CAPÍTULO 1: ALCOOLISMO E ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
1.1. Definições e percepções do alcoolismo
1.1.3. Alcoolismo como objeto social e psicossocial
identificada e tratada, com etiologia e manifestações biológicas e psicológicas próprias, destacadas das demais doenças. Em seguida, a prática de consumo
crônico foi incluída na designação mais abrangente de “problemas com o álcool” e descrita como síndrome de dependência, entidade polimorfa. Segundo esse novo paradigma, o conceito de alcoolismo como doença deve ser questionado e a própria palavra “alcoolismo” vem a parecer anacrônica.
Diferente é o ponto de vista sociológico. Nem como doença, nem mesmo como problema de saúde, a perspectiva sociológica sobre o consumo crônico de álcool evidencia que ele é representado como desvio. Isso indica certa relatividade, uma vez que ele não é unanimemente representado como anormalidade em todas as sociedades, tempos históricos ou mesmo contextos intraculturais específicos.
Segundo perspectiva sociológica sócio-construcionista, é possível traçar a origem do conceito de alcoolismo como doença. A noção de doença é resultante da medicalização de certa característica ou prática qualificada como anormalidade ou desvio (deviance). Medicalização é o processo cultural que engendra a definição de eventos ou problemas humanos em termos médicos, principalmente como doença ou transtorno, e que prescreve tratamentos médicos para abordá-los. O objetivo geral da medicalização é instituir formas de controle social dos desvios e dos fenômenos humanos em geral (Conrad & Schneider, 1992; Conrad, 2007).
O desvio é um construto social, ou seja, ele não existe como entidade objetiva na natureza ou na sociedade. Para além do fato em si (no caso, o consumo de álcool ou especialmente o consumo crônico), é preciso compreender a percepção social do fato, sua nomeação, a atribuição de causas e consequências. O desvio é construído coletivamente, pela ação de diversos
atores sociais e por aquela do próprio desviante. Ele é essencialmente afronta aos padrões morais e aos valores da sociedade que o (re)produz (Conrad & Schneider, 1992).
A construção social do desvio é universal. Não se conhece sociedade em que ela não esteja presente. Entretanto, o conteúdo do que é percebido como desvio é claramente relativo em termos culturais. Dentre as características comuns, encontram-se a presença de assimetria de poder entre grupos sociais e a hetero-aplicação do rótulo de desviante. Instituem-se regras, procedimentos de identificação das transgressões e práticas punitivas. Grupos com maior influência e poder4 aplicam rótulos de desvio a grupos marginalizados, por meio de ações políticas e institucionais. Disso resulta que os desviantes são tipicamente reconhecidos nas classes “subalternas” e que eles são percebidos ali como mais numerosos (Conrad & Schneider, 1992).
Podem-se distinguir três principais paradigmas para definição dos desvios: “pecado, crime e doença”, com respectivas ligações históricas à Igreja, à pátria e à medicina. Nas sociedades industrializadas, aparatos formais de controle social dos desvios incluem a lei e a polícia, mas também a educação e a medicina. A medicina nem sempre gozou do prestígio que tem hoje. Mas, a partir de sua institucionalização no século XIX, ganhou poderes crescentes para circunscrever problemas e para definir intervenções governamentais de larga escala. Esse
4 O conceito de poder não é consensual nas ciências sociais. Foucault (1999b) o define como exercício distribuído, capilarizado na sociedade, que age na construção de formas de existência. Na citação, esse conceito se refere ao acesso diferenciado, legitimado socialmente, a recursos materiais e simbólicos. No primeiro caso, não faz sentido falar em grupos “com mais poder”, enquanto no segundo sim. Sem negar o potencial explicativo da noção de poder como exercício, a noção de poder será referida nesta tese na segunda acepção. Ela traduz aspecto concreto do contexto estudado: profissionais têm maior acesso a recursos materiais (aparelhos, medicações, etc.) e simbólicos (diagnósticos, terminologias, etc.) que usuários. Os primeiros controlam o fluxo de recursos direcionados aos segundos e isso é legitimado social e contextualmente.
processo se deu no bojo de transformações culturais importantes, como a ascensão da racionalidade científica e de “teorias deterministas” fisiológicas e ambientais, além do sucesso da medicina no combate de infecções e outras causas de sofrimento (Conrad & Schneider, 1992).
Atualmente, observa-se predominância da racionalidade científica e do paradigma médico para identificação e nomeação dos desvios. A anormalidade é rotulada como doença e sua etiologia é explicada cientificamente. Como efeito da medicalização, passa-se frequentemente da punição à terapêutica e a medicina é convocada para prover as soluções. A rotulação produz significados que mudam a percepção social sobre o doente e aquela do doente sobre si mesmo. Reconhecer um doente implica reconhecer a necessidade de cuidado humanitário, mas o valor atribuído à doença é invariavelmente negativo. A doença se situa em um continuum com o pecado e com o crime, partilhando um fundo de imoralidade e transgressão. Sua identificação pode atenuar a percepção negativa sobre o desviante, o que explicaria por que a medicalização do alcoolismo parece aumentar com seu reconhecimento nas classes médias e ricas (quando deixa de ser “problema só de pobre”). Entretanto, a aplicação do rótulo de doente não implica abandono da avaliação moral (Conrad & Schneider, 1992).
Conrad (2007) nota que a medicalização obteve notável crescimento nas últimas décadas do século XX e início do século XXI, incorporando não só desvios (tradicionalmente vistos como pecado ou crime), mas também eventos ou experiências humanas corriqueiras. São exemplos os processos de medicalização dos estados de humor, da menstruação, da menopausa, da tensão pré-menstrual e, mais recentemente, da andropausa e da disfunção erétil (nota-se a tradicional
supermedicalização da mulher e a tendência atual de medicalização dos homens). Emoções como preocupação e timidez também foram medicalizadas, em estreita relação com a ampliação do mercado biomédico e com os interesses da indústria farmacêutica. A medicalização atual registra crescente participação dessa indústria e da pesquisa genética.
Desde a década de 1960, estudos adotaram olhar crítico quanto à medicalização. Autores alertaram quanto aos perigos de considerar aspectos cotidianos da vida humana como doenças. A medicalização pode levar à crescente intolerância quanto à pluralidade, quanto à diferença. Foram feitas denúncias da exploração comercial de condições medicalizadas, em especial pela indústria estética e farmacêutica. Notou-se que um dos efeitos da medicalização pode ser a individualização do problema, sua localização em características físicas ou psicológicas de indivíduos. Isso reduz a possibilidade de entender determinantes sociais dos fenômenos e de construir soluções coletivas capazes de transformar a realidade social (Conrad, 2007). No caso do alcoolismo, por exemplo, isso pode se manifestar na tensão entre as ideias de “tratar o indivíduo alcoolista” e “trabalhar pela reconstrução ampla das experiências culturais ligadas ao álcool”.
Há, no entanto, a possibilidade de considerar que a medicalização é uma faca de dois gumes e de que ela não circunscreve apenas aspectos negativos. Autores argumentaram que efeitos benéficos podem ser obtidos se ela for realizada no quadro de abordagem holística da saúde, com diretrizes e profissionais que vão além do enfoque biomédico tradicional, com estabelecimento de relações colaborativas entre profissionais e usuários (Conrad,
2007). Sob essa perspectiva, a “medicalização” (entre aspas porque surge aqui a questão de se não há termo melhor) pode contribuir para identificar determinantes de sofrimento antes insuspeitos, ou seja, naturalizados como parte da vida e não como problema, e melhorar níveis globais de qualidade de vida de uma população.
Adotando o ponto de vista sócio-construcionista, cabe reconhecer que o alcoolismo é sim uma doença, justamente porque houve notável sucesso na difusão e no enraizamento cultural dessa definição, cuja solidez pode ser atestada em organizações sociais e no senso comum. Entretanto, o alcance da noção de alcoolismo-doença tem seus limites. Médicos e população geral hesitam em ver no alcoolismo uma “doença como as outras”. As práticas de cuidados em saúde dirigidas a essa doença continuam claramente incipientes. O alcoolismo não é visto como tão incapacitante quanto a loucura, por exemplo, o que tem reflexos jurídicos: diferentemente do louco o alcoolista deve ser responsabilizado por eventuais desobediências à lei. Há graus de medicalização e, no caso do alcoolismo, esse grau não é completo. Julgamentos moralizantes e fatalistas subsistem: herança biológica, pecado, falta de força de vontade, escolha do mau caminho (Conrad & Schneider, 1992; Conrad, 2007).
Pesquisadores ressaltaram a hegemonia do ponto de vista biomédico na apreensão científica do alcoolismo (Ancel & Gaussot, 1998; Houtaud & Taleghani, 1995; Nahoum-Grappe, 2010; Neves, 2004) e argumentaram que as ciências humanas e sociais também podem oferecer contribuições singulares e relevantes para a abordagem do fenômeno. Para isso, estudos dirigiram olhar antropológico
que não se restringiu à dependência de álcool e que tentou apreender significados construídos sobre o campo mais amplo da alcoolização.
“Mary Douglas lembra que, em numerosas sociedades, o alcoolismo, tal como nós podemos defini-lo de forma médica e social – definição que surge no século XIX – parece praticamente ausente como estado passível de repreensão; em alguns casos, a embriaguez pode ser até mesmo habitual e exaltada” (Ancel & Gaussot, 1998, p. 19).
Ao invés de substância natural, o álcool pode ser analisado como objeto ativamente produzido por sujeitos, grupos ou comunidades humanas que o recobrem de diferentes significados, processo que é marcado por relatividade cultural (Neves, 2004). Alvarez (2004) destaca alguns significados comumente atribuídos ao álcool e a seu consumo:
“‘doping’ para o trabalho duro; fonte calórica para desnutridos e alívio para a sensação de fome; indicador cultural de virilidade e maturidade; substituto simbólico das necessidades sociais existentes e não satisfeitas; objeto sinalizador e substituto dos vínculos afetivos (encher a solidão, as perdas); oferece a sensação de prazer com menor custo de ansiedade e esforço de conquista; resolve aparentemente as contradições entre ética e conduta, facilitando a fuga e a alienação” (p. 153).
Trabalhadores podem buscar o consumo pesado de álcool, sem que esse consumo esteja ligado à dependência ou a ocasiões genuinamente festivas. A origem dessas alcoolizações pode estar relacionada à “suspensão da palavra” do trabalhador (“a dicção é substituída por uma adicção”). Essa suspensão é característica de estratégias gerenciais hegemônicas de exploração e intimidação. O álcool é frequentemente eleito como droga psicoativa preferencial por ser barato, legalizado e de fácil acesso. Em sociedades capitalistas-industriais, pode funcionar como estratégia coletiva de defesa de massas de trabalhadores, para administrar tensões e encontrar um equilíbrio mental, ainda que arriscado e patológico (Karam, 2003).
Sob ângulo psicossocial, é possível estudar como sujeitos ou grupos se apropriam de construtos sócio-culturais para estabelecer relações interpessoais, crenças, percepções, estereótipos de gênero, atitudes e estigmatização em relação ao alcoolismo e aos alcoolistas. Esses fenômenos se articulam na formação de processos psicossociais complexos e dinâmicos, representações, identidades e práticas sociais. Pesquisas adotaram esse enfoque e analisaram elementos sócio-cognitivos, afetivos e comportamentais relacionados a esses processos (Alvarez, 2001; Ancel & Gaussot, 1998; Garcia, 2004; Gaussot, 2005; Maia et al., 2000; Matos, 2000; Nahoum-Grappe, 1998).
Um estudo com redações de jovens vestibulandos brasileiros analisou suas concepções sobre causas, consequências e tratamento do alcoolismo. As causas mais citadas pelos jovens foram fatores externos ao alcoolista, problemas de caráter pessoal e pressões sociais. O alcoolista foi descrito como alguém que
busca fugir de seus problemas. A precariedade sócio-econômica também foi citada como causa (Maia et al., 2000).
As redações dos jovens pareceram refletir a ambiguidade dos meios de comunicação e da sociedade em geral quanto ao álcool (forte incentivo do consumo simultâneo à forte condenação do excesso). As sugestões de tratamento se concentraram ora na ação pública, como a formulação de campanhas educativas e leis proibitivas, ora na ação individual, como a participação em grupos de mútua ajuda para aumentar a autoestima (Maia et al., 2000). A referência aos grupos de mútua ajuda, feita por jovens, indica a importância de organizações como os Alcoólicos Anônimos no imaginário coletivo sobre o alcoolismo. A referência à precariedade sócio-econômica remete à associação histórica entre alcoolismo e pobreza.
Outro estudo com população geral não-alcoolista contou com participantes brasileiros e cubanos. Verificou que, dentre os participantes, as representações sociais do alcoolismo tinham núcleo figurativo comum, centrado nas ideias de vício, doença e problemas/ conflitos. O alcoolismo foi muitas vezes descrito como doença incurável e fatal, que invariavelmente demanda tratamento, o que denota apropriação medicalizada do fenômeno. Os participantes brasileiros sugeriram sobretudo internação em clínicas e frequência a grupos de Alcoólicos Anônimos. Quase todos os entrevistados afirmaram que a reação da sociedade frente ao alcoolismo é de exclusão, desprezo, discriminação e indiferença (Alvarez, 2001).
Pesquisa feita com não-alcoolistas franceses evidenciou a importância das representações sociais do alcoolismo na definição das regras do “beber bem”, ou seja, das práticas aceitas e recomendadas de alcoolização. O “beber bem” era
representado como maneira de afirmar o pertencimento social e de vivenciar formas permitidas de relaxamento e diversão. Na distinção entre o “beber bem” e o alcoolismo, operavam normas sociais a respeito, por exemplo, do contexto em que se bebe, da bebida que se bebe, da companhia com quem se bebe (sozinho, acompanhado por quem) e da hora do dia em que se bebe. O lugar, o momento e o significado das interações podem proibir, admitir ou até mesmo incentivar e impor o consumo de álcool, de maneira que o abstêmio pode se tornar, ele também, um desviante incômodo (Ancel & Gaussot, 1998).
Nas falas dos participantes investigados pelos autores, as explicações científicas do alcoolismo (genéticas, psicológicas, sociais) pareceram mais ambíguas e menos pregnantes que a imagem concreta da queda do alcoolista, de sua (auto)segregação e degeneração moral e social. O discurso dos não- alcoolistas reconhecia o perigo das causas e deixava transparecer o medo de que qualquer um pode ser levado ao alcoolismo, mas buscava diferenciar claramente as consequências da alcoolização, buscava separar com nitidez o “bom bebedor” do “bêbado” (Ancel & Gaussot, 1998).
O alcoolista foi representado tipicamente como o consumidor de álcool que quebra as regras do “beber bem”. Aos códigos estritos que caracterizam suas normas, o alcoolista oporia a indiferença. A percepção social do alcoolista não recorria necessariamente à quantidade de álcool ingerida, nem a critérios abstratos descritos em manuais médicos. O alcoolista era identificado quando seu consumo de álcool era associado à degradação de papéis sociais valorizados. Duas características se destacavam para rotular alguém como alcoolista: a percepção de seu descontrole (da vontade, da fala, do comportamento) e de seu
isolamento social (solidão e quebra de protocolos). O alcoolista era visto como aquele que nega os danos que a alcoolização produz a si e aos outros. A medicalização (procura por tratamento médico e, especialmente, pela internação e pela “desintoxicação”) consagrava sua rotulação como alcoolista (Ancel & Gaussot, 1998).
Os autores distinguiram três sistemas de imagens e crenças que compunham as representações sociais do alcoolismo. No sistema que chamaram de dominante, o mais difundido socialmente e o que dirigia mais fortemente as práticas, o “bêbado” era considerado como “outro monstruoso” (degenerado moral e social diferente de mim). Em um sistema secundário (“menor”), articulavam-se ideias sobre a patologia alcoólica: o alcoolista era rotulado como doente e era considerado como “igual em dificuldade” (alguém como eu, mas que teve a infelicidade de desenvolver o alcoolismo). Finalmente, um terceiro sistema (“marginal”) representava o alcoolista como “artista” ou como “pessoa excepcionalmente criativa” e o caracterizaria como “outro brilhante” (alguém cujo alcoolismo pode ser justificado pelas dádivas criativas que produz) (Ancel & Gaussot, 1998).
Os autores propuseram que as representações sociais do alcoolismo têm função de manter e reforçar a normatividade social sobre o “beber bem” e os valores implicados nela, como autorrealização e controle de si. Têm igualmente as funções de resguardar a diferenciação identitária entre “bebedores normais” e alcoolistas e, nos primeiros, controlar o medo relacionado ao consumo de álcool (Ancel & Gaussot, 1998).
Representações do alcoolismo também desempenham papéis na criação e na manutenção de representações de gênero. Crenças arraigadas associam o consumo de álcool à virilidade. Para o homem, beber, mesmo em excesso, pode servir para reforçar características tidas como masculinas, enquanto, para a mulher, o efeito seria inverso: a desnaturação do feminino. O alcoolismo é tido essencialmente como fenômeno masculino associado à sujeira, à vulgaridade e à obscenidade. O alcoolismo feminino pode ser visto como chocante e antinatural, uma vez que seria contrário a ideais compartilhados de feminilidade como beleza, delicadeza, fragilidade, castidade, capacidade reprodutiva, proteção do marido, dos filhos e do lar. A mulher, cujo “espaço natural” seria a casa, pode ser vista como prostituta se frequentar sozinha o bar (Ancel & Gaussot, 1998; Gaussot, 2005; Nahoum-Grappe, 1998).
Em representações tradicionais, o alcoolismo do homem seria fruto de integração social “forte demais” (é natural que ele beba); sua alcoolização é essencialmente pública, “até que se torne um problema”; a consequência do alcoolismo é a destruição da “verdadeira” virilidade e a propensão a cometer violências, estupros (posição ativa comumente atribuída aos homens); o alcoolismo do homem é retratado como degradação de suas funções públicas e é associado à vergonha (Gaussot, 2005).
Nessas representações, os termos para a mulher alcoolista seriam opostos. O alcoolismo feminino seria originado de uma fraca integração social; o consumo de álcool é essencialmente privado (em casa) e é chocante quando revelado; a mulher alcoolista seria vítima da propensão a se oferecer, a sofrer estupro (posição passiva, comumente atribuída às mulheres); seu alcoolismo é
retratado como degradação das funções privadas e é associado à culpa (Gaussot, 2005).
No caso do homem, o alcoolismo é representado como causa de problemas psicológicos e psiquiátricos. Na mulher, ao contrário, ele é representado como consequência de problemas dessa natureza. Essas concepções arraigadas e reforçadoras de papéis de gênero se encontram presentes no senso comum e também no discurso médico (Gaussot, 2005).
No Brasil do final do século XIX e início do século XX, campanhas antialcoólicas se destinavam essencialmente aos homens de classe popular. Discursos médico-higienistas reforçaram estereótipos e papéis de gênero, defendendo a representação do homem-trabalhador-provedor, condenando o alcoolismo como antítese desses valores. Nesses discursos, a mulher, como esposa, deveria garantir a seu marido um “lar aconchegante” de maneira a prevenir o alcoolismo. Filhos poderiam ser “contaminados” pelo pai “alcoólatra”, que os levaria à vagabundagem e ao crime ou lhes transmitiria o alcoolismo de forma hereditária (Matos, 2000).
Pesquisa com membros dos Alcoólicos Anônimos revelou que mulheres integrantes da associação eram frequentemente chamadas de “mulheres que bebem”, ao invés de alcoolistas ou alcoólicos(as) (rótulos mais usualmente empregados no grupo). Estaria implícito que só o homem pode ser “propriamente” alcoolista. Uma das participantes reclamou de “machismo” e de “cantadas” que acontecem dentro do grupo e afirmou que mulheres abandonam os AA por esses motivos (Garcia, 2004).
Outros estudos também abordaram crenças e representações sobre o alcoolismo construídas por membros dos Alcoólicos Anônimos (Alvarez, 2004; Campos, 2004, 2005).
Foram pesquisadas representações sociais construídas por alcoolistas divididos em dois grupos, com tratamento (em clínica ou em grupo de AA) e sem tratamento. Enquanto os primeiros centravam suas representações na categoria doença, os segundos destacavam as noções de vício ou hábito. Se para os primeiros era fundamental afirmar-se como doentes em recuperação, para os segundos importava caracterizar sua conduta como habitual e, de certa forma, normal. Em ambas as situações, os indivíduos buscaram explicações que mantivessem bom autoconceito e que justificassem sua atitude e seu comportamento frente à bebida (Alvarez, 2004).
Dentre participantes dos AA, verificou-se que o alcoolismo era representado como mal físico, (genético, inato); como mal moral (perda de controle frente ao álcool, que domina a vontade do indivíduo e que o impede de ser responsável) e como “doença espiritual”. “Sintomas morais”, como egoísmo e onipotência, eram evocados ao lado de sintomas orgânicos. Os AA opunham ao “bêbado desleixado” a imagem de “doente em recuperação”, homem responsável que deixa de ser orgulhoso para se tornar humilde, que deixa de ser egoísta para ser altruísta, contribuindo para a recuperação de outras pessoas, homem renovado que cuida de sua aparência e que cumpre com responsabilidade os papéis de pai, marido e trabalhador (Campos, 2004).
A “doença moral” impediria o homem de assumir suas funções de provedor e chefe de família e impediria a mulher de assumir seus papéis de mãe dedicada
e dona-de-casa eficiente. Membros do AA e seus familiares também se referiam ao alcoolismo como “doença da família”, que pode levar os familiares, por exemplo, à depressão. Pode-se dizer que o alcoolismo era também representado como doença “contagiosa”, não do ponto de vista biológico, mas sim social e interpessoal (Campos, 2005).
A trajetória de membros dos Alcoólicos Anônimos foi estudada por Garcia (2004) como experiência de conversão semelhante à conversão religiosa. Esse processo implica adesão a sistema novo de representações e práticas, implica reinterpretação do passado segundo esse novo sistema e reelaboração identitária. Sujeitos e grupos envolvidos transformam o “alcoólatra” ou “alcoólico ativo” em “alcoolista em recuperação” ou “alcoólico passivo”. Para o participante do AA, a conversão implica reconstrução do sentido da vida, formação de novos laços de solidariedade, experimentação de certo poder, dignidade, e senso de coerência. Por meio do grupo, o alcoolista sai do espaço de exclusão e