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Algumas das possíveis causas da violência

No documento memória, verdade, justiça e reparação (páginas 168-172)

Além de investigar casos de assassinatos e demais formas de violência no campo, a Comissão Camponesa da Verdade do Pará sempre procurou chamar a atenção para as causas desse problema, evidenciando o estreito vínculo existente entre violência contra camponeses, grilagem de terras públicas,24 apropriação ilegal de madeira25 e desmatamento ilegal.26 Em vários momentos, foi mostrada a responsabilidade da ditadura militar-civil na utilização de incentivos fiscais para garantir a “modernização da agricultura”, uma política que, na realidade, beneficiou o avanço do capitalismo no campo.

Alguns trechos extraídos do relatório final da CPI são significativos:27 A instalação da CPI [...] desnuda o trágico quadro de desacerto no campo paraense, fruto principalmente da incúria e da inércia com que os governos paraenses trataram, ao longo do período republicano, a questão fundiária. [...].

A posição do governo era conflitante e geradora dos conflitos. Ao mesmo tempo em que apresentava a Amazônia como “terra sem homens para homens sem terra”, propiciou através da criação dos incentivos fiscais

24 A ditadura favoreceu a grilagem de terras, chegando a legitimar, em nome do “desenvolvi-mento nacional”, a legalização de áreas apropriadas indevidamente por meio das exposições de motivo n. 5 e n. 6 do Conselho de Segurança Nacional.

25 Várias pesquisas mostram como mais de 70% da madeira comercializada no Pará nas dé-cadas de 1970 e 1980 tinham origem ilegal. Esse fato não mudou muito nos últimos anos, mostrando a ineficácia dos sistemas de comando e controle adotados pelo poder público.

26 O Pará integra os estados do assim chamado “arco do desmatamento”, onde esses índices são muito superiores aos do resto do país.

27 PARÁ. Assembleia Legislativa, op. cit., p. 4-9.

distribuídos pela Sudam que grande parte das terras da Amazônia fosse comercializada e transferida para empreendimentos de fazendeiros do centro-sul e empresas nacionais e estrangeiras, que aqui implantaram os conhecidos projetos agropecuários. Em muitas das vezes, nenhuma preocupação houve por parte da Sudam, na análise da situação dominial das terras adquiridas, o que ensejou o aparecimento dos primeiros conflitos entre os compradores e os posseiros que existiam nas áreas [...].

Analisando a atuação do Departamento de Terras do Estado, neste período, o advogado Paulo Lamarão, além de apontar as falhas e vícios das alienações das terras públicas paraenses, denunciou que entre os anos de 1962 e 1963, “desencadeou-se nos processos de alienação das glebas devolutas uma espécie de anarquia quase total”

[...]. É inacreditável, diz o advogado, “a degradação a que se chegou, na titulagem de terras no Pará. Houve de tudo, títulos falsos porque sem apoio em qualquer processo. Processos nulos, defeitos de edital, ausência ou fraude na demarcação, superposição de áreas, nomes de pessoas inexistentes ou desaparecidas, acidentes geográficos não localizáveis, azimutes e declinações magnéticas imagináveis, metragens distorcidas, confinantes ou posseiros desrespeitados”. [...].

É evidente que essas irregularidades, cometidas sob a chancela, conivência ou complacência do Estado, provocaram em verdadeiro caos fundiário, principalmente na área da abrangência do sudeste paraense. [...]. O que aqui está relatado é o suficiente para vulnerar a atuação do Estado e indiciá-lo como agente propiciador da criação da violência no campo paraense (grifos nossos).

O prefácio do inventário da Secretaria Especial de Estado de Defesa Social28 associa a violência com o “avanço da fronteira”:

Há uma correlação direta entre a alta incidência de mortes por questão da terra e sua ocorrência na faixa de fronteira de penetração do território paraense. Para lá se deslocaram, ao longo das últimas décadas do século passado, grandes contingentes de excedentes populacionais que emigraram do nordeste, centro-oeste e até do sul do país, todos atraídos pela busca de uma vida melhor na Amazônia.

28 RIBEIRO, Paulo de Tarso. In: PARÁ. Secretaria Especial de Estado de Defesa Social, op. cit.

4.1 Amazônia: política de exploração dos povos e das riquezas naturais Vários são os aspectos a serem analisados, pois historicamente a região amazônica foi tratada como um grande almoxarifado de riquezas a ser explorado. Essa política, adotada nos tempos coloniais, continua hoje.

4.1.1 Caos fundiário

A situação atual da Amazônia pode ser resumida na expressão

“caos fundiário”, que é uma das primeiras causas da violência. Por isso é necessário verificar como se deu o processo de ocupação das terras do Brasil, especificamente da Amazônia e do Pará.

Um documento do Instituto de Terra do Pará (Iterpa)29 reconhece que, “para que o estado do Pará possa superar o atual caos fundiário, primeiramente deverá definir a dominialidade das áreas”. Para que possa ser viabilizada uma política de ordenamento territorial, é necessário responder a algumas perguntas fundamentais: quantas terras foram incorporadas no patrimônio público? Quantas foram destinadas a particulares? Analisando-se os resultados da política fundiária adotada pelos governos federal e estaduais, chega-se à conclusão de que o poder público não sabe, de maneira sistematizada, o que foi destinado aos particulares: quem foi beneficiado?

Qual o tamanho das áreas concedidas? Onde estão localizadas?

O acesso a essas informações é hoje impossível: nenhum site dos órgãos públicos federais ou estaduais mostra quais imóveis foram incorporados no patrimônio público e quais foram destinados a particulares. Por que a sociedade não é informada sobre como foi usado e como será destinado seu patrimônio? É indispensável agilizar a criação de um sistema que organize todas essas informações.

Um caso recente mostra como o descontrole de informações do passado gera conflitos hoje: em 2 de junho de 2016, em Curitiba/PR, iriam a leilão cerca de 275.000 hectares de terras, de imóveis com matrículas bloqueadas em 21 de junho de 2006 pela Corregedoria de Justiça das Comarcas do Interior do Tribunal do Pará (Provimento 13/2006) e canceladas por decisão da Corregedoria do CNJ em 16 de agosto de 2010. Nessa área, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) criou dezenas de assentamentos agroextrativistas, e o Instituto Chico Mendes da Biodiversidade criou uma reserva de desenvolvimento sustentável (RDS).

29 PARÁ. Instituto de Terras do Pará. Ordenamento territorial e regularização fundiária no Pará, p. 13.

4.1.2 Política fundiária do governo federal e estadual

O governo federal, que chamou para si a responsabilidade sobre mais de 75% do território, atraiu para a Amazônia milhares de famílias, mas, ultimamente, tem favorecido o avanço do capitalismo no campo, gerando ocupação desordenada, violência e desmatamento ilegal (em 1976 a Volkswagen desmatou 9.300 hectares em um projeto agropecuário financiado pela Sudam). As licitações foram dirigidas em favor de grandes empresas ou de capitais de fora da região,30 beneficiando a concentração da terra nas mãos de algumas famílias oligárquicas regionais (castanhais do sul do Pará e fazendas do Marajó).

A sobreposição de responsabilidades entre órgãos fundiários federais e estaduais permitiu a consolidação do caos fundiário que favoreceu o latifúndio; sua superação se inicia com a sistematização das informações relativas à incorporação das terras no patrimônio público: áreas arrecadadas, desapropriadas e compradas.

4.1.3 Populações tradicionais

Nesse período, foi mantida a secular política de “invisibilidade”

das populações tradicionais: povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e agroextrativistas. A política de regularização fundiária não levou em consideração a presença dessas populações e a região continuou a ser apresentada como um “vazio demográfico”, não se reconhecendo os direitos territoriais desses povos e comunidades.

4.1.4 Grilagem: ineficácia dos sistemas de controle dos registros imobiliários.

Qual a responsabilidade e o papel do Estado na apropriação indevida de terras públicas? O governo federal31 reconheceu que:

A grilagem é dos mais poderosos instrumentos de domínio e concentração fundiária no meio rural brasileiro. Em todo o país, o total de terras sob suspeita de serem griladas é de aproximadamente 100 milhões de hectares – quatro vezes a área do estado de São Paulo ou a área da América Central mais México.

30 O governador do Pará Alacid Nunes criou uma caravana intitulada “O norte vai ao sul”, que visava estimular investimentos de empresas nacionais no Pará.

31 BRASIL. Ministério de Política Fundiária e do Desenvolvimento Agrário. O livro branco da grilagem de terras no Brasil, p. 8.

A CPI da Ocupação das Terras Públicas na região amazônica32 apontou alguns dos responsáveis por esse fenômeno:

Alguns cartórios foram identificados como contumazes na prática de ilícitos registrais: Altamira, São Miguel do Guamá, Moju, São Félix do Xingu, Tomé Açu, Acará, São Domingos do Capim, Rondon do Pará, Paragominas, Marabá, Santa Isabel.

Outros cartórios denunciados no estado do Pará foram Igarapé Mirim, Portel e Breves. O combate à grilagem não é um problema de natureza legal, mas político. O arcabouço jurídico brasileiro tem normas para combater a grilagem, conforme mostra a decisão da Corregedoria do CNJ, que determinou o cancelamento de milhares de matrículas irregulares, conforme demonstram os estudos de Felzemburg33 e de Castilho.34

No documento memória, verdade, justiça e reparação (páginas 168-172)

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