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Percebi que um dos problemas fundamentais de toda e qualquer filosofia da história era a constância da realidade ex­ perienciada ao longo do processo de compactação e transição para a diferenciação. A realidade experienciada pelo chamado homem primitivo é a mesma realidade que o homem moderno experiencia. Entre esses períodos, entre o Neolítico e a Idade Moderna, por exemplo, o que ocorre são os fenômenos de di­ ferenciação. O primeiro a tomar consciência desse problema e formular sua estrutura foi Aristóteles, nos dois livros iniciais da Metafísica. Aristóteles percebeu que a realidade que tinha por objeto de sua análise filosófica era a mesma realidade que os pensadores "teologizantes" que o antecederam haviam experienciado e expressado sob a forma de mito; Homero e Hesíodo são os casos específicos a que alude o filósofo. Quan­ do, no mito de Urano e Gaia, os pensadores da Grécia arcaica expressam suas experiências da origem do ser, estão à procu­ ra do plano divino do ser a cuja busca o próprio Aristóteles também se dedica, e que acaba por identificar como Nous. O

philomythos é para ele algo como um philosophos. Em seus úl­ timos anos de vida, Aristóteles foi ficando cada vez mais fasci­ nado pelo mito como fonte de sabedoria, pois essa forma de ex­ pressão pode por vezes ser mais abrangente que as estruturas

da realidade diferenciadas pelo filósofo. Ele compreendeu as relações entre experiências e simbolizações nos vários níveis de compactação e diferenciação que estão subentendidas em meu conceito de equivalência. O conceito de equivalência ex­ pressa a identidade reconhecível da realidade, experienciada e simbolizada em diversos níveis de diferenciação.'

A conseqüência mais importante desse insight é a com­ preensão de certos processos na história. Quando uma nova diferenciação ocorre, a parcela da realidade articulada nesse ato será entendida como uma área de particular importância. Em meio ao júbilo da descoberta, a supervalorização dessa parce­ la da realidade pode levar à falta de interesse por outras áreas da realidade que, embora contidas na experiência compactada anterior, agora são negligenciadas. O mais digno de nota dentre esses casos de descuro aconteceu com a diferenciação das ciên­ cias naturais na época moderna. O modelo de uma razão que tem um papel ativo na cognição do mundo exterior tomou-se o padrão; com isso, os aspectos existenciais da razão em seu sen­ tido clássico, constitutivos da humanidade do homem, foram negligenciados e precisaram ser gradativamente redescobertos no século XX com o nome de "existencialismo", o que, ao invés de esclarecer, vem dificultar ainda mais a compreensão da es­ trutura da razão na existência. Por conta dessa dificuldade de redescobrir a ordem existencial, Jaspers, ao perceber os desvios do existencialismo - sobretudo no caso de Sartre -, foi força­ do a abandonar a linguagem da ordem existencial, privilegiada em seus primeiros escritos, para retomar à linguagem da razão (Vernunft). Mas este não é o único exemplo.

Um dos grandes casos de negligência, e também de eclip­ se da realidade, aconteceu com o advento do cristianismo. A diferenciação pneumática que devemos a Cristo e Paulo trans­ formou-se, com o nome de revelação, no centro mesmo do pensamento cristão. Uma vez que a revelação (a diferenciação da consciência pneumática) tinha de ser algo completamente

1 Cf. "Equivalences of Experience and Symbolization in Hiscory (1970]", reproduzido em CW, vol. 12, cap. 5. (N. E.)

novo, que marcasse uma nova época na história, a presença, de forma compactada, do estrato pneumático no pensamento do homem primitivo foi negligenciada e mesmo contestada. A doutrina cristã presumiu que, sendo a razão do homem natu­ ral, ela é também uma fonte de conhecimento; e, para somar­ se a essa razão natural, teria vindo ao mundo a nova fonte sobrenatural de conhecimento, a revelação. Que tivessem os gregos a clara consciência de que a descoberta do Nous como fundamento do ser fora uma revelação era fato simplesmente ignorado. Mesmo hoje, a base teofânica da filosofia clássica é praticamente desconhecida, graças a esse eclipse da razão natural provocado pela doutrina cristã. Daí a extraordinária escassez de investigações sobre o paralelismo entre os fenô­ menos da filosofia grega e os da revelação judaico-cristã, a despeito de fatos relevantes como o de que a palavra profeta

foi colhida na linguagem dos poetas gregos, que se sabiam profetas dos deuses no mesmo sentido em que os profetas de Israel eram os porta-vozes (nabi) dos deuses, o que deveria ter suscitado algum interesse.

Reconhecida a presença da revelação em vários níveis de compactação, podemos, é claro, estabelecer uma terminologia para falar desses fenômenos paralelos em termos adequados. É possível falar em experiências e eventos teofânicos tanto no contexto noético da filosofia grega quanto no pneumático da revelação israelita e cristã. E, uma vez reconhecido o pa­ ralelo, podemos ainda explorar as diferenças entre a teofania noética de um Platão e a teofania pneumática de um Paulo. Tal investigação poderia ser de grande auxfüo à compreensão da estrutura da experiência do filósofo, mas também obriga­ ria o investigador a apontar qual é, exatamente, o conteúdo específico da diferenciação pneumática cristã que transcende as diferenciações noéticas de Platão e Aristóteles. Essa tarefa nunca foi levada a efeito; o problema é encoberto pela lingua­ gem da razão natural e da revelação.

A questão, reconheçamos, não está de todo fora do hori­ zonte dos pensadores cristãos. Um homem de mente mais

engenhosa como Tomás de Aquino estava muito consciente desse problema. Ele sabia que, se Cristo devia ser a cabeça de toda a humanidade, Ele devia então ser mais do que a cabeça dos membros de uma igreja cristã. Assim, Tomás formulou claramente que Cristo era de fato a cabeça de todos os ho­ mens, da criação do mundo ao fim dos tempos. Podemos di­ zer que ele era um verdadeiro humanista, ciente de que Cristo viera para todos, e não somente para os cristãos ou talvez para os teólogos. Seu insight levanta problemas em que nenhum pensador cristão, até onde sei, jamais ousou tocar: como é possível, concretamente, que o Cristo seja a cabeça, digamos, dos babilônios ou dos gregos do tempo das cidades-Estado, e como a presença pneumática de Seu logos se expressa nas experiências e simbolizações dos babilônios e egípcios? Eis um vasto campo aberto ao filósofo da história que se interesse seriamente pelas fontes.

É claro que, de forma semiconsciente, o problema está pre­ sente nos estudos de áreas como a história antiga, a história dos símbolos, a história do mito e a religião comparada, pois a motivação do nosso interesse por todas essas fontes é a preo­ cupação com a presença divina nesses símbolos antigos. Ain­ da assim, os historiadores que se debruçam sobre esse ma­ terial dificilmente ousarão confessar a verdadeira motivação de sua pesquisa, formulando-a de maneira clara como uma preocupação com o processo de diferenciação que culmina, na Era Ecumênica, nas diferenciações decisivas da consciên­ cia por meio da filosofia, de Cristo e dos apóstolos.

25.CONSCIÊNCIA, PRESENÇA DIVINA