria de destacar a fantasia que cada sujeito tem a respeito da posse de seu corpo como campo, enquanto território com recursos naturais. No Ocidente, graças a uma velha tradição, é comum ocorrer um tal desconhecimento a respeito do próprio corpo. Esse desconhecimento é campo fértil para fantasias melancólicas que enfraquecem sobremaneira as defesas a ataques virulentos externos. Fantasias que produzem representações frágeis e pobres do próprio corpo são equivalentes a fantasias maníacas que contêm uma concepção onipotente do corpo. Essas fantasias inconscientes que revelam um desconhecimento, uma falta de intimidade com o corpo e, até mesmo, uma recusa do reconhecimento da existência do corpo são, muitas vezes, responsáveis pela Insuficiência Imunológica a ataques virulentos externos (p.189).

Portanto, também é preciso oferecer uma escuta às ansiedades geradas pela representação de estar sendo atacado por um microrganismo que, na fantasia, quase parece fazer parte do ego, na medida em que tem se constituído um imaginário que imobiliza os sujeitos em novas figuras identitárias de “soropositivo” e “aidético”. Essa nova figura de “aidético” do imaginário parece criar uma identidade insuportável, pois parece um dado clínico importante às fantasias, que se configuram como a de um condenado, alguém a quem a sentença fatal foi proferida. Assim, há importante perda narcísica diante da representação de ser portador de um vírus mortal. Tratando-se, em alguns casos, da perda de toda a representação identitária (MOREIRA, 2002).

CAPITULO 3

3 OS ESTUDOS MULTI-INTER-TRANS-DISCIPLINARES, DE GÊNERO E A

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