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3. AMERICANAH - A FICÇÃO COMO REPRESENTAÇÃO METONÍMICA

3.2 Obinze: o Teto

3.2.2 Ainda nos Estados Unidos

Já no salão de beleza norte-americano, onde todas as mulheres eram negras e

oriundas de outros países, “geralmente francófonas da África Ocidental” (ADICHIE,

15 Outremização é o processo pelo qual o discurso imperial fabrica o outro. O outro é excluído que começa a existir pelo poder do discurso colonial. Constitui-se o Outro colonizador quando os outros colonizados são fabricados. (BONNICI, 2005, p. 44)

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2013, p. 16), Ifemelu percebe o contraste em um salão de beleza no Brooklyn e um em

Princeton, notou os muros pinchados, o andar “suspeito” das pessoas, as vozes que

pareciam gritar nas ruas, a falta de sincronia em como os carros se movimentavam.

Geralmente os salões não eram tão organizados, o ar-condicionado não conseguia manter

a temperatura adequada, ou esquentava demais, ou esfriava demais. Embora conveniente,

Ifemelu fora recebida de forma calorosa, já que a dona do salão a recebia explicando as

imperfeições nas paredes, a situação simples do salão como uma desculpa de reforma,

mas Ifemelu sabia que era mentira.

Mas o que leva Ifemelu a um lugar sabendo de suas condições, além de ser um

lugar específico de tranças africanas? Ifemelu está a par da realidade que ela mesma

percebe dentro do seu território nigeriano mesmo não estando lá, pois essa situação

díspare entre um salão rico (mas que não atende a qualquer tipo de cliente, no caso negros)

em Princeton, ou um salão com condições não tão favoráveis, mas que, por outro lado,

consegue atingir esse determinado grupo. Em outras palavras, existe a vantagem num

salão que não consegue ter uma estrutura aparentemente boa pois, além disso, ele

consegue um determinado tipo de trabalho e, consequentemente, atender mais de um

grupo em específico.

A partir disso, temos uma aplicação do ‘Pensamento Liminar’, ‘Outro

pensamento’ ou ‘Gnose liminar’ que são as formas de pensar o conhecimento na situação

de marginalização no sistema-mundo contemporâneo. Toda forma de pensamento e

construção de saber é local e surge com reflexos das transformações globais; é uma forma

de pensar e construir conhecimento sem a imposição do outro; é usar da criatividade e do

potencial das margens. Barzotto destaca da seguinte forma:

’gnose liminar’ como uma proposição para um outro pensamento – híbrido por essência: ‘uma maneira de pensar que não é inspirada em suas próprias limitações e não pretende dominar e humilhar; uma maneira de pensar que, por ser universalmente marginal e fragmentária, não é etnocida’. Logo, a gnose liminar é uma epistemologia das margens, neste caso, dos imigrantes (MIGNOLO, 2003, p. 104. apud BARZOTTO, 2016, p. 8

O que acontece é que durante o processo de colonização e posterior

descolonização dos espaços, aqueles que se julgam superiores fazem com que seu

pensamento predomine como a única e verdadeira, e as outras acabem ficando sufocadas

sob a gama de situações irreais ou não-funcionais, que é o que acontece com os saberes

de sociedades comunitárias ou tribais. O conceito do pensamento liminar visa à

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desconstrução e à descolonização (das mentes), mostrando a validade e a funcionalidade

dos saberes locais, desmistificando assim a existência de uma pretensa epistemologia

universal e global (MIGNOLO, 2003).

No plano de sobrevivência dos imigrantes, a estrutura se mantém da seguinte

forma, como a própria personagem observa após frequentar vários salões como

imigrantes

(...) aquela que falava inglês melhor, atendia o telefone e era respeitada pelas outras. Com frequência havia um bebê amarrado às costas de alguém

com um pedaço de pano. Ou uma criança de dois ou três anos dormindo numa canga aberta sobre um sofá puído. Às vezes, crianças um pouco mais velhas passavam pelo salão. As conversara eram barulhentas e rápidas, em francês, wolof ou mandingo, e quando elas falavam em inglês com os clientes era um inglês engraçado e cheio de erros, como se não tivessem se acostumado bem com a língua antes de assumir as gírias dos americanos

(ADICHIE, 2013, p.16 [grifos meu]).

Através dessa citação, podemos analisar uma situação altamente híbrida causada

pelos fluxos imigratórios, temos não apenas o contato com qualquer tipo de

norte-americano que pode frequentar salões de beleza como esse, mas além disso, existe o

choque cultural presente também na diversa quantidade de imigrantes dos outros países

que acabam por conviver juntos, como num grande caldeirão cultural. Sentindo o imenso

peso linguístico presente nessa situação, percebemos este episódio da seguinte forma:

falava inglês melhor, atendia ao telefone em francês, wolof ou mandingo/cheio de erros antes de assumir as gírias dos americanos.

Há, nesse primeiro momento, o hibridismo linguístico na situação dos imigrantes

presentes nos Estados Unidos, pelo qual, é possível perceber mais de quatro línguas

faladas dentro do mesmo espaço e, consequentemente, expõe todo o universo

sociocultural, ideológico e religioso presente também. A transformação desses

indivíduos, depois desse contato, proporciona a chamada transformação do sujeito híbrido

que destacamos no capítulo dois. Acontece, então, uma imensa porta de entrada para uma

transformação linguístico-cultural, no grande choque de grupos distintos acompanhado

no mundo pós-moderno. “(...) inescapável e legítimo valor da mutação, do hibridismo e

das inter-misturas” (COSER, 2003, p. 173). Importante perceber também, que além do

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inglês, temos o wolof

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e mandingo

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, e essas duas línguas são faladas ao lado do francês,

que durante o processo de colonização e ainda nos dias de hoje, é considerado por muitos

como uma língua de “prestígio”, o que ocasiona a própria pluralização dessa língua e das

outras, como se nessa zona de contato não existisse distinção.

De volta ao contexto narrativo, Ifemelu senta em uma das cadeiras do salão antes

de começar a ser atendida, apenas visualizando o movimento e entendendo como o lugar

iria funcionar durante o dia que passasse lá, tendo o cabelo trançado por aquelas mulheres.

Aisha tocou o cabelo de Ifemelu. “Porque não usa alisa?” “Gosto do meu cabelo do jeito que Deus fez.” “Mas como penteia? Difícil de pentear.” (...) “Não é difícil de pentear se você hidratar do jeito certo”, disse Ifemelu, agora com o tom convincente de proselitismo que usava sempre que estava tentando convencer outras mulheres negras dos méritos de deixar o cabelo natural (ADICHIE, 2013, p. 21 – 22).

Ao saber que ficaria o dia todo no salão, Ifemelu é alertada por umas das

funcionárias que se quisesse comer alguma coisa precisaria avisar, mas além disso é como

ela é vista dentro da área de atuação daquelas imigrantes, as quais ainda não completaram

os “quinze anos naquele país para serem respeitas”; “Ela está aqui há quinze anos,

Hamila”, disse Aisha, como se o tempo que Ifemelu estava nos Estados Unidos explicasse

o fato de comer barras de cereal” (ADICHIE, 2013, p. 47). Ifemelu podia sentir certo

desprezo das outras imigrantes, como se o tempo e o que motivo que a fez deixar a

Nigéria, no caso os estudos, estivesse acima do que elas faziam nos Estados Unidos. As

consequências das atitudes dessas personagens geralmente acarretam no apagamento das

suas identidades nacionais, dos costumes que estavam habituados a executar, como se o

que absorveram nos Estados Unidos (em países desenvolvidos de forma geral) estivesse

numa configuração mais elaborada e melhor. Esta autoimposição, muitas vezes, deste

formato de aculturação é profundamente negativo porque, dentro de duas ou três

gerações, os traços originais de uma etnia em particular podem ser completamente

apagados; por isso a anulação de uma identidade é, em cadeia comunitária, altamente

danoso para uma cultura.

16 “Wolof é um é um membro do ramo Senegambian da família de línguas Níger-Congo, com cerca de 7 milhões de falantes no Senegal, Francês, Gambia, Guiana, Guine Bissau, Mali e Mauritania”

17 “Mandingo é com cerca de 1.3 milhões de falantes em Mali, Senegal, Gambia, Guiné Bissau e Chad” Para ambos ver: omniglot.com/writing/wolof.htm Acesso em 01 set. 2016

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Obviamente o comportamento de resistência entre os próprios imigrantes é uma

consequência de situações anteriores e, quando um imigrante passa da linha de

marginalização para o propagador de tal, ele repete os mesmos atos que foram usados

contra ele. Sendo assim, existe um receio dessas mulheres que Ifemelu tenha essa mesma

atitude. “’Seu cabelo é duro’, disse Aisha. ‘Não é duro’, retrucou Ifemelu. ‘Você está

usando o pente errado.’ Ela tirou o pente das mãos de Aisha e colocou-o sobre a mesa”

(ADICHIE, 2013, p. 49). A partir dessa citação, ainda no começo do romance, que o

narrador mergulha nas memórias de Ifemelu e nos leva para Nigéria e para a casa da

personagem, lugar onde ela cresceu e começou a perceber as diferenças sociais; onde

também conheceu Obinze e decidiu imigrar para os Estados Unidos. Não esquecendo que

é à África onde ela realmente pertence. Sendo assim, experimentar o esquecimento,

reforçar o pertencimento e suavizar o estranhamento são atitudes rotineiras ao sujeito

imigrante, uma vez que fazem parte do status de não-estar-em-casa.

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