Mais que uma linguagem ou expressão artística, a fotografia na série Nazaré do Mocajuba foi um vetor de aproximação e troca. Através dela, houve o estreitamento das relações entre Alexandre Sequeira e os moradores e a partir desse encontro, suscitaramse fotografias e questões que desencadearam a produção da série.
Assim, o presente capítulo visa apresentar a série Nazaré do Mocajuba. No primeiro momento, realizase um breve panorama da trajetória profissional do artista visual Alexandre Sequeira, desenvolvendo elementos de sua poética e traçando paralelos de sua obra com a fotografia e arte contemporânea. Posteriormente inicia se o estudo da série Nazaré do Mocajuba, sendo relatado o processo que a deu origem, desde as primeiras idas a vila, onde o trabalho foi realizado, a reflexões sobre os desdobramentos da série.
Para isso, foram utilizados como dados a entrevista realizada por mim com Alexandre em setembro de 2016, a dissertação de mestrado de Sequeira, entrevistas com o artista realizadas por outras pessoas, registros de palestras e seminários com a participação de Alexandre. Além de autores como Bourriaud (2009), Fernandes Junior (2006) e Machado (2011), para interpretar e analisar os dados citados.
2.1 Alexandre Sequeira: de Belém para o mundo
Nascido em Belém, capital do estado do Pará, em 1961, Alexandre Romariz Sequeira vem se destacando no cenário artístico do norte brasileiro e do país, expondo seus trabalhos no Brasil e exterior, em países como Estados Unidos, França e Cuba.
Em 1980 ingressou na graduação em Arquitetura na Universidade Federal do Pará (UFPA), curso realizado por outros artistas conterrâneos como Emmanuel Nassar, Osmar Pinheiro e Luis Braga. Nesse período as artes visuais no Pará ganhavam maior relevância e como consequência surgiram em 1982 o Salão Arte Pará e a Mostra Paraense de Fotografia (FotoPará).
Criado para fomentar a produção artística local, o Arte Pará tornouse referência não só na região norte, mas no Brasil, como um espaço de difusão e valorização dos artistas da região Amazônica. Como afirmou Loureiro (1983, p.67) na segunda edição do evento,
Se o Salão tem mantido algum compromisso, esse tem sido o de fortalecer uma pintura – ou algum movimento de artes plásticas – capaz de alcançar um público amplo e se tornar competitivo dentro e fora do Estado, estimulando os artistas à atividade sistemática de pesquisa, experimentação, aperfeiçoamento e utilização, de modo formalmente adequado, dos seus materiais.
A afirmação de Loureiro é reforçada ao considerarmos que diversos artistas que expuseram seus trabalhos no Salão Arte Pará, são hoje referência da arte do Pará e do Brasil, como Berna Reale, Emanuel Nassar e Alexandre, o qual expôs em diferentes edições do salão, sendo a primeira em 1983, no II Arte Pará. Em 2013, na XXXII edição do evento, foi o artista homenageado.
Outro evento contemporâneo ao surgimento do Arte Pará, foi a Mostra Paraense de Fotografia, com sua primeira edição em 1982. A mostra tinha os objetivos de: “levar a público o potencial criativo da fotografia paraense, a partir de uma mostra; descobrir e incentivar novos talentos que explorassem a fotografia nas suas mais variadas formas; promover o intercâmbio entre estes”. (MANESCHY, 2003, p.5)
Ao concluir a graduação, Alexandre mudouse para São Paulo. Como afirma Medeiros (2012, p.1898),
O mote, não escrito, era ir ver o mundo lá fora e voltar trazendo o mundo na bagagem [...] São Paulo, (e não mais o Rio de Janeiro) tornouse a meca tanto do ir e não vir, quanto do ir e vir [para a geração de artistas paraenses dos anos 80 e 90]
Em São Paulo, Alexandre permaneceu até o início da década de 90, trabalhando como designer gráfico. Nesse momento, começou a se aproximar da fotografia profissional, aplicada e direcionada ao designer, como relata em entrevista a Photo Magazine (2010),
Estudei muito sobre vários procedimentos de reprodução de imagem: desde as questões específicas de procedimentos gráficos convencionais como tipografia, offset, rotogravura, serigrafia, como suas aplicações na reprodução especificamente de imagens (clichês, fotolitos, etc) Quando retornou a Belém, no início dos anos 90, passou a relacionarse mais diretamente com o campo das artes, tendo as importantes passagens pela Fotoativa e pela Fundação Curro Velho.
A Fotoativa foi fundada em 1984, por Miguel Chikaoka, período próximo ao surgimento de outras iniciativas culturais e artísticas no Pará, como as anteriormente citadas FotoPará e Arte Pará. A Fotoativa tornouse Associação em 2000 e funciona até os dias de hoje, sendo Chikaoka o diretor administrativo na gestão 20152017. O reconhecimento da importância do trabalho da Associação veio através dos títulos de “Utilidade Pública Municipal” e “Utilidade Pública Estadual”, ambos recebidos em 2004.
Alexandre fez o curso Iniciação Fotográfica na Fotoativa, ministrado por Miguel Chikaoka, que, segundo Vasquez (2010), “se destacou como um dos mais empenhados e singulares professores de fotografia do país, tendo exercido profunda influência sobre toda uma geração de fotógrafos paraenses”. O curso, mais direcionado para a descoberta de uma linguagem pessoal e menos focado na técnica fotográfica, vai ao encontro a filosofia da Associação Fotoativa, a qual “incorpora o lúdico (processos artesanais de construção de imagens e atividades sensoriais, por exemplo) e permanentes discussões acerca da formação da imagem e do fazer fotográfico e suas possibilidades” (BREVE HISTÓRICO..., 2016).
Outra passagem importante em sua formação artística, foi o período de 1991 a 2004, quando trabalhou na Fundação Curro Velho. Nos primeiros anos, de 1991 a 1994, ministrou treinamentos como de design gráfico, gravura e serigrafia, práticas relacionadas ao seu trabalho em São Paulo. Nos 10 anos seguintes foi diretor de cursos e oficinas da Fundação. Devido a uma reforma do governo estadual em 2014, a Fundação Curro Velho, o Instituto de Artes do Pará e a Fundação Cultural Tancredo Neves foram fundidos sob uma única administração, gerando a Fundação Cultural do Pará. Sobre a experiência na Fundação Curro Velho, Sequeira afirma que: foi um momento em que experimentei concretamente a comunhão entre arte e vida, entre ética e estética. Pessoas das mais variadas procedências e camadas sociais se encontravam diariamente movidos pelo interesse de experimentar diferentes formas de olhar para o mundo, pelo interesse em estabelecer relações com outras pessoas, trocar idéias, aprender e ensinar.
(CANTUÁRIA E MACÊDO, 2010)
Ainda em Belém, de 1992 a 1995 foi professor titular do curso de Artes Visuais na Universidade da Amazônia (UNAMA) e em 1993 foi aprovado no concurso para professor substituto na UFPA, passando em 1996 a professor titular. Alexandre
leciona até hoje na instituição, onde entre 2012 e 2014 foi coordenador do curso de Artes Visuais.
A aproximação entre o artista e a academia possibilita reflexões sobre suas práticas e produções artísticas, a partir, por exemplo, de leituras, pesquisas e das trocas dentro e fora das salas de aulas. Conforme Sequeira (2010, p.84) assinala, “é em outras experimentações, do próprio autor e outros artistas, como também nas análises e considerações que teóricos fazem dessas produções, que o artista pode encontrar elementos capazes de elucidar determinadas questões”.
Assim, o conhecimento obtido pelo artista, enquanto professor, de teóricos e suas contribuições, permite um autoconhecimento sobre seu trabalho artístico, possibilitando a ampliação de seus horizontes e reflexões sobre sua produção. Além do artista também contribuir para a academia ao levar seus conhecimentos ligados à sua experiência no campo das artes.
O vínculo de Alexandre com a universidade também se dá através do Doutorado em Arte, em curso, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Mestrado em Arte e Tecnologia, realizado entre 2008 e 2010 na mesma instituição. Na ocasião, Alexandre defendeu a dissertação “Entre Lapinha da Serra e o Mata Capim. Fotografia e relações de trocas simbólicas”.
Realizar esse trabalho artístico como prática do Mestrado, permitiu uma análise mais profunda sobre sua execução e consequências para o vilarejo de Lapinha da Serra, onde o trabalho foi realizado. Considerando as pontuações e reflexões ao longo da dissertação, foi uma oportunidade de Alexandre pensar sobre sua produção artística como um todo, sobre como ela vem se relacionando com o campo das artes e assimilando a obra em questão a outras, como a série Nazaré do Mocajuba, a ser apresentada nesse capítulo.
“Entre Lapinha da Serra e Mata Capim”, foi realizado entre janeiro de 2009 e junho de 2010 no interior de Minas Gerais no âmbito do mestrado. O trabalho surgiu a partir do encontro, das relações e trocas estabelecidas entre o artista e dois moradores da vila Lapinha da Serra, Rafael de 13 anos e seu avô, o Seu Juquinha de 84 anos, sendo desenvolvido através das histórias e imaginários sobre a vila, descobertos por Alexandre ao longo do período de convivência com ambos.
O projeto do mestrado de Alexandre, em um primeiro momento, era rever e pensar sobre alguns de seus trabalhos já realizados. A partir de uma sugestão, e desafio, de sua orientadora – realizar uma nova produção artística – ele a solicitou
“seis meses pra eu circular por Minas até eu ser afetado por alguma coisa, até alguma coisa me tocar e eu perceber que essa coisa deflagra um trabalho novo” (ALEXANDRE SEQUEIRA..., 2016).
O artista gosta de viajar e reconhece seu espírito meio andarilho. Machado (2011), define Alexandre Sequeira como “viajeiro laboral”. O termo, inspirado na obra O Turista Aprendiz, de Mário de Andrade, é referência ao artista porque ele “sempre atribui às suas expedições o caráter de investigações culturais, fazendose acompanhar por sua câmera fotográfica, com o objetivo de reunir material e registros que permitiam a expansão de caminho” (MACHADO, 2011, p.37).
Seu gosto por viagens influenciará na abertura de possibilidades para realização de novos trabalhos, pois elas permitem encontros e conexões com pessoas. Sequeira afirma em entrevista a Bueno (2010) que “[...] não quer dizer que qualquer lugar que eu vá, resultará em um novo trabalho. Depende dos encontros, das relações que se estabelecem”. O vínculo de sua produção com os encontros e as relações humanas, permite aproximar seu trabalho da arte relacional.
Conforme afirma Borriaud (2009, p.151), a arte relacional referese a um “conjunto de práticas artísticas que tomam como ponto de partida teórico e prático o grupo das relações humanas e seu contexto social, em vez de um espaço autônomo e privativo”. Ou seja, é uma produção que encontra nas relações humanas questões e problemáticas a serem desenvolvidas através da arte. Sem os encontros e as trocas proporcionadas pela relação com o outro, a obra não existiria, pois, os encontros “funcionam como veículo por meio dos quais se desenvolvem pensamentos singulares e pontos de indução de ações de caráter artístico” (SEQUEIRA, 2010, p.61).
Outra questão relativa as viagens, é o artista estar sempre acompanhado de sua câmera fotográfica. A fotografia é a principal linguagem artística presente em seus trabalhos, porém, não necessariamente, em sua forma mais tradicional, ou seja, seguindo rigidamente as técnicas fotográficas, como, por exemplo, as de composição e enquadramento, sendo capturada através de equipamentos fotográficos convencionais e sendo revelada ou impressa em seu principal suporte, o papel. Em Nazaré do Mocajuba, série a ser aprofundada mais à frente, as fotografias passam por um processo de transformação, a fim de ocorrer a impressão serigráfica em diferentes tecidos (Fotografia 3).
Fotografa 3 Benedita
Fonte: Portfólio Alexandre Sequeira (Série Nazaré do Mocajuba, Alexandre Sequeira, 2005)
Outro trabalho que vai ao encontro dessa perspectiva é Meu Mundo Teu, desenvolvido em 2007 com dois adolescentes, Taynara e Jefferson, ambos moradores da cidade de Belém. A menina era moradora de Guamá, região periférica da cidade e o menino, morador da Ilha de Combú. Eles não se conheciam, e através da troca de cartas e posteriormente fotografias, compartilharam seus mundos. As fotografias foram realizadas através de câmeras artesanais, conhecidas também como pinholes, as quais podem ser criadas com diferentes materiais como latas e tubos de filme. Ao utilizar uma pinhole com dois furos, Alexandre permitiu que as fotografias realizadas por Tayane e Jefferson, cada um em sua realidade, se entrecruzassem, destacando as semelhanças e diferenças dos dois mundos (Fotografia 4).
Fotografia 4: Resultado obtido com o uso de uma pinhole de dois furos Fonte: Portfólio Alexandre Sequeira (Série Meu Mundo Teu, Alexandre Sequeira, 2007) Ambos trabalhos, o primeiro em relação ao suporte e o segundo ao meio do registro fotográfico, expressam como a obra de Alexandre corresponde ao conceito de fotografia expandida. Segundo Fernandes Junior (2006) essa nomenclatura refere se à produção contemporânea desprendida dos padrões clássicos do fazer fotográfico, exemplificados anteriormente, e cuja “ênfase está na importância do processo de criação e nos procedimentos utilizados pelo artista” (FERNANDES JUNIOR, 2006, p.11).
Considerase então as duas perspectivas apresentadas sobre fotografia expandida. Em um primeiro momento, ao não possuir o compromisso com a fotografia convencional, com as técnicas fotográficas, a produção assume uma postura mais autoral, onde o fotógrafo insere a sua visão, seu repertório visual e cultural, na fotografia realizada.
Ao refletir sobre a importância do processo de criação, propõese que a relevância da obra não esteja somente no exposto nas paredes dos museus. O transcorrer de sua criação é de extrema importância para sua constituição e o valor do trabalho, muitas vezes, está justamente no processo e nas escolhas do artista, como os procedimentos e técnicas a serem utilizadas. Sequeira (2010, p.61) reafirma o exposto ao dizer que:
Todos os modos de contato e de invenção de relações, bem como os registros documentais desses processos assumem a condição de “formas” integralmente artísticas, compreendidos não como procedimentos e/ou coleta de elementos para uma posterior elaboração poética, mas como a obra de arte em si.
Alexandre Sequeira alinhase, assim, a uma produção artística contemporânea, a qual considera o aspecto relacional e expandido da arte, criando novas possibilidades com as linguagens e seus modos de produção tradicionais. 2.2 Nazaré do Mocajuba: Conhecendo a vila e os moradores pelos olhos de Alexandre
Localizada no município de Curuçá, no Pará, Nazaré do Mocajuba é uma pequena vila de pescadores que se encontra a aproximadamente 150 km de Belém. Como descreve Sobral (2004),
chegase a Nazaré do Mocajuba percorrendo um estreito caminho de terra de, aproximadamente, nove quilômetros, contados a partir da estrada que liga Castanhal à região litorânea de Marapanim e Marudá, à altura do km 42 nove quilômetros que representam, para a comunidade, um enorme isolamento social e econômico. Seus limites são os roçados, a mata em torno e o rio Mocajuba à frente, com sua densa vegetação de mangue. As atividades produtivas do lugar se restringem a culturas de subsistência: plantio da mandioca, farinha, pesca e extração do caranguejo; além de um pequeno comércio de bebidas e alimentos, ponto de encontro dos nativos. [...] As casas, a maioria de barro, distribuemse no raio de alguns metros da rua principal, via de terra batida paralela ao rio. [...] No centro, destacase uma pequena igreja branca e singela. Sobre o rio avança o trapiche de madeira que serve à vila como porto e, para nós visitantes, de mirante, onde podemos nos debruçar, no fim da tarde, sobre os belos jogos de espelho das águas do Mocajuba. O primeiro contato de Alexandre com a localidade foi a convite de um amigo para ir ao Festival do Mingau na vila, no qual os moradores promovem a venda de mingau de diversos sabores visando angariar fundos para a igreja local. Nesse primeiro momento o artista se encantou com a vila e com sua geografia, cercada por natureza, à beira do rio Mocajuba (Fotografia 5).