Alegria foi entrevistada graças ao Grupo de Enlutados criado pela pesquisadora deste trabalho, onde ela procurou ajuda, pois estava numa fase delicada em relação à perda de sua filha.
A própria pesquisadora propôs à entrevistada participar da pesquisa, o que foi aceito imediatamente. Alegria recebeu a pesquisadora na sua própria casa, com muita receptividade, gentileza, simpatia e boa vontade. A entrevista foi longa e rica de detalhes.
Alegria perdeu a filha Benção há 16 anos com a Síndrome de Wilson. Ela tinha 15 anos quando faleceu. Lutou por quatro anos contra a doença. Dois anos antes da perda da filha, Alegria também perdeu o marido, de câncer no intestino.
Alegria se coloca sempre como uma pessoa otimista, feliz, alegre. Ela sempre fala dessa alegria, é como se fosse sua marca registrada. Ela é muito grata por tudo, inclusive pelos 15 anos que viveu com a filha, pois, segundo ela, foram poucos anos, mas muito intensos.
Começa a entrevista focando na infância feliz que viveu, na união dos pais, na vida harmoniosa entre a família. A mãe não admitia que os filhos ficassem brigados, os
obrigando a darem abraços depois das discussões. Com isso, a raiva passava e eles começavam a rir. Foi esse tipo de criação que tentou passar para os filhos.
Comenta sobre a oração do perdão, que sempre faz pelas pessoas que a magoam. Pedia ao marido para fazer para ela também e quando os filhos brigavam, pedia que cada um fizesse para o outro irmão.
Ela busca sempre ser feliz e positiva para passar isso para as pessoas. Acredita que se ficar lamentando, reclamando da vida, ninguém se aproxima. Alegria é costureira e o fato de trabalhar com a confecção de roupas para festas a deixa preocupada em passar beleza e positividade para as suas clientes.
Muito importante a passagem narrada onde a sua mãe a deu a mão, após o enterro da filha, lhe tirando de perto do túmulo. Ela acredita que aquele gesto da mãe a tirou de uma possível depressão profunda.
Sempre pensa no futuro e não quer ser uma cruz na vida do filho. Quer ter uma velhice saudável, investindo agora pra ficar tranquila caso precise vender algo pra manter os gastos da velhice. Por isso, reformou e aumentou a casa, mesmo sob críticas de conhecidos e parentes.
O processo de adoecimento de Benção durou 4 anos até a sua morte. Nesse meio tempo, o marido de Alegria também adoeceu, sendo diagnosticado com câncer de intestino e morreu rapidamente. Alegria disse que foi tudo muito triste, terrível, mas que sempre ficou serena diante dos momentos difíceis.
Nos momentos das perdas do marido e da filha, Alegria acredita que Deus pôs um vidro para protegê-la da dor e do desespero, o que fez com que ela, por mais que soubesse da gravidade dos quadros, não acreditasse que eles iam morrer. Ela diz que o vidro quebrou exatamente na hora da morte, onde ela viu a realidade da perda, que eles não voltariam mais. Essa quebra do vidro aconteceu nas duas mortes, onde ela presenciou o momento exato da partida.
Ela diz que chorou muito com a morte do marido e com a doença da filha. Chorou tanto que as lágrimas secaram. Hoje não chora mais. Mas ela acha isso ruim, porque enquanto se está chorando, as lágrimas vão limpando a alma.
Quando completou 16 anos que Benção morreu, Alegria deu uma recaída muito grande, porque analisou que passou 15 anos com a filha e 16 sem a sua presença. O tempo da morte superou o da vida e foi aí que ela disse que a ficha caiu. Por esse motivo, procurou o grupo de enlutados para tentar elaborar isso. Segundo ela, conseguiu
obter a paz procurada no Grupo, conseguindo atingir a tranquilidade após muitas participações.
Ao final da entrevista, Alegria insistiu para que a pesquisadora conhecesse seu filho mais velho, o que foi aceito. O filho veio até à casa da mãe e se conheceram. Foi também muito simpático e se mostrou muito carinhoso com a sua mãe.
Casal 2: Tristeza
Na época da entrevista com o casal, fazia seis meses que o filho Herói havia morrido de acidente de carro. Era cadete da AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras, escola de formação dos oficiais combatentes do Exército Brasileiro) e faltava um mês para a sua formatura e três meses para o seu casamento. A festa já estava paga, apartamento comprado, tudo pronto para estes dois momentos especiais na vida do filho.
Herói faleceu na hora do acidente, durante o início da madrugada de um sábado, quando saiu da casa da noiva e estava indo para a casa dos pais. Estava sozinho. Os pais receberam a notícia do acidente pouco tempo depois, porém foram para o Pronto Socorro sem sequer imaginar que o filho havia morrido.
Relataram que o filho era muito amigo e próximo. Que era um rapaz muito especial, atuante na Igreja Maranata e que era muito correto em tudo o que fazia. A mãe tinha uma ligação muito forte com o filho, sendo extremamente preocupada com ele. Por isso, não gostava que o filho fosse para a cidade de Resende dirigindo, pois tinha muita preocupação de que pudesse acontecer um acidente sério com ele.
Depois da perda, o casal relata que a vida não tem mais sentido. Que nada mais tem graça e que estão vivendo por viver. Quando amanhece, eles imaginam que tem mais um dia para viver. Quando o dia acaba, eles agradecem por terem menos um dia de vida.
A mãe diz que revelou mais de 500 fotos do filho e mantém seus pertences impecáveis, do jeito que foram deixados por ele. Veste as roupas do filho para sentir seu cheiro e seu “toque”. Tem ciúmes destes objetos e é raro deixar que alguém toque neles. Porém, o restante da casa, a mãe diz não sentir vontade de organizar. Só faz mesmo as obrigações do dia a dia.
O casal estava arrasado durante a entrevista, os pais choraram muito. A filha Restante também participou, porém não chorou em momento algum. Ela estava com 24
anos. O pai é capitão do Exército da reserva e a mãe é dona de casa. A entrevista foi bastante longa e rica de detalhes.
Foram indicados por uma amiga da pesquisadora, que também é psicóloga e que os atendeu durante um tempo após a perda. Esta amiga os contatou e eles aceitaram participar da pesquisa. Assim que a pesquisadora entrou em contato, eles já marcaram o encontro para o dia seguinte.
Estavam ansiosos para falar do filho e do acidente que o vitimou. Receberam muito bem, foram atenciosos e entusiastas, porém estavam muito tristes. Têm a necessidade de contar todos os detalhes do acidente, de como o filho ficou, de como foi o velório, com o máximo de dados possíveis.
A irmã Restante participou de toda a entrevista, conversando e respondendo as perguntas também.
Mãe 3: Gratidão
Gratidão perdeu um bebê recém-nascido de 2 dias. Fazem 32 anos. Aparentou estar bem e não chorou durante entrevista, apesar de se emocionar algumas vezes com as lembranças. Porém, diz que a cada ano, no dia da sua morte, tem uma reação diferente. Há anos que se sente melhor, há outros em que fica muito triste, chora bastante.
Após a perda de seu bebê, continuou sua vida, teve uma nova gravidez após três meses da perda. Tem dois filhos já adultos e dois netos. É psicóloga, professora de história e, no momento, está fazendo doutorado.
Relata que sofreu demais com a perda do bebê. Casou-se grávida, mudou de cidade, mudou toda a vida e seu bebê não sobreviveu. Teve uma gravidez normal, tranquila, o bebê nasceu bem, mas teve uma icterícia muito forte, da qual ele não resistiu.
Tem fotos de seu filho vivo. Disse que gostaria de mostrá-las durante a entrevista, mas desistiu por medo de se sentir pior depois. Comenta que seu filho era uma criança linda e aparentemente saudável. Passou por três médicos em seus dois dias de vida, mas quando foi diagnosticado já estava muito fraco.
Gratidão passou muito tempo na cama, chorando muito e que essa dor a acompanhou durante muito tempo. Hoje ela ainda sente muitas saudades quando pensa
em seu filho, porém se sente extremamente grata a tudo o que a vida lhe concedeu posteriormente. Estes ganhos a fizeram viver e continuar a sua caminhada.
O conhecimento deste caso se deu através de uma amiga do programa de pós- graduação da pesquisadora que, ao saber do tema da pesquisa, comentou que uma colega de ambas já tinha passado por esta experiência de perda. Esta amiga contatou a colega, que aceitou prontamente participar da pesquisa. A pesquisadora entrou em contato e marcaram a entrevista.
Esta se deu na casa da entrevistada, que esperava com muita boa vontade e gentileza a presença da pesquisadora. Foi uma entrevista longa, com muitos dados importantes e com muita alegria por parte da entrevistada de poder compartilhar a sua história. Acredita que sua história e esta pesquisa podem contribuir muito com outros pais que passaram também pela dor da perda.
Mãe 4: Saudade
Saudade perdeu o filho Companheiro há 14 anos, de aneurisma cerebral. Na época, ele tinha 12 anos. Tudo aconteceu muito rápido: a doença, a internação, a morte. Foi extremamente sofrido e até hoje ela sofre muito pela perda do filho.
É muito religiosa. Mesmo assim, diz que desenvolveu uma forte depressão e hoje toma 14 remédios diários, entre ansiolíticos e antidepressivos. Não há um dia que não pense no filho.
O filho que morreu era o primogênito. Ela tem mais um, que é tenente do Exército. Ela mora atualmente no estado do Amazonas. É dona de casa. Fica de tempos em tempos na casa do filho, em Juiz de Fora. Em uma destas visitas ao filho, o casal Tristeza entrou em contato com a pesquisadora dizendo que a grande amiga Saudade gostaria de também participar da pesquisa. A pesquisadora entrou em contato e Saudade atendeu prontamente o pedido.
A entrevista foi longa. Saudade é uma mulher muito simpática, que recebeu muito bem a pesquisadora. Falou longamente do filho e de sua experiência de perda. Cantou diversas vezes canções religiosas, pregou, recitou versículos da Bíblia.
Conta todos os acontecimentos que perfazem a morte do filho com muita riqueza de detalhes. Para ela, há o antes e o depois da morte do filho. O depois, no qual ela vive, ainda é muito cheio de sofrimento, o que lhe causou muitas doenças físicas, as quais ela trata no seu dia a dia.
Saudade sente-se muito solitária após a morte do filho, mesmo estando rodeada de muitas pessoas. Ela diz que seu filho era seu grande companheiro e que ninguém consegue preencher o vazio que sua morte deixou.
É comunicativa e se mostrou muito feliz ao poder falar da perda do filho.
Mãe 5: Sensatez
Sensatez perdeu a filha Invisível, recém-nascida, que nasceu prematura e o filho Anjo há 4 anos, com 6 anos, de encefalite. Engravidou logo depois de outro menino, Salvador, que está com 4 anos. Tem o filho Primogênito também, com 11 anos, que é irmão gêmeo de Invisível.
Primogênito e Salvador estavam em casa na hora da entrevista, o que dificultou um pouco o desenvolvimento, pois toda hora ela tinha que chamar atenção dos meninos, principalmente de Salvador.
Foi uma entrevista rápida, se comparada às outras. Durou mais ou menos uma hora e meia. Não chorou nem se emocionou em momento algum. Recebeu muito bem a pesquisadora.
É dona de uma locadora de filmes, mas seu sonho é ter um restaurante. É espírita e acredita que não há uma receita de como superar tão grande perda. Só mesmo vivendo um dia após o outro. O dia a dia vai fazendo a dor sumir, porém a saudade só aumenta, segundo ela.
Comentou que o marido é muito frio e seco em relação à morte do filho. Sofreu muito na época da perda, mas atualmente nem comenta mais sobre o assunto.
Relatou sobre a gravidez de Salvador, que ocorreu seis meses depois da morte de Anjo. Ela desejou ter mais um filho. Desde o momento que Salvador nasceu, ela acredita que ele é a reencarnação do irmão Anjo.
São muito parecidos fisicamente e no temperamento. Os gostos são muito semelhantes, o que a leva a acreditar que realmente Anjo voltou para ela como o irmão Salvador.
Mãe 6: Respiração
Respiração perdeu o filho Vaidoso há nove meses, na época da entrevista. O rapaz, que tinha 24 anos, se enforcou após descobrir que tinha o vírus HIV. Faltavam 23 dias para a sua formatura na EFOM (Escola de Formação de Oficiais da Marinha).
Respiração recebeu a pesquisadora muito bem. A própria pesquisadora entrou em contato com ela, através de mensagem no Facebook, pois já conhecia a história. Respiração aceitou imediatamente e a entrevista foi marcada na sua casa.
Respiração é costureira. É muito comunicativa e expressa muito bem os acontecimentos e sentimentos vividos por ela. Chorou muito em diversas ocasiões da entrevista.
A filha mais velha e o neto, de um mês de vida, chegaram à casa e viram muitas partes da entrevista, o que foi bem interessante, porque foi possível perceber que Respiração não mudava seu tom de voz nem o assunto, continuando a falar normalmente na presença deles.
A filha mais nova também circulou muitas vezes na casa durante a entrevista, e Respiração também se manteve concentrada e continuou conversando normalmente.
CAPÍTULO 3- DISCUSSÃO TEÓRICA E DOS DADOS EMPÍRICOS EM