2. Comércio Exterior
2.6 Contexto Aduaneiro
2.6.3 Algumas Irregularidades Aduaneiras
Esta seção discorrerá resumidamente sobre algumas irregularidades aduaneiras que também estão relacionadas ao objetivo deste trabalho no que concerne à minimização e/ou detecção da ocorrência daquelas.
Consoante [Hara02], fraude fiscal é a evasão ilícita de tributos, caracterizada pela conduta do sujeito passivo da obrigação tributária, tendente a suprimir em todo ou em parte o tributo devido, ou retardar seu pagamento. Pressupõe-se ação ou omissão dolosa do contribuinte após a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, ou no curso de sua ocorrência, através de simulação, conluio, dissimulação e figuras afins. Sua finalidade é a de servir de meio para atingir um objetivo perseguido pelos agentes e participantes: sonegar ou facilitar terceiros a fazê-lo.
Fiscalização aduaneira é o exame e a verificação das mercadorias e documentos relacionados com as operações de comércio exterior, inclusive documentos e livros contábeis,
além dos procedimentos de vigilância e dos controles estabelecidos sobre as pessoas envolvidas com a entrada ou saída destas mercadorias no território nacional, tudo isso com o objetivo de verificar e promover o cumprimento do disposto na legislação, tanto no que diz respeito ao recolhimento dos tributos quanto à observância das obrigações acessórias8.
A SRF no exercício da fiscalização e controle do comércio exterior tem a sua disposição vários sistemas informatizados que possibilitam o acesso a diversos bancos de dados, os quais contém informações sobre os contribuintes e as operações objeto de controle fiscal. A fiscalização aduaneira conta inclusive com valiosos instrumentos proporcionados pela cooperação internacional para obter as informações necessárias à investigação e comprovação dos ilícitos praticados no comércio internacional.
Ainda que o controle sobre o comércio exterior seja exercido de forma o mais eficiente possível, são práticas muito comuns: a indicação incorreta da base de cálculo dos impostos nas DIs; o enquadramento tarifário indevido; assim como, a indicação de alíquotas menores do que as aplicáveis à operação. Tais práticas são realizadas, muitas vezes, com a finalidade de diminuir os encargos relativos às respectivas operações. Assim, a fiscalização aduaneira deverá dar especial atenção a esses problemas, de modo que possa coibir a prática de ilícitos e corrigir os eventuais equívocos praticados pelo importador, tendo como objetivo não só a recuperação de créditos tributários não recolhidos, mas também a proteção da economia nacional.
Considerando o supra-exposto em conjunto ao objetivo deste trabalho, as subseções a seguir tratarão principalmente dos temas relacionados ao valor aduaneiro, à origem e à classificação das mercadorias, bem como às fraudes nas documentações instrutivas do despacho.
2.6.3.1 Valor Aduaneiro
A base de cálculo do imposto de importação, quando a alíquota for ad valorem, será o valor aduaneiro apurado segundo as normas do Acordo de Valoração Aduaneira - AVA. Integram o valor aduaneiro, independentemente do método de valoração utilizado [RA02]: a) o custo de transporte da mercadoria importada até o porto ou o aeroporto alfandegado de descarga ou o ponto de fronteira alfandegado onde devam ser cumpridas as formalidades de entrada no território aduaneiro; b) os gastos relativos à carga, à descarga e ao manuseio, associados ao transporte da mercadoria importada, até a chegada aos locais mencionados na alínea “a”; e c) o custo do seguro da mercadoria durante as operações mencionadas nas alíneas “a” e “b” supra.
As irregularidades relacionadas ao valor aduaneiro ocorrem principalmente quando o importador declara na DI, amparado por uma fatura comercial “falsa”, confeccionada por ele mesmo ou pelo exportador a seu pedido, um valor aduaneiro da mercadoria abaixo
8 Obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos [CTN66].
(subfaturamento) ou acima (superfaturamento) daquele relativo à transação (informado no país de origem/procedência).
As possíveis hipóteses para cometimento dessas irregularidades são: pagar menos tributos, pois a base de cálculo é o valor aduaneiro – no caso de subfaturamento; ou remeter divisas ao exterior e/ou elevar artificialmente os custos com o intuito de diminuir o lucro da empresa e conseqüentemente reduzir a base de cálculo dos tributos internos (maior probabilidade entre empresas coligadas9 [Lei76]). Ocorre com maior freqüência em mercadorias cujas alíquotas do Imposto de Importação (II) sejam baixas ou nulas – no caso de superfaturamento.
2.6.3.2 Classificação Fiscal da Mercadoria
Com relação à Classificação Fiscal da Mercadoria, a fiscalização poderá constatar divergência entre a informada pelo importador e a correta determinada em conformidade com as regras gerais para interpretação do sistema harmonizado (SH). Esta situação é caracterizada pela informação na DI, pelo importador, de classificação NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul) incondizente com a mercadoria objeto do despacho. Três são as situações possíveis:
Erro de classificação fiscal por parte do importador - neste caso a descrição da mercadoria deverá estar correta, o que poderá demonstrar que o importador não teve intuito doloso ou de má fé ao classificar indevidamente a mercadoria;
Descrição insuficiente da mercadoria - a descrição não é suficiente para que se estabeleça o código NCM em que a mercadoria deverá ser enquadrada. Tal situação também poderá ser isenta de dolo ou má fé;
Ocorrência de dolo, fraude ou simulação: a fiscalização aduaneira deverá comprovar a intenção do importador em classificar a mercadoria em posição tarifária indevida. Neste caso, independe se a mercadoria estava ou não suficientemente descrita na DI.
Quanto ao último item acima, as possíveis hipóteses para cometimento do mesmo são: pagar menos tributos, pois para cada NCM existe uma alíquota de II, IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e contribuições; fugir de direitos antidumping (seção 2.5.4), compensatórios (seção 2.5.5) ou medidas de salvaguarda (seção 2.5.6); fugir do exame para fins de anuência de órgãos públicos; introduzir produtos proibidos no país.
2.6.3.3 Origem da Mercadoria
No que concerne à origem da mercadoria, a fiscalização tem como objetivo verificar se a informação prestada na DI referente ao país de origem da mercadoria é verdadeira. A seguir são apresentadas algumas situações onde a origem da mercadoria influi diretamente no montante devido pelo importador:
Mercadoria sujeita a direitos antidumping, compensatórios ou medidas de salvaguarda - neste caso, o importador declara indevidamente o país de origem ou fabricante da mercadoria; e Mercadoria originária de país integrante de acordo internacional - o importador, também
indevidamente, declara o país de origem como sendo um daqueles com o qual foi estabelecido acordo de cooperação econômica.
Dentre as possíveis hipóteses para cometimento dessas irregularidades tem-se: fugir de direitos antidumping, compensatórios ou medidas de salvaguarda vinculados ao país de origem; gozar de benefício, já que para produto considerado originário do Mercosul, por exemplo, não se paga II; e fugir do exame para fins de anuência de órgãos públicos vinculados ao país de origem.
2.6.3.4 Alíquota Específica do Imposto
Esta situação ocorre, principalmente, quando a alíquota do imposto for específica10, pois neste caso a base de cálculo é determinada pela quantidade de mercadoria, expressa na unidade de medida indicada na Tarifa. Nesta situação, o importador declara na DI uma quantidade menor da mercadoria (distinta da informada no país da correspondente exportação), que conseqüentemente resultará em pagamento a menor dos tributos devidos.
2.6.3.5 Documentação de Instrução do Despacho
Apesar de ter havido significativa simplificação nos procedimentos relacionados à importação e a conseqüente redução da quantidade de documentos de instrução do despacho aduaneiro com o emprego do SISCOMEX, ainda há a obrigatoriedade de apresentação, entre outros, da fatura comercial. A falsificação desse documento tem sido utilizada para dissimular a verdadeira transação comercial realizada através da alteração de valor aduaneiro, classificação da mercadoria, descrição da mercadoria, quantidade, origem da mercadoria, etc. Observe-se que esta seção, no que concerne ao caso concreto, poderá ter relação com algumas das seções precedentes.
A fatura comercial utilizada no comércio internacional tem a função de documentar a compra e venda e obriga o vendedor nos seus termos e conteúdo. A mesma tem seu conteúdo expresso em [RA02] e a sua análise pode embasar investigações de várias irregularidades. Como mencionado, é possível que a fatura seja simplesmente “fabricada” pelo importador ou até mesmo que o exportador, por solicitação, omita informações relevantes para a classificação tarifária, tratamento administrativo da importação, regime de origem da mercadoria ou valor aduaneiro. Ainda pode ocorrer de o importador apresentar apenas uma fatura para instrução de um despacho quando, na realidade, foram emitidas duas ou mais, relativas a parcelas diferentes da transação.
2.6.3.6 Outras
Para finalizar a discussão sobre irregularidades e fraudes serão descritas duas situações que podem ocorrer com relação ao registro de exportação, tendo-se o Brasil como exemplo:
Existência de registro de exportação para o Brasil sem o correspondente registro de Importação no país; e
Existência de registro de exportação no Brasil sem o correspondente registro de importação no país do importador – Exportação Fictícia;
Dentre as possíveis pretensões com o cometimento dessas irregularidades tem-se, respectivamente: realizar a entrada ilegal de mercadorias no Brasil - crime de contrabando11 ou de descaminho12; e simular uma exportação e distribuir a mercadoria no mercado interno, gerando com isto uma concorrência desleal com o comércio legal, uma vez que na exportação há isenção de tributos e de contribuições.