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4.3 CONSIDERAÇÕES SOBRE O ART. 130 DO CPC

4.3.1 Alcance e Limites dos Poderes Instrutórios do Juiz

Segundo a doutrina tradicional, os principais limites estabelecidos aos poderes do juiz seriam a imparcialidade, os fatos constantes dos autos, o objeto litigioso, o princípio do ônus da prova, o contraditório e a ampla defesa, os princípios da demanda, legalidade e motivação101.

Com relação à imparcialidade, sabe-se que cabe ao juiz realizar o equilíbrio entre as partes, não podendo permanecer inerte diante da ausência de prova fundamental à elucidação dos fatos. Ainda, o juiz não sabe a quem a prova aproveitará. Sendo assim, não há que se falar em limite aos poderes instrutórios do juiz em virtude do princípio da imparcialidade.

Sobre os fatos e circunstâncias constantes dos autos102, há aplicação do art.

131 do CPC103 para valoração da prova e não sua produção pelo juiz. Nesse

100 CAPPELLETTI, Mauro. Oralidad y pruebas em el proceso civil. Buenos Aires, Ejea. 1972.

101 XAVIER, Trícia Navarro. In: O Ativismo..., p. 176.

102 Ibidem, p. 179.

sentido, é certo que o juiz não poderá se utilizar de elementos externos aos autos para decidir, mas limitar seu convencimento aos elementos constantes dos autos, sejam eles decorrentes de produção de provas pelas partes ou pelo juiz, bem como pelo critério de ônus da prova, o qual constitui regra de julgamento.

Acerca do objeto litigioso, serve para identificar o ponto controvertido existente entre as alegações das partes, sobre o qual o juiz deverá se pautar na fase instrutória da demanda. Não se fala, portanto, de limites aos poderes instrutórios do magistrado, pois se trata meramente de técnica processual capaz de adequar-se à prova que carece aos autos, vez que não são aceitos atos protelatórios104.

O princípio do ônus da prova também não é um limite ao ativismo probatório do juiz105. A distribuição do ônus da prova significa que cada parte possui a incumbência de provar as suas alegações. O não cumprimento do ônus pode acarretar prejuízo no momento do julgamento.

No entanto, a partir do momento em que se exige um comportamento atuante do magistrado, sua iniciativa deve ser a mais eficiente possível para esclarecer pontos obscuros do processo. Pode-se falar, então, que o princípio do ônus da prova regula a iniciativa primária das partes na produção da prova, mas não impõe qualquer limite à instrução efetuada pelo juiz.

O contraditório e a ampla defesa proporcionam um equilíbrio argumentativo e uma decisão judicial legítima106. O magistrado tem o dever de controlar o contraditório e a ampla defesa, vez que, caso contrário, haverá uma fragilidade processual para se proferir uma sentença justa. Todavia, ainda que os referidos princípios constitucionais sejam exigidos, não se tratam de limites à atividade do juiz, mas requisitos para o desenvolvimento regular do processo.

O princípio da demanda estabelece que a jurisdição somente atua quando provocada107. Em que pese ser de iniciativa da parte provocar a jurisdição e determinar o objeto litigioso, o processo se desenvolve por impulso do juiz, que não depende de manifestação da parte interessada.

103 Art. 131. O juiz apreciará livremente a prova, atendendo aos fatos e circunstâncias constantes dos autos, ainda que não alegados pelas partes; mas deverá indicar, na sentença, os motivos que Ihe formaram o convencimento.

104 XAVIER, Trícia Navarro. In: O Ativismo..., p. 180.

105 Ibidem, p. 181.

106 Ibidem, p. 182.

107 Idem.

Sendo assim, pode-se dizer que os poderes instrutórios devem obedecer alguns requisitos, quais sejam: o pedido das partes, decisão motivada que aponte os motivos que conduziram a tomar a iniciativa de determinar a prova, oportunidade de contraditório e ampla defesa às partes, vedada a produção de provas por meios ilícitos.

Os atos do juiz devem obedecer ao princípio da legalidade, podendo o magistrado preencher as lacunas probatórias para formar seu convencimento, conforme previsto no Código de Processo Civil. Por fim, quanto à motivação, todos os atos decisórios do juiz devem ser devidamente motivados, para que sejam regulares e válidos.

Ao juiz é dado pelo sistema adentrar na atividade probatória, tendo em vista a necessidade da prova para a formação da sua convicção. Nessa linha, há uma divergência na doutrina quanto à extensão da atuação do juiz no âmbito probatório.

Segundo a doutrina tradicional, o juiz deverá fazê-lo de maneira subsidiária108. Ou seja: o juiz deverá atuar apenas se os atos probatórios praticados pelas partes não se mostrarem suficientes.

Não obstante, esse posicionamento não parece prosperar, pois é incompatível com a ideologia contemporânea de processo social e democrático109. Sendo assim, defende-se no presente trabalho os poderes amplos do juiz no processo e, principalmente, em matéria de prova. Ensina Fredie DidierJr.110:

Hoje em dia, tal como previsto no art. 130 do CPC, predomina o entendimento de que ao juiz são reconhecidos amplos poderes instrutórios, qualquer que seja a natureza da relação jurídica debatida no processo. As vozes que, ainda hoje, opõem alguma resistência à ampla aplicação do art.

130 do CPC, fazem-no, no mais das vezes, por entender que haveria aí ofensa aos princípios do dispositivo, da isonomia ou do juiz natural (imparcialidade). Mas as apontadas ofensas não existem.

O juiz toma ciência dos fatos por meio das provas e estas, em regra, são produzidas pelas partes, porque o juiz não tem conhecimento direto dos fatos. São as partes que melhor podem descrever como os fatos ocorreram realmente. Sendo

108 ARRUDA ALVIM, José Manoel. Manual..., p. 392.

109 WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Anotações sobre o ônus da prova. Disponível em:

<http://www.abdpc.org.br/abdpc/artigos/Teresa%20Arruda%20Alvim%20Wambier%20-%20formatado.pdf>. Acesso em 14/10/2013.

110 DIDIER JR., Fredie. BRAGA, Paula Sarno. OLIVEIRA, Rafael. Curso de Direito Processual Civil:

Teoria da Prova..., p. 23.

assim, pode-se dizer que o juiz depende das partes para formação do convencimento.

Nesse sentido, José Carlos Barbosa Moreira111 explica que a circunstância dos litigantes, em princípio, tem um interesse pessoal e direto no resultado do pleito, e por isso se sentem psicologicamente estimulados a fazer todo o possível para convencer o juiz da verdade de suas alegações. Apenas neste sentido pode-se afirmar que a iniciativa probatória do juiz é secundária.

A interpretação do art. 130 do CPC deve ser amplíssima, permitindo ao magistrado requerer qualquer tipo de prova e a qualquer momento do processo.

Outra interpretação diversa, no sentido de restringir o papel do juiz, ocorrerá em detrimento da função social do processo.

É de relevância dizer que o exercício dos poderes instrutórios não implica em condutas arbitrárias. Não se trata de um debate político acerca de ideologias, mas uma definição acerca da finalidade do processo.

Ainda, há de ser verificado o Princípio da Duração Razoável do Processo, para evitar que seja dado ao juiz o poder de exaustivamente determinar a produção de provas, refletindo um inquisidor que queira a qualquer custo obter a verdade. O juiz precisa ter bom senso e equacionar a tutela jurisdicional para não comprometer a efetividade do processo.

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