CAPÍTULO II POLÍTICAS EDUCACIONAIS GERENCIALISTAS NO
2.3 Alckmin (2011-2018) e o Programa Educação – Compromisso de São
governo de José Serra, seus efeitos foram refletidos no governo de Geraldo Alckmin, seu sucessor. Prova disso são os concursos para a efetivação de professores realizados em 2010 e 2013, o primeiro, no governo de José Serra, e o segundo, no de Geraldo Alckmin, norteados por propostas bastante semelhantes, conforme apresentado nos tópicos anteriores.
Como já exposto, Geraldo Alckmin foi novamente eleito como governador do Estado de São Paulo, permanecendo no cargo por duas gestões seguidas (2011-2014 e 2015-2018). À frente da Secretaria da Educação, Herman Jacobus Cornelis Voorwald reorganizou a Secretaria da Educação por meio do Decreto no 57.141, de
reformulou o programa de Valorização pelo Mérito; implantou uma nova divisão do Ensino Fundamental em três ciclos (do 1c ao 3c ano, do 4c ao 6c ano e do 7c ao 9c
ano); e lançou o programa Educação – Compromisso de São Paulo40 por meio do
Decreto no 57.571 de 2 de dezembro de 2011 (SÃO PAULO, 2011c). Em linhas gerais,
pode-se dizer que este programa é apresentado com uma proposta bastante pretenciosa, como aponta a citação a seguir, extraída do site da SEESP (SÃO PAULO, 2020b, online):
O programa Educação – Compromisso de São Paulo, iniciado em 2011, estabelece um pacto com a sociedade em prol da educação. Entre suas principais metas, o programa pretende fazer com que a rede estadual paulista figure entre os 25 melhores sistemas de educação do mundo nas medições internacionais, além de posicionar a carreira de professor entre as dez mais desejadas do Estado. (SÃO PAULO, 2020b, online).
Para tanto, sempre “com foco na qualidade da educação paulista”, o programa tem sua estrutura fundamentada em cinco pilares, conforme apresentado no site da SEESP (SÃO PAULO, 2020b, online):
1o. Valorização do capital humano: * Política salarial inédita.
* Contratação de novos professores. 2o. Gestão Pedagógica:
* Novos programas com foco na qualidade de ensino. * Criação de EVESP41 e outros.
3o. Educação integral:
* Novo modelo de Escola de Tempo Integral. * Professor atuando com dedicação exclusiva.
* Programas como o Vence e os Centros de Línguas. 4o. Gestão organizacional e financeira:
* Foco no fomento e desenvolvimento da educação. * Investimento em transporte, merenda e infraestrutura. 5o. Mobilização da sociedade:
* Engajamento da sociedade para a promoção de uma educação de qualidade.
* Escola da Família reúne a comunidade. (SÃO PAULO, 2020b, online).
40 Em 2020, mesmo com o fim do mandato de Alckmin, o programa Educação – Compromisso de São Paulo continua vigente, compondo, portanto, o contexto educacional do governo de João Dória, eleito governador do Estado de 2019 a 2022.
A fim de explicitar a continuação do viés gerencialista, vale citar o trecho inicial do Decreto no 57.571, que o instituiu o programa Educação – Compromisso de São
Paulo:
Considerando o êxito das políticas educacionais voltadas à educação pública estadual promovidas pelo Governo do Estado de São Paulo ao longo dos últimos anos, tais como a universalização do ensino fundamental de nove anos, a redução da defasagem idade-série dos alunos da educação básica, os resultados positivos alcançados pelas escolas da rede estadual no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica e no Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo;
Considerando a necessidade de serem implementadas políticas educacionais voltadas à continuidade dos processos de melhoria da educação pública paulista, nos seus vários níveis e modalidades, em especial no que se refere à diminuição do abandono e da evasão de alunos do ensino médio;
Considerando a importância da gestão educacional eficiente e eficaz, com ênfase na aprendizagem dos alunos da educação básica;
Considerando a importância de se dar continuidade às políticas de valorização dos profissionais da educação pública estadual; e
Considerando que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família e que deverá ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, decreta: [...]. (SÃO PAULO, 2011c, n.p, grifo nosso).
Outro aspecto do programa Educação – Compromisso de São Paulo a ser destacado recai sobre a afirmação, presente no site da SEESP, de que ele foi “construído em conjunto com educadores e funcionários da rede estadual paulista” (SÃO PAULO, 2020b, online). No entanto, Oliveira (2017, p. 141) rebate essa afirmação da seguinte maneira:
Ainda que conste a informação no site oficial da SEE/SP de que este programa é resultado da construção conjunta com educadores e funcionários da rede estadual, sua elaboração, na prática, resultou do trabalho da assessoria da consultora internacional McKinsey & Company, e do envolvimento de diversas outras organizações e instituições empresariais. A consultoria McKinsey no Brasil se autodefine como uma empresa que atende uma diversidade de clientes em diferentes setores, como serviços financeiros, telecomunicações, empresas de utilidade pública, indústria de manufatura, varejo e bens de consumo. Há, em destaque, o fato de seus consultores terem profundo conhecimento sobre as indústrias e vasta experiência funcional, possuindo seu diferencial na assessoria que leva as empresas a “monitorar a dinâmica competitiva, as
mudanças na regulação e os avanços em tecnologia para competir e crescer em seu campo de atuação”. (OLIVEIRA, 2017, p. 141).
Pode-se dizer que esta relação direta entre educação pública e empresas de consultoria, com o apoio daqueles de Freitas (2012) chama de “reformadores corporativos”, é uma entre as diversas formas de, pouco a pouco, excluir a educação pública do contexto público, rumo à privatização.
“Corporate reformers” – assim são chamados os reformadores empresariais da educação nos Estados Unidos, em termo criado pela pesquisadora americana Diane Ravitch (2011). Ele reflete uma coalizão entre políticos, mídia, empresários, empresas educacionais, institutos e fundações privadas e pesquisadores alinhados com a ideia de que o modo de organizar a iniciativa privada é uma proposta mais adequada para “consertar” a educação. (FREITAS, 2012, p. 379, grifo no original).
A privatização, por sua vez, é fundamentada pelo discurso gerencialista, que, como já discutido, abarca a conquista da qualidade, sempre considerando as metas, as avaliações, a meritocracia, a responsabilização, entre tantos outros aspectos que, aqui, a partir dos dados obtidos por meio da análise documental e das entrevistas com oito dos muitos que se exoneraram do cargo docente na rede estadual paulista, são compreendidos como propulsores do processo de precarização objetiva e subjetiva, do sofrimento e do adoecimento do professor, como será discutido no capítulo seguinte.
Em linhas gerais, os dois mandatos consecutivos de Geraldo Alckmin, bem como nos de seus antecessores, alteram-se os nomes dos programas, alteram-se a estrutura e os objetivos destes, alteram-se as metas, utilizam-se sinônimos, mas o que se tem são os mesmos encaminhamentos que levam aos mesmos resultados.
CAPÍTULO III: O PROCESSO DE DESISTÊNCIA DO CARGO DE PROFESSOR DA