1 A FORMAÇÃO DE PROFESSORES NO CONTEXTO DO PIBID: BUSCANDO
3.1 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES ACERCA DA PROFISSÃO DOCENTE E DOS
Seja na reflexão sobre a educação, nas pesquisas da área ou nos processos de mudança dos sistemas educacionais, o debate em torno dos professores está sempre presente nos dias atuais. Nesse contexto que põe em foco esses profissionais, para além da prática docente, diversas funções e ações tidas como essenciais para a melhoria da qualidade da educação acabam por se tornarem de responsabilidade dos docentes (SACRISTÁN, 1995).
O certo é que existe no discurso pedagógico dominante uma hiper- responsabilização dos professores em relação à prática pedagógica e à qualidade do ensino, situação que reflecte a realidade de um sistema
escolar centrado na figura do professor como condutor visível dos processos institucionalizados da educação (SACRISTÁN, 1995, p. 64).
Além de assumir os professores como condutores dos processos educacionais, a escola passou a assumir também responsabilidades de outros setores da sociedade, sendo atravessada por um conjunto de outras competências sociais e culturais (NÓVOA, 2009-a).
A evolução da sociedade tende a afectar à escola um conjunto cada vez mais alargado de funções; as aspirações educativas a que o professor deve resposta crescem, à medida em que se tornam de dia para dia mais etéreas ou invisíveis (Bernstein, 1988). Esta evolução da exigência social, conduz a uma indefinição de funções (SACRISTÁN, 1995, p. 67).
Esse cenário revela-se diferente de uma concepção em torno da profissão docente marcada pela transmissão dos conteúdos, já que, historicamente, a docência caracterizava-se predominantemente pelo entendimento de que o domínio de um conhecimento objetivo, formal, acadêmico era suficiente para ensiná-lo. Hoje, entretanto, para além da transmissão desse conhecimento ou da transformação dos saberes comuns dos estudantes em conhecimentos acadêmicos, a profissão docente requer profissionais que tenham autonomia para tomar decisões sobre os problemas profissionais da prática (IMBERNÓN, 2011).
Mas os professores são profissionais que possuem autonomia? Para Sacristán (1995), a “autonomia” dada aos professores configura-se dentro de regras bem definidas, obrigando-os a agir profissionalmente dentro de uma realidade estabelecida. Desse modo, a liberdade que possuem é de fazer algumas mudanças e movimentos dentro dos limites estabelecidos, ou seja, por meio da capacidade de se movimentar em um cenário que só pode ser parcialmente modificado. Quando os professores são responsabilizados pelos acontecimentos das salas de aula e quando são postos sobre eles as esperanças e a obrigatoriedade de mudança e melhoria educacional, por vezes, esquece-se a realidade do seu contexto de trabalho. Nóvoa (2009-a, p. 20) acrescenta que “quanto mais se fala da autonomia dos professores mais a sua acção surge controlada, por instâncias diversas, conduzindo a uma diminuição das suas margens de liberdade e de independência”. Assim, entendemos que a profissão docente sofre a regulação do sistema educativo por meio das deliberações político-administrativas e das condições de trabalho. Por esse motivo, Sacristán (1995, p. 71) chega a apontar a profissão docente como uma
“semiprofissão” e aponta que a autonomia dos professores é historicamente configurada de acordo com as relações estabelecidas entre a burocracia que governa a educação e os professores, já que “para além do espaço concreto da prática (a sala de aula), o trabalho dos professores é condicionado pelos sistemas educativos e pelas organizações escolares em que estão inseridos” (SACRISTÁN, 1995, p. 71). Mesmo que o nosso objetivo nesse momento não seja aprofundar a discussão sobre a autonomia dos docentes, consideramos que apresentar esses aspectos seja importante para esse movimento de reflexão.
Nóvoa (2009-a, p. 33) aponta que “o que caracteriza a profissão docente é um lugar outro, um terceiro lugar, no qual as práticas são investidas do ponto de vista teórico e metodológico, dando origem à construção de um conhecimento profissional docente”. Além disso, o autor destaca que as práticas docentes são difíceis e complexas, porém, construiu-se socialmente a ideia de que ensinar é fácil, o que contribui para o desprestígio da profissão.
Outra questão importante que tange a discussão da profissão docente diz respeito à sua visibilidade no espaço público. A escola e os professores estão em constante debate no qual jornalistas, colunistas, universitários e especialistas opinam e se expressam a respeito do assunto. Entretanto, “não falam os professores. Há uma ausência dos professores, uma espécie de silêncio de uma profissão que perdeu visibilidade no espaço público” (NÓVOA, 2009-a, p. 22).
Para além da (in)visibilidade desses profissionais, a formação docente também segue nessa perspectiva pelo fato da necessidade de uma maior presença dos professores para ser pensada e desenvolvida. Nesse sentido,
[...] verifica-se um desenvolvimento, sem precedentes, de uma série de especialistas e de entidades de acreditação e de avaliação que definem os currículos da formação de professores, o modo de entrada na profissão, as regras do período probatório e o juízo sobre os desempenhos profissionais. Estes especialistas são fortemente influenciados pelas organizações internacionais [...] e tendem a ocupar um espaço que deveria ser da responsabilidade dos professores mais experientes (NÓVOA, 2009-a, p. 37).
Assim, percebemos que para Nóvoa (2009-a), a formação dos professores deve ser pensada e desenvolvida por eles e não por especialistas e outras instituições, ou seja, o autor acredita que a formação deveria se devolvida aos professores.
Nóvoa (2009-a) afirma que se considerarmos que, contemporaneamente, o prestígio de uma profissão pode ser mensurado por sua visibilidade social, a profissão docente depara-se com um grande desafio. No caso dos professores, a profissão docente caracteriza-se pela qualidade do trabalho realizado no interior das escolas, como também pela capacidade desses profissionais interferirem no espaço público da educação. O desafio consiste no fato de que, apesar de comunicador por natureza, o professor geralmente realiza esse trabalho de comunicação no interior da sala de aula. Embora tivessem prestigio e voz pública e participassem da elite social local em tempos passados, hoje os docentes perderam este posto e também a visibilidade.
[...] fala-se muito das escolas e dos professores. Por boas e por más razões. Mas há uma ausência dos professores, uma espécie de silêncio de uma profissão que se voltou para dentro, que se fechou nos muros da escola e que perdeu visibilidade no espaço público. Hoje, impõe-se uma abertura do professor para o exterior, uma concepção da escola como um espaço aberto, em ligação com outras instituições culturais e científicas. O “novo” espaço público da educação chama os professores a uma intervenção política, a uma participação nos debates sociais e culturais, a um trabalho continuado junto das comunidades locais (NÓVOA, 2004, p. 3).
Nessa mesma perspectiva, Sacristán (1995) salienta que a profissão docente está carregada de profissionais que comunicam insuficientemente questões relativas à profissão: transmitem pouco a sua experiência, falam pouco entre si do seu trabalho e de como podem melhorá-lo.
Refletir sobre os dilemas da profissão docente é essencial em qualquer trabalho que pretende abordar a formação e a profissionalização docente, por permitir compreender e analisar o panorama desses profissionais ao longo da história e também nos dias atuais. Os “dilemas” que tratamos brevemente até aqui nas concepções dos nossos referenciais teóricos são apenas alguns dos inúmeros desafios da profissão.