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Continuando a discussão sobre a forma de via, pretende-se apresentar a questão do lingüista de campo ou da tradução radical, no mesmo caminho de Donald Davidson, como forma de lançar luz sobre alguns importantes pontos de contato entre a teoria de Davidson e a noção de forma de vida em Wittgenstein.

Wittgenstein afirma que há requisitos mínimos a serem satisfeitos por uma forma de comportamento lingüístico para que possamos compreendê-la. O requisito mínimo, nesse sentido, é a necessidade de reconhecer que a cultura em análise, geralmente, diz coisas verdadeiras.

Ao dizer que se faz necessário um acordo não só nas definições, mas também nos juízos, Wittgenstein referenda em parte tal princípio, e esclarece que “o modo de agir comum dos homens é o sistema de referência por meio do qual interpretamos uma língua estrangeira”. 231

Nesse mesmo sentido, Donald Davidson afirma que se não podemos encontrar um meio de interpretar as asserções e outros comportamentos de uma criatura como reveladores de um conjunto de crenças normalmente consistentes e verdadeiras para nossos próprios padrões, não há razão para tomar essa criatura como racional, como tendo crenças, ou como dizendo algo. 232 Trata-se do “princípio da caridade” segundo o qual, “a interpretação pressupõe que encaremos as crenças alheias como sendo, no geral, verdadeiras”.233

Para explicar como entendemos a linguagem, seguindo a mesma linha de argumentação, Davidson considera a possibilidade de interpretar uma linguagem estrangeira da perspectiva do lingüista de campo em seu primeiro contato com uma comunidade. Uma

231 WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Petrópolis: Vozes, 2005, § 223 II.

232 DAVIDSON, Donald. Radical interpretation. Inquires into truth and interpretation. Oxford: Clarendon Press, 2001, p. 137.

interpretação feita nesse contexto problemático não poderia apelar aos dicionários ou a falantes bilíngües. 234

Portanto, a evidência que serve de base para a interpretação radical é aquela do tipo que deve prescindir de conceitos lingüísticos para ser declarada. Na interpretação radical, a evidência deve ser do tipo que pode estar disponível para alguém que ainda não saiba como interpretar as asserções que a teoria pretende alcançar. A evidência deve ser do tipo que não necessite de conceitos lingüísticos, tais como sentido ou interpretação.235

Isso se aproxima claramente da alusão que faz Wittgenstein aos fatos e regularidades que formam a base para os jogos de linguagem, a nossa forma de vida. Outra aproximação com uma visão antropológica da noção de forma de vida é o dever de impor os padrões de verdade e coerência do intérprete na interpretação radical. Assim, deve-se encarar a comunidade em análise diante da suposição de que qualquer enunciação sustentada como verdadeira seja realmente verdadeira.

“Davidson generaliza isso: qualquer tradução que retrate os nativos como negando a maior parte dos fatos evidentes sobre sua ambiência é automaticamente uma péssima tradução”. 236 Por isto, é possível correlacionar as enunciações dos seres da comunidade alienígena com os estados mundanos de coisas que, presumidamente, as provocam. 237

Deve-se esclarecer, entretanto, que, para Wittgenstein, em primeiro lugar vem o significado, e só depois vem a verdade. Precisamos primeiro entender o que as pessoas dizem, para depois saber se elas dizem a verdade. Isto quer dizer que ele não aceita a idéia de fato puro, que existe independentemente da linguagem.

Em Wittgenstein não faz sentido uma análise do significado que se baseie na interpretação de signos brutos, ruídos ou movimentos sem significado, que poderiam

234 RORTY, Richard. Objetivismo, relativismo e verdade. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002, p. 183. 235 DAVIDSON, Donald. Radical interpretation. Inquires into truth and interpretation. Oxford: Clarendon Press, 2001, p. 128.

236 RORTY, Richard. Objetivismo, relativismo e verdade. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002, p. 181. 237 THORNTON, Tim. Wittgenstein: sobre linguagem e pensamento. São Paulo: Loyola, 2007, p. 215.

fundamentar a distinção entre texto e significado. Na verdade, a aproximação que aqui se quer fazer serve para enfatizar somente a idéia de que não há fatos sobre o significado que sejam completamente inacessíveis ao intérprete radical. 238

Não se pode afirmar que Wittgenstein sustentaria a possibilidade teórica da interpretação radical sem antes fazer esta ressalva: os fatos que serão considerados a base para a interpretação radical já estão normatizados pela linguagem do intérprete, não sendo considerados fatos puros.

O que se quer enfatizar, segundo o próprio Wittgenstein, é que a “verdade das minhas afirmações é a prova da minha compreensão dessas afirmações.” 239 Isso não pode levar à resposta incoerente segundo a qual “o input para tal redescrição [interpretação] deve, ele mesmo, ser caracterizado em termos sem conteúdo, não-normativo, não-intencionais”. 240

Sobre esse assunto, é importante notar a discussão sobre mudança de aspectos abordada por Wittgenstein. Tal discussão ilustra a negativa de que seja possível pensar na compreensão como interpretação de dados brutos. As mudanças operadas na visão das figuras de Gestalt como o pato-coelho mostram a percepção contínua de aspectos, o que caracteriza a resposta imediata à linguagem e ao mundo, sem intermediação. As experiências estão imediatamente carregadas de significação, pois elas não precisam de interpretação. “Os aspectos variáveis do pato-coelho impedem a descrição em uma linguagem de puros dados sensoriais”. 241

A rejeição a essa forma de ver o significado se baseia na negação do chamado “terceiro dogma do empirismo”, que é a separação entre esquema e conteúdo. As significâncias não são experimentadas após a visualização de dados brutos e sua posterior interpretação, como se fossem etapas de um processo.

238 THORNTON, Tim. Wittgenstein: sobre linguagem e pensamento. São Paulo: Loyola, 2007, p. 212 e 213. 239 WITTGENSTEIN, Ludwig. Da certeza. Lisboa: Edições 70, 1998, § 80.

240 THORNTON, Tim. Wittgenstein: sobre linguagem e pensamento. São Paulo: Loyola, 2007, p. 221. 241 THORNTON, Tim. Wittgenstein: sobre linguagem e pensamento. São Paulo: Loyola, 2007, p. 225 e 242.

Segundo a dicotomia que se quer superar, o conteúdo de uma crença é formado pela combinação de um esquema conceitual com um conteúdo não conceitualizado. Algo que é dado na forma de um fato puro e não contextualizado e que, com a interpretação, seria organizado pelo esquema conceitual.

Assim, ao negar o dualismo esquema-conteúdo, o que se pretende é defender a tese de que não existem sons ou signos livres de normas como não existem dados brutos da experiência passíveis de serem interpretados. Os fatos são, desde sempre, compreendidos normativamente.

Essa ressalva, todavia, não apaga a similaridade da posição de Donald Davidson com a de Wittgenstein nem a importância da idéia da filosofia da linguagem do lingüista de campo. É lá que encontramos a referência à existência de fatos que causam as crenças verdadeiras. Caberia, assim, ao lingüista de campo, operar com a pretensão de que as crenças manifestadas sejam verdadeiras e iniciar a tradução pela observação de tais fatos.

E tudo que ele possui, para encontrar significações, são os fatos e as crenças manifestadas. Ele opera, contudo, não como se estivesse acima dos jogos de linguagem, mas sim como participante de um jogo que quer conhecer outro. Para tanto, como vimos, precisa traduzir sem dicionários ou falantes bilíngües. Ele só consegue operar a tradução quando assume que o significado das crenças está relacionado com os fatos que passam a ser vistos como dados e permitem manter a pretensão de verdade.

Numa visão pragmática, o uso da noção de verdade como metalinguagem não significa abdicar da pertinência a um jogo de linguagem. Os fatos sobre o significado estão, portanto, acessíveis a um expectador mundano em perspectiva de terceira pessoa participante de uma outra linguagem. As crenças devem, destarte, ser vistas do exterior, “como o lingüista de campo as vê (enquanto interações causais com a ambiência), ou desde o interior como o nativo pré-epistemológico as vê (como regras de ação)”. 242

A experiência não pode ser quebrada em dois fatores, pois toda observação já contém uma carga de normatividade. A interpretação radical é possível justamente porque não há distância entre o pensamento e o mundo, entre a linguagem e a realidade. Uma língua desconhecida tem seu significado baseado em fatos e normas, em constante interação e confusão.243

Deve-se destacar que Wittgenstein não troca uma visão objetivista do significado por uma visão behaviorista. A referência ao nosso atuar como base para a determinação do significado e da verdade não quer dizer necessariamente que essa determinação ocorra por meio de uma análise contextual dos comportamentos que respondem à asserção.

Isso fica claro diante da variedade de comportamentos distintos que uma expressão pode proporcionar, sem que possamos falar que cada possível comportamento diante de uma descrição seja parte do seu significado. Aceitar uma visão behaviorista seria recair num contextualismo objetivo. As regras de uso de uma descrição são encontradas nos fatos, mas não se resumem às circunstâncias particulares ou contextuais que seguem na reação ao uso das expressões. 244