1.4 “No soy un escritor realista”
2.2 Albedrío: uma prosa medida
A produção crítica específica sobre o romance é escassa. Além de algumas resenhas na imprensa mexicana na época do lançamento ou de sua reedição, registram- se poucos esforços críticos concentrados na obra. Há, porém, ao menos um texto importante para o âmbito desta dissertação. Trata-se de um artigo em que Geney Beltrán Félix (2003) analisa a primeira página do romance, com a intenção de avaliar e discutir até que ponto Sada utiliza da métrica dos octossílabos. O crítico se depara com três tipos de versos octossílabos, seguindo a conceituação tomada de Arte del verso, do espanhol Tomás Navarro Tomás, segundo as diferenças nas sílabas acentuadas, e calcula o índice percentual de seu aparecimento no texto: trocaico (47,27% do total), misto (30,91%) e dactílico (21,82%), Sua conclusão é que a maior frequência do tipo trocaico, com acentuação na 3ª, 5ª e 7ª sílabas, relaciona-se à tradição dos romances e que “el lenguaje medido y acentual constituye el sustento y la herramienta para construir un narrador comunitario y cercano a la mentalidad oral típica de entornos rurales” (2003, p. 130)12
.
41 Tomando como base os dados recolhidos nesse estudo, torna-se evidente o quanto há de trabalho estilístico em Albedrío e abre-se o caminho para a indagação de suas relações com a poesia romance e o corrido mexicano. Beltrán Félix ponderou que a fortuna crítica de Sada até aquele momento focalizava em excesso a temática do deserto, mas, para ele, a experimentação linguística deveria ser estudada com tanta ou maior ênfase (IDEM, p. 132-133).
De saída, é preciso notar que o emprego do octossílabo em Albedrío se mantém não só na voz do narrador, mas também em geral nos diálogos entre os personagens. Ao lado dessa predominância, contudo, há várias frases ou palavras soltas que não se encaixam nesse metro. Vejamos um exemplo do primeiro capítulo (as divisões entre as sílabas foram colocadas por mim):
– ¿Quién/ va a/ ir/ a e/se /mu/gre/ro? (8) A/de/más/ con/ es/te/ frí/o...(8) E/sas/ gen/tes/ es/tán/ lo/cas.(8)
– Dé/ja/los/ que ha/gan/ su/ lu/cha/ (8), ¿qué/ tan/to/ pue/de a/fec/tar/te?(8)
– Pe/ro es /que/ ro/ban/ de/ no/che (8)...Y/ son/ lis/tos /pa/ra /e/so.(8) (p. 14).
O diálogo ocorre num momento em que dois moradores da pequena Castaños discutem a presença dos “húngaros”, que acabaram de chegar em uma noite fria. O octossílabo é uma constante. Em muitos casos temos alguma pontuação que marca o fim do “verso”, como uma vírgula, um ponto final ou reticências. Em outros, isso não acontece, como por exemplo na última destas falas: “– Pues/ tu/ fuis/te/ pa/ra a/llá. (8)13 – ¿Có/mo? (2) – Sí, / que/ tú /fuis/te y /su/pis/te/(8) si ha/bía a/ni/ma/les/ o/ no. /”(8) (p. 75). Neste trecho, na primeira frase consta apenas um octossílabo e na sequência vem um “verso solto”, de apenas duas sílabas (¿Có/mo?), e uma resposta que inclui dois octossílabos, sem divisão entre eles. Embora transcritos nessa prosa metrificada, o efeito de oralidade dos diálogos é evidente. Nos exemplos expostos, comparece um vocabulário popular, com palavras como “mugrero”, e expressões como “hacer su lucha”, o plural expressivo em “Esas gentes”, além de frases encerradas por reticências. A oralidade e a métrica caminham juntas.
Sada chegou a dizer que se sentia mais confortável com um limite autoimposto à criação: “In fact, to be honest, it’s more difficult for me to write free prose, because I
42 don’t have any technical (phonetic) resources on hand that might provide some support” (Apud PRIETO, p. 56). Ou seja, se tomarmos como premissa verdadeira essa sua fala, poderíamos concluir que, devido à sua familiaridade com a métrica, a ausência dela chegaria mesmo a incomodá-lo.
Em uma história com personagens populares que vivem à margem das metrópoles, nos pequenos povoados do norte mexicano percorridos pela trupe mambembe, a escolha pelo octossílabo não é, de fato, casual. Mais do que isso, a relação entre o que se quer narrar e a forma como isso se faz é absolutamente adequada: numa comunidade na qual a oralidade é predominante, embora a cultura escrita também esteja presente, a escolha formal se adequa a esse contexto.
Ao usar o octossílabo, Sada se insere em uma tradição, dentro da qual vários estudiosos destacam seu uso frequente na lírica e no teatro em língua espanhola. Antonio Quilis o considerava “el más importante de los versos de arte menor, y el más antiguo de la poesía española”:
Por constituir el grupo fónico mínimo se adecua perfectamente a nuestra lengua y constituye una constante métrica en la historia de nuestra lírica; es injusto, por ello, buscar su origen en los metros latinos o en la tradición galaica o provenzal. Es el verso por excelencia de la poesía
popular, de nuestros romances e incluso de nuestro teatro lírico
(1978, p. 54, grifo meu)
Mais recentemente, José Domínguez Caparrós confirma que o octossílabo “se adapta a cualquier asunto y mantiene una extraordinaria vitalidad, sobre todo en la poesía popular” e destaca como exemplo seu uso “en el teatro del siglo de oro, o en un género tan abundante como el romance” (2005, p. 64).
É apoiado nessas premissas que Domínguez Michael pode afirmar que “Sada cree, como tantos de los grandes poetas de la lengua, que el octosílabo es el metro natural de la expresión de la prosa castellana y, a lo largo de su obra, este novelista lo ha buscado (y redescubierto) al octosílabo de manera obsesiva y excéntrica” (2012, p. 574).
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