3 ENUNCIADOS E FORMAS TÍPICAS DE ENUNCIADOS: UMA
3.3 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE TEMA NA TEORIA
Para Voloschínv (1929-1930 [2010]), o tema é sentido atualizado. Dessa forma, argumentamos a favor de que tema não é equivalente a assunto. Este pode ser tido como potencialidade ou possibilidade para se falar sobre algo em um momento e em um gênero específico. Alves Filho (2011, p. 45) diz: “Em síntese, o tema dá conta do modo como recorrentemente as pessoas têm falado sobre certos assuntos em gêneros específicos.”O tema do enunciado é o conteúdo ideologizado do qual fazem parte tanto o material verbal quanto o extraverbal, construído sócio- historicamente, numa dada cultura, envolvendo interlocutores em situações reais de uso, dizendo de outro modo, o tema se constitui na interação, no discurso da vida real. No momento em que se fala sobre algum assunto, ele deixa de ser apenas potencialidade e passa a ser tema. O assunto pode ser comparado à palavra, que só ganha vida quando é retirada de seu estado latência por um sujeito falante, que atualiza o seu sentido.
Por envolver interlocutores em situações reais de uso, o tema do enunciado conforme Volochínov (2010 [1929-1930]), sempre será único, irrepetível, isto é, mesmo se falando do mesmo assunto, nunca se terá o mesmo tema. Por ser intrinsecamente ligado à enunciação, ele é a expressão de uma situação histórica concreta, desse modo, de acordo com a teoria dialógica, incapaz de ser
reproduzido; sempre se terá uma apreciação e entonação diferentes relativas ao tempo, espaço, intenção dos interlocutores, posicionamento axiológico-dialógico.
O tema relaciona o material linguístico à vida, visto que se constitui na corrente da interação verbal que põe em cena um locutor e um interlocutor que interagem ativamente com o conteúdo na construção do sentido do enunciado na vida real. No texto Discurso na vida e discurso na arte, Volochínov se refere à enunciação dizendo:
A enunciação está na fronteira entre a vida e o aspecto verbal do enunciado; ela, por assim dizer, bombeia energia de uma situação da vida para o discurso verbal, ela dá a qualquer coisa linguisticamente estável o seu momento histórico vivo, o seu caráter único (VOLOCHÍNOV, 2013 [1926], p. 10).
Considerando a relação do tema com a enunciação, podemos perceber o porquê de ele não ser reiterável: o assunto pode ser o mesmo, mas a situação comunicativa que o relacionará à vida nunca o será, então o tema - conteúdo ideologizado, atravessado valorativamente pelas entonações relativas à situação comunicativa - terá a cada enunciação um acento de valor diferente, passará a ser um fenômeno da comunicação social na qual foi construído para ser compreendido, não podendo ser dissociado da vida real.
Uma palavra tomada em sua abstração não tem um tema, é apenas um constructo linguístico, enquanto o tema, embora dependa do material linguístico para sua manifestação, engloba elementos extraverbais que lhe possibilitam diferentes formas de significar. Para Volochínov (2010 [1929-1930]), o tema é o sentido que o discurso pode assumir numa dada situação comunicativa concreta e única. Podemos dizer que o tema do enunciado só existe nas relações dialógicas, pois somente a partir delas é possível ter uma compreensão ativa responsiva diante de um enunciado concreto. Abstraindo o discurso das relações dialógicas, será cortado o elo com a vida real, com a situação sócio-histórica o que impossibilitará a existência do tema.
Segundo Volochínov (2010 [1929-1930]), a linguagem é de natureza intersubjetiva, pois, ao enunciar, o locutor já leva em conta as possíveis réplicas de seus interlocutores, de modo que sempre se escreve ou se fala para alguém. Nessa perspectiva, o tema sempre possui um valor axiológico-dialógico, sendo sempre resultado de uma ou várias interações. Para exemplificar esse valor axiológico do
tema do enunciado, recorremos a um exemplo contido no texto de Santos e Filho (2013) que trata dessa relação do tema com a vida real. No exemplo: “O meu cachorro morreu”, se visto apenas na sua dimensão linguística, será apenas uma oração sempre igual a si mesma, sem nenhum elo com a vida real.
Fora de um contexto, não se sabe quem é esse eu que fala, de que cachorro se trata, a quem isso está sendo dito, porque está sendo dito, com que entoação, ou seja, não significa além do que está materialmente verbalizado. Entretanto, se este mesmo enunciado for visto em uso na vida real, tecido por fios dialógicos que entrelaçam a materialidade verbal e o conteúdo do dito como expressão de uma situação histórica, o que era apenas uma oração, linguisticamente inerte e sempre igual a si mesma, passa a significar de acordo com o seu contexto sócio-histórico e adquire um tema, um sentido particular, resultante do contexto social em que foi empregada. Teremos assim, o tema do enunciado – um conteúdo ideologizado – impossível de ser repetido, entonado com a mesma valoração e constituído pelas mesmas relações dialógicas.
A oração: “meu cachorro morreu” nada mais é do que uma sequência de palavras, que nessas condições de interação leva a um único sentido, o dicionarizado, o sentido comum, encerrado no próprio sistema da língua. Não importa quem disse, quando, para quem, com qual objetivo, sempre será isso. Esse sentido comum só ganhará vida, se atualizado por um falante que o enuncie dentro da corrente da comunicação real, ou seja, se esse enunciado tiver como origem e fim uma réplica.
Em sentido dicionarizado, cachorro é simplesmente um animal doméstico, mas se pensarmos nessa palavra num enunciado real, teremos um sentido particular. Ao enunciar a palavra “cachorro”, o locutor não fala de qualquer cachorro, mas de um animal especial, que tem sua própria história de vida, o que o torna diferente de todos os outros. Esse eu que fala também não é igual a nenhum outro sujeito. Mesmo o “eu” se constituindo socialmente, sempre terá algo de individual, pois, como afirma Bakhtin (2003 [1979]), cada um ocupa um lugar ímpar jamais ocupado por outrem.
Esse enunciado pode materializar sentimentos como revolta, indignação, alívio, culpa, arrependimento, saudade, tristeza, raiva ou até mesmo alegria, dependendo da relação existente entre o cachorro e seu dono, da causa da morte do animal, do interlocutor a quem esse enunciado foi dito, dentre outros fatores
sócio-históricos. Logo, o que temos não é apenas uma materialidade verbal, mas principalmente, valores, sentimentos, histórias de vida, que se fundem com o material linguístico, constituindo um sentido único, uma valoração irrepetível.
Esses diferentes sentidos resultam da atitude avaliativo-responsiva daquele que fala, aprecia e responde a partir de sua singularidade Esse ser é alguém sempre incompleto em sua existência, tanto porque precisa do outro para ser ele mesmo, quanto pelo fato de que ele está em constante processo de constituição. Ele é um sujeito histórico, social e cultural, marcado pela eventicidade, pela impossibilidade de acabamento temporal ou acabamento em si mesmo. Por isso precisa ser visto também em sua temporalidade, em sua relação com o momento histórico, momento este que é sempre constituído temporalmente pelo passado e presente.
Cada sujeito social enuncia em um dado momento e em um dado espaço que só ele ocupa, visto que esse momento e esse lugar são inerentemente relacionados às experiências de vida desse sujeito. A respeito dessas valorações restritas a uma pessoa em função do lugar e momento sócio-histórico que ela ocupa, Bakhtin (2003 [1979]) teoriza:
Esse excedente da minha visão, do meu conhecimento, da minha posse – excedente sempre presente em face de qualquer outro indivíduo – é condicionado pela singularidade e pela insubstitutibilidade do meu lugar no mundo: porque nesse momento e nesse lugar, em que sou o único a estar situado em dado conjunto de circunstâncias, todos os outros estão fora de mim (BAKHTIN, 2003 [1979. p. 21]).
Desse modo, o excedente da visão está relacionado à constituição do tema. É desse lugar único que nos tornamos autor, que compreendemos e enunciamos responsivamente, que fazemos nossas escolhas estilísticas para dar certa entonação sobre aquilo que falamos. Volochínov (2010 [1929-1930]) faz uma distinção entre significação e tema, situando a significação no nível do sistema linguístico, sendo apenas potencialidade para o tema do enunciado.
Enquanto Volochínov opõe tema à significação, ou seja, toma o tema como sentido atualizado, sempre irrepetível, marcado pela não coincidência, o tema do gênero para Bakhtin é visto como uma relativa tipificação, o que significa dizer que em diferentes gêneros o assunto pode ser tratado e apreciado de diferentes maneiras. A relativa tipificação temática, composicional e estilística do gênero
vinculada à esfera de comunicação orienta o sujeito na escolha de qual gênero deve usar para efetivar determinado projeto comunicativo, haja vista que seu conhecimento de mundo sobre o funcionamento dos gêneros lhe apontará, conforme o que tem a dizer, qual melhor gênero se adequa à determinada comunicação.
Nos comentários online, podemos verificar o quanto o tratamento temático de um mesmo assunto é diferente em um e outro gênero. Na notícia os acontecimentos são narrativizados seguindo um suposto tom de objetividade, mas no comentário o mesmo assunto recebe tratamento temático diferente, sendo não mais narrado, mas comentado inclinado para um tom de subjetividade e autoexpressão. Assim, a narração e os comentários são formas de tratar de um mesmo assunto em gêneros diferentes. O modo diferenciado como se trata de um mesmo assunto em gêneros diferentes implica também um tratamento diferenciado nas escolhas linguístico-estilísticas. O tema é atualizado em cada novo enunciado, é aquilo que se diz sobre determinado assunto (o dado) em uma situação real de uso, que deixa de ser apenas um objeto ou discurso sobre o qual já se falou, adquirindo novo sentido, nova entonação, constituindo um tema único, irreptível, novo. A cada vez que esse assunto for objeto de discussão, teremos um novo tema, um novo conteúdo ideológico, resultante de um posicionamento axiológico-dialógico daquele falante, que em sua eventicidade, recorre a um objeto já discutido, dando a ele um novo sentido.
Essa atualização do sentido é ancorada no individual e no social, pois do mesmo modo que é fruto de uma atitude responsivo-avaliativo do falante, também é orientada por certa tipificação temática orientada pelo gênero. Assim, o enunciado revela marcas da singularidade do falante, mas também é resultado de um acordo coletivo, que resulta numa relativa estabilidade capaz de permitir identificar qual gênero o falante escolheu para colocar em prática seu projeto comunicativo. O gênero possui certo caráter normativo marcado por uma relativa tipificação na vida, nas ações dos falantes, nas formas de organização da comunicação. Sobral (2009, p.175) ressalta o caráter de estabilidade e mudança do gênero discursivo, em seus aspectos temático, estilístico e composicional. Alinhamo-nos ao seu pensamento de que “a principal característica do gênero, em que se destacam as ‘formas relativamente estáveis de gênero do enunciado’, consiste em sua permanência no fluxo da mudança ou sua mutabilidade no âmbito da estabilidade”. Argumentando sobre isso, ele diz que embora façamos a escolha de um gênero pela sua
estabilidade, a cada novo enunciado esse gênero será sutilmente alterado. Dentre os fatores que condicionam essa orientação, acreditamos que esteja o tema do gênero. Contudo, essa orientação temática será apenas um ponto de partida frente à possibilidade que tem o falante de atualizar sentidos a cada novo enunciado.
Coerente com o projeto filosófico de Bakhtin de unificar o mundo da cultura e o mundo da vida prática numa arquitetônica na qual o conteúdo axiológico determina os elementos formais, mantendo com estes relações internas e não apenas circundantes, no conceito de arquitetônica, os elementos constitutivos dos gêneros do discurso mantém entre si uma relação de interdependência que formam um todo discursivo. Esses elementos do gênero discursivo também apontam para dicotomias, como estilo geral e estilo individual que funcionam em harmonia no plano uno que integra o dado e o novo na construção do sentido. No próximo capítulo trataremos mais especificamente do estilo nessas duas dimensões.