1.5 Posteridade: fortuna e infortúnios críticos
1.5.11 Ainda defendido, comemorado e estudado – o livro de Erven
Num momento próximo à entrega do projeto desta pesquisa, encontramos quase por acaso na internet um texto de Domingos van Erven: Emiliano Perneta é um grande poeta? (ERVEN, 2010) Nesta postagem de blog, Erven aborda diretamente o tão famigerado ataque de Dalton Trevisan na revista Joaquim, e faz uma defesa circunspecta da poesia de Emiliano, fundamentando-se em avaliações de críticos gabaritados e respondendo ponto por ponto as investidas de Dalton.
Veremos essa defesa logo mais em detalhes, pois o texto da postagem foi adaptado e acrescentado como capítulo de conclusão do livro A poesia de Emiliano Perneta (ERVEN, 2012), disponibilizado como e-book (em www.agbook.com.br) e também postado em forma de blog, em dezembro de 2012.
Antes, em atenção à ordem cronológica, mencionaremos as celebrações feitas em 2011 pelo centenário do lançamento de Ilusão e assim da também muito famigerada cerimônia de coroação de Emiliano como “Príncipe dos Poetas do Paraná”, na ilha da Ilusão, no Passeio Público, em Curitiba, no dia 20 de agosto de 1911.
De nossa parte, então já cursando este doutorado sobre Emiliano, publicamos na internet uma re-edição virtual de Ilusão, gentilmente hospedada no site da Academia Paranaense de Letras (www.academiapr.org.br/emiliano/ – PERNETA, 2011), transcrita de exemplar da edição original encontrado na seção de autores paranaenses da Biblioteca Pública do Paraná. Em formato “pdf”, nossa re-edição é virtualmente idêntica à edição original na ortografia e apresentação gráfica, e está acompanhada de arquivo “rtf” com o texto revisado e atualizado ortograficamente.
Participamos também de uma comemoração organizada em parceria por sete instituições culturais paranaenses – por ordem de antiguidade: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (1900), Instituto Neo-Pitagórico (1909), Centro de Letras do
Paraná (1912), Centro Paranaense Feminino de Cultura (1933), Academia Paranaense de Letras (1936), Academia Feminina de Letras do Paraná (1970) e Academia Paranaense da Poesia (2002) –, que com apoio da prefeitura de Curitiba instalaram uma placa alusiva ao centenário, na ilha da Ilusão, no dia 20 de agosto de 2011. Houve discursos, récitas e música. Fotos e vídeos do evento são encontráveis no blog Olhar comum, do fotógrafo Gilson Camargo [http://gilsoncamargo.com.br/blog/centenario-do-lancamento-do-livro-ilusao-e-da-consagracao-publica-de-emiliano-perneta/] e texto descritivo pode ser achado em nosso blog [http://ossurtado.blogspot.com.br/2011/08/o-centenario-de-ilusao-de-emiliano.html].
Passemos ao livro de Domingos van ERVEN (2012), A poesia de Emiliano Perneta, item final deste levantamento de fortuna crítica.
Nas considerações preliminares, capítulo 1 do livro [as respectivas citações, extraídas do formato eletrônico como blog – http://poesiaemiliano.blogspot.com –, não terão indicação de página], declara-se de pronto o objetivo de estudar a “obra madura”
do poeta. Essa especificação já é um alerta de que Erven se dedicará principalmente ao livro Ilusão [“seu livro mais importante”], e também estudará mais detidamente Pena de Talião e Setembro, deixando Músicas à parte, como obra imatura.
Na seção 2.2 [‘A obra posterior’], Erven apresenta Pena de Talião e Setembro como os dois constituintes da “obra poética mais significativa posterior a Ilusão”. Com isso, o crítico se dispensa de analisar os poemas-libretos Papilio Innocentia e Vovozinha (que só serão mencionados de passagem em 3.1, nota 8). No segundo parágrafo de 2.2, Erven menciona o livro Músicas como “obra descartada pelos críticos mais favoráveis a Emiliano, que a consideram de valor apenas ‘documental’”, e em nota remete ao respectivo julgamento de Andrade Muricy e Tasso da Silveira.
No entanto, Erven faz também a propósito uma remissão a seus anexos, onde inseriu uma “Nota sobre o primeiro livro – Músicas” [seção 6.1] de considerável extensão e profundidade analítica, com transcrição integral do que seria “talvez o melhor poema do livro” (o soneto “Papéis velhos”), além de indicações de outros poemas destacáveis, e comentários sobre os temas e a linguagem do poeta nesta obra de estreia.
Voltemos às considerações preliminares do capítulo 1, no qual Erven lista suas razões para estudar “hoje” (cem anos depois de Ilusão) a poesia de Emiliano.
A primeira delas: “porque se trata do poeta paranaense que mais se destacou na história da nossa literatura”. Após reproduzir declaração de Nestor Vítor, feita logo após
o falecimento de Emiliano, sobre este ter sido “o maior poeta que até aqui [1921] nasceu e viveu no Paraná”, Erven elabora, por sua parte: “Ele é produto do nosso meio social, e reflete, à sua maneira, e em seu tempo, o modo de pensar e sentir desta terra.”
Outra razão seria a pequena quantidade de textos em livro “tratando sistematicamente do assunto”, e Erven cita então o que já nos referimos acima como a
“deixa de Alfredo Bosi” para a realização de um estudo analítico à altura de Emiliano.
A esta deixa Erven acrescenta uma recomendação diretamente feita por Tasso da Silveira a uma classe de jovens estudantes, num curso de análise literária frequentado por Erven, no Colégio Estadual do Paraná, em 1965.
Complementar a essas razões seria o fato de não existir um consenso crítico sobre Emiliano e sua poesia – e aqui Erven traz à baila num parágrafo o ataque de Dalton Trevisan, os elogios de Wilson Martins, e uma apreciação positiva de José Guilherme Merquior. E acrescenta uma observação quase maliciosa, oblíqua à pesquisa e crítica literária de nível superior no Paraná: “Estranhamente, a nossa produção universitária manteve-se alheia ao debate dessa questão, apesar dela ser tão pertinente à área de Letras...”
Erven certamente não teve notícia da dissertação de Paulo Cezar MAIA (2006), porém mesmo se tivesse, sua observação não perderia quase nada em agudeza. Afinal, em décadas e décadas de existência de um ensino superior de Letras no Paraná, ensino este idealmente acompanhado de pesquisa e extensão, teríamos algo mais a apontar tangendo o referido debate, além dessa dissertação, do estudo/antologia de nosso orientador, e da produção acadêmica e crítica de Cassiana Lacerda Carollo?
Razões expostas, o interesse declarado de Erven é avaliar a qualidade da poesia de Emiliano. Como? “Naturalmente, pelo contato direto com os poemas”, pois “os versos, em si mesmos, valem mais que mil opiniões”. Mas “é preciso que eles sejam bem apreendidos quanto ao seu significado (nos sentidos denotativo e conotativo), quanto à sua imagística, ao modo como se expressam foneticamente etc.”
Erven pretende realizar tal apreensão de leitura “colhendo elementos úteis para uma avaliação pessoal”, e também “para avaliar a maior ou menor justeza das opiniões emitidas sobre ela [a poesia de Emiliano]”. Declara-se voltado às “características apresentadas pela poesia de alta qualidade ao longo do tempo”: expressões da “verdade da condição humana”, “de modo cativante, prazeroso (prazer estético), por meio de uma linguagem [...] povoada de imagens e sons peculiares”.
Assim, Erven ensaia uma abordagem objetiva e despojada de referenciais teóricos específicos. Seu interesse maior é no “aspecto estritamente literário da obra em questão”. À parte os pontos-de-vista psicológico, sociológico e filosófico, a “ênfase do estudo recai sobre o exame da linguagem utilizada pelo poeta”.
Erven descreve seus “procedimentos metodológicos” nas seguintes etapas:
– Leitura dos poemas para identificação das “ideias-mestras”, que definem o
“conteúdo essencial” [grifo no original].
–Coleção dos versos mais representativos de tais “ideias-mestras”.
– Reunião a tais versos de informação sobre os poemas respectivos: temas, assuntos, personagens, espaços e tempos.
– Consideração das características formais dos poemas e sua funcionalidade em relação ao conteúdo: imagens (comparações, metáforas, símbolos etc), ritmo, métrica, sonoridade.
Com esse último procedimento, as citações de versos, que antes visavam apenas ilustrar as “ideias-mestras”, são ampliadas para incorporar os aspectos formais de interesse. A preocupação central é “identificar recorrências”, poisseria nelas “ou nos padrões conteudísticos e formais” que se explicitaria “o que é realmente característico da obra”.
Erven conclui o capítulo 1 anunciando que após tais etapas acredita ter obtido os “elementos essenciais” para o julgamento da qualidade da poesia de Emiliano, no capítulo 5.
O capítulo 2 apresenta descritivamente a “obra madura” do poeta: os livros Ilusão [descrito na seção 2.1], Pena de Talião e Setembro [na seção 2.2]. Erven introduz Ilusão com uma breve discussão sobre o caráter simbolista do livro, apoiando-se em opiniões de Nestor Vítor e Andrade Muricy para relativizar essa filiação. Segundo Muricy, citado por Erven, “apenas umas vinte poesias” de Ilusão seriam “cabalmente simbolistas”. Erven também apoia-se em Massaud Moisés para simplificar a questão da diferença entre Decadentismo e Simbolismo, que seriam indistinguíveis em seus limites.
A seguir, descreve Ilusão, contabilizando o número total de poemas, listando as seis seções do livro e resumindo seus temas e conteúdos, com as respectivas quantidades de poemas e formas estróficas utilizadas (consideramos a contagem de Erven arbitrária ao separar em três o poema “Oh! que ânsia de subir hoje mesmo a montanha!”, e igualmente “Adultério de Juno”, mas este é um detalhe de somenos – os interessados em quantificações podem confrontar essa parte do trabalho de Erven com a
descrição de Ilusão que fazemos adiante, em nossa seção 2.2.1). O resumo de Erven da seção Plumas de Ilusão nos forneceu a interpretação interessante de tal título, que seria uma referência ao “apêndice do elmo do cavaleiro medieval”, o que creditamos devidamente a Erven em nossa seção 2.2.2.
Erven insere a seguir um trecho de comentário crítico, remetendo ao acima já mencionado ensaio premiado de Heitor Martins. Apresenta duas conceituações deste – sobre a importância histórica nacional de Emiliano, e sobre a adoção dos ‘distintos’
contraposta à reação dos ‘raros’ quanto à ‘Ideia Nova’, ambas adoção e reação sendo expressas na poesia de Emiliano – para a seguir exemplificar esta segunda conceituação com indicações de poemas. Erven a aceita como prova do “ecletismo estético” de Emiliano, mas critica como “pouco dialética”, por parte de Heitor Martins, a vinculação de adoção e reação cada qual a uma classe social: a adoção como atitude exclusiva dos
‘distintos’ da alta burguesia, e a reação, dos ‘raros’ da pequena burguesia– os boêmios.
Como já antecipamos, em 2.2 Erven apresenta a “obra posterior” de Emiliano, os livros Pena de Talião e Setembro. O poema dramático Pena de Talião ganha um resumo completo do enredo, e Setembro recebe tratamento similar ao dado antes a Ilusão. Erven faz um inventário quantitativo e estrófico, e comenta resumidamente os temas do livro. Passa à questão dos poemas que nele constam e são de data anterior ao lançamento de Ilusão. Discute as razões de tais poemas não terem sido inclusos naquele livro, e aproveita para fazer o mesmo quanto aos poemas da fatídica seção de Esparsos da re-edição de 1996.
Por sinal, Erven trata especificamente do caso do poema “Inexprimível”, que tanto já destacamos acima (nas seções 1.5.9 e 1.5.10), e transcreve integralmente o texto do poema, conforme a lição de Erasmo Pilotto. Em nota ao último anexo (numerado como capítulo 8) que lista todos os poemas e acresce ano de publicação sempre que possível, Erven assim se refere à re-edição de 1996: “o leitor deve acautelar-se com o emprego dos dados dessa edição, haja vista os inúmeros erros de revisão aí contidos”.
O capítulo 3 é o cerne do livro de Erven, e divide-se de acordo com o que seriam as cinco “ideias-mestras”, o “conteúdo essencial da poesia de Emiliano Perneta”
[parafraseamos e resumimos os parágrafos seguintes, de apresentação dessas ideias]:
3.1. ‘Tudo é um sonho vago’: o mundo em que o poeta vive é ilusório e se contrapõe a um ‘outro mundo’, que seria o verdadeiro, promessa de felicidade contida na beleza. Mas a arte também seria uma ilusão.
3.2. A Natureza, ‘florestas de símbolos’: o poeta se sente unido à Natureza, cujos elementos semirrevelam outra dimensão da realidade. Atribui a ela os sentidos que decorrem de seus ‘estados d’alma’. A Natureza está em correspondência com o mundo espiritual, fonte de beleza e dos valores do espírito superior.
3.3. O poeta/artista previamente condenado no mundo dos bárbaros: o poeta avalia sua própria condição na sociedade, a qual lhe é hostil e dominada pelos bárbaros – e por isso o poeta faz o elogio da solidão.
3.4. O tédio e os meios de evasão: o tédio decorre do descontentamento com este mundo e da ânsia por outro. O poeta identifica como saídas: o sonho (da arte, do ideal), o vinho, as viagens (ou a viagem final, a morte), e o amor sensual.
3.5. Crença em Deus & humanismo cristão: concepção religiosa do poeta e sua preocupação ética crescente, à medida que envelhece.
A série de seções do capítulo 3 se organiza por sua vez em subdivisões temáticas. São abundantes as citações de versos e poemas integralmente transcritos, com anotações das figuras de linguagem (na maior parte: comparações, metáforas, sinestesias e polissíndetos – esta, uma figura de construção muito usada por Emiliano).
Há destaques a recursos sonoros e imagéticos, e comentários relacionando os poemas entre si, à biografia de Emiliano, a obras de outros poetas, e a conceitos estéticos e filosóficos em geral.
No capítulo 4, Erven faz sua síntese das “características da poesia de Emiliano Perneta e sua interpretação”.
Em primeiro lugar, a concepção filosófica idealista, primado do espírito sobre a matéria. Erven aponta uma oposição frequente: de um lado as estrelas, a lua, o sol etc, e de outro a lama, o lodo, o charco etc. O poeta ansiaria por tornar-se só espírito, e esta seria sua “ânsia pelo absoluto” (Erven não credita Denise Guimarães e seu ensaio premiado pela cunhagem da expressão, que de resto não seria afinal atribuível primordialmente à ensaísta, mas talvez valesse uma referência).
Erven adverte que o caráter idealista não deve ser motivo para que um leitor materialista descarte totalmente essa poesia, pois ela satisfaria a um requisito mínimo,
“necessário, mas não suficiente, para a boa poesia”, segundo Erven: um conteúdo humanista. Para ele, as ideias num poema deveriam ser sempre humanistas, ou seja: “a favor da elevação da condição humana e não do seu rebaixamento”.
Erven se estende sobre a supervalorização do espírito por Emiliano. Tal ideia se explicaria não só pela formação judaico-cristã do poeta (as crenças na separação de
corpo e alma e na superioridade desta, numa vida espiritual futura de recompensa aos bons, na associação do corpo e do sexo ao pecado), como pela origem social. As famílias burguesas buscavam então elevar seu status por meio dos estudos dos filhos.
Tal valorização da atividade intelectual teria sido motivada, contudo, mais pelo convencionalismo social e menos pelo valor em si das coisas do espírito.
Outra face da “ânsia do absoluto” por Emiliano (ou antes, da ânsia de absoluto por Emiliano) seria a inquietude existencial, expressa pelo tédio. Do ponto de vista metafísico, o tédio decorreria da frustração por não alcançar plenamente os objetivos do espírito, e da consciência da precariedade humana. Sob a ótica histórica, há uma razão objetiva: o mundo dominado pelos “bárbaros” e seus objetivos mesquinhos, ligados à busca de dinheiro e poder. Por isso, o artista deveria isolar-se da “multidão” e refugiar -se na “torre de marfim”, em atitude semelhante à do eremita.
Do ponto de vista psicológico, Erven argumenta que haveria uma insatisfação de Emiliano por não produzir algo comparável às obras-primas dos grandes poetas – franceses e portugueses – dividido que estava o poeta entre sua arte e as obrigações profissionais (como jornalista, advogado, professor e por fim auditor da Justiça Militar).
Do ponto de vista social, Erven destaca “o fato de [Emiliano] viver num meio provinciano, acanhado, dominado pelas convenções, inclusive estéticas, cujas perspectivas estreitas pouco estimulavam a realização das potencialidades. A sociedade paranaense era dominada pelos barões da erva-mate e proprietários de terras.” Erven se pergunta se Emiliano representaria então a “má consciência” dos nossos ervateiros e latifundiários, e responde negativamente: “Creio que é uma visão simplista associar tal descontentamento a uma classe social apenas, pois tal postura é própria das pessoas sensíveis, e elas existem em todas as classes sociais.”
Em conexão a isso, Erven comenta a participação do poeta nos movimentos abolicionista e republicano. Mas obtempera que Emiliano “não compreendeu a Guerra do Contestado (diferentemente de Euclides, com relação a Canudos)”. “Não se encontra nenhuma referência em favor dos caboclos oprimidos, despojados de suas terras pelas arbitrárias decisões palacianas e dos ‘coronéis’ do interior.” Ao contrário: “Só ocorrem referências em favor dos militares aliados dos poderosos (cf., em sua Prosa, o discurso quando da chegada em Curitiba do corpo de João Gualberto, morto pelos ‘facínoras’ do Contestado...).” Emiliano foi florianista, o que revelaria “certos aspectos de sua personalidade”, e deixou o magistério para exercer o cargo de Auditor de Guerra [juiz militar].
Contudo, Erven assinala que a concepção sobre o papel do artista evoluiu na obra de Emiliano, no sentido de maior compromisso social: “compare-se a sua posição estética em Alegoria, de 1903, com aquela implícita no poema ‘Hércules’, de 1912”.
O crítico desenvolve que quando Emiliano contrapõe o artista à “multidão”, o está contrapondo na realidade aos “bárbaros” (de todas as classes), e não à gente humilde por quem o poeta demonstrava simpatia, ao elogiar a vida simples da aldeia, o trabalho do lavrador, que vivia mais perto da Natureza.
Erven destaca o espaço considerável à caracterização do artista ou poeta, sob várias formas, principalmente a do cavaleiro empenhado no bom combate. Seria o cavaleiro andante de outrora, em luta pelo bem e pela Beleza (sua “dama de olhos verdes”), sempre contra os “bárbaros”.
Oposto à realidade dos bárbaros, o refúgio da Natureza, onde o mundo material se une ao espiritual. O poeta a buscaria como o religioso ao templo. Erven cita a
“Oração da noite”, de Setembro, em que a Natureza é chamada de “catedral /.../, Única onde se pode inda falar com Deus”, o que revelaria a rejeição a qualquer religião organizada. No ecletismo filosófico-religioso do poeta, misturar-se-iam concepções hinduístas e budistas ao judaísmo/cristianismo.
Erven afirma categoricamente que o amor à Natureza foi determinante para a permanência de Emiliano em Curitiba. “Em 1896 ele retornou, doente, a esta cidade, depois de morar em São Paulo e Rio de Janeiro, onde levou vida boêmia, e de um curto período em Minas Gerais”. A paisagem do planalto curitibano – mais bonita naquela época – teria sido sinônimo de vida ao poeta, pois foi onde se recuperou da vida desregrada nos grandes centros urbanos, aos quais não mais retornaria a não ser em viagens curtas, o que “evidentemente” teria prejudicado sua carreira literária.
Erven repassa as saídas ao artista acometido pelo tédio: o sonho (da arte, do ideal), as festas (o vinho), as viagens (incluindo a última viagem, a morte) e a mulher, ou o amor sensual. Assinala que a supervalorização do espírito não impediu a forte presença da sensualidade erótica na poesia de Emiliano: “Aliás, para J. G. Merquior,
‘Perneta é antes de tudo um bom lírico-erótico’.” “De fato, seus poemas do amor sensual contam-se dentre os melhores que compôs, assim como certos versos dão tratamento erótico a determinadas situações, em poemas sobre outros temas.”
Mas – ressalva Erven – o amor sob forma mais espiritualizada (o amor ao próximo) também ocupa um lugar importante. A postura humanista é característica do
estágio final da evolução poética, quando Emiliano se aproxima da religião, embora sem optar efetivamente por alguma. “Explicitamente, ele se declara então crente em Deus.”
Erven sintetiza a poesia de Emiliano “sob o aspecto estritamente formal”
[parafraseamos e resumimos]:
– versos metrificados e rimados, predomínio de alexandrinos (inclusive alguns heterodoxos, em três partes, com acento na quarta, oitava e décima segunda sílabas);
– formas fixas (principalmente sonetos e quadras), vários poemas mais longos, com versos emparelhados ou em dísticos;
– heterogeneidade da linguagem: simbolismo ou nefelibatismo, português arcaico, sabor lusitano, linguagem religiosa como a das ladainhas, mas também linguagem direta e espontânea (chegando a ser coloquial às vezes);
– uso frequente da sinestesia, maiúsculas alegorizantes, eufemismos nos versos lírico-eróticos;
– musicalidade: a ponto de sacrificar métrica ou cesura, e marcada pelo uso estético de assonâncias, aliterações, rimas internas, polissíndetos;
– quanto ao conteúdo, ideias “eurocentradas” [sic]: poucas referências
“tipicamente nossas”, exceto indiretamente, por exemplo em elementos de flora e fauna;
– imagens mais frequentes: cavaleiro, rei, sol, luz, céu, estrelas, noite, lua, trevas, vento, chuva, frio, neve, lama, pântano, mar, montanha, fontes, árvores, animais, pássaro, flores (girassol, crisântemos, dálias etc), ou seja, predominam imagens da natureza, com personificação de seus elementos;
– bizarrice de certos versos, com comparações insólitas;
– referências frequentes às mitologias greco-latina e judaico-cristã, e a figuras e fatos históricos e literários/artísticos; forte presença do mito, sem explorar a “nossa mitologia” (o folclore brasileiro e especificamente paranaense).
Erven finaliza o capítulo 4 com um extenso levantamento léxico, subdividido em 23 grupos temáticos.
O capítulo 5, como já observamos, é a reformulação de uma postagem de blog
O capítulo 5, como já observamos, é a reformulação de uma postagem de blog