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Algumas mulheres do meu campo e seus posicionamentos

CAPÍTULO 3: A Conjugalidade Homoafetiva na Mídia:

3.2 Algumas mulheres do meu campo e seus posicionamentos

As opiniões das minhas informantes sobre a influência da mídia e as experiências conjugais homoafetivas são diversas. Em alguns momentos ela é reconhecida como oportunidade de se falar mais naturalmente sobre um tema que ainda é considerado tabu e em outros é considerada como agente invasivo que tenta imprimir na sociedade contemporânea, as marcas de uma aceitação imposta. É essa a opinião de Ana:

Eu acho que essa explosão da mídia, de ter que engolir que a sociedade aceite os homossexuais, eu acho demais também, porque continuamos tendo pessoas idosas, só a gente conquistar o respeito, eu acho que é tudo. Tem pessoas da mídia, conhecidas, que tem que se mostrar, tem que externar a sua aceitação, enquanto prá mim, minha vida pessoal não importa a ninguém (Ana, Entrevista realizada em 16 de Maio de 2013).

A narrativa de Ana caminha lado a lado com a concepção de homofobia interiorizada, aquela que mostra a realidade de lésbicas e gays que crescem em ambientes provocadores de atitudes ‘anti-homossexuais’. A interiorização da homofobia nem sempre é reconhecida por algumas lésbicas e alguns gays como algo que faz parte das suas subjetividades e consequentemente da elaboração dos seus repertórios sociais. Quando Ana diz: “eu acho demais também, porque continuamos tendo pessoas idosas,

necessidade de manter socialmente uma política da discriminação e de uma ‘não naturalização social’ da homossexualidade.

A opinião de Carol, esposa de Ana, é diferente. Enquanto a primeira se refere à política de visibilidade da homossexualidade como uma ‘exposição’, a segunda aciona a categoria ‘respeito’ para enfrentar os múltiplos preconceitos sociais. Ela também questiona os rótulos ligados às classificações que são direcionadas à identidade lésbica ou gay:

Já eu discordo. Aí já entra a questão. Eu discordo de Ana pelo seguinte: eu acho que não é uma questão da exposição, é uma questão de respeito. Eu acho o seguinte: não é necessário que você levante a bandeira e grite “eu sou gay”, porque nem todo mundo, as pessoas são héteros e não precisam dizer “eu sou hétero”. Não precisam dizer, do mesmo jeito que eu não preciso dizer “eu sou gay”. Mas como eu sou desrespeitada, como eu sou tratada de uma forma diferente, então eu também tenho que tratar as pessoas de uma forma diferente. No meu pensamento, se as pessoas me tratam normal, eu vou tratar normal porque eu sou igual a todo mundo. Eu pago imposto, eu faço tudo igual a todo mundo. Então, se você me trata normal, como se eu fosse uma heterossexual, então eu sou normal, mas se você me trata diferente então eu vou levantar a bandeira. Pôrra, eu tenho que levantar a bandeira, entendeu? Porque eu tenho que dizer o seguinte: Eu não suporto e não vou assumir e nem vou aceitar o seu preconceito. A minha vida é vivida de tal forma e eu não tenho vergonha de viver de tal forma. Entendeu? Aí eu levanto a bandeira porque eu tenho que me defender da seguinte forma: as pessoas hétero não chegam nos lugares pra dizer “eu sou hétero”. Porque os gays têm que chegar e dizer “não, eu sou gay”? (Carol, Entrevista realizada no dia 16 de maio de 2013).

Aparentemente Carol tem uma opinião mais ‘política’ ou ‘pedagógica’ da homossexualidade e uma das estratégias mais indicadas para confrontar os mecanismos sociais que ainda tentam atingir violentamente as lésbicas e os gays é, segundo ela, o levantamento da bandeira ou a declaração da homossexualidade como característica da sua identidade. De acordo com Borrillo (2010) a luta contra a homofobia exige uma ação pedagógica destinada a modificar a dupla imagem ancestral de uma heterossexualidade vivenciada como natural. A própria influência da mídia na construção de novas realidades sociais passa a ser acionada como um recurso poderoso nas proposições destinadas a lutar contra a violência e a discriminação em relação à homossexualidade. As notícias que vinculam uma ‘imagem positiva’ de tais experiências vêm contribuir diretamente nas mudanças de percepção desta experiência.

A diversidade de opiniões é tão diversa quanto se mostra o próprio retrato na conjugalidade entre pessoas de mesmo sexo no Brasil.

Mesmo que as discussões sobre a mídia e suas influências na construção social dos casais não tenha sido previsto nos roteiros das entrevistas, este foi um tema naturalmente apresentado pelas minhas informantes. A influência das informações midiáticas se apresenta através de conteúdos variados, sendo apontados como recurso que tende a ‘familiarizar’ a conjugalidade homoafetiva entre os múltiplos espaços sociais onde ela se manifesta ou se esconde, mas também pode ser percebida como uma im(pressão) imposta pela aceitação das diferenças. As mudanças de concepções podem ser determinadas pela forma como cada pessoa vivencia a sua própria experiência homossexual, o que no âmbito das relações sociais, vem transitando entre a própria aceitação e a tentativa de manutenção da sua invisibilidade.

No caso de Fernanda e Lígia, a divulgação pública do casamento de Daniela Mercury e Malu serviu de agente provocador para que o tema do casamento viesse à tona no diálogo com a família. A ‘naturalidade’ com que a matéria imprimia o casamento entre mulheres foi a ‘deixa’ para que Lígia pudesse falar sobre a formalização da sua conjugalidade com Fernanda. Em um momento de intimidade com a mãe, ela se aproxima e diz:

‘Olha, mamãe!’ Eu fiz isso. Eu sempre, como que alimentei a aceitação das coisas. Tudo na vida. Eu sempre expliquei muito prá mamãe tudo o que acontece no mundo (...) Então a gente é que faz isso. É a gente que tem que fazer. Quer me ver feliz? Eu faço isso (Ligia, Entrevista em 03 de Junho de 2013).

Especialmente neste caso a postura positiva da imprensa provoca as pessoas a falar sobre o assunto e mesmo que se não se trate das experiências pessoais, muitos amigos e parentes abriam espaços para o diálogo. Eu mesmo, em alguns momentos, recebi ligações de amigas e amigos, me informando sobre a publicação de determinadas matérias. O fato de estar pesquisando um tema que ganha, ao longo do trabalho de campo, uma evidente visibilidade, me colocava também como agente receptor que passava a elaborar os seus próprios posicionamentos. Como não tive acesso aos casais da pesquisa antes da sua formalização, decidi visitar alguns cartórios localizados na cidade de Recife com o suposto intuito de realizar um casamento homoafetivo e assim realizar uma observação participante neste espaço. O meu interesse se organizou na

tentativa de verificar se os cartórios localizados na cidade de Recife estavam cumprindo a nova decisão do Conselho Nacional de Justiça. Também pretendia ‘viver na própria pele’ as sensações e os sentidos acionados pelas minhas informantes no momento em que decidem procurar um cartório para a formalização das suas conjugalidades. Esta experiência é apresentada no próximo capítulo.

(Fotografia V: O Cartório,. João Ricard, Julho/2013)