Capitulo I: enquadramento teórico
A. Artrite reumatóide;
4. Ajustamento conjugal
4.1.
Conceito de ajustamento conjugal
Constituindo um conceito chave da literatura sobre a família desde há muitas décadas, o ajustamento conjugal tem sido entendido não como algo que os indivíduos levam de uma relação para outra, mas sim como um domínio interpessoal (Johnson, Amoloza, & Booth, 1992 cit in, Gomez e Leal, 2008). Correia (2010) baseando-se em Spanier e col. (1976), refere que o ajustamento conjugal diz respeito aos resultados dos processos conjugais e da comunicação, que por sua vez estão relacionados com o nível de ajustamento do casal. Quando nos referimos ao ajustamento conjugal são vários os condicionantes sociais que o podem afectar, inclusive: o suporte social, o funcionamento familiar e a satisfação conjugal. Assim, o ajustamento conjugal é um processo no qual aspectos importantes para o funcionamento da díade e as incómodas diferenças diádicas, como por exemplo, as tensões interpessoais e a ansiedade pessoal, determinam o seu resultado em função da satisfação, coesão e consenso diádico. Este conceito é caracterizado por uma dimensão qualitativa que se pode avaliar, em qualquer ponto do tempo, numa direcção de bem - ajustado a desajustado, estando em constante mudança, definição esta que procurou representar uma síntese da produção científica na área até a metade dos anos 70 (Hernandez, 2008).
O conceito de ajustamento conjugal é criticado muitas vezes pela impossibilidade de se distinguir da satisfação conjugal, sendo muitas vezes de difícil definição, existindo ainda escassos estudos que se centram neste (Mosmann, Wagner, & Féres-Carneiro, 2006).
4.2.
Impacto da doença na relação conjugal
Estudar a relação conjugal permite-nos entender o ajustamento às condições crónicas (Reese, Somers, Keefe, Williams & Lumley, 2010) devido ao grande impacto que estas têm a este nível, contudo a influência no casamento, é ainda pouco estudada (Bermas, Tucker, Winkelman & Katz, 2000).
negativas entre os pares; um parceiro enfatiza o stress do outro e leva a que os parceiros respondam a um esforço comum.
Os cinco aspetos da doença crónica que mais frequentemente têm impacto nos doentes, nos cônjuges e na sua relação conjugal são: ver o seu companheiro com dores e sentirem-se desamparados por não poderem fazer nada; frustração pelas limitações físicas do companheiro e o impacto que a deficiência tem na vida diária; redução na partilha de atividades prazerosas, incluindo socialização, atividades recreativas e ainda na função sexual; ver o seu companheiro tornar-se mais depressivo; e preocupações em relação ao futuro da saúde dos seus companheiros e como o casamento poderão ser afectado pela doença (Suls & Wallston, 2003).
A artrite reumatóide, por exemplo, afeta os vários aspectos da vida do paciente, incluindo o aspecto físico, comportamental, psicológico e social. A incapacidade e o stress tornam improvável que os vários problemas que o paciente experiencia não afectem a sua rede familiar e por vezes, os parceiros experienciam também vários problemas decorrentes da doença, passando a ter de acatar a maioria das responsabilidades do paciente, e ainda dar suporte (Walsh, Balnchard, Blanchard, Kremer & Balnchard, 1999). Os mesmos autores referem que os cônjuges acabam por ver a sua vida social reduzida, sentem-se angustiados por verem os parceiros com dor e em sofrimento e ainda tem de lidar com os efeitos negativos que a doença tem na saúde psicológica do paciente como por exemplo, depressão.
Cônjuges de pacientes com artrite relataram que ver o parceiro a sofrer com as dores é um dos aspectos mais geradores de stress (Druley et al, 2003). Relataram ainda sentir maior depressão, raiva e insatisfação conjugal em função do comportamento de dor (referindo-se este à maneira como o doentes expressam a sua dor, por exemplo gemendo ou chorando) dos seus parceiros, sugerindo que este pode aumentar o sofrimento dos seus cônjuges (Druley et al, 2003).
No caso das espondiloartrites, como a artrite e a Espondilite Anquilosante, devido as limitações que estas acarretam no movimento da coluna vertebral, resultam muitas vezes em problemas na vida conjugal, nomeadamente ao nível das relações sexuais, prejudicando as interacções entre o casal (Ward, 1998 cit in Yim, Lee, Lee, Jun, Kim, Bae & Yoo, 2003). Também em doentes com lúpus, aspectos como a dor, fadiga, stress, diminuição da auto- estima, alteração da auto-imagem, diminuição da libido, incapacidade física, uso de medicamentos, necessidade de apoio de outras pessoas e dificuldades financeiras podem contribuir para uma pior qualidade das suas relações interpessoais, nomeadamente com a família e com o companheiro (Ayache & Costa, 2005, cit in Silva, Amorim, Silva, Silva &
Posto isso, para que o desenvolvimento individual de cada elemento da família, e do próprio doente, não saia comprometido nas situações de doença crónica é necessário que a família procure aprender a lidar com as exigências da doença na sua evolução (Carter & McGoldrick, 2001, cit in Fernandes, 2011).
4.3.
Importância do apoio e ajustamento conjugal
Está demonstrado que o casamento afeta a saúde física, existindo uma relação entre um fraco ajustamento conjugal e um estado de saúde física mais pobre (Slatcher, 2010). Dentro da literatura do apoio social, o cônjuge é muitas vezes apontado como a fonte mais importante de apoio, especialmente quando remete para questões de saúde (Revenson, 1994). O cônjuge dá amor e afecto, assegurando que o outro se sinta amado, desviando muitas mudanças adversas que a doença acarreta quer no aspecto físico, na personalidade e na qualidade do casamento; fornece assistência nas responsabilidades do dia-a-dia e nas necessidades especiais criadas pelo tratamento, autenticando as suas escolhas e ajudando na manutenção do significado da doença; partilha as preocupações existenciais e práticas sobre como a doença pode afectar o casamento e a família no futuro; e fornece continuidade e segurança numa vida interrompida pelas indicações físicas e significados emocionais da doença (Suls & Wallston, 2003).
No caso particular dos pacientes que são casados, o cônjuge normalmente acarreta o papel de cuidador principal, fornecendo suporte e auxilio (Lanza, Cameron, & Revenson, 1995). Os cônjuges ocupam assim um papel duplo no processo de coping: primeiro dão suporte ao parceiro doente e ajudam a lidar com a doença, e segundo como membro da família que precisa de apoio para lidar com a doença que esta a experienciar (Suls & Wallston, 2003). A associação entre o estado civil e o estado de saúde, depende sobretudo da qualidade da união e não apenas do simples facto de ser ou não casado, sendo que um casamento bem ajustado está relacionado com melhoras nas condições de saúde, por sua vez um ajustamento conjugal baixo é equivalente a ser solteiro (Reese, Somers, Keefe, Williams & Lumley, 2010). Esta ideia é também reforçada por outros autores (Bermas, Tucker, Winkelman, & Katz, 2000) que referem que tem-se demonstrado que o casamento em si não está relacionado com um melhor estado de saúde em doentes com artrite reumatóide, mas sim ter um casamento bem ajustado, aspecto esse que é associado com menos dor e melhor
pobre ajustamento conjugal ou ser solteiro pode aumentar o stress ao lidar com a doença, assim como fazer com que os doentes adoptem comportamentos maladapatativos, aumentando a dor e o sofrimento (Resse, et al 2010).
Vários estudos examinaram o papel que os esposos, companheiros ou outro suporte próximo proporcionam na vida de pacientes com doenças reumáticas. Pacientes que vivem com o esposo ou companheiro referiram sentir mais suporte social, menos depressão e ansiedade, e melhor bem-estar psicológico, quando comparados com pacientes sem companheiro (Kenneth, Griffin, Ronald, Alan, Kaell, Ronald & Bennett, 2001). Em pacientes com artrite reumatóide, o apoio do companheiro e o suporte emocional facilitam a expressão emocional o que prediz um ajustamento psicológico e melhor adaptação á doença (Tewary & Farber, 2012).
Burman e Margolin (1992) analisaram a relação existente entre três tipos de variáveis conjugais (estado civil, ajustamento conjugal e interação conjugal) e os problemas de saúde (etiologia, curso / resultado / tratamento), bem como o efeito que os problemas de saúde têm sobre o casamento e concluíram que, as relações conjugais podem influenciar os resultados da saúde física em doenças que incluem inflamação, dor e incapacidade funcional, por meio de factores psicológicos e comportamentais, podendo ser estes, stress, ansiedade, medo, depressão, baixa motivação e suporte funcional, emocional e financeiro limitado.
Reese, et al, (2010) examinaram a influência que as relações tem no ajustamento á condição crónica, usando como exemplo a artrite reumatóide. Concluíram que o ajustamento conjugal está associado a um melhor estado de saúde, mostrando que entre os participantes casados com um ajustamento conjugal satisfatório foi relatada menos dor e incapacidade psicológica. Por sua vez, concluíram ainda que pessoas casadas com baixos níveis de ajustamento conjugal terão maior risco de desenvolver mais dor e ser afectadas a nível psicológico, comparativamente com os que tem níveis altos de ajustamento conjugal. Mustafa, Looper, Purden, Zelkowitz & Baron, (2012) examinaram a associação entre o ajustamento conjugal e os resultados da doença em pacientes com artrite inflamatória e concluíram que um melhor ajustamento conjugal está associado com uma menor atividade da doença, inclusive menos inflamação.
Em suma, os vínculos sociais na vida de um portador de doença crónica e reumática são extremamente importantes, assim como o tipo e a qualidade das relações os rodeiam (Andrade & Vaistamn, 2002).