1.1 BREVE NOÇÃO DE CAMPO SOCIAL
1.1.1 O CAMPO DOS MEDIA
1.1.1.1 Algumas características do conflituoso campo jornalístico
A esfera jornalística é formada por diversas características, a maioria delas ligada tanto ao campo técnico quanto ao discursivo e simbólico. Thompson (1995) define quatro características que, por si só, mostram a complexidade desse campo de forte legitimidade e de fronteiras invisíveis, características que dão conta da produção e da popularização dos bens simbólicos realizados pelos media. A primeira delas é a produção institucionalizada e a difusão de bens simbólicos, em que a comunicação de massa é entendida como parte de um conjunto de instituições (ou de campos) interessadas na fixação, reprodução e mercantilização desses bens.
Os mass media também instituem uma ruptura entre a produção e a recepção de tais produtos simbólicos, ruptura essa causada pelo tipo de relação estabelecida entre quem produz o bem e quem o consome. Existe uma espécie de via de mão única: o bem sai das mãos do produtor para a recepção sem que se escute o que este quer dizer – ou saber. É uma forma, segundo Thompson, específica de indeterminação, fenômeno que é suprido em parte com pesquisas de opinião e índices de audiência. A partir dessa maneira de se descobrir o que “as pessoas querem”, são realizados diversos programas que seguem fórmulas já testadas e de apelo plausível. Pesquisas de mercado e monitoramento de audiência são duas maneiras de diminuir a indeterminação entre a produção e a recepção.
O aumento da acessibilidade dessas formas simbólicas no tempo e no espaço, gerado a partir do desenvolvimento das telecomunicações, e, conseqüentemente, a circulação pública dessas formas são duas das outras características típicas desse campo social.
Da maneira como as instituições de comunicação de massa se desenvolveram até aqui, seus produtos circulam dentro de um ‘domínio público’, no sentido de que eles são
acessíveis, em princípio, a qualquer um que tenha os meios técnicos, as habilidades e os recursos para adquiri-los (THOMPSON, 1995).
Esses bens simbólicos são produzidos por um campo que, segundo Bourdieu (1997), impõe sobre outras diferentes esferas de produção cultural um conjunto de efeitos que estão ligados à sua própria estrutura (a autonomia do jornalista em relação às forças externas: o mercado de leitores e o mercado de anunciantes). É uma relação por demais complexa e heterogênea: dotado de força legítima que confere autonomia aos seus profissionais, o campo do jornalismo está sob a pressão da audiência e, mais ainda, de instituições autorizadas a determinar o que se passa dentro dos hábitos da profissão.
Um exemplo são as instâncias governamentais. Os órgãos oficiais têm o monopólio da “informação legítima” e usam esse poder para determinar o próprio andamento de uma empresa jornalística. Trata-se, para o teórico francês, de uma manipulação dupla: enquanto os jornalistas tentam não ser manipulados pela informação que vem de cima, tentam constranger tais fontes oficiais para que elas guardem informação exclusiva para determinado meio.
Há ainda a patrulha imposta pelos próprios jornalistas, um conflito que se dá no seio do campo midiático: a concorrência entre os veículos vai fazendo com que eles, contraditoriamente, tornem-se cada vez mais homogêneos, já que um passa a cobrir o assunto que o outro certamente cobrirá. Assim, dá-se, no lugar da originalidade, a uniformidade da oferta.
Além do citado cerceamento imposto pela relação entre os órgãos oficiais e a imprensa, há também, como uma das mais fortes características do campo, a relação de ambigüidade estabelecida entre a esfera midiática e a comercial, ambas cada vez mais entrelaçadas. Localizado entre o serviço público de prestar informação e a necessidade de gerar lucro como iniciativa privada, o campo do jornalismo é o lugar de uma lógica específica, propriamente cultural, imposta aos jornalistas por meio das restrições e dos controles cruzados (BOURDIEU, 1997).
O campo jornalístico também está, como citamos anteriormente, sujeito permanentemente às sanções do mercado por meio dos índices de audiência. Essa realidade faz com que, a cada dia, suas especificidades tornem-se cada vez mais orientadas pelo lucro.
Os jornalistas são sem dúvida tanto mais propensos a adotar o ‘critério do índice de audiência’ na produção (‘fazer simples’, ‘fazer curto’, etc.) ou na avaliação dos produtos e mesmo dos produtores (‘passa bem na televisão’, ‘vende bem’, etc.) quanto ocupem uma posição mais elevada (diretores de emissora, redatores-chefes, etc.) em um órgão mais diretamente dependente do mercado (...) sendo os jornalistas mais jovens e menos estabelecidos mais propensos, ao contrário, a opor os princípios e os valores da profissão às exigências, mais realistas ou mais cínicas, de seus ‘veteranos’ (BOURDIEU, 1997:106).
Somada a essa enorme pressão pelo faturamento está a necessidade cada vez mais imperiosa de os meios produzir “o novo”, o “diferente”, o “espetacular”. É o famoso “furo” perseguido pelos profissionais das redações, que transforma o campo em uma esfera de renovação permanente. Bourdieu (1997:107) aponta para o fato de esse tipo de fenômeno ser mais valorizado dentro do próprio ambiente jornalístico, mas, ainda assim, de ser produzido antes de tudo sob a pecha de um serviço destinado ao leitor/espectador (“são os jornalistas os únicos a ler o conjunto dos jornais”). Essa realidade que coloca toda a prática do jornalismo sob o signo da velocidade e da precipitação termina por causar o que Bourdieu chama de amnésia permanente, exatamente o avesso negativo da exaltação da novidade.
Essa necessidade de produzir a novidade (tão cara aos jornalistas cada vez mais competitivos), nascida para atender aos critérios comerciais estabelecidos pelo índice de audiência, une-se à capacidade de antecipar e modelar o real apontada por Rodrigues, fazendo com que o campo midiático ganhe novos contornos. Estes são cada vez menos visíveis e mais imbricados em outros campos sociais e, em contraponto, mais legitimadores de uma nova forma de se ver o mundo, pautada a partir da geração de eventos que vêm suprir demandas comerciais e organizar a agenda dos meios.
Mais do que isso, essa antecipação e esse remodelamento do real passam a ser, a partir da segunda metade do século 20, uma necessidade midiática: quase autônomo, esse
campo deixa de necessitar da geração espontânea de fatos e começa a produzir, com o auxílio de especialistas e da estrutura da tecnologia, seus próprios eventos.
Esse fenômeno foi percebido por diversos teóricos. Desses, dois estudam as relações entre o campo jornalístico e o campo político: Molotch e Lester (apud TRAQUINA, 2001), que localizaram, dentro da esfera dos mídias, três diferentes atores responsáveis pela organização do trabalho jornalístico: os new promoters, os new assemblers e os new consumers. Os primeiros são responsáveis por transformar certos eventos em fatos observáveis para a mídia; os segundos são os produtores do bem maior do jornalismo, a informação, e os terceiros são os consumidores desse produto final. Analisaremos a atuação desses atores e os efeitos que produzem sobre a chamada realidade objetiva quando explorarmos logo mais as teorias da notícia.
Alimentando a si próprio nessa geração de acontecimentos, o campo dos media ganha uma autonomia inédita, que paradoxalmente o atrela de forma por vezes perigosa à esfera do comercial e ainda consegue mantê-lo de certa forma à parte das legitimações de outras esferas – quando a mídia começa a alimentar a si própria e a produzir seus próprios eventos, não há mais uma necessidade clara da aprovação imposta por outros campos, como o jurídico ou mesmo o político.
É justamente esse “produzir, fazer e acontecer” que caracteriza o campo dos media como uma das bases da análise dos acontecimentos criados vistos no semanário Caras, objeto de nosso estudo neste trabalho. Antes, porém, de iniciarmos essa análise, é importante mostrar o que nos dizem algumas teorias da notícia, bem simbólico maior do campo do jornalismo. Entender o que pensam diferentes teóricos e como se processa seu entendimento da realidade cotidiana é uma chave importante para compreender o fenômeno da não-notícia.