• Nenhum resultado encontrado

Algumas considerações sobre a comensalidade e a performance da poesia do

2.3 A marca comensal

2.3.2 Algumas considerações sobre a comensalidade e a performance da poesia do

Qual relação poderíamos estabelecer entre a poesia arcaica e o seu espaço de representação? Qual seu papel dentro desse espaço? Seria ela somente um entretenimento que compunha parte dos prazeres partilhados? Comentamos nesse capítulo que as marcas de algumas reuniões de comensalidade, como o simpósio estão impressas em muitos dos fragmentos supérstites da poesia de Arquíloco, algumas vezes de forma bem explícita, outras de uma maneira mais velada. Tentaremos investigar, agora, até que ponto esse espaço, que se tornou um leitmotiv da poética do mundo antigo, tem algo mais para nos oferecer do que apenas um entretenimento.

Vimos que no mundo grego as fronteiras entre o público e privado eram indistintas na medida em que o cidadão e a pólis estavam ligados numa espécie de simbiose, onde um existia para o outro. Desse modo, a amplitude dessa relação ultrapassava os limites dessa dicotomia, e se reproduzia em muitos campos da cultura grega. A comensalidade não poderia, portanto, constituir uma exceção à essa regra. Nesse sentido, bem percebeu Slater109, o qual viu nesse espaço comensal um microcosmo do mundo político, construindo essa hipótese a partir de sua leitura da terceira elegia de Sólon conhecida como Eunomia, na qual o poeta nos diz:

νὐ γὰξ ἐπίζηαληαη θαηέρεηλ θόξνλ νὐδὲ παξνῦζαο εὐθξνζύλαο θνζκεῖλ δαηηὸο ἐλ ἡζπρίεη. (vv.8-9) [...] pois não sabem conter a insolência

nem moderar na paz do banquete as alegrias do momento.110

108

Cf. Infelizmente, o mercado brasileiro ainda carece de traduções para Aristófanes. Algumas de suas peças não possuem tradução em língua portuguesa do Brasil, sendo disponível, por vezes, somente nas edições de Portugal. Recomendamos em língua portuguesa do Brasil as traduções das duas peças feitas por Junito Brandão, in.: ARISTÓFANES. Nuvens. Rio de Janeiro: Editora Grifo, 1976, e Rãs. Rio de Janeiro: Editora Espaço e Tempo, 1986.

109

Cf. Murray (1999, p.21).

110

67 Sólon considera a má administração do Estado como fruto da incapacidade dos gestores, cujas raízes residem em seu caráter perverso. O poeta os equipara aos anfitriões que se mostram incapazes de organizar adequadamente uma reunião comensal. O mau político é colocado no mesmo patamar de um mau anfitrião, cuja incapacidade estraga a experiência lúdica de seus convivas, ofendendo-os. De modo geral, um banquete ideal é visto como um reflexo do que deveria ser o funcionamento de um bom governo, no qual a ordem estabelecida θνζκεῖλ (kosmeîn) aparece como consequência do uso da virtude da ponderação εὐθξνζύλαο (euphrosýnas).

Na poesia arcaica há um conjunto de palavras usadas, em geral, para expressar a ideia de banquete. Encontramos uma delas (no nominativo e no genitivo) nos versos de Sólon: δαῖο, δαηηὸο (daîs, daitós). Podemos encontrar algumas outras a partir da leitura de Píndaro: μελία (ksenía), δεῖπλνλ (deîpnon), ζαιία (thalîa), ἔξαλνο (éranos) e ζπκπόζηνλ (sympósion). Desse conjunto, emergem três grandes grupos, compostos por δαῖο, μελία e ζπκπόζηνλ. Vemos, assim, como esses dois poetas constituem um importante testemunho da importância e complexidade da comensalidade no mundo arcaico. Veremos, primeiramente, o uso que Píndaro faz de cada um desses vocábulos, para, em seguida, tentarmos aplicá-los ao nosso argumento:

a) δαῖο (daîs): o termo tem forte carga religiosa, pois se refere às refeições sagradas, realizadas entre os deuses no Olimpo ou aos sacrifícios a eles oferecidos. Há ocorrência desse uso em Ol. 14.9; Nem. 1.72. Esse termo, assim como ζαιῖα (thalîa), está relacionado a âmbitos coletivos, onde grupos - como os integrantes da urbe, os astoi, ou a própria cidade – unem-se numa ação conjunta, como pode ser visto em Isthm. 4.61; Ol. 7.94; Pyth. 5.77; Pean 1.8, respectivamente;

b) μελία (ksenía): termo referente aos atos de hospitalidade e, portanto, aos atos humanos de boa acolhida devida a todos por lei divina, como em Phyt. 4.30. Deve-se ter em mente que o instituto da μελία é representado de muitas formas na lírica pindárica, constituindo assim, uma das instituições fundamentais da vida social arcaica;

c) ζπκπόζηνλ (sympósion): nesse grupo, reúnem-se várias modalidades comensais, como o simpósio propriamente dito, (Isth. 6.1; Ol. 7.5; Pyth. 4.294; Nem. 9.18); o deipnon (Pyth. 9.19; Encomium 7) e o komos (Isth.

68 2.30) que eram espaços de prazer, lugares onde há consumo de vinho, marcados pela presença de objetos especificamente a ele ligados, como uso de taças e crateras;

Vimos, primeiramente, que Sólon usa δαῖο (daîs) - termo que traz o sentido de comensalidade divina - para mostrar que o estado deve procurar reproduzir entre seus cidadãos os mesmos princípios de harmonia vivenciados pelos deuses no Olimpo, que são visíveis nas reuniões de comensalidade. Entretanto, o poeta legislador pertence a uma etapa da poesia arcaica que, como Píndaro, está já bem próxima do classicismo. Vejamos como Arquíloco desenvolve essa temática, material e formalmente, a partir de alguns de seus fragmentos, e como sua persona poética se manifesta em relação à dos demais poetas.

Outro aspecto que devemos analisar além do espaço, mas a ele ligado, consiste na execução dessa poética da comensalidade, de como ela era executada, performatizada. Arquíloco trabalhou com temas e metros diversos e, portanto, variadas deveriam ser as formas de sua execução. Acreditamos que dentre os vários elementos de performance, a música represente um aspecto que mereça ser discutido, pois o poeta apesar de não pertencer ao conjunto dos que compuseram poesia mélica, deu importantes contribuições no campo da música, como atestam alguns tratadistas da antiguidade.

A reputação de Arquíloco como músico remonta ao testemunho de Glaucus de Régium que, em sua obra πεξὶ η῵λ ἀξραίσλ πνηεη῵λ θαὶ κνπζηθ῵λ (perí tôn

archaíon poietôn kaí mousikôn), Sobre os antigos poetas e músicos, escrita por volta do

final do século V a.C., atribui ao poeta importantes inovações no campo musical. Essas invenções são citadas pelo autor do tratado sobre a música, atribuído por alguns a Plutarco:111

Portanto, Arquíloco inventou um novo sistema rítmico além do trímetros, através da combinação de ritmos de diferentes gêneros e a declamação acompanhada com o uso de instrumentos [...] Eles dizem que Arquíloco introduziu uma mistura na [performance] dos iambos, sendo alguns recitados e outros cantados, ambos com

111 Rosteins (2010, p. 231): Further, Archilochus invented a new rhythmical system, that of the trimeter,

the combination of rhythms of diferent genera, and the declamation with its instrumental accompaniment; [...] they say that Archilochus introduced for iambics the mixed recitation of some and singing of others, both to an accompaniment, and that the tragic poets followed him in this [...]

69

acompanhamento musical, no que foi seguido pelos poetas trágicos [...].

Esse fato torna-se curioso pelo fato de que Arquíloco não foi um poeta mélico, mas sua poesia, com o passar do tempo, parece ter sido executada com acompanhamento musical. Isso certamente se deu em virtude do contexto da comensalidade, cujas modalidades do simpósio e do komos, por seu caráter mais informal, davam uma liberdade que acreditamos permitia aos declamadores e músicos experimentações que logo deviam de cair no gosto da audiência.

2.4 Identificação das marcas arquiloquianas a partir da análise de alguns de seus