Capítulo 4: Alberto Torres, uma obra, várias leituras
4.2 Alberto Torres: precursor do pensamento anti-racista
Como mostramos, Alberto Torres se opôs frontalmente às teorias racistas, poderosas no país no início do século, insistindo na importância do meio como fator explicativo das sociedades. Essa característica de sua obra foi recuperada e valorizada posteriormente, por diversos estudiosos, tanto brasileiros quanto estrangeiros.
Essa valorização pode ser observada já nas décadas de 1920 e 1930, através do antropólogo Edgar Roquette-Pinto, diretor do Museu Nacional entre 1926 e 1935. Roquette- Pinto envolveu-se ativamente nas polêmicas em torno da questão racial que marcaram as décadas de 1910 e 1920, chegando até a década de 1930. Ele defendeu a tese de que o problema do Brasil era uma questão de educação e higiene e não de raças. Rejeitava a teoria da degenerescência do mestiço, enfatizando a importância do meio e emprestando “credenciais científicas das mais respeitáveis à crescente campanha para salvar o nativo brasileiro da armadilha determinista” (Skidmore, 1989, p.208). Defendia que a idéia de branqueamento fosse deixada de lado, aconselhando que se estudasse e trabalhasse para melhorar a população existente, já que “O problema nacional não é transformar os mestiços
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Conforme Estatutos da SAAT, acervo de Alberto Sampaio no Museu Nacional / RJ.
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do Brasil em gente branca. O ... problema é a educação dos que aí se acham, claros ou escuros” (apud Skidmore, 1989, p.206). Sua obra contribuiu, segundo Skidmore (1989, p.205), para o desenvolvimento no Brasil da teoria rival de “cultura”, que começava a se tornar, nos anos 20, na Europa e nos EUA, a chave da ciência social do meio ambiente. Trata- se, como vimos, da construção de um novo paradigma, que substituía as antigas teorias “científicas” raciais por uma abordagem culturalista, no estilo de Franz Boas. Um marco nesse sentido foi o Primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia, realizado em 1929, quando a divisão da intelectualidade brasileira aflorou com toda a força (De Luca, 1999, p.232). Um grupo, liderado por Roquette Pinto, influenciado pelas novas abordagens antropológicas, negava as teorias raciais que condenavam a mestiçagem e defendia a entrada de imigrantes asiáticos. Outro grupo, liderado por Miguel Couto e Renato Kehl, reafirmou aquelas antigas verdades do racismo científico, que agora encontravam um coro de vozes discordantes (ibidem)99. No ano seguinte, 1930, Roquette-Pinto, juntamente com Gilberto Freyre e Arthur Ramos, elaborou e publicou o “Manifesto dos Intelectuais Brasileiros contra o racismo”.
Roquette-Pinto expressou grande admiração pela obra de Alberto Torres, participando do culto ao “Mestre” que contaminou diversos círculos intelectuais nas décadas de 1920 e 1930. Foi, inclusive, graças à sua iniciativa que a segunda edição do livro Vers la paix, preparada desde 1913, foi finalmente publicada em 1927, pela Livraria Ypiranga, contando ainda com elogioso prefácio de sua autoria (Marson, 1979, p.61, nota 16; Barbosa Lima, 1968, p.480). No entanto, se Roquette-Pinto ressalta sempre diversos pontos do pensamento de Torres, como seu profundo “sentimento nacional”, acreditamos ser possível perceber um destaque especial dado a uma questão que recebia pouca ou nenhuma atenção de outros
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Como mencionamos no capítulo 1, no Brasil, as fronteiras entre sanitarismo e eugenia eram muito tênues, ambos apostando no poder do ambiente como transformador do homem, defendendo políticas de educação, saúde e higiene. Segundo De Luca (1999, p.232), essas fronteiras só se tornaram mais nítidas no final dos anos 20, sendo fundamental aí a Liga de Higiene Mental, fundada no Rio de Janeiro por Gustavo Riedel. A partir de 1926 essa entidade abandonou a postura de cunho curativo, tornando-se o principal reduto dos defensores de uma eugenia negativa e de cunho racial (ibidem). O médico paulista Renato Kehl foi o principal nome da eugenia no Brasil.
“torreanos” de então: sua oposição às teorias sobre a desigualdade das raças. Assim, no livro
Ensaios Brasilianos, publicado na Coleção Brasiliana em 1941, reunindo textos diversos de
Roquette-Pinto, é possível encontrar um pequeno texto do autor, escrito no início da década de 1930, dedicado ao pensamento de Alberto Torres (Roquette-Pinto,1941, p.63-65). Já nos primeiros parágrafos, ele afirma:
Ninguém, no Brasil, até hoje, pensou com mais clareza e mais profundamente, sobre os nossos grandes problemas, do que Alberto Torres. E ninguém soube, como ele, explicar a nação a si mesma. Suas paginas são diaphanas e coloridas. A phrase é sempre forte, porque é constantemente sincera. Seus ornatos são idéias. Uma orientação pessoal, nova e segura, domina o espírito sociológico que elle applicou ao estudo do Brasil. Para Alberto Torres o grande problema nosso era unicamente a organização. O grande sociólogo sabia que a raça não pode servir de base á nação. A nacionalidade é obra de construcção social (grifos no original).
Desse modo, o elogio ao conjunto de sua obra é sempre acompanhado pelo destaque à sua abordagem da questão racial. No restante do texto, Roquette-Pinto ressalta ainda vários pontos do pensamento de Torres – a quem chega a se referir como “o Mestre” –, como sua denúncia de que nossas constituições carecem de base própria, seu alerta sobre a devastação das matas e a dilapidação de reservas naturais, sua crítica a nossa valorização e cópia do estrangeiro e seu chamado para que os brasileiros voltassem os olhos para seu país, assenhorando-se efetivamente dele. Neste ponto, vale à pena acompanhar suas palavras:
É como se Alberto Torres subisse a uma altura excelsa e de lá gritasse ás gerações: A pátria reclama que se olhe para ella! Antes de nada mais contemplem a terra e mergulhem na sua natureza para tomar conta do que lhes deve pertencer!
Também volta a referir-se à temática racial, afirmando que
Há pois, no Brasil, pelo conceito de Alberto Torres, só uma falha essencial e essa é a defficiencia collectiva, mas não ligada á raça ou mesmo ás características moraes do povo. Essa valorização da abordagem racial no pensamento de Torres seria retomada algumas décadas depois, aparecendo na famosa obra de Dante Moreira Leite, O caráter
nacional brasileiro. Para Leite (2002, p.339-340), Torres, nesse aspecto, se aproxima de
Manuel Bonfim, tendo ambos mostrado como importamos as teorias racistas européias, sem perceber que elas negariam qualquer futuro para o Brasil. O autor sublinha ainda a defesa que
Torres faz do trabalhador nacional, quando, em vez de dizer que o brasileiro é indolente, afirma que ele não tem oportunidade de trabalho, opondo-se novamente aos ideólogos da época. Desse modo, “Alberto Torres supera – já na década de 1910 – muitas das idéias que continuariam a ser repetidas dezenas de anos depois”. Segundo Leite (ibidem), se compararmos as obras de Torres e Bonfim com as de seus antecessores e sucessores, poderemos notar que, apesar das contradições presentes, estavam avançados em suas teorias e “foram capazes de compreender que o atraso do Brasil não se devia a condições psicológicas imutáveis, mas a condições históricas e econômicas que os homens podem superar”.
E essa valorização seria seguida por Thomas Skidmore, em seu trabalho Preto no
Branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro, cuja edição original em inglês é de
1974. Segundo o autor (1989, p.130-131), Alberto Torres e Manuel Bonfim estavam entre os poucos espíritos isolados que, no começo do século, “foram suficientemente avançados e independentes para rejeitar todo esse quadro de determinismo como meio de explicar a condição do Brasil (...)”. Assim, ambos estariam à frente de seu tempo ao rejeitar as teorias racistas e defender que o Brasil só sairia de seu relativo atraso através da análise cuidadosa das causas históricas dessa condição. De acordo com Skidmore (1989, p.136), ao fornecer suas provas, “Alberto Torres mostrava também um conhecimento impressionante das últimas tendências da antropologia e da arqueologia nos Estados Unidos e na Europa”, endossando a escola culturalista de pensamento que estava emergindo sob a liderança de Franz Boas. Ainda segundo Skidmore (1989, p.136-138), Alberto Torres, tendo demonstrado a falsidade da teoria racista, teria ficado perplexo com o fato da elite brasileira continuar acreditando nela. Explicava tal situação como fruto da alienação desta da realidade nacional e de seu supersticioso respeito pelas idéias estrangeiras, o que lhe tornava presa fácil das teorias de degenerescência propagadas pelos racistas europeus. Skidmore também ressalta que Alberto Torres, assim como Manuel Bonfim, teria ridicularizado os sacerdotes do arianismo,
observando que as teses dos cientistas teutônicos coincidiam exatamente com as ambições internacionais do seu país. Finalmente, após destacar outros aspectos do pensamento de Torres, Skidmore (1989, p.141) assim conclui sua análise:
Sua mais duradoura contribuição foi o ataque frontal ao pensamento racista. Alberto Torres teve a coragem de rejeitar a moldura determinista de referência, ajudando a exorcizar o espectro da inferioridade racial e abrindo caminho para novas indagações sobre o futuro da nacionalidade brasileira.
É por tudo isso que, para Skidmore (1989, p.205-208), Roquette-Pinto, “ao repudiar a moldura racista de referência e ao acentuar a reação do homem ao meio como um dado variável” estava seguindo as pegadas de Manuel Bonfim e Alberto Torres. Aliás, para este autor, Roquette-Pinto era “ele próprio um exemplo de primeira ordem do ideal que eles pregavam: um estudioso prudente e objetivo das condições sociais vigentes no Brasil”.
A ênfase na oposição de Torres às teorias racistas pode ser encontrada também em textos recentes, como De português a mestiço: o imaginário brasileiro sobre a colonização e
sobre o Brasil, de Eduardo Paiva, publicado em 2001. Neste, após ressaltar vários pontos da
obra de Torres, Paiva (2001, p.34) afirma que “talvez, o mais importante da leitura desse autor seja achar aí uma pioneira tentativa de diminuir a importância dada até então à raça, enquanto elemento formador das nações e da capacidade inovadora dos povos”. Assim,
Relativizando a importância da raça (mas nem sempre conseguindo esconder seus próprios preconceitos, evidentemente não os identificando assim), como já disse, Alberto Torres inova e abre espaço, por assim dizer, para algumas das mais célebres obras da historiografia brasileira. (...) Atacando conceitos que ele mesmo adotava – talvez ele tenha levado Florestan Fernandes a escrever, muitos anos mais tarde, que o brasileiro tem o preconceito de não ter preconceito, ainda assim Alberto Torres avançava com seu livro. Idealizava uma certa democratização via mestiçagem antes de Gilberto Freyre e esboçava o brasileiro cordial, antes de Sérgio Buarque de Holanda. Isso não era pouco para um país que, ao menos para os intelectuais, se encontrava condenado pela raça (...).(Paiva, 2001, p.34)