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1. OS LIMITES DA OBJETIVIDADE E AS FRONTEIRAS DA OPINIÃO NO

1.2. ALÉM DO QUARTO PODER: O JORNALISMO COMO ATOR POLÍTICO

Conforme discutido no tópico anterior, o discurso de autolegitimação do Jornalismo comercial ressalta o serviço prestado ao interesse público, à sociedade, aos cidadãos, ao bem comum e à cidadania (BELTRÃO, 1980; KOVACH;

ROSENSTIEL, 2003). Por estar constantemente se legitimando a partir dessa perspectiva que realça principalmente a atuação do Jornalismo Político, a prática jornalística acaba sendo encarada prioritariamente como um valor e uma função social; enquanto seu caráter comercial e a posição como um ramo de negócios são, muitas vezes, negligenciados (GOMES, 2009).

Boa parte das pesquisas em Jornalismo segue esta mesma lógica, partindo da premissa de autolegitimação da profissão e pouco explorando as particularidades dessas organizações empresariais privadas que exercem poder e influência na esfera pública e devem ser analisadas sob este viés para ampliação da compreensão de seu papel social. É inegável que a pesquisa problematize, com frequência, a parcialidade da cobertura noticiosa (MESQUITA; MOISÉS; RICO, 2014), porém, faz-se necessário mencionar a raridade de pesquisas que se dedicam a investigar, com maior rigor e sistematização, as relações institucionais

estabelecidas por essas empresas internamente, com o corpo profissional38 (ATHANÁSIO, 2014), e externamente, com leitores, grupos políticos e econômicos.

A função crucial da imprensa em comunicação política, no entanto, não se restringe a serviços de informação. A imprensa não apenas serve como transmissor neutro, mas pode também ter um papel ativo no processo de comunicação política expressando suas próprias visões e opiniões. As empresas de comunicação não apenas informam sobre os atores políticos, mas na verdade são os próprios atores políticos participantes. A pesquisa em Comunicação tem negligenciado em grande parte essa perspectiva (EILDERS, 1999, p. 302, tradução nossa)39.

A compreensão das tensões entre a atividade social do Jornalismo e os objetivos particulares das empresas é fundamental para o avanço da pesquisa em Comunicação – assim, dados sobre discursos, enquadramentos e conteúdos dos produtos jornalísticos podem ser mais bem interpretados, quando consideradas questões relativas à ordem empresarial.

A literatura que observa essa atuação da imprensa na esfera pública para além do seu papel mediador e supostamente neutro compreende que tais organizações midiáticas desempenham, em certas situações, um papel ativo como ator político (EILDERS, 1999; EBERWEIN, PORLEZZA, SPLENDORE, 2015). Seja por ocasião de posicionamento partidário explícito, defesa de agendas específicas ou interesses particulares não explicitados, os veículos de Jornalismo atuam e interferem no debate público. Para Guazina (2011), essa atividade política é uma característica marcante do Jornalismo brasileiro.

38A Teoria Organizacional (BREED, 1955) deve ser mencionada, já que constitui a primeira pesquisa da área dedicada a contemplar os aspectos corporativos que interferem na produção da notícia. A contribuição da metade do século XX considera a análise do “contexto imediato dos jornalistas: a organização para a qual trabalham”, e entende que as notícias são produto das interações sociais que têm lugar dentro da empresa jornalística. Mais que isso, os estudos de Breed (1955), elaborados na metade do século XX, indicam que os profissionais de imprensa tendem a sobrepor os interesses da empresa em detrimento dos valores deontológicos da atividade social desempenhada pelo jornalismo. Essa ideia de que a relação hierárquica do interior das redações tende a prevalecer sobre o Código de Ética dos Jornalistas também é compartilhado por Kucinski (1998), que argumenta que no Brasil prevalece a lógica da autocensura; isto é, que os jornalistas antecipam as sanções. Esse conformismo se justificaria por um sistema de constrangimentos e punições internalizados na rotina profissional. Os jornalistas compreendem que quanto mais alinhados à política editorial da empresa (ainda que esta não seja explicitada), maiores suas chances de ascensão na carreira; do contrário, restam punições como o afastamento de pautas de maior destaque até um desligamento (ATHANÁSIO, 2014; BREED, 1955; MARQUES; MIOLA; SIEBRA, 2014). A respeito desse tema, pesquisa recente indicou alinhamento dos profissionais (https://www.poder360.com.br/midia/maioria-dos-jornalistas-dos-eua-defende-ideologia-do-jornal-em-que-trabalha/).

39 Texto original: The crucial role of the media in political communication, however, is not restricted to information services. Media not only serve as neutral transmitters but may also take an active role in the political communication process by expressing their own views and opinions. Media not only report on political actors, but indeed are participating political actors themselves. Communications research has largely neglected this perspective (EILDERS, 1999, p. 302).

O debate sobre mídia como ator político aparece com maior ênfase no quadro da Midiatização e na descrição de Paralelismo Político (ALBUQUERQUE, 2012; AZEVEDO, 2016). Essa atividade política pode ser observada nas notícias e é cada vez mais presente no entretenimento, embora o protagonismo permaneça no Jornalismo (EBERWEIN, PORLEZZA, SPLENDORE, 2015; BIROLI, 2012). Ator relevante da arena política, com objetivos profissionais ou comerciais, os media debatem assuntos políticos atuais, estabelecem espaço das campanhas eleitorais e são lugar de luta democrática. Há, segundo Eberwein, Porlezza e Splendore (2015), pelo menos quatro situações que enquadram as empresas de mídia como atores políticos: (1) quando estão sob a propriedade de políticos ou possuem claro alinhamento ideológico; (2) quando expõem opinião explícita, com objetivo de defender e convencer sobre uma posição; (3) quando promovem campanhas específicas e (4) quando defendem poder e responsabilização da mídia.

Para compreender como se dá essa atuação política, é preciso recuperar as noções sobre aspectos corporativos, próprios da conjuntura empresarial. As articulações do mercado da informação e as influências do aprimoramento tecnológico, por exemplo, são fatores que contribuem para a formatação do modelo de negócios do Jornalismo enquanto atividade comercial “qualquer”40 (GOMES, 2009). Segundo Wanta (2015), nos últimos anos, a crise econômica favoreceu a redução do número de proprietários de empresas de comunicação de massa e proporcionou o crescimento dos conglomerados de mídia, concentrando o poder do campo midiático nas mãos de poucos. Isso representa menos pluralidade de informação, enquadramentos e debates, já que o conteúdo tende a refletir os interesses dos proprietários e seus financiadores (WANTA, 2015; AZEVEDO, 2010;

MELO, 2003). Esse quadro se reproduz no âmbito brasileiro, onde as empresas de comunicação se concentram nas mãos de poucos (AZEVEDO, 2016, 2010;

KUCINSKI, 1998). Por outro lado, a grande imprensa brasileira incorporou, desde a redemocratização, políticas editoriais voltadas ao pluralismo interno (AZEVEDO, 2009).

40 Importante incluir uma ressalva ao classificar as empresas jornalísticas como ramo de negócios

“qualquer”. Amparada na literatura, a expressão pretende sinalizar que a despeito do desempenho social da prática jornalística as organizações privadas que atuam em sua gestão são empresas comerciais. Contudo, não se pode dizer que são “qualquer” negócio justamente por sua relação e influência na esfera social. Empreendedor nato e motivado muitas das vezes pelo lucro, Octavio Frias, que esteve à frente da Folha por décadas, afirmava que o jornal não era um negócio como os demais justamente por seu desempenho no campo social (PINTO, 2012).

Sendo assim, faz-se necessária a exploração do sistema de mídia e do sistema político vigente na região, o que recupera a noção de Paralelismo Político citada na introdução deste capítulo. Ao avaliar o sistema de mídia brasileiro, Azevedo (2016) utiliza a ideia de diversidade externa e interna às organizações de imprensa. Quando fala em diversidade externa, se refere ao grau de pluralidade de empresas de Jornalismo; enquanto a diversidade interna se refere ao acesso que o jornal provê de fontes e demandas diversificadas em suas matérias. Observando o cenário brasileiro, a conclusão é que a concentração da propriedade de comunicação de massa41 no Brasil criou condições para estabelecimento de um sistema de baixa diversidade externa (AZEVEDO, 2009; 2016), em que as empresas se aglomeram em poucos conglomerados de mídia, reduzindo a pluralidade de proprietários. Somado a isso, em âmbito local e regional, boa parte das emissoras de rádio e TV são controladas por políticos42.

A parcialidade da mídia não é, de fato, um mal em si mesmo, pois ela é funcional em ambientes midiáticos nos quais o cidadão tem acesso a publicações diversificadas que representam e vocalizam as principais correntes políticas e culturais da sociedade. Porém, num contexto em que a diversidade é pobre, como no caso brasileiro, no qual a mídia é fortemente concentrada e monopolizada por grupos familiares, com diversidade (externa e interna) precária, a questão da parcialidade se torna crítica para avaliar como a informação política alimenta o debate público e a escolha política dos cidadãos (AZEVEDO, 2016, p. 29).

Partindo desta concepção de diversidade interna versus diversidade externa, nota-se que a Folha de S. Paulo reivindica para si, em seus princípios editoriais43 (que serão discutidos em capítulo apropriado), uma ampla pluralidade interna, se colocando como jornal apartidário e aberto para diferentes visões políticas (FOLHA, 2017). Esse discurso editorial, em um contexto de Jornalismo liberal, serve a uma estratégia comercial (KUCINZKI, 1998) que visa ampliar as possibilidades de audiência e, ao mesmo tempo, garantir credibilidade, se legitimando como produto relevante para os ambientes democráticos. Em comparação com o conteúdo de seus concorrentes O Globo e OESP, a FSP é o jornal que mais se aproxima do modelo de pluralidade interna desejado, segundo Azevedo (2016). Em contrapartida,

41 Quatro famílias dominam as companhias de mídia do país, a nível nacional. Os Marinho (Grupo Globo); os Mesquita (OESP); os Frias (Grupo Folha) e os Civitas (Abril). O cenário se repete em nível regional (AZEVEDO, 2016). Caracteriza-se a imprensa brasileira como oligárquica (KUCINSKI, 1998).

42 Sobre a concentração da propriedade de mídia nas mãos de políticos, ver análise de PINTO, 2017.

43 Os projetos editoriais da Folha de S. Paulo estão disponíveis em (acesso em 09 jul. 2017):

<http://www1.folha.uol.com.br/paywall/login.shtml?http://temas.folha.uol.com.br/projeto-editorial-da-folha/editorial-project-folha-de-s-paulo/his-excellency-the-news-consumer.shtml>.

Kucinski (1998) critica severamente o Projeto Folha, nomeando-o como um comportamento “adolescente”, justamente por modelar sua linha editorial muito mais em razão de resultados comerciais do que por razões políticas. Assim, o projeto teria se desenhado em torno de uma proposta ampla de contrato de leitura no início dos anos 198044. Seguindo a mesma lógica, poucos anos depois, em 1984, a FSP defenderia as Diretas Já como estratégia de marketing que o tornaria o “jornal da redemocratização” (PINTO, 2012).

A atuação política dos principais quality papers do Brasil está expressa nas suas trajetórias e especialmente nas posições históricas assumidas em seus editoriais, sendo lembrados, por exemplo, pelo apoio ao Regime Militar, posterior campanha a favor das Diretas Já e pedido de Renúncia de Collor, em 199245. Todavia, conforme já se introduziu, são raras as pesquisas brasileiras que se dedicam a compreender a rotina dos editorialistas e os modos de produção dos editoriais destas empresas, quando é possível notar que este é o gênero que melhor ilustra a atuação política dos periódicos. Os textos editoriais, enquanto espaço específico para posicionamento explícito das empresas jornalísticas na arena pública (HO, QUINN, 2008), consistem em objeto empírico pertinente para análise da imprensa como ator político e de suas relações e interesses enquanto empresa.

São nessas páginas que se encontram a alma do jornal, ou seja, os seus valores, os seus ideais e as suas posições diante das alternativas políticas e ideológicas que circulam no interior da sociedade. Portanto, esse é um lugar privilegiado para pesquisar as orientações e posições políticas dos jornais e os seus posicionamentos diante de governos e dos embates partidários e eleitorais e dos atores políticos (AZEVEDO, 2016, p. 84).

Para McCombs (1967), enquanto se analisa a atuação política dos jornais por meio da análise dos enquadramentos das notícias, o texto editorial fornece o conteúdo que simboliza a tentativa direta e aberta de influenciar a audiência. “Isto é claramente o propósito de endossos candidatos durante campanhas políticas” (p.

545)46.

As características desse gênero opinativo são discutidas no próximo tópico.

44 Na seção de análise das entrevistas com editorialistas esse assunto é retomado.

45 Os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo publicaram no mesmo dia (30 de junho de 1992) editoriais pedindo afastamento do presidente Fernando Collor de Mello por meio de renúncia: <

http://acervo.estadao.com.br/noticias/topicos,impeachment-de-collor,887,0.htm>, em 21 out. 2017.

46 Texto original: This clearly is the purpose of editorial endorsements of candidates during political campaingns (MCCOMBS, 1967, p. 545).