2.5 QUADRINHOS DE AUTOR: A DESCONSTRUÇÃO DO HERÓI
2.5.1 ALAN MOORE E A PLURALIDADE DA NARRATIVA NOS COMICS
O atual texto dos quadrinhos americanos tem representado as revoluções que ocorreram na indústria de Comics nos anos 1980. Quando Alan Moore produziu “O Monstro do Pântano” nos anos 1980, seus diálogos precisos e naturais, demonstravam uma nova forma de perceber a estética e a narrativa da história em quadrinhos. Agora os conflitos internos, a culpa e o fracasso passaram a ser amplamente empregados e discutidos nas páginas das histórias em quadrinhos, sobretudo nas Graphic Novels.
Alan Moore foi o primeiro escritor mainstream que comandava esse estilo narrativo, mas alguns anos depois, outros escritores, a maioria britânicos, passaram a seguir o exemplo de Moore: Neil Gaiman, Warren Ellis, Garth Ennis, Grant Morisson, e muitos outros que seguiram essa primeira onda. Esses autores citados tem em comum algumas características na indústria de Comic Book: eles fizeram seus nomes em gêneros de Comics mainstream e escrevem seus roteiros para que outros artistas desenhem. Outro fato importante na metade dos anos 1980, conhecida como a “Invasão Britânica” foi a revolução do quadrinho independente.
A maioria das histórias em quadrinhos que surgiram dessas empreitadas são criações cujo roteiro e desenhos são produzidos pelo autor “nos anos 80, aqueles que melhor entendiam de super-heróis começaram a desconstruir o gênero, esperando insuflar alguma vida em velhas carcaças, rompendo praticamente todas as “regras” testadas e comprovadas” (MCCLOUND, 2006, p. 117).
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A desconstrução dos anos 1980 deixou evidentes os mecanismos internos de gêneros e tornou-se o marco para a reconstrução unívoca por argumentistas dos anos 1990. Alguns exemplos de obras que marcaram os quadrinhos contemporaneos são: A Piada Mortal, V de Vingança e Watchmen, de Alan Moore; Sandman, de Neil Gaiman.
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Nascido em família pobre, Alan Moore foi levado ao tráfico e ao consumo de drogas. Aos 17 anos, foi expulso do colégio por tráfigo de LSD. Cresceu lendo quadrinhos. É influenciado por quadrinhos de horror e de ficção científica britânicos. Muito do trabalho de Alan Moore aborda a própria história dos quadrinhos seja subvertendo, redefinindo, desafiando ou apenas celebrando-a. Como por exemplo, o uso da imagem arquétipa do Superman (Miracleman, Supremo, Tom Strong).
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Alan Moore costuma produzir roteiros ultradetalhistas, que descrevem a luminosidade, a posição dos objetos em cena e a expressão facial dos personagens, entre outras coisas. Uma de suas técnicas narrativas é a justaposição: os Comics misturam palavras e imagens, e é comum na obra de Moore um quadro trazer uma figura e uma legenda em contraste, criando efeitos de ironia. Sua obra V de Vingança publicada de 1982 a 1985, originalmente em preto e branco apresentava influências históricas: George Orwell (1984), Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo). David Bowie, O Sombra, Batman, Ray Bradbury (Fahrenheint 451), o quadro “Europa após a chuva” de Max Ernst, o seriado inglês O Prisioneiro, entre outros.
Alan Moore reciclou uma antiga ideia, pra um personagem chamado The Doll, um terrorista transsexual. Se passa originalmente em 1997 numa Inglaterra governada por fascistas que tomaram o poder após uma guerra nuclear. Após perseguirem e matarem todos os considerados “subversivos”, negros, judeus, gays e radicais, deixando a população assustada. Neste cenário surge V, um terrorista anarquista usando uma máscara de Guy Fawkes. Sua campanha começa com a destruiçâo do Parlamento.
Através do personagem V, Alan Moore faz diversas citações à literatura, à arte, à história e à política, que caracterizam seu estilo. A própria letra V e o número 5 são alvos de constantes referências, como a sinfonia de Beethoven, o nome Evey (personagem feminina da trama). Vários discursos de V são feitos em aliterações ou em pentâmetros iâmbicos. Por fim, seu lema é a frase em latim Vi Veri Veniversum Vivus Vici (Pelo poder da verdade, eu, enquanto viver, conquistarei o universo).
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Figura 12: V em sua versão cinematográfica.
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Watchmen foi adaptado recentemente para o cinema. Originalmente é uma minissérie publicada entre 1986 e 1987, em 12 partes mensais. O título é uma referência à frase latina Quis custodied ipsos custodes?, estraída das Sátiras do poeta romano Juvenal. Significa “quem vigia os vigilantes?” (Who watches the watchmen?).
Em termos comparativos com outras mídias, Watchmen é para os quadrinhos o que Cidadão Cane é para o cinema. Originalmente pensada como uma minissérie reunindo os heróis da falida Charlton Comics (recém adquirida pela DC Comics). Assim como V de Vingança, a narrativa é composta de uma grade de quadros regulares, que abrem-se quando a história demanda, a noção de mundo é construída através de detalhes incidentais. A história de Watchmen se situa numa versão alternativa da história dos Estados Unidos, às vesperas de uma guerra nuclear em que os heróis mascarados são reais e influenciaram fatos históricos desdes os anos 1940.
A capa de cada edição/capítulo é um close de uma imagem que tem continuidade na primeira página da história, funcionando como o primeiro quadro desta. O título de cada capítulo é extraído de uma citação de cultura clássica ou popular. A citação completa encontra-se sempre no último quadrinho de cada história. Característica interessante de pluralidade presente na narrativa de Alan Moore ( possivelmente absorvida por Frank Miller em suas pesquisas durante a fase de produção das Graphic Novels) são os anexos que trazem documentos fictícios, como excertos de livros, revistas, relatórios de polícia, memorandos e material publicitário, ajudam a compor a atmosfera e a ambientação da história.
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Watchmen pavimentou o caminho para os ditos “quadrinhos inteligentes” com a criação do selo Vertigo e títulos como Sandman de Neil Gaiman. Sagas como Civil War da Marvel Comics e A Nova Fronteira da DC Comics utilizam-se das premissas de Watchmen. No cinema, Richard Kelly (Donnie Darko) e Darren Aronofsky (Réquiem para um sonho, The Foutain) apontam esta obra de Alan Moore como uma das principais influências em seus trabalhos.
Na televisão a minissérie Lost apresenta narrativa não-linear, focada em flashbacks de personagens, com histórias paralelas sendo contadas através de detalhes é uma das influências que podem ser percebidas vindas de Watchmen. Esta Graphic Novel foi a primeira e única a vencer o Hugo Awards, prêmio da literatura de ficção e fantasia é também listada pela revista TIME como um dos livros mais influentes publicados no período de 1923 até os dias de hoje.
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Figura 15: O primeiro quadrinho sempre reproduz em close a capa de cada capítulo de Watchmen.
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