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3. PRÁTICAS EM SAÚDE MENTAL E ATENÇÃO PRIMÁRIA À

3.2. Algumas considerações sobre objetos, finalidades e instrumentos

Seguindo o esquema proposto por Mendes-Gonçalves (1992) é possível pressupor que as práticas assistenciais em saúde mental são definidas a partir da compreensão do que é a doença mental, do entendimento sobre a resolubilidade em saúde mental, e ainda, a partir da escolha de instrumentos e meios de intervenção. Neste sentido, opta- se por uma análise detalhada de cada uma destas categorias.

Sobre a doença

Camargo Jr. (2003) aponta que embora a biomedicina explicite um doutrinamento de que seu olhar é sobre o doente, de forma implícita é a doença que tem o efeito de articulação da área. O autor afirma que nas entrelinhas do campo fica claro o pressuposto de que “as doenças são coisas de existência concreta, fixa e imutável de lugar para lugar e de pessoa para pessoa” (p.117). Seguindo o mesmo sentido, Costa- Rosa (2000) observa que no modo asilar-psiquiátrico dá-se ênfase à determinação orgânica da doença mental e assim toma-se o organismo como centro da doença, que no máximo amplia-se para um indivíduo.

Costa-Rosa (2000, 2011) aponta que no modo psicossocial os fatores políticos e biopsicossocioculturais são determinantes do processo de adoecer de um sujeito corporificado, desejante, e pertencente a um grupo social. Neste sentido, o próprio modo de adoecer é compreendido nas nuances da constituição daquele sujeito e de suas possibilidades de lidar com o que se passa. Onocko-Campos (2001) observa que apesar das ressalvas na construção teórica deste campo, por vezes ainda confunde-se o processo de colocar a doença entre parênteses com negá- la, e aponta que assim, em nome da doença e da clínica, perpetua-se um olhar organicista sobre o tratamento.

Destaca-se que no modo psicossocial as determinações são recompostas, sendo mantida apenas a diretriz de que é necessário atentar para a singularidade. Assim, mesmo o orgânico é tomado de forma peculiar e assumido como parte de uma trama de relações.

Sobre a cura

Segundo Camargo Jr. (2003) dentro do campo da biomedicina tem ocorrido um descompasso entre o processo de diagnosticar e de tratar, o que pode ser exemplificado pelo percurso histórico do campo e também pelo desenho das formações. Este expõe que as medidas de tratamento existentes buscam a cura ou em menor grau a supressão de sintomas, a manutenção da condição geral do paciente e a evitação de danos ou desconforto. Destaca-se aqui que as intervenções preteridas sequer questionariam os pressupostos estabelecidos neste campo,

podendo ser interpretadas como uma forma de homeostase, ou seja, como uma maneira de permitir a manutenção do funcionamento individual pelo estabelecimento da condição mais próxima da ideal.

A discussão da possibilidade de cura em saúde mental acompanha a história da área, incluindo suas aproximações e afastamentos dos modelos biológicos. Com a dificuldade de estabelecer- se uma associação clara entre os fenômenos vivenciados e alterações de base orgânica e também de abolir a doença, no modo asilar-psiquiátrico toma a cena a supressão/tamponamento de sintomas. Segundo Costa- Rosa (2000) este processo ocorre buscando-se uma subordinação do ego à realidade e um suprimento de carências, tendo como resultado a cronificação, ou ainda de forma mais “favorável” a adaptação.

Para o autor a partir do modo psicossocial tem-se a noção de que a “cura” é um reposicionamento subjetivo e social e então se constrói uma integração da doença à existência. Costa-Rosa (2000) esclarece que neste caso, ainda que se alcance alguma supressão sintomática, esta não é o objetivo da intervenção, que assume o sujeito como portador de um desejo que deve ser valorizado e que fomenta a transformação a partir de seus carecimentos. Neste sentido, o processo de cura depende de um protagonismo do próprio usuário, e do devido espaço para fazê-lo. Sem cair-se em um olhar individualista, esta transformação também será estabelecida nas relações com a comunidade e com a família, em uma reinserção social que supere a noção de adaptação.

Sobre instrumentos e meios

Antes de avançar neste tópico, cabe destacar que os meios e instrumentos incluem um eixo estrutural dado pelos serviços, que tem sido diversificado na reforma psiquiátrica, e que as análises não devem ficar restritas a este eixo estrutural, tendo em vista que ele não sintetiza todo o arsenal em questão. Intervenções voltadas à reinserção social e mediadas pela produção, por exemplo, podem ser facilitadas pela existência de uma cooperativa de trabalho, embora não estejam necessariamente atreladas a ela. Estas podem ser realizadas em parcerias intersetoriais, ou ainda, iniciadas em um serviço, vindo a se desmembrar em outro. Neste sentido, serão de nosso interesse os instrumentos e meios de trabalho que podem ser incorporados na estrutura da atenção primária à saúde, seja de forma direta, seja por meio de parcerias.

Camargo Jr. (2003) faz uma análise das terapêuticas na biomedicina, observando que estas são legitimadas somente se medicamentosas ou cirúrgicas, ainda que incluam medidas não tão

“duras” como as terapêuticas físicas (exercícios, exposições, massagens) e dietéticas. O modo asilar-psiquiátrico buscou ao longo da história estabelecer terapêuticas compatíveis com a biomedicina, e hoje se centra na medicação. Por outro lado, conforme aponta Costa-Rosa (2000), ainda que o modo psicossocial inclua os medicamentos entre suas ofertas, são privilegiados como meios de trabalho as psicoterapias, laboterapias, socioterapias e um conjunto de dispositivos de reintegração sociocultural. Estas intervenções, que não são imutáveis, também tem sido cada vez mais flexibilizadas e diversificadas, em geral mantendo uma articulação entre os aspectos clínicos e de promoção de cidadania. Apesar da preocupação com a negligência com algum destes eixos (ONOCKO-CAMPOS, 2001; AMARANTE, 2003), avanços se dão em torno da possibilidade de interlocução entre estas categorias, agenciando relações terapêuticas (LANCETTI, 2007) e pautando a produção política que se faz na clínica (PAULON, 2004).

Nota-se que nestes modos há também diferenças na forma de incluir família e comunidade. No modelo asilar-psiquiátrico estes atores seriam incluídos de forma pedagógica e assistencial, enquanto no modo psicossocial, amplia-se sua implicação nos conflitos vivenciados, e ainda, sua participação como agentes de transformação.

3.3. Ampliando a clínica da atenção primária à saúde