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ALEXANDRE HERCULANO, “A ABÓBADA”

No documento Guia Do Professor (páginas 47-49)

Herculano

A par de Almeida Garrett, Alexandre Herculano de Carvalho Araújo (1810-1877) foi um dos princi- pais vultos do primeiro romantismo português. Combatente do exército de D. Pedro e autodidata con- fesso e orgulhoso, ele personifica o intelectual que aceitou os grandes desafios históricos do seu tempo, opção exemplarmente expressa no combate ao absolutismo e ao ultramontanismo, na experiência do exílio, ou na longa e extensa atividade de poeta, romancista, historiador e polemista.

No entanto, apesar de liberal, sempre se distanciou da interpretação radical do liberalismo (vintista e setembrista), pois manteve-se fiel ao cartismo. Por isso, em 1836, demitiu-se do cargo de segundo bibliotecário da Biblioteca Pública do Porto em protesto contra o setembrismo, ao mesmo tempo que deu à estampa esse manifesto poético anti-setembrista que é A Voz do Profeta; foi ainda um dos cons- piradores do movimento que conduzirá à Regeneração, mas também um dos seus primeiros críticos. A última batalha do seu combate consistiu na renúncia cívica e na retirada para a sua quinta de Vale de Lobos, gesto que foi interpretado como espécie de protesto moral contra os caminhos que o próprio pro- cesso liberal estava a trilhar.

A compreensão da globalidade do seu ideário é impossível fora dos quadros da mundividência romântica de inspiração liberal e do empenhamento de Herculano na construção de uma nova cultura adequada à nova sociedade. Ora, através da sua multímoda obra (poesia, romance – foi o introdutor do romance histórico entre nós – história, polémica), é possível detetar um ideário (mas não uma filosofia sistémica), cuja coerên- cia ilumina a autenticidade das suas opções e serve de ponto de partida para se inteligir a sua futura insatis- fação perante os valores que acabaram por nortear a ação política dos seus antigos companheiros de luta.

Fernando Catroga, Paulo Archer de Carvalho, Sociedade e Cultura Portuguesa II, Universidade Aberta, Lisboa, 1996, p. 63.

48 SENTIDOS 11 • Guia do Professor • ASA

Imaginação histórica

A conceção de ficção histórica em Herculano é naturalmente devedora da sua conceção da História e do seu trabalho de historiador, mas não quer isto significar uma subalternização. Herculano equa- cionou, por várias vezes, um entendimento das suas relações. Em O Panorama, interroga-se: “Novela ou história, qual destas duas cousas é a mais verdadeira?” E responde: “Nenhuma, se o afirmarmos absolutamente de qualquer delas. Quando o caráter dos indivíduos ou das nações é suficientemente conhecido, quando os monumentos, as tradições e as crónicas desenharam esse carácter com pincel firme, o noveleiro pode ser mais verídico do que o historiador, porque está mais habituado a recompor o coração do que é morto pelo coração do que vive, o génio do povo que passou pelo do povo que passa […] Quem sabe fazer isto chama-se Scott, Hugo ou De Vigny, e vale mais e conta mais verdades que boa meia dúzia de bons historiadores.” A arte pode, pois, ser mais verdadeira. “A obra da lógica potente da imaginação que cria o romance” (palavras introdutórias a Eurico) pode mesmo suprir a história, quando se trata de “pintar a vida íntima de uma época só geralmente conhecida no seu aspeto guerreiro e na sua vida exterior” (M. C., II). Como diz Vitorino Nemésio, “ambos os modelos de criatividade verbal se comunicavam e implicavam na unidade do agente romântico criador” (Int. a M.C.).

Matéria privilegiada da sua ficção histórica, a Idade Média constitui para Herculano um analogon da época sua contemporânea. O grande princípio que ela representa, “o restabelecimento da variedade sobre as ruínas da unidade absoluta”, a sua existência material, moral e intelectual “é que pode dar pro- veitosas lições à sociedade presente, com a qual tem muitas e mui completas analogias”, como expõe nas Cartas sobre a História de Portugal. A ficção histórica é, pois, interpretação e reescrita da História com função pedagógica e de intervenção no presente. Na época medieval, sobretudo, recorta o nove- lista os carateres fortes, pela intensidade dos sentimentos e determinação da vontade, que constituem o cerne da sua visão da realidade humana e da problemática do querer como dinâmica da ação, como faz notar J. Borges de Macedo, sublinhando a estrutura polémica do pensamento de Herculano, dete- tável “na sua hermenêutica crítica, no seu pensamento político, na interpretação histórica e narrativa romanesca”. É o recorte desses vultos dotados de uma forte determinação e motivados por uma íntima energia de contestação ou luta, movidos por paixões (lembrem-se Afonso Domingues, o Cavaleiro Negro ou Frei Vasco) que supre, nos seus romances, uma efabulação frouxa e uma despreocupada estrutura orgânica.

B. Capelo Pereira, “Herculano”, in Helena Carvalhão Buescu (coord.), Dicionário do Romantismo Literário Português, Lisboa, Caminho, 1997, p. 227.

Numa obra justamente famosa, György Lukács, cujo contributo para a constituição de uma sociologia da literatura rigorosa não é demais realçar, alicerça em condicionamentos histórico-sociais o apareci- mento do romance histórico; a um tal género (e, de um modo geral, a toda a temática do historicismo romântico) não seria alheia a mentalidade imobilista de uma classe de escritores saudosos de um tempo (a Idade Média) em que a estratificação social, os privilégios de uns poucos e os sistemas hierárquicos que lhes davam consistência se mantinham praticamente inabaláveis. Indiscutivelmente verdadeiro no que respeita a alguns dos mais representativos vultos do Romantismo europeu (por exemplo, um Walter Scott, um Chateaubriand ou um Vigny), deverá este juízo ser rigidamente aplicado a todo o romance histórico? Pensamos que não. E para o provar, aí está a ficção romântica de Herculano, em relação à qual nos parece necessário ter em conta três questões fundamentais: uma é a das conexões entre real e ficção; outra, a da inserção de Herculano no contexto de um Romantismo (o português) marcado por uma ficção seduzida pelo historicismo; finalmente, a que consiste em procurar em obras como Eurico

o presbítero, O monge de Cister e O Bobo os sinais que evidenciam processos de referência, por vezes

extremamente subtis, ao real contemporâneo do escritor.

Carlos Reis, “Herculano e a ficção romântica”, in Construção da leitura. Ensaios de metodologia e de crítica literária, Coimbra, I.N.I.C./Centro de Literatura Portuguesa, 1982, p. 103.

Sentimento nacional

Herculano constitui na cultura portuguesa um caso singular de projeção da sua personalidade e da sua trajetória muito para além do seu tempo, atravessando gerações, tempos diversos de crise, como uma espécie de reserva moral, referência quase mítica de um modo radical e inteiro de ser português, voz insubmissa e mordaz, profeta de uma utopia nacional que, traduzindo-se neste intelectual em von- tade de ação e transformação, nos vem, de outro modo e de raiz, de um Vieira ou de um Bandarra e há de fazer nascer Pascoaes e Pessoa.

B. Capelo Pereira, “Herculano”, in Helena Carvalhão Buescu (coord.), Dicionário do Romantismo Literário Português, Lisboa, Caminho, 1997, p. 223.

UNIDADE 3

No documento Guia Do Professor (páginas 47-49)