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Aleister Crowley, Frieda Harris e a Criação do Tarot de Thoth

No documento Tarot O Templo Vivente Vol.1 - Frater Goya (páginas 31-34)

Crowley e Frieda Harris

Talvez um encontro em especial tenha marcado profundamente a vida de Aleister Crowley: Seu encontro com aquela que daria forma e cor à sua visão do tarot retificado. Lady Frieda Harris.

Este encontro aconteceu graças às amizades adquiridas no Royal Coffee, em 1937, apresentados por uma amiga em comum, Greta Valentine, que como Crowley, era adepta da vida boêmia londrina, e frequentadora do Royal Coffee. Elas eram amigas mútuas de Clifford Bax, co-editor da revista de literatura e arte The Golden Hind. Compartilhavam além do interesse pelas artes, o estudo da Antroposofia.

Frieda Harris, era pintora surrealista, estudante de Antroposofia, fazia parte da Maçonaria Mista, e era também membro da Sociedade Teosófica. Fez diversos trabalhos artísticos legados ao tema místico, e ainda hoje seus painéis dos Graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom circulam pela Internet (veja as imagens reproduzidas abaixo).

Lady Frieda Harris era esposa de Sir Percy Harris, membro do Parlamento Inglês e um dos líderes do Partido Liberal da Inglaterra.

Desta união improvável é que nasce o Tarot de Thoth. Inicialmente, a ideia de Crowley era apenas fazer uma releitura, corrigindo o Tarot Medieval, mantendo a estrutura conhecida, mas alterando algumas atribuições qabalísticas e astrológicas de alguns deles, baseado no conhecimento que havia adquirido na Hermetic Order of The Golden Dawn a respeito destes temas e baseado no Tarot Rider-Waite.

iniciado o trabalho, Lady Frieda Harris sugeriu que não deveriam apenas redesenhar um tarot já existente, mas criar algo totalmente novo, e estas cartas iriam ilustrar um novo livro a ser escrito por Crowley4. Embora Crowley

rejeitasse a ideia, Lady Frieda Harris insistiu, fazendo uma proposta irrecusável por Crowley, que na ocasião estava na falido financeiramente. Ela se tornaria sua aluna de magia, e pagaria 2 libras por semana por suas instruções. A ideia seria que suas instruções se tornariam as novas cartas.

Harris adota como estudante de Crowley, o nome místico de Soror Tzaba5. Mesmo não sendo uma Thelemita fervorosa, Harris era bastante

dedicada e assimilava rapidamente o conhecimento passado por Aleister Crowley. Mesmo não possuindo conhecimentos profundos a respeito do Tarot, a partir das orientações de Crowley foi delineando o futuro Tarot de Thoth.

Harris trabalhou incansavelmente ao lado de Crowley para produzir o Tarot, e durante o processo criativo, dizia-se possuída e impelida por seu Sagrado Anjo Guardião, a gravar em cada carta o mais profundo sentido espiritual.

Harris e Crowley eram ambos perfeccionistas, algumas cartas chegaram a ser refeitas várias vezes, até chegarem ao resultado esperado. No final do trabalho Crowley declarou que os resultados eram muito além dos esperados inicialmente. O projeto que deveria ficar pronto em 6 meses, levou perto de cinco anos para ser concluído.

Durante todo o processo de confecção do Tarot, muitas dificuldades se tornaram presentes: a saúde bastante frágil de Crowley, e às vezes devido à oposições externas a respeito desta parceria. Muito desta hostilidade vinha da má fama que Crowley possuía naquele momento. Harris era da alta sociedade, e frequentadora de círculos da nobreza londrina, podendo ter seu nome manchado devido à atenção e lealdade dispensada a Crowley. Em 1941, uma exposição em Oxford foi suspensa supostamente pelos créditos ao nome de Crowley, e sua provável presença na exposição. Mesmo com todas essas dificuldades, Harris conseguiu realizar a exposição, desde que concordando em omitir o nome de Crowley em qualquer material publicitário.

Lady Frieda Harris exibiu as pinturas pelo menos em 3 ocasiões:

4Crowley já havia escrito uma descrição para o Tarot, o Liber LXXVIII, publicado em The

Equinox, Vol. 1 nºVIII.

primeiro, em Julho de 1941 no Randolph Hotel em Oxford, novamente em Julho de 1942 no Berkeley Galleries em Davis Street, em Londres, e em Agosto de 1942 na Royal Society of Painters em Water Colours em Conduit Street, Londres.

O trabalho com as cartas ficou pronto em 1943, e o texto do The Book of Thoth, só ficou pronto em 1944, tendo uma tiragem limitada de 200 exemplares. Somente no final da década de 60, após o falecimento de Crowley (1947) e de Lady Frieda Harris (1962) é que um discípulo de Crowley, Grady Louis McMurty finalmente conseguiu publicar o Tarot de Thoth na forma como conhecemos hoje.

No final desta obra, publicaremos pela primeira vez em língua portuguesa, uma série de cartas entre Crowley e Lady Frieda Harris, algumas com informações a respeito da confecção do Tarot de Thoth.



Livro do Mundo (Liber Mundi)

Baseadas no texto acima, algumas escolas esotéricas do século passado utilizaram a lenda da criação do Tarot como forma de validar o conhecimento e a prática do ocultismo ensinada por elas. Ao chegar no final dos graus esotéricos, o estudante deveria criar o seu próprio Tarot e encerrar ali todo o seu aprendizado. Essa foi a forma mais adequada para se recuperar o conhecimento adquirido.

O Tarot tornou-se a encarnação viva do Liber Mundi dos rosacruzes e alquimistas. Aleister Crowley, ao criar seu Tarot, nada mais fez do que preservar nas cartas toda sua obra e conhecimento do ocultismo nas 78 lâminas. Segundo a lenda, caso todos os livros do mundo fossem perdidos e restasse um Tarot, esses livros poderiam ser reescritos. Acreditamos que seja apenas uma figura de linguagem, mas arriscamos afirmar que, no caso do Tarot de Crowley, caso os livros dele fossem perdidos, por seu Tarot poderiam ser recuperados em grande parte.

Nesse aspecto, podemos associar o Tarot com o livro, que é o símbolo do Universo. Em todas as ciências antigas, o livro aparece como símbolo do divino, confiado somente ao iniciado. O LIBER MUNDI representa o macrocosmo, a inteligência cósmica. Fechado, representa a matéria virgem. Aberto, a matéria fecunda. Como diriam os alquimistas: “Assim é o Grande Livro da Natureza, que encerra nas suas páginas, a revelação das ciências profanas e a dos mistérios sagrados...”

No documento Tarot O Templo Vivente Vol.1 - Frater Goya (páginas 31-34)