Sebastián Carenzo
ALFARROBA, AMBIENTE E GENEALOGIA FAMILIAR
A partir deste ponto, será focada a reconstrução da trajetória da al- farroba por meio das práticas e representações presentes nos hábitos dos camponeses crioulos de Ibarreta (Província de Formosa),3 levantadas ao longo do trabalho de campo efetuado durante as algarrobeadas realizadas
entre 2003 e 2006.4
Uma primeira observação, derivada das entrevistas realizadas, é de que existe uma grande relação entre a genealogia das famílias de camponeses crioulos e sua relação com a alfarroba. Aqueles camponeses, cujos antepassados provinham do oeste, isto é, da região de Chaco seco localizada em Salta e Santiago del Estero, são os que apresentam um maior conhecimento dos usos humanos vinculados à alfarroba, incluindo nomes e procedimentos das preparações. Em contraste, os que descendem de migrantes da área de influência guaranítica (Paraguai e Província de Corrientes) não contavam com um saber especializado a respeito. Em geral, reconhecem o emprego de frutos da alfarrobeira para elaborar alimentos para consumo humano, mas não se referem a estes frutos como parte das práticas de alimentação familiares no passado recente.
3 Esta localidade situada no centro da província representou um importante ponto de con-
fluência de diversas correntes migratórias de províncias e países limítrofes. Neste complexo processo de repovoamento, conjugaram-se diferentes tradições culturais vinculadas à pro- dução, distribuição e consumo de alimentos, favorecendo a mistura dos saberes indígenas de aproveitamento integral do bosque com aquele conhecimento prático dos agricultores paraguaios, pecuários salteños, santiagueños e correntinos (oriundos das províncias de Salta, Santiago del Estero e Corrientes da República Argentina) e, em menor medida, com a lógica técnico-econômica do capitalismo agrícola aportada pelos colonos europeus (Carenzo, 2004).
4 A algarrobeada indica, para estes grupos, o processo integral de colheita e processamento
da alfarroba que, na região de Ibarreta, começa em fins de novembro e termina em princípios de fevereiro.
Essa diferença relaciona-se com a influência das condições ecológicas na conformação das preferências alimentícias dos grupos humanos. No entanto, a região chaqueña apresenta uma ampla variação climática e extre- mamente marcada pelo nível de precipitações registrado anualmente: 600 mm no oeste seco até 1.200 mm no leste úmido. Essa variação leva também à configuração da paisagem e à composição da flora e da fauna – no leste são encontrados ecossistemas com maior biodiversidade e no oeste esta propor- ção diminui. As alfarrobeiras apresentam uma grande versatilidade, dado que estão presentes tanto no Chaco seco quanto no Chaco úmido. Porém, pelo fato de se adaptarem melhor que outras espécies à falta de água, sua presença é dominante na composição florestal dos bosques nativos do oeste, mas não nos do leste (Galera, 2000). Isso se traduz em uma importância diferencial do fruto da alfarrobeira nas práticas alimentícias dos grupos, já que os migrantes oriundos das regiões úmidas contavam com uma maior diversidade de alimentos vegetais frescos, principalmente verduras e frutas, tanto cultivadas como silvestres. Estas constituíam fontes de obtenção de açúcares muito mais acessíveis e diversas que a alfarroba (desde frutas frescas de árvores nativas até o cultivo de cana-de-açúcar). Porém, para os grupos localizados no oeste, a alfarroba constituía a forma mais abundante e acessível de obtenção de glicose, entre outros nutrientes básicos.
O seguinte trecho de uma das entrevistas realizadas localiza este pro- cesso no contexto da recente ocupação de Ibarreta por parte de população crioula, quando esses migrantes careciam ainda de uma infraestrutura pro- dutiva adequada, deixando-os mais vulneráveis às rigorosidades do meio:
[...] Meu pai contava que quando vieram para aqui ele era criança, porque a família deles vinha do Chaco [...] ali pelo impenetrável, [...] bom, eles não tinham nada [...] imagine [...] isto era pampa cheio de capim e monte assim [...] em ilhas por todos os lados [...] eles sabiam ocupar a alfarroba, com isso me contavam que se salvaram nas grandes estiagens [...] nos tempos em que minha avó vivia se fazia o patay, o bolanchao, a añapá, mas depois já não se fez mais nada (Timoteo Rojas, 42 anos, Colônia Ismael Sánchez).5
5 O patay, o bolanchao e a añapa são preparações locais elaboradas com alfarroba moída.
O primeiro é um pão prensado de farinha, o segundo é uma pasta elaborada com frutos moídos de alfarroba e mistol e a añapa é uma bebida resultante da mistura de alfarroba com água ou leite.
Neste caso, o conhecimento destes grupos vindos do oeste, a respeito do uso da alfarroba, favoreceu o desenvolvimento de estratégias adaptativas nas novas áreas de povoamento a partir do emprego de recursos do monte para a alimentação humana. Isso foi especialmente importante durante as pri- meiras estiagens de caráter extremo que estas famílias tiveram que enfrentar. No entanto, como se evidencia também neste trecho da entrevista, devemos remarcar que os modelos de alimentação de uma sociedade determinada apresentam uma dinâmica de transformações favorecida por questões de cunho socioeconômico, cultural e político. Em algumas circunstâncias, estas mudanças produzem-se de forma relativamente acelerada, como se pode entrever no depoimento deste camponês, já que, praticamente em duas ge- rações, uma das principais práticas alimentícias dos grupos assentados nesta zona – o consumo de alfarroba – estava completamente esquecida.
Nenhum dos aspectos que trabalhamos pode explicar por si só o com- plexo processo de mudanças evidenciadas no padrão alimentar destes grupos, cujo tratamento profundo excede a aproximação aqui planejada. Porém, sugerimos que a análise de sua relação com as profundas transformações materiais e simbólicas em seus sistemas produtivos e com a degradação de suas condições de vida possa nos ajudar a compreender o porquê do aban- dono e/ou substituição progressiva do consumo de alfarroba entre estes povoadores crioulos. Os seguintes argumentos expressam algumas hipóteses de trabalho preliminares, que podem servir para guiar uma pesquisa mais ampla sobre este processo.
DA IDEOLOGIA DO PROGRESSO E PASSAGEM DA COLHEITA